Os Suspeitos

outubro 17, 2013

Suspeitos

por Janaina Pereira

O cineasta canadense Denis Villeneuve ganhou fama mundial com o polêmico Incêndios, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011. Nesta sexta, 18, ele volta às telas com um elenco repleto de estrelas no thriller Os Suspeitos, já apontado como um forte candidato à temporada de premiações. 

A trama se passa em Boston, onde um pai de família (Hugh Jackman) tem que lidar com o desaparecimento de sua filha e de uma amiga dela. Quando suspeita que o detetive encarregado das buscas (Jake Gyllenhaal) já desistiu de procurar pelo culpado, ele resolve fazer sua própria investigação. 

Durante a maior parte do tempo, o filme transcorre devagar, com nuances de quem poderia ser, de fato, o culpado pelo desaparecimento das meninas. Ao mesmo tempo que vemos um pai desesperado, e entendemos o seu drama, percebemos que o policial quer ser justo, mas sabe que nem sempre isso é possível. Para uma produção de mais de duas horas de duração, tudo é muito lento, mas bem explicado. Nos momentos finais, porém, há uma acelerada no ritmo, e diversas viradas no roteiro, algumas consistentes, outras nem tanto.  

No elenco que conta com Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Paul Dano, Viola Davis, Maria Bello, Melissa Leo e Terrence Howard, os destaques são Jackman e Gyllenhaal, que dão veracidade a seus papéis. Impossível não ficar transtornado com toda a angústia e fúria que saem dos olhos de Hugh Jackman – que chegou a ser cotado ao Oscar 2014, mas em um ano com grandes atuações masculinas, sua presença na lista será uma surpresa. Já Jake Gyllenhaal faz um policial jovem, mas experiente, íntegro, focado, e com um ‘tique’ nos olhos que deixa claro toda sua fissura pelo trabalho. Uma construção, física e mentalmente, perfeita, que pode render ao ator uma indicação à estatueta dourada de coadjuvante. 

No geral, Os Suspeitos é um bom suspense, que prende a atenção, mas não chega a ser brilhante como dizem por aí.

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O Voo

fevereiro 7, 2013

o voo

por Janaina Pereira

Denzel Washington é um dos melhores atores americanos, mas na última década vinha trabalhando em filmes bem abaixo do seu talento. Duas vezes premiado no Oscar – como coadjuvante por Tempo de Glória (1990) e como ator por Dia de Treinamento (2002), ele finalmente estrela um filme à sua altura depois de uma série de fiascos. Em O Voo (Flight), de Robert Zemeckis, que estreia nesta sexta, 8, Denzel mostra que continua em forma na arte de atuar bem.

No longa ele interpreta Whip Whitaker, experiente piloto que consegue salvar a vida de seus passageiros em um voo comercial. A manobra arriscada, que poderia transformar Whip em herói, acaba trazendo à tona um problema pessoal: o piloto é alcoólatra. O uso de álcool e drogas antes e durante o voo colocam Whip em uma situação extrema: continuar mentindo para permanecer herói ou encarar sua dura realidade.

Diante de um personagem complexo, Denzel esbanja talento, o que valeu ao ator sua sexta indicação ao Oscar. O Voo também concorre como melhor roteiro original. O elenco coadjuvante, que conta com nomes como Don Cheadle, John Goodman, Kelly Reilly, Bruce Greenwood e Melissa Leo, também têm bons momentos. Outro destaque é a competente direção de Robert Zemeckis, o diretor da clássica trilogia De Volta para o Futuro. Afastado das produções ‘de carne e osso’ – dedicou os últimos anos à animação – Zemeckis mostra versatilidade e segurança nas boas cenas de ação – em especial a do acidente de avião – e também nas sequências dramáticas que envolvem o vício do protagonista.

O Voo é uma daquelas produções em que ator e diretor fazem toda a diferença. Denzel Washington e Robert Zemeckis são os responsáveis por fazer deste drama, que tinha tudo para ser piegas, um ótimo filme.

