Thor: O Mundo Sombrio

novembro 1, 2013

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Por Pedro Costa de Biasi

O impacto de Os Vingadores na franquia da Marvel nos cinemas foi tão fulminante que gerou um modelo de sucesso. Por mais que Homem de Ferrofosse construído sobre o humor de Robert Downey Jr., foi só com a reunião dos super-heróis que certa veia cômica foi explorada a contento, como proposta fundamental do filme. O primeiro Thor deu passos tímidos nessa direção, mas sua (ocasional) graça residia praticamente na exploração de uma piada única, sem a disposição anárquica de transformar qualquer tipo de cena ou personagem em fonte de comédia. Eis que Thor: O Mundo Sombrio, que estreou nesta sexta, 1, explora suas possibilidades de diversão não apenas nesse quesito, mas também em outro aspecto muito mais lúdico. 

A história começa com um prólogo que não poderia ser mais esquemático, mas certamente poderia ter saído mais destrambelhado. Milênios atrás, Malekith (Christopher Eccleston), um Elfo Negro do mundo de Svartalfheim, tentou usar uma substância chamada Éter para cobrir todo o universo com a escuridão. Após ser derrotado, ele foge, e sua arma é levada pelos Asgardianos, que a enterram no lugar mais profundo e seguro possível. Nos dias atuais, Thor (Chris Hemsworth) está tentando retomar a paz nos nove mundos após os eventos deOs Vingadores, enquanto Jane Foster (Natalie Portman) identifica, na Terra, uma anomalia inexplicável que cria portais para outras dimensões. Quando uma dessas fendas no espaço desperta o Éter e, com ele, os Elfos Negros, o Deus do Trovão precisa impedir os avanços de Malekith para proteger todos os mundos. O problema é que, para isso, ele precisará da ajuda de Loki (Tom Hiddleston), que é prisioneiro em Asgard pelo que fez na Terra. 

De início, é importante tirar algo do caminho: O Mundo Sombrio do título pode fazer sentido dentro da trama, mas em questão de tom, o filme é muito diferente do que os cartazes podem indicar. Não é por acaso que Joss Whedon teve uma participação (limitada e relativamente sorrateira) no roteiro. Não é difícil adivinhar quais cenas tiveram seu dedo, já que alguns dos diálogos têm seu característico humor desavergonhado. Mas a verdade é que, salvo o primeiro terço, mais ou menos, de projeção, o filme é repleto de piadas e brincadeiras espirituosas. Se os esforços cômicos de Thor se limitavam a explorar o protagonista como peixe fora d’água, e todo o resto era solenidade exacerbada, a sequência certamente capitaliza na fórmula de Os Vingadores e se vale da comédia em todo tipo de situação, passando a bem-vinda sensação de uma aventura despreocupada. 

Nem sempre essa proposta é bem manuseada, e o elemento que causa os piores resultados é a pavorosa montagem de Dan Lebental e Wyatt Smith. O primeiro filme foi drenado pela forçada seriedade da apresentação de sua mitologia, mas, aqui, a falta de cuidado com os momentos devidamente dramáticos beira o lamentável. Quando alguém apontou que a continuação deveria equilibrar humor e drama, essa pessoa certamente não quis dizer que os editores deveriam enganchar uma cena cômica (e fácil de realocar em vários outros momentos da narrativa) logo atrás do momento mais trágico da franquia até então. A desastrosa piada é com Erik Selvig (Stellan Skarsgard), que curiosamente protagoniza outra escolha bizarra da edição: em um lapso inexplicável, o noticiário em que ele aparece é exibido duas vezes. 

Embora a montagem seja o principal desastre da narrativa, o roteiro de Christopher Markus, Christopher Yost e Stephen McFeely não usufrui de uma unidade louvável. No quesito personagens, Odin (Anthony Hopkins) realmente incomoda por receber a função limitada de emperrar as ações de Thor através de acessos avulsos de teimosia e estreiteza de pensamento. Jane também não tem uma profundidade cativante, apenas a graça que seus clichês lhe permitem. Já os colegas guerreiros de Thor recebem exatamente tanta atenção quanto deveriam, e se tornam meras ferramentas da ação. Loki, por sua vez, ganha bastante estofo por sua qualidade temerária, de alguém que não tem mais nada a perder, mas também por ter ótimas oportunidades de exercitar seu sarcasmo. Aliás, é curioso como ele foi tratado de forma sardônica quando era vilão, ao passo que Malekith não tem um momento sequer como figura ridícula ou cômica. Este antagonista sério é mais uma intrigante variação em uma fauna de personagens tão diversos que é difícil vê-los como parte do mesmo filme. 

Pelo menos essa disposição à variedade rende um clímax fabuloso. Trata-se do maior (mas não único) arroubo lúdico do filme, superando os constantes gracejos e tiradas verbais. A batalha final tem muito a ver com a de Homem de Ferro 3, na medida em que ambas se assemelham à cena inicial de Toy Story 3. O filme realmente se dá a permissão de assumir a tendência infantil de boa parte dos filmes de super-herói. Assistir a Thor arrebentar inimigos através de portais espaciais imprevisíveis não é muito diferente de ver Andy criando histórias nonsense com seus brinquedos. Deliciosamente tragado por seu universo fantasioso, o novo Thor aproveita seu orçamento como uma criança com bonequinhos de heróis e vilões aproveita sua imaginação, e o resultado é contagiante. 

