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por Janaina Pereira

O italiano Paolo Sorrentino, diretor dos premiados Il Divo (2008) e Aqui é o meu lugar (2011), viveu dias intensos no começo de outubro, no Rio de Janeiro. Convidado a participar do Festival do Rio, onde seu filme A Grande Beleza (La grande bellezza) foi apresentado, o diretor também filmou na Cidade Maravilhosa um dos episódios do filme Rio, Eu te Amo, previsto para estrear em 2014. Durante o Festival, Sorrentino participou de um debate após a première do longa, que é o candidato apresentado pela Itália para concorrer a uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar. A Grande Beleza foi exibido em Cannes este ano com muito sucesso, mas não levou nenhum prêmio. No Festival do Rio, teve salas lotadas em todas as suas exibições, e foi apontado como um dos melhores do evento. Sua estreia em circuito – São Paulo, Rio e Brasília – acontece nesta sexta, 20.

Já o longa metragem em episódios Rio, Eu te Amo foi rodado por Sorrentino na praia carioca de Grumari. Ele participa do filme ao lado de outros diretores estrangeiros, como a libanesa Nadine Labaki e o mexicano Guillermo Arriaga, e os brasileiros Fernando Meirelles, José Padilha e Andrucha Waddington. O filme faz parte da franquia Cities of Love, que já exibiu Paris, Eu te Amo e Nova York, Eu te Amo.

Aos 43 anos, sendo 20 deles dedicados à sétima arte, o cineasta é considerado um dos mais importantes cineastas da nova geração do cinema italiano. Durante o Festival do Rio, ele conversou com um pequeno grupo de jornalistas, onde estávamos presente. Na entrevista, o diretor fala da atual produção de seu país, das comparações que A Grande Beleza recebeu com A Doce Vida de Fellini e da experiência de filmar no Rio de Janeiro.

A Grande Beleza é o representante italiano à indicação para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Como recebeu a notícia?
Paolo Sorrentino – Estou feliz e honrado. Mas, para nós, europeus, o Oscar é uma premiação que sempre parece um pouco distante. Sabemos que, na verdade, não passa de um jogo. Um grande jogo.

O cinema italiano está em uma boa fase, e tem recebido premiações em muitos festivais pelo mundo. O que o senhor acha disso?
PS – A Itália teve um passado cinematográfico com grandes gênios. Isso, para os diretores das novas gerações, é complicado, porque gera uma cobrança desnecessária em relação ao nosso trabalho. A premiação é importante para dar visibilidade a esta geração.

Em A Grande Beleza, os personagens parecem amar e odiar Roma ao mesmo tempo. Você, como napolitano, também tem este sentimento?
PS – Acho que esse é um sentimento controverso e que todas as pessoas em todas as grandes cidades do mundo podem entender. Toda metrópole tem atrações e problemas. Mas para mim, em particular, é fácil viver em Roma e eu realmente amo a cidade, com todos os seus encantos e defeitos.

E a atmosfera de sonho e decadência da sociedade romana que permeia todo o filme?
PS – Alguns personagens foram, de fato, inspirados em pessoas reais, mas a ideia era fazer um painel de Roma e sua fauna noturna como um todo. É uma mistura de sonho com realidade. O filme foi pensado assim, porque Roma pode ser uma cidade dos sonhos, com suas belezas e sensações, mas também com algo de falso; por isso, essa atmosfera de sonho.

A crítica o tem comparado ao filme a A Doce Vida de Federico Fellini.
PS – Sim, é verdade que ambos falam do mesmo tema, mas têm estilos diferentes. E, definitivamente, eu não sou Fellini.

Como surgiu o convite para participar do longa Rio, Eu te amo?
PS – O convite surgiu de um dos produtores, que me falou sobre o filme e perguntou se eu estaria interessado em participar.

