12 anos de Escravidão

fevereiro 18, 2014

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por Janaina Pereira

 

Steve McQueen é um dos melhores cineastas da atualidade. No entanto, o inglês, homônimo do falecido ator americano, não é conhecido do ‘grande público’ no Brasil. Seus dois primeiros filmes – Hunger e Shame – foram exibidos em festivais de cinema (Cannes e Veneza, respectivamente) com muito sucesso, e lançaram aos olhos do mundo o ator alemão Michael Fassbender. Com uma história real americana, McQueen vem chamando a atenção do público e da crítica e parece que, finalmente, será reconhecido também em solo tupiniquim. Porque 12 anos de Escravidão (12 years a Slave), seu novo filme que estreia nesta sexta, 21, é uma das melhores produções dos últimos tempos.

Baseado no livro homônimo de Solomon Northup, o longa conta a história do próprio Solomon (interpretado de forma ímpar por Chiwetel Ejiofor, de Coisas Belas e Sujas), violinista negro e alforriado em Saratoga, Estado de Nova York. Em 1841 ele foi sequestrado em Washington e vendido como escravo na Louisiana. Acompanhamos sua saga ao longo de 12 anos, quando passa por alguns senhores de escravo até chegar às mãos do cruel Epps (o sempre brilhante Michael Fassbender, de Shame), que açoita os escravos sem dó nem piedade.

Em sua sangrenta jornada, Solomon tenta esconder que sabe ler e escrever, para que sua formação não lhe custe a própria vida. Ele vê negros morrendo por nada, e tenta compreender o porquê da escravidão. Ainda assim, se mantém aparentemente passivo diante dos constantes abusos físicos que Patsey (a estreante Lupita Nyong’o) sofre de Epps, e a forma como isso vira agressão pelas mãos da esposa do senhor de escravos (Sarah Paulson, de Amor Bandido). 

A passividade, porém, é puro instinto de sobrevivência. Não reagir com o corpo é corroer a alma e expressar no olhar. E aí entra a força da interpretação de Chiwetel Ejiofor – desde já uma das mais marcantes da história do cinema. Enquanto no dia-a-dia ele parece aceitar aquela vida injusta, seus olhos dizem outra coisa.  O desespero, o pavor e o pedido de socorro que são vistos claramente no olhar de Solomon/ Ejiofor fazem o espectador querer entrar na tela para salvá-lo. Reparem na cena do enterro de um escravo, onde Solomon canta e parece colocar para fora, pela primeira vez, a sua dor, expressa pelas palavras da música, e não apenas pelo olhar.  

No ótimo elenco que tem nomes como Benedict Cumberbatch (Star Trek Além da Escuridão), Paul Giamatti (Tudo pelo Poder), Paul Dano (Os Suspeitos) e (o também produtor do longa) Brad Pitt (Guerra Mundial Z),  Michael Fassbender (parceiro de McQueen em todos os seus filmes) mais uma vez mostra porque é um dos melhores atores do mundo, e dá ao público outra atuação visceral e memorável. Já a revelação Lupita Nyong’o aparece o suficiente para garantir seu (merecido) Oscar de coadjuvante – o longa foi indicado em nove categorias, entre elas melhor filme, diretor, ator (Ejiofor) e ator coadjuvante (Fassbender). 

Destacam-se também a trilha sonora de Hans Zimmer, a fotografia, o roteiro no ritmo certo e a direção impecável de Steve McQueen. 

Muito se fala que 12 anos de Escravidão é um filme violento, uma espécie de Paixão de Cristo (filme de Mel Gibson) dos escravos. Discordo. A produção traz à tona uma história real sobre sequestro de escravos livres, algo que eu – e a maioria da humanidade – sequer imaginava que um dia tivesse acontecido. A violência de fato está lá – e sabemos que isso foi real – e vem num crescente, explodindo na cena em que Epps resolve castigar Patsey, já na parte final do filme.  Não há nada de desnecessário ou abusivo nas cenas de sangue e lágrimas: McQueen apenas mostra corajosamente o que de fato aconteceu. 