O Vencedor

fevereiro 3, 2011

 

por Janaina Pereira

Para cada dez atores mirins que, quando crescem, não conseguem continuar sua carreira, existe um Christian Bale. O menino escolhido por Steven Spielberg , aos 13 anos, para estrelar Império do Sol (1987)está perto de alcançar, finalmente, um lugar de destaque no cinema.

Sou fã de Bale desde sua estreia. De lá para cá ele fugiu do estereótipo de galã, e não usou seu charme inglês para ganhar bons papéis. Pelo contrário. O ator se tornou conhecido pela impressionante capacidade de se transformar a cada personagem, sendo capaz de emagrecer 40 quilos para fazer um filme (O Operário), ou criar músculos para viver um dos maiores heróis dos quadrinhos (Batman Begins e O Cavaleiro das Trevas).

Se nos últimos anos ele vinha sendo acusado de ser ‘apagado’ em cena por outros atores – como em Terminator 4 – agora Christian Bale é quem rouba a cena do protagonista Mark Wahlberg em O Vencedor (The Figther), estreia desta sexta, dia 4. O filme de David O. Russel (Três Reis), que concorre a 7 Oscars, mostra ao mundo o talento maduro de Bale (favorito ao prêmio de ator coadjuvante), e de quebra dá ainda a Melissa Leo (Rio Selvagem) e Amy Adams (Julie & Julia) – que concorrem na categoria atriz coadjuvante – papéis sob medida para as talentosas atrizes.

Baseado em uma história real, o filme mostra a relação dos meio-irmãos Micky Ward (Mark Wahlberg) e Dicky Eklund (Christian Bale), os únicos filhos homens em uma família que conta com uma mãe autoritária e sete irmãs submissas. Eles vivem em Lowell, nos EUA, e trabalham como asfaltadores de rua, mas têm o boxe como pano de fundo de suas vidas.

Micky ainda está na ativa, tentando uma luta que mostre ao mundo que ele é, sim, um vencedor. Dicky, que já teve sua chance no boxe e desperdiçou por causa do vício em crack, treina o irmão. Entre os dois está Alice (Melissa Leo), a mãe que controla ambos com rédeas curtas. A família permance unida apesar dos percalços, mas tanta união prejudica imensamente a carreira de Micky.

Com um empurrãozinho da nova namorada Charlene (Amy Adams), ele resolve se rebelar e seguir adiante sem os parentes por perto. Enquanto isso, Dicky afunda cada vez mais nas drogas, embora a incrível habilidade para o boxe ainda permaneça viva em sua mente. Micky vai se superando nos ringues, e no momento mais importante da sua carreira precisa escolher de que lado vai colocar a família.

Com uma trama familiar, sem grandes atrativos no roteiro, o melhor de O Vencedor é mesmo as ótimas atuações do elenco. Mark Wahlberg (Os Infiltrados) continua insosso como sempre, mantendo a inexpressão característica. Pelo menos consegue funcionar nas cenas de ringue, graças a boa direção de David O. Russel. Amy Adams se sai bem como a namorada palpiteira, e Melissa Leo dá show como a mãe perua e superprotetora.

Mas, como citei lá no começo do texto, o filme é todinho de Christian Bale. O ator mostra nas falas e no corpo toda a força de sua atuação: está magérrimo e abatido, demonstra tristeza no olhar,  e vai da empolgação ao desatino com a maior facilidade. Sua performance é perturbadora, daquelas que a gente sai do cinema se perguntando ‘como ele pode fazer isso?’

Quero ressaltar uma cena que definiu o filme para mim: Alice vai atrás do filho Dicky, que está fumando crack e tenta fugir da mãe. Ele não consegue, e quando entra no carro dela, e vê que ela chora desolada, começa a cantar I Started a Joke, dos Bee Gees. A mãe, entre lágrimas, acompanha o filho.