Como é o episódio que o senhor dirige?
PS – Meu episódio fala sobre um casal de turistas americanos: a atriz inglesa Emily Mortimer e o americano Basil Hoffman, que está vivendo uma relação muito complicada. Eles se odeiam, vêm ao Rio e o marido resolve envolver a esposa em algo bastante perigoso. Filmamos durante dois dias em uma praia e já comecei a montagem. É uma história que não daria para ser um longa-metragem, então acho que, como curta, dentro de um filme sobre a cidade do Rio, é o ideal.

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Bastardos

outubro 18, 2013

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Por Pedro de Biasi

Em Bastardos (Les Salauds), exibido no Festival do Rio e que estreia nesta sexta, 18, não há exatamente elementos inovadores ou originais. Os temas de família, abuso sexual, reencontros, o conflito de romance com drama, o díptico personagem principal/perspectiva do espectador e outros aspectos já foram pisados e repisados em um sem-número de filmes. Normalmente, o sabor que faz com que uma obra se destaque não é a suposta novidade de um ou outro ingrediente, mas sim a forma como todos os elementos se misturam como experiência dramática. É assim com o mais recente trabalho de Claire Denis, que a diretora co-escreveu junto de seu colaborador de longa data Jean-Paul Fargeau.

O protagonista é Marco Silvestri (Vincent Lindon), capitão náutico que volta à terra parisiense ao descobrir que seu cunhado, Jacques (Laurent Grévill), se suicidou. Além do luto, sua irmã Sandra (Julie Bataille) tem de lidar com a falência da empresa de sapatos da família e o preocupante caso de sua filha Justine (Lola Créton), que foi encontrada vagando pelas ruas após ser violentada. Sandra insiste que o culpado pela morte de seu marido é o empresário Edouard Laporte (Michel Subor), mas não explica de que forma. Mesmo envolvido em todos os problemas da vida da irmã, Marco acaba iniciando um romance com Raphaëlle (Chiara Mastroianni), esposa de Edouard.

Pelo ponto de vista de um membro distante da família, o espectador tem acesso a um drama de raízes tão profundas que elas continuam a ser expostas até os últimos minutos de projeção. O que torna o filme de Denis mais potente é a combinação do personagem principal com a situação que ele encontra. Num dos momentos centrais da história, Marco confronta Sandra sobre a verdade horrenda da família que ela criou. A mulher retruca: “Você não estava aqui.” O tom não é acusatório, mas impotente, espelhando sua postura perante os acontecimentos misteriosos do passado. Surge a abertura para conjecturas não sobre o horror em si (este, para Denis, precisa ser mostrado), mas sobre o tipo de situação que levou aquela personagem a permitir tamanha atrocidade.

Bataille encena essa impotência de forma bruta, desmoronando ao ter de assumir que sabia de tudo. Sua fraqueza é tamanha que Lindon grita para ela se levantar, pois o homem é incapaz de testemunhar a irmã na ruína em que ela própria se colocou. Mesmo assim, é talvez em Créton que essa passividade se mostra de forma mais estarrecedora. Seu rosto é vulnerável, mas impassível em quase todas as suas cenas. Sua expressão pétrea causa um gélido assombro quando ela perambula à noite, nua, com sangue escorrendo pelas pernas. Até seus parcos momentos de expressividade são marcados por essa apatia, que se faz particularmente potente quando a personagem surge sorrindo em uma cena no fim do filme.

É a entrada de Marco nesse mundo de mulheres feridas além do possível, mutiladas e passivas, que torna a história tão intensa. Um único diálogo, com a declaração de que ele “não estava lá”, cria um retrato familiar que expõe exatamente quanto o personagem esteve distante e quanto ele deixou de vivenciar da vida de sua irmã. Mais doloroso ainda é que foi ele mesmo que apresentou Jacques, seu amigo, a Sandra. Emergem inúmeros “e se”, que incomodam pelo potencial desperdiçado de prevenir não uma, mas várias tragédias. Marco se desdobra em todos os sentidos para ajudar suas parentas – até mesmo conseguindo a simpatia do filho de Edouard e Raphaëlle, aproximando-se do suposto culpado –, mas ele já chega sem poder algum. Afinal, Jacques, figura central nesse imbróglio, já havia se retirado absolutamente da situação, seu mal já estava feito.