Perdendo terreno na corrida para o Oscar para Gravidade e Trapaça, é de se espantar que alguém ainda tenha dúvidas de que 12 anos de Escravidão é o filme do ano. O tema é árido, existem cenas difíceis, mas diante de uma humanidade que insiste na discriminação – de negros, mulheres, homossexuais, judeus, idosos – este é o filme mais importante produzido nos últimos anos.  

Se você tiver que escolher um filme, um único filme para assistir, veja 12 anos de Escravidão. Você vai ficar emocionalmente abalado, pode até chorar e ficar angustiado, mas ele é necessário para o mundo em que vivemos. E se eu puder descrevê-lo em uma palavra, digo a vocês que 12 anos de Escravidão é devastador.

O Conselheiro do Crime

outubro 26, 2013

conselheiro

Por Pedro Costa de Biasi

É inevitável que todo filme carregue diversas facetas dentro de si. Alguns dobram essas características diversas em sua história, sejam elas patentes ou ocultas. O Conselheiro do Crime, que estreou nesta sexta, 25, é um caso curioso, em que vários filmes diferentes coabitam nem sempre em harmonia. Há uma quantidade considerável de tramas e personagens, que se desenvolvem em cenas que não poderiam ser mais distintas umas das outras. É difícil determinar se tudo é calculado, mas, de uma maneira ou de outra, há instantes tão instigantes e potentes que a coerência do todo ganha outra relevância. 

O Conselheiro do título é um advogado chamado apenas de Doutor (Michael Fassbender), que está em um apaixonado relacionamento com Laura (Penélope Cruz). Ele decide se arriscar em uma passagem pelo crime, idealizada como breve, junto de seu amigo Reiner (Javier Bardem), já experiente no submundo das drogas. Ele ajudará a transportar um grande carregamento de cocaína, mas nunca de forma direta, apenas através do filho de sua cliente. Embora pareça uma empreitada rotineira e sem grandes riscos, o advogado descobre gradualmente qual o nível de seu envolvimento quando a situação começa a fugir de controle. 

Não é surpresa que o gênero do filme ondule pelo romance, pelo drama e pelo thriller criminal. Interessante, mesmo, é como o roteiro de Cormac McCarthy se apresenta como uma tragédia antes de outra perspectiva, sub-reptícia, ser denunciada. É verdade que a chave para essa trama paralela é a omissão de detalhes da história, mas há simbologias e sinais (não tão sutis) espalhados pela narrativa que apontam obliquamente para o jogo que de fato está sendo jogado. Justo; essa reviravolta acontece à revelia do protagonista e de seus próximos, e McCarthy usa as informações como iscas para pescar o espectador, emparelhando o que este e os personagens sabem. 

A palavra é “pescar”, mesmo, como na frieza do esporte, e não como no eufemismo glamourizado do “fisgar”. Não é exagero dizer que dar de cara com o desfecho do imbróglio é uma experiência semelhante à do peixe que é içado água afora, indefeso e sem ar. Este é um filme em que a brutalidade caminha a passos que aparentam erráticos, variando da angustiante violência gráfica à horripilante sugestão. Claro que, nessa caminhada irregular, há desvios e paradas que desviam do curso. É difícil, por exemplo, reconhecer o mérito de toda a “subtrama” do caminhão que carrega as drogas. É como se essa ilustração em cenas evitasse diálogos expositivos para compensar a tendência do filme à digressão verbal. 

No entanto, essa destroncada história – pontuada por uma amostra prematura dos horrendos métodos de violência em operação no submundo do tráfico – não tem como função principal explanar a história, mas sim atestar a distância do protagonista em relação a seu ato. O roteiro não liga o desastre no transporte das drogas ao Doutor através de minucioso rastreamento, mas de forma direta, numa única linha. As forças que operam por detrás do cenário são seres oniscientes, capazes de encontrar quaisquer informações e, é claro, agir de forma implacável para atingir todos os envolvidos. 