A cena já vale o Oscar para Melissa e Bale. E mostra bem o que é  O Vencedor : um filme que mostra não só a superação de um homem, mas de toda uma família.

O Vencedor

fevereiro 3, 2011

por Pedro Costa de Biasi

 

Existe uma contradição interessante no cerne de O Vencedor (estreia desta sexta, dia 4, com sete indicações ao Oscar, incluindo filme e diretor) . O título, diga-se, é uma tradução tão correta quanto pobre, já que tira o valor de batalha constante que “lutador” carrega. Se as lutas giram em torno do boxeador “Irish” Micky Ward (Mark Wahlberg), não faltam oponentes: ele alterna dependência e rebeldia perante toda a sua família. Por isso o filme de David O. Russell toma uma guinada tão surpreendente para uma perspectiva mais positiva dos personagens.
 
Embora tenha problemas em encontrar lutas justas e vencê-las, Micky continua sendo agenciado por sua mãe Alice (Melissa Leo) e treinado por seu meio-irmão ex-boxeador, Dicky Eklund (Christian Bale), que é viciado em crack e cada vez mais irresponsável. Quando conhece Charlene (Amy Adams), Micky passa a demonstrar menos interesse no boxe e a reconhecer que nem tudo que seus familiares fazem por ele gera bons frutos.
 
Charlene é uma ruptura na vida do protagonista, provavelmente a primeira opinião divergente da família que teve na vida. Até lá, ele se comporta de maneira resignada, passando por cima do fato de que sua carreira foi um tanto desastrosa com a ajuda da mãe e do irmão. Não que essa mudança (ou melhor, uma imposição tardia) de opinião o afaste definitivamente dos parentes, ou o faça perder a esperança em tudo que lhe foi ensinado. Algo de bom resta até depois de tantas críticas.
 
Essa posição do roteiro de Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson fica muito clara no papel decisivo que Dicky tem nas lutas do irmão. Além de afeto, ele fornece boas táticas, cuja eficiência Micky comprova no ringue. Alice, por mais que faça algumas decisões danosas para o filho, também é bem-intencionada; afinal, ela divide o sangue com ele. É com honestidade que os roteiristas aceitam o amor familiar como uma convenção e um hábito, algo como uma inércia feliz.
 
A alternância constante do céu para o inferno no ambiente doméstico é um bom exemplo de como as imensas boas intenções não se fecham em uma perspectiva puramente otimista. No fim, a mensagem positiva resiste graças a certa permissividade que não parte necessariamente do roteiro. A natureza dos personagens dá lastro a essa união mesmo que ela tenha sido conquistada após desentendimentos tão sérios.
 
Wahlberg é importante para entender essa ambivalência. Envolvido pelas grandes presenças de Leo, Adams e as atrizes que interpretam as sete irmãs de Micky, ele empalidece. É quase o oposto do papel de Bale, costumeiramente frenético. Seu ânimo parece resgatado do fundo do cérebro drogado, focando a energia quando finalmente está no ringue com o irmão. É como se todos os problemas desaparecessem ali, quando tanta coisa está em jogo.
 
Sua atuação está em sintonia com o filme: uma amostra de que em algum momento, para algum efeito, pode-se esperar algo de bom das pessoas que nos amam. Essa visão rege a obra pela presença e pela ausência, já que personagens secundários como agentes e outros lutadores são descartados na medida em que não oferecem afeto. A generosidade é tamanha que, nos créditos finais, há um registro documental de Micky e Dicky, num elogio aberto às caracterizações de Bale e Wahlberg.
 
O. Russell faz uma escolha mais elegante na estética de jornalismo esportivo das lutas, que extrapola a importância daquele evento para uma noção cara a Dicky – que, como quase tudo no filme, é relativizada. Não só eles estão (re)colocando Lowell no mapa (como Dicky e o crack fizeram), como também conquistando reconhecimento como uma família unida pela determinação. Determinação não só para vencer no ringue, mas também para se manterem unidos apesar de todas as crises.