Apesar da importância das revelações finais para a forma como os personagens são vistos, Denis e Fargeau logo estabelecem um conflito igualmente delicado no romance entre Marco e Raphaëlle, que nunca é explanado como maquinação ou sentimento. Questões familiares se fazem notar até mesmo nesse caso extraconjugal, com a simplicidade que marca a dramaturgia da diretora. Em determinado momento, Marco derruba sua camisa com um pacote de cigarros pela janela para Raphaëlle, e, quando ela vai a seu apartamento devolver a peça, ele está recebendo a visita da filha, com quem tem pouco contato, símbolo de sua distante família. Também interessante é a cena em que o homem se preocupa em colocar camisinha antes do sexo, atitude que levanta diversas hipóteses sobre sua postura e seus interesses reais.

A profissão de Marco como um homem do mar, distante de todos, pode não ser um simbolismo muito elaborado, mas cria um cenário crível para seu afastamento. Ele não recebe muito mais ou menos informações do que o espectador, e também termina com inúmeras dúvidas sobre o cunhado, a irmã e a sobrinha. A razão de Jacques se suicidar não é esmiuçada a contento, ao passo que tudo que se deu na família antes desse acontecimento é um mistério tão obscuro quanto suas potenciais elucidações são hediondas. É importante notar, porém, que o protagonista não se importa em ouvir explicações, ao passo que quem assiste ao filme sequer tem a possibilidade de ter um esclarecimento definitivo e tem de ficar à deriva com as possibilidades (in)imagináveis.

Para um roteiro com tantas questões em aberto, Bastardos tem um final terrivelmente explícito em vários sentidos. Pode-se considerar que as imagens derradeiras servem apenas para chocar, mas elas têm todo o sentido para Sandra. Assistir a uma história como essa é testemunhá-la. Apenas saber que algo ocorreu não transmitiria o peso da conivência que é tão fundamental para a dura moral da história. Ao mesmo tempo, ser confrontado com cenas tão grotescas leva ao questionamento de que tipo de situação levaria à inação diante de tal comportamento. Dessa forma, Marco é um protagonista perfeito, pois é um homem de ação para todos os efeitos (vide as cenas de pancadaria), mas embarca no imbróglio já sem o poder de agir positivamente. Ao fim, Claire Denis mostra que mesmo posturas radicalmente diferentes perante um mundo de pessoas brutais podem desembocar em destinos semelhantes.

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

Na lista de 380 filmes do Festival do Rio, sempre tem algum preferido do público que um ou outro espectador não conseguiu entrar na sessão, porque ela estava lotada. Para não deixar ninguém na mão, começa nesta sexta, 11, e vai até o dia 17, a tradicional repescagem do Festival do Rio. É a chance de ver – ou rever – os filmes que mais lotaram as salas de cinema ao longo do Festival. É o caso de Alì tem olhos azuis (Alì ha agli occhi azzurri), do italiano Claudio Giovannesi, que será exibido novamente no domingo, 13, às 20 horas, no Instituto Moreira Salles.

Vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Roma 2012 – onde também ganhou o prêmio de Novos Diretores – o filme vem percorrendo, desde a sua premiação, um longo caminho em festivais de cinema, como o badalado Tribeca Film Festival, onde foi exibido em abril deste ano. Este é o segundo longa-metragem de Giovannesi, que também assinou o documentário Fratelli D´Italia (Irmãos da Itália, em tradução literal), sobre a relação de três adolescentes filhos da imigração – um romeno, um árabe e uma russa – com a Itália. Foi neste trabalho que ele conheceu Nader, adolescente italiano de origem egípcia, que é o protagonista de Alì tem olhos azuis.