Não há elegância em qualquer aspecto da trama; as pontas não se juntam de forma intrincada e cuidadosamente confeccionada, mas como decorrência inevitável de um deus castigador atento para suas criaturas desviantes. É verdade que nem todos esses chefões manipuladores estão totalmente ocultos, mas mesmo quando um deles se mostra, é como uma figura não dilapidada, cheia de arestas – morais, comportamentais, procedimentais – e desconstruída em suas idiossincrasias mais gratuitas. Não por acaso, uma de suas cenas é a mais cômica num filme quase destituído de graça. Também há de se especular se a estranha e estilizada trilha sonora de Daniel Pemberton não foi criada em cima dessa personagem, assim como a fotografia de Dariusz Wolski, de uma beleza inusitada para um filme tão cru. 

Falando em elementos centrífugos, é importante voltar aos monólogos nos quais McCarthy tanto se esmera. Todos são relacionados a algum aspecto da criminalidade, mas os resultados são irregulares e não raro esbarram na gratuidade. O roteirista também não resiste a incluir cenas inteiras dedicadas a amostras sobressalentes de cinismo – com destaque para a horrível cena com John Leguizamo. Toda a história converge para a mesma realidade desumana, e este tipo de excesso, ao contrário dos já citados, soa mais como indulgência solta do que como resíduo da narrativa. No entanto, em uma das mais intensas cenas de Fassbender, seu personagem recebe um conselho por telefone, uma exaustiva, mas fútil exploração moral de suas escolhas. O solilóquio, que poderia ser um caso de “dourar a pílula”, se eleva do puro preciosismo por representar, em seu âmago, uma mensagem que é o puro embelezamento da inevitabilidade e do terrível conformismo. 

O fato é que o filme carrega fortes dissonâncias – enaltecidas frontalmente pelo elenco e pelo diretor Ridley Scott –, mas elas quase sempre têm sua razão de ser. Na história, a situação só fica fora de controle quando esse controle é substituído por outro. Neste sentido, curiosamente, o longa aproxima-se do oposto do cinema dos irmãos Coen – que já filmaram um texto de McCarthy com belos resultados. Há sempre alguém no controle de tudo, seja das mercadorias ou das vidas dos envolvidos. Que o resultado final da obra beire o caótico e o errático é um testamento para as reais intenções por trás do roteiro. O tema principal é o domínio, incluindo aí o caos controlado e as formas brutais e grosseiras como determinada ordem é reassegurada. Frustrar-se com a desordem de O Conselheiro do Crime é apenas reflexo natural de se esperar dominar com uma só corrente um cão de três cabeças.

O Conselheiro do Crime

outubro 26, 2013

conselheiro

por Janaina Pereira

Michael Fassbender, Javier Barden, Penélope Cruz, Brad Pitt e Cameron Diaz. Com um elenco deste, mesmo se quisesse e fizesse um esforço danado, Ridley Scott não tinha como fazer um filme ruim. E de fato seu novo filme, O Conselheiro do Crime (The Counselor), que chegou aos cinemas sexta, 25, e é estrelado por esta constelação, está longe de ser horrível, mas também é a prova de que grande elenco nem sempre é sinônimo de grande filme.

O roteiro original é do consagrado escritor Cormac McCarthy, autor do livro Onde os fracos não tem vez, que foi adaptado pelos irmãos Coen para o cinema. Como roteirista, McCarthy resolve fazer uma trama de aparência complexa mas que, ao ser desvendada, mostra-se muito simples. Michael Fassbender vive um advogado sem nome (a legenda o identifica como “doutor”,que é a forma como chamamos, no Brasil, os profissionais do direito, mas na verdade ele é o ‘counselor’ do título original), apaixonado por sua noiva (Penélope Cruz). Ao se envolver num esquema de transporte de drogas, com a ajuda de dois criminosos experientes (Javier Bardem e Brad Pitt), ele coloca em risco a sua vida e de sua noiva.

Fassbender, como sempre, tem boa atuação, especialmente nas cenas com Bardem e Pitt. Penélope Cruz, no entanto, é apenas enfeite; sua personagem tem uma única função e não exige maiores esforços da atriz. Já Cameron Diaz, a misteriosa namorada de Javier Bardem na trama, é quem manda e desmanda em cena, mostrando versatilidade na interpretação de uma vilã dissimulada. Sem dúvida a melhor e mais bem construída personagem do roteiro intrincado de Cormac McCarthy.