Os roteiristas também se abstêm de responsabilidades restritivas de outras formas. Quando o assunto são as teorias quânticas de Jane, os diálogos são vagos, para dizer o mínimo. Uma postura totalmente válida para uma pseudociência tão disparatada. Já nos casos em que um ou outro elemento de fato precisam de uma explicação vagabunda qualquer, os diálogos expositivos são distribuídos por outras cenas, quase como se os realizadores acreditassem nas capacidades dos espectadores. Quem acompanha a produção de Hollywood sabe que não é uma pequena conquista. Além disso, o diretor Alan Taylor, que já deita e rola nas variações tresloucadas da narrativa, também não se restringe no quesito visual. Este é sem dúvida o filme mais bonito da Marvel, com tratamentos de cor variados e uma direção de arte decidida em suas escolhas estrambóticas. 

O que torna Thor: O Mundo Sombrio um bom programa não é sua regularidade ou o domínio das técnicas – estas qualidades com certeza faltam –, mas sua predisposição à diversão. É um pouco exagerado dizer que uma aventura despreocupada como essa é uma ousadia na Hollywood de hoje em dia, já que outro filme recente teve resultados ainda mais saborosos. Mas, ondeCírculo de Fogo aliou a experiência lúdica com o espetáculo grandiloquente que só o cinema pode oferecer, Thor manteve a escala relativamente modesta e deixou a imaginação acrescentar elementos e misturá-los ao sabor do entretenimento.

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Cisne Negro

fevereiro 4, 2011

 
 
por Janaina Pereira
 
 
A primeira vez que Cisne Negro (Black Swan) foi exibido, na abertura do Festival de Veneza de 2010, a reação de convidados e jornalistas presentes no Festival foi uma só: o Oscar já é de Natalie Portman. De lá para cá, a atriz vem acumulando premiações, todas merecidas, e a indicação para o prêmio máximo hollywoodiano está garantida. Natalie merece a estatueta, até porque ela é a essência de Cisne Negro, e acho pouco provável que o filme fizesse tanto sucesso se não fosse o trabalho primoroso da atriz.
 
O auê criado agora no lançamento brasileiro – estreia nesta sexta, dia 4 – do longa de Darren Aronofsky, que havia ganho o Leão de Ouro em Veneza 2008 com O Lutador, é diferente do que aconteceu na mesma cidade de Veneza, onde Cisne Negro não causou tanto reboliço. Fora a atuação de Natalie, até o prêmio de atriz revelação para Mila Kunis foi uma surpresa por lá. Aliás, para mim, as cinco indicações ao Oscar – filme, diretor, atriz, edição e fotografia – já são um prêmio para o longa que, curiosamente, não concorre em roteiro. Não que a produção seja ruim, longe disso. É que não tem mesmo a cara de Oscar – ou, vendo por outro prisma, é bom saber que o Oscar tem uma nova cara.
 
Uma mistura de suspense e drama psicológico, Cisne Negro conta a história de Nina Sayers (Natalie Portman), uma jovem bailarina que busca a perfeição e o lugar de estrela de uma companhia de dança novaiorquina. Ela se dedica 100% ao balé, em parte pela obsessão da mãe (Barbara Hershey), uma ex-bailarina aposentada que nunca chegou a brilhar nos palcos, pois abandonou a carreira para ter a filha.
 
Nina parece carregar o fardo de ser o que a mãe não foi, e já nas primeiras cenas percebemos que seu lado psicológico não é dos mais equilibrados. A voz doce e serena esconde uma menina ansiosa e angustiada, que vê sua grande chance chegar quando a estrela da companhia, Beth MacIntyre (Winona Ryder), é obrigada a se aposentar. Tudo faz parte dos planos de Thomas Leroy (Vicent Cassel), diretor artístico da companhia, que deseja rejuvenescer a próxima temporada e dar um novo gás ao espetáculo em cartaz.
 
Leroy decide que o balé irá representar o clássico O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, e escolhe Nina para estrelar o espetáculo. O grande desafio, dele e da própria bailarina, é fazer de Nina não apenas um cisne branco perfeito – porque isso ela já é – mas transformá-la no cisne negro ideal – e para isso Nina precisa soltar seus demônios, o que ela faz, literalmente, contando com a conflituosa ajuda da novata Lily (Mila Kunis).
 
O pecado do roteiro é impedir o espectador de refletir, de ficar na dúvida do que é realidade e imaginação ao longo da trama. Tudo acaba se explicando muito bem, quando a não explicação seria muito mais interessante. Ainda assim, Cisne Negro é um bom filme, grandioso especialmente em suas cenas de balé, e conquista o público graças ao final arrebatador, em uma das sequências mais bonitas do cinema recente, com direito à trilha sonora original de Tchaikovsky para O Lago dos Cisnes. Toda a tensão criada ao longo da trama finalmente explode, e este é o grande momento do filme.
A direção de Aronofsky tem algumas cenas inspiradas, como as que mostram o sofrimento físico de Nina para atingir a perfeição. Vincent Cassel e Mila Kunis estão abaixo de Barbara Hershey no quesito interpretação: é a atriz, vestida sempre de negro, quem dá o tom amargo à vida de Nina, conseguindo, assim, algumas das cenas mais importantes.
 
E, se não bastasse isso, Cisne Negro traz uma Natalie Portman – que emagreceu bastante para fazer o papel – inspirada, cheia de facetas, exercendo toda a sua doçura e malícia, capaz de se transfigurar em poucos segundos. A atriz é a unanimidade no longa, conseguindo uma atuação marcante do começo ao fim. Exatamente como diz sua personagem Nina, foi perfeito. Se o longa de Aronofsky não chega a tanto, Natalie pelo menos conseguiu; e não importa se é o lado bom ou mau, o cisne branco ou negro: Natalie Portman é a rainha deste espetáculo.
 
 
 
Confira aqui o trailer de Cisne Negro.