Em sua passagem pelo Festival do Rio, Claudio Giovannesi conversou com o Cinemmarte e contou que, algum tempo depois de fazer seu documentário, reencontrou Nader. “Ele estava morando na rua e me contou sobre seu amor proibido. Fiquei comovido e quis contar aquela história. Mas ele praticava pequenos furtos, e seria complicado mostrar isso em um documentário, então tive a ideia de fazer um filme de ficção, com não-atores. Todos que aparecem são os mesmos na vida real: os pais dele, os amigos, a namorada, menos a irmã”.

O longa é ambientado em Ostia, periferia de Roma, e mostra como Nader foi morar na rua: seus pais desaprovam seu relacionamento com a italiana Brigitte e ele resolve sair de casa. Ao mesmo tempo, ele vê sua irmã se interessar por um italiano, e reprova a situação, chocando-se com sua própria realidade e as tradições de sua família.
Giovannesi também assina o roteiro (com Felippo Gravino) e a trilha sonora do filme. “No início seria só o som do tráfego, do vento e do mar, mas depois do trabalho pronto optei por destacar três momentos do filme, três emoções diferentes, então surgiu a música, que eu compus com Andrea Moscianese”, explicou.

Mesmo sendo uma ficção, Alì tem olhos azuis possui uma abordagem documental, graças à intrépida câmera do diretor, que segue a passos firmes os personagens. O título do longa é uma homenagem ao cineasta e escritor Pier Paolo Pasolini – de quem o cineasta é fã – e foi tirado de Profecia, que Pasolini escreveu para Jean Paul-Sartre em 1962 e prenunciava a sociedade multicultural de hoje. Sobre a Itália dividida entre italianos e imigrantes, Claudio Giovannesi acredita que o país tem duas posições distintas: aqueles que aceitam tudo, e os que nada aceitam. “A integração é para quem chega e para quem já está no lugar, por isso é uma palavra que não existe sem os dois lados”.

Com sua vivência em festivais tão diferentes mundo afora, o diretor observou que em cada lugar as pessoas veem o filme de acordo com suas próprias experiências com a imigração. “Em Nova York os italianos é quem são imigrantes, então eles viram o filme de outra forma. Já na França pode-se dizer que é um filme velho, porque eles já passaram por isso”.

Em comum com o também italiano Salvo – Uma História de Amor e Máfia estão a produção de Fabrizio Mosca e a direção de fotografia do aclamado Daniele Cipri. “Gosto muito dos filmes do Cipri, que é uma pessoa maravilhosa. Foi uma experiência importante trabalhar com ele”.

Aos 35 anos, Claudio Giovannesi é um dos novos expoentes do cinema italiano. Este ano foi indicado ao Nastri D´Argento, prêmio do Sindicato de Jornalistas Cinematográficos italiano, na categoria de melhor diretor, ao lado dos consagrados Marco Bellocchio, Giuseppe Tornatore, Roberto Ando e Paolo Sorrentino. Pela primeira vez no Rio de Janeiro, ele se revelou profundo conhecedor da música brasileira. “Sou guitarrista e amo bossa nova, que conheci nos discos de João Gilberto e Stan Getz”.

Já trabalhando em um próximo projeto, Giovannesi adiantou ao CinePOP qual será seu novo filme. “É a história de uma adolescente italiana que vai parar em um reformatório. Optei, mais uma vez, por trabalhar com o universo jovem”, concluiu. Confira a programação da Repescagem do Festival do Rio em
http://www.festivaldorio.com.br/

Foto: Janaina Pereira

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

O cinema italiano vem apresentando uma nova safra de bons diretores, que estão sobressaindo nos festivais internacionais de cinema. Mas, infelizmente, a maioria desses filmes não chega ao circuito brasileiro. Por isso vale aproveitar o Festival do Rio para conferir Alì tem olhos azuis, do jovem cineasta Claudio Giovannesi, que ainda não tem distribuidora no Brasil.

Interpretado por não-atores – por isso o nome de cada um também é o nome do personagem – o longa aborda a história real de Nader (Nader Sarhan), adolescente de origem egípcia nascido em Roma, que vive em conflito com os pais e sai de casa após eles desaprovarem seu namoro com uma italiana. O menino passa a viver nas ruas, roubando e passeando com o amigo Stefano (Stefano Rabatti).