Ainda que não seja um grande filme, O Conselheiro do Crime pode ser uma boa distração para quem não for muito exigente.

Prometheus

junho 14, 2012

 

por Pedro Costa de Biasi

Apontar verossimilhança no cinema pode ser um exercício de aporrinhação sem limites, tamanha a facilidade de umespectador ou crítico – distinção capciosa – ir além da lógica interna eignorar questões estéticas. Argumentar que John Dillinger provavelmente seria reconhecido em diversas cenas de Inimigos Públicos seria descartar o simbolismo que Michael Mann ressalta com essa ruptura da lógica. Fosse Prometheus um filme menos falho, épossível que esse tipo de inverossimilhança também tivesse um lastro sagaz.

Na trama, os arqueólogos Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) descobrem um mapa estelar escondido nas pinturas rupestres de váriascivilizações. Anos depois, o androide David (Michael Fassbender) desperta a equipeda nave Prometheus, formada por Shaw e Holloway, pelo piloto Janek (Idris Elba) e por especialistas em várias áreas. Meredith Vickers (Charlize Theron) cuidada missão, que consiste em pousar na lua LV-223 e confirmar a existência dealienígenas apelidados de “Engenheiros” – que supostamente criaram a raçahumana. O contato, porém, resultará em mistérios e perigos imprevisíveis.

Ao estabelecer uma expedição interplanetária com grandes chances de interação com formas de vida extraterrestres,o roteiro de Jon Spaihts e Damon Lindelof determina que deve haver algum rigorcientífico e protocolos, mesmo que intuitivos, de segurança. Mesmo assim,minutos depois de adentrar uma pirâmide construída por seres desconhecidos,Holloway decide tirar seu capacete. O resto da equipe, já ciente de que o ar dolugar é respirável, repete a temeridade e se expõe àquela atmosfera.

Esse tipo de comportamento serepete bastante enquanto o filme não dá início a suas tensões (a insanaexperiência com a cabeça sendo a mais grosseira), e sequer servem paraconstruir o suspense, que surge sempre ao longo de outros caminhos. Vickers temuma postura obscura e não freia os cientistas, mas a impetuosidade destes nãose fundamenta em algum grande deslumbramento perante as descobertas, nemtampouco em qualquer traço psicológico dessas personagens – todas, com aexceção de Shaw, rascunhos apressados de pouca valia para a trama. Parece haverum subtexto abordando a curiosidade humana como uma tendência natural que podeser positiva ou negativa, mas o absurdo inverossímil se sobressai.

Quando as situações se tornammais dramáticas, o diretor Ridley Scott mostra sua proposta para o suspense:arroubos no lugar de construção, violência bruta contra o espectador ao invésde uma lenta e crescente angústia. É verdade que, por vezes, a escolha funcionagraças à pura intensidade das cenas (única característica que distingue cenasde maior e menor impacto, já que o ritmo é indiscriminadamente veloz), mas essetipo de tensão construída no instante da reviravolta morre rapidamente efrustra o caos que deveria dominar a expedição.

Isto leva à que deveria ser umadas cenas mais angustiantes do cinema recente, por uma série de motivos.Igualmente (ou até mais pronunciadamente, já que ocorre após duas elipses) construídano ato de uma descoberta, a sequência protagonizada por Shaw na sala de Vickerssofre com a que seja talvez a mais profunda falha do filme: a edição de Pietro Scalia. A cena é montada paralelamente a outro conflito, de natureza muitodistinta. O desserviço a esse momento tão aflitivo não poderia ser mais óbvio.

Mesmo que essas questõesestruturais sejam periclitantes, há muito que apreciar. Se lacunas drenam acredibilidade das personagens e das situações, a falta de informações torna váriosaspectos da trama mais instigantes. A natureza das criaturas e seu intrincado ciclode vida ou o motivo do abandono das pirâmides na LV-223 são elementos que geramcuriosidade e permitem conjecturas bastante sólidas, fomentando um mistério dequalidade. Mas são as maiores perguntas em aberto que realmente fascinam no filme.

Prometheus é abertamente existencialista, e cria questionamentos grandiosos que não serão e nem poderiamser respondidos. A relação dos Engenheiros com a humanidade reflete a doCriador de várias religiões com as pessoas de fé, e o subtexto que entrelaçacrença e fato científico no cerne de Elizabeth Shaw é um reflexo belíssimo dabusca humana por revelações sobre a existência. Da mesma forma, a presença deum inquisidor David cria outro paralelo: caso a ciência seja capaz de criarandroides tão perfeitos no futuro, que tipo de relação teremos com eles? Iremosconsiderá-los seres vivos ou sintéticos? (A pele dos Engenheiros, vale notar,parece sintética). Teremos sempre poder sobre eles ou dar-lhes-emos a liberdade?

O diálogo de David com Holloway embriagadopermite destrinchar ainda mais questões nessa área. Quando responde à pergunta“Por que vocês me criaram?” com um brusco “Porque nós éramos capazes”, oarqueólogo salta um estágio importante da psicologia humana: o anseio. O desejoardente que busca soluções e realizações é tão forte quanto aquele que buscarespostas. O Homem, no universo do filme, não pode ter criado cópias humanas meramenteporque era capaz: ele se tornou capaz porque sempre ambicionou essa capacidade “divina”.

Também positiva é a presença deum vilão, por muito tempo oculto, com um objetivo tão ancestral – e, como nãopodia deixar de ser, tão existencialista. Prometheus é um filme profundamentehumano, tanto por seus erros basais quanto por suas mais instigantesqualidades.

por Janaina Pereira, de Berlim

A estreia mundial do novo filme de Steven Soderbergh, Haywire, aconteceu nesta quarta, dia 15, no Festival de Berlim. Para o lançamento do longa, o diretor veio à cidade acompanhado de Michael Fassbender, Antonio Banderas e da lutadora de artes marciais – e agora atriz – Gina Carano (foto).

Carano bate – e apanha – de Fassbender e de Ewan McGregor no divertido filme. “Ela realmente não me intimida”, disse Fassbender na entrevista coletiva, quando foi questionado se não ficou preocupada com sua imagem por fazer cenas em que bate em Gina. “Isso não é Michael Fassbender fazendo, é o personagem.  Estou aqui para servir a história e ao personagem. E na vida real, Gina iria bater em mim em qualquer circunstância”, comentou o ator, arrancando risadas dos jornalistas.

Carano disse que, apesar da brutalidade na tela, não houve ferimentos graves durante a filmagem.”Eu quebrei meu dedo no ombro de Michael uma vez, isso é tudo.”

Haywire foi bem recebido em sua estreia em Berlim, o que deixou Soderbergh satisfeito.  “Quando eu estava conversando com [o diretor do festival] Dieter Kosslick, disse que adoraria vir com este tipo de filme e mostrá-lo neste momento, depois de ter visto um monte de drama pesado. Agora o público está realmente pronto para relaxar.”

Haywire será lançado no Brasil ainda neste primeiro semestre pela Imagem Filmes.

por Janaina Pereira, de Veneza

Faust, de Aleksander Sorukov, ganhou o Leao de Ouro esta noite na 68 ediçao do Festival de Veneza. O filme russo é uma adaptaçao moderna da obra de Goethe, e tinha torcida de boa parte da imprensa. Esteticamente perfeito e grandioso, nao chega a ser uma obra-prima mas mostrou que Darren Aronofsky, o presidente do juri, preferiu nao polemizar como Quentin Tarantino ano passado e escolheu um caminho facil: premiar um filme de diretor famoso, com historia classica, sem margem para erro.

Os filmes orientais, que nao fizeram sucesso entre os jornalistas, levaram a maior parte dos premios – melhor diretor para Shangjun Cai, por People Mountain People Sea (China – Hong Kong); melhor atriz para Deanie Yip por A simple life (China – Hong Kong)e premio Marcello Mastroianni de revelaçao para Shota Sometani e Fumi Nikaido, por Himizu (Japao). O otimo O morro dos ventos uivantes ganhou o premio de fotografia e o chato Alpis o premio de roteiro.