A trama é ambientada em Ostia, na periferia de Roma, região pouco conhecida para quem só vai a capital italiana por turismo. O grande mérito do roteiro é mostrar que os conflitos multiculturais continuam fortes na Itália – e, embora o tema seja recorrente em outros filmes italianos, é a primeira vez que o protagonista é a pessoa que realmente vive essa história em seu dia a dia.

Outro fato interessante que o roteiro frisa é que, ainda que Nader seja italiano, sua origem e as tradições de sua família falam mais alto – tão alto que, quando a irmã de Nader se interessa por um italiano, ele se mostra totalmente contrário ao relacionamento. É neste ponto que o longa enfatiza que o conflito dos pais do garoto, também é o seu próprio. Essas contradições são acompanhadas pela câmera nervosa de Giovannesi, que segue os personagens de um jeito quase documental.

Prêmio Especial do Júri no Festival de Roma do ano passado, e exibido este ano no Festival de Tribeca, Alì tem olhos azuis tem direção de fotografia do aclamado Daniele Cipri, e trilha sonora composta pelo próprio Giovannesi, que também assina o roteiro. E, embora o filme deixe o final em aberto e não tome partido de nenhum dos lados, fica a sensação de que o dilema dos personagens é o dilema da própria Itália, que nem sempre enxerga com bons olhos os filhos da imigração.

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Por Janaina Pereira

Alexander Payne, um dos mais promissores diretores americanos, está de volta depois do bem-sucedido Os Descendentes (2011). Nebraska, em cartaz no Festival do Rio, é o novo trabalho do diretor. O filme é um road movie que acompanha Woody Grant (Bruce Dern), um senhor que, após receber uma carta que promove assinaturas de revistas, acredita ter ganho o prêmio de um milhão de dólares. Depois de uma série de tentativas de ir a pé de sua cidade, em Montana, até Nebraska, onde o prêmio supostamente está, ele acaba tendo a companhia do filho mais novo, David (Will Forte), que decide acompanhá-lo. David, na verdade, está preocupado com o estado de saúde do pai, e acaba alimentando a idéia de Woody ganhou mesmo o tal prêmio. Durante o trajeto, Woody sofre um pequeno acidente, sendo obrigado a ficar uns dias na cidade onde nasceu, que fica no meio do caminho para Nebraska. Quando a notícia de que Woody se tornou um milionário se espalha, pai e filho começam a enfrentar sérios problemas com os moradores do local.

O (ótimo) roteiro de Bob Nelson, com diálogos afiadíssimos, explora a relação de pai e filho e, especialmente, a inversão de papéis que é comum em determinado momento de nossas vidas – quando os filhos se tornam pais de seus pais. David tem consciência que seu pai está senil, e que qualquer coisa que o faça feliz pode significar muito. Woody, que na maior parte das vezes não sabe o que está fazendo, parece estar sempre em um mundo paralelo – o que torna o personagem familiar, já que todo espectador certamente já conheceu um idoso assim.

Os grandes momentos do filme ficam por conta da atuação de Bruce Dern – vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Cannes deste ano – e de June Squibb, que interpreta Kate, a esposa de Woody. A atriz, inclusive, tem a melhor cena do filme, quando visita o cemitério e começa a descrever as pessoas que morreram. Mérito, também, do cineasta Alexandre Payne, que se firma como um bom diretor de atores.

Filmado em preto e branco – o que só aumenta o clima nostálgico do filme –Nebraska tem uma trama triste, mas não é feito para chorar. As boas doses de humor tornam o filme leve, embora a sequência final cause uma certa melancolia. Ao espectador, fica a sensação de fazer parte da história – e muitos certamente se identificarão com ela.

Nebraska é o caso raro de filme inteligente que alcança as multidões, e que não deve passar despercebido na temporada de premiações. Que o Oscar seja justo – e generoso – com ele.