Os jornalistas que acompanhavam a premiaçao pelo telao da sala de imprensa ficaram indignados com o Premio Especial do Juri dado a Emanuele Criasele e seu Terraferma. O filme é bom, mas o premio foi considerado um exagero. Unanimidade de publico e de critica, Michael Fassbender foi ovacionado quando seu nome apareceu como o melhor ator, por Shame (pela Fipresci (Federação Internacional dos Críticos), o filme de McQueen ganhou hoje o premio de melhor de Veneza 2011) – desde cedo o boato de que o ator voltara a Veneza exclusivamente para receber o premio rondou o Festival, o que foi confirmado quando Fassbender surgiu elegante e de barba para receber sua Coppa Volpi.

Na premiaçao, ele agradeceu ao diretor Steve McQueen, a quem chamou de “meu heroi”, repetindo o discurso na coletiva de imprensa que seguiu a premiaçao. “O Steve McQueen mudou minha vida. Ele é meu irmao, meu mentor. Devo esse premio a ele”, disse Fassbender, que ainda ficou meia hora dando, pacientemente, entrevistas para a televisao, sempre com um sorriso genoroso.
Ao contrario do ano passado, quando Tarantino precisou explicar para os jornalistas como foram escolhidos os vencedores – e o diretor americano quebrou um tabu, premiando o mesmo filme mais de uma vez – este ano Darren Aronofsky entrou mudo e quase saiu calado da coletiva. Sentando junto aos vencedores, so foi questionado pelas mediadoras da conferencia de imprensa. Mas ele pode dormir tranquilo porque seguiu direitinho o padrao de Veneza: nao repetiu premios para o mesmo filme, nao desagradou muita gente, e confirmou que ainda falta ao Festival de Veneza um presidente de juri que realmente saiba ousar.

por Janaina Pereira, de Veneza

Ja nas primeira cenas voce imagina o que vem pela frente: um jovem bonitao flerta com uma mulher no metro, transa com prostitutas, flerta, transa, flerta, transa. Nao, voce nao tem ideia do que vem pela frente. As primeiras cenas sao apenas um aperitivo para uma critica mordaz do homem moderno, que peca pelos excessos. Isto é Shame, o segundo filme de Steve McQueen, artista plástico dos mais reconhecidos, que estreou no cinema com o forte “Hunger”, que levou o Caméra D’Or, para debutantes, no Festival de Cannes, e agora vem com tudo para levar o Leao em Veneza.

Exibido hoje cedo para jornalistas, o filme recebeu muitos aplausos, mas foi na coletiva que tudo aconteceu: o protagonista Michael Fassbender aplaudido de pe e o diretor McQueen ovacionado (foto). A trama gira em torno do bonitao Brandon, sujeito bem-sucedido que mora em Nova York e tem uma vida quase perfeita, se nao fossem seus problemas para se relacionar intimamente. Sua fuga esta no sexo – frivolo, banal, sem pudor, sem concessoes. Sua vida fica ainda mais conturbada quando sua irmã Sissy (Carey Mulligan, otima) chega à cidade de surpresa.

Cheio de cenas fortes, Shame se apoia no roteiro que tem folego para falar de um ninfomaniaco pervertido e sua irma depressiva e carente. A otima direçao de McQueen, somadas as boas atuaçoes de Mulligan e, principalmente, na corajosa interpretaçao de Fassbender colocaram o filme no patamar de favorito ao Leao, concorrendo cabeça a cabeça com A Dangerous Method de Cronenberg. Resta saber se o juri comandado por Darron Aranofsky vai dar o Leao a quem realmente merece.

O dia ainda contou com a exibiçao do primeiro filme italiano no Festival, o otimo Terraferma, de Emanuele Crialese, que trata do tema da imigraçao com bastante força e contundencia. Parte da imprensa italiana, no entanto, acusou o diretor de enaltecer a imigraçao ilegal, o que deixou Crialese bastante irritado na coletiva.

“Faço cinema e preciso mostrar os fatos, e o que mostrei na tela foi um fato que realmente acontece”, disse o cineasta.

Agora a noite o ator Al Pacino sera homenageado em cerimonia na Sala Grande exclusiva para convidados.