Hoje-Eu-Quero-Voltar-Sozinho-cartaz

por Janaina Pereira

Pense num filme sensível, que fale sobre o primeiro amor. Mas não é um primeiro amor qualquer: o protagonista é cego, nunca beijou uma menina e se depara com um sentimento profundo por um menino que acaba de chegar ao seu colégio. Os detalhes poderiam fazer de Hoje eu quero voltar sozinho , estreia desta quinta, dia 10, mais um filme sobre adolescentes, ou mais uma história de amor entre meninos, mas não é nada disso. O primeiro longa-metragem de Daniel Ribeiro (que também assina o roteiro) é, na verdade, uma história de amor tão comum que qualquer um de nós poderia ter vivido – e escrita de modo tão inteligente que torna o filme um dos grandes destaques do cinema nacional recente.

O filme nasceu do premiado curta de nome parecido –  Eu não quero voltar sozinho – onde Ribeiro já explorava o universo adolescente, e apresentava Leonardo (Ghilherme Lobo), o protagonista, e seus amigos Giovana (Tess Amorim) e Gabriel (Fabio Audi). No longa, Leonardo, adolescente cego que está em busca de seu lugar, planeja libertar-se do cotidiano fazendo uma viagem de intercâmbio. Ele quer ser mais independente, mas precisa lidar com a superproteção da mãe. A notícia cai como uma bomba no colo de sua inseparável melhor amiga, Giovana, mas a chegada de Gabriel, um novo aluno na escola, desperta sentimentos até então desconhecidos em Leonardo.

Diante de uma história simples, o roteiro de Daniel Ribeiro explora as emoções e sensações dos personagens. Desde a dança desengonçada de Leonardo às birras de Giovana com a amizade de Leo e Gabriel, tudo flui numa leveza que conquista de imediato o espectador. Nem mesmo as cenas de bullying (Leonardo é o único cego em seu colégio, e volta e meia um grupo de meninos implica com ele) querem dar lição de moral nas pessoas. O filme não foi feito com esta intenção – definitivamente o que vemos na tela é algo para nos identificarmos, sem o intuito de chocar ninguém. Ser cego e gay não é o que faz do protagonista um personagem que nos chame atenção – é o amor que ele tem pela vida, é a busca pela liberdade e realização de sonhos que movem seu universo. Vale a pena ressaltar que o ator Ghilherme Lobo não é cego, portanto sua interpretação absolutamente convincente é um grande destaque do filme.

A direção minimalista de Ribeiro coloca poesia em algumas cenas fundamentais – como os momentos em que Gabriel trata Leonardo como se ele enxergasse tudo, ou quando os dois vão ao cinema. A naturalidade como isso é apresentado, sem choques para ambos os personagens, fascina. E se eu contar mais vou estragar o melhor de Eu não quero voltar sozinho: o filme surpreende a cada cena, e a sensação que temos quando ele acaba é uma saudade imensa da adolescência e de como era legal viver aquelas emoções.

Vencedor de dois prêmios no Festival de Berlim deste ano – melhor filme da mostra Panorama, pela Fipresci (Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica) e prêmio Teddy de melhor filme com temática ou personagens LGBTs –  Hoje eu quero voltar sozinho também foi o segundo filme preferido do público do festival pelo voto popular. A boa repercussão contribuiu para que o filme seja distribuído para 14 países, incluindo Estados Unidos, França, Alemanha, Itália e Reino Unido. Agora é esperar que o Brasil corresponda, e prestigie o talento não só do diretor e roteirista, como de toda a equipe do filme. Afinal, a produção cinematográfica brasileira merece novos caminhos e Daniel Ribeiro e companhia encontraram um ótimo rumo: o do cinema sem exageros, onde a sensibilidade e a delicadeza falam mais alto.

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por Janaina Pereira, de Berlim

 

No último dia de exibição oficial dos filmes da mostra competitiva, o Festival de Berlim parou para ver Robert Pattinson passar. Nesta sexta, 17, ele brilhou no tapete vermelho do lançamento mundial de Bel Ami, de Declan Donnellan e Nick Ormerod, exibido fora de competição.

O longa, baseado num romance de Guy de Maupassant sobre Georges Duroy (Robert Pattinson), um ex-soldado e filho de lavradores pobres que se sente no direito de ser rico, tem uma trama bem amarrada e interessante, que se torna cansativo graças à atuação fraquíssima de Pattinson. Limitado, o ator parece que vai virar vampiro a qualquer momento durante o filme.

Na coletiva, em que Pattinson surpreendeu ao aparecer de cabeça raspada, o ator comentou como foi fazer um jornalista. “Foi engraçado, quando ele entrou na coluna de fofocas do jornal… Fiz um paralelo. Mas ele não é bem um jornalista, é como se, hoje, fosse astro de reality show, algo em que pudesse ter dinheiro e fama sem fazer nada.”

A atriz Christina Ricci que também participou da coletiva, falou sobre a cena de sexo entre sua personagem e Pattinson. “Ah, elas foram tão íntimas e românticas… Havia cem pessoas no set sem teto! E eu não depilei as axilas, para ser fiel ao período histórico. É, realmente estávamos muito atraentes!”.

Bel Ami será distribuído no Brasil pela Califórnia Filmes.

por Janaina Pereira, de Berlim

Em seus momentos finais, o Festival de Berlim apresenta claramente seus favoritos. Billy Bob Thornton se junta aos irmãos Taviani como cotadíssimo ao Urso de Ouro por Jayne Mansfield’s Car, seu novo trabalho como diretor.

Thornton também atua no filme ao lado de Robert Duvall, John Hurt – que participou da coletiva em Berlim e foi ovacionado pelos jornalistas – Kevin Bacon e Frances O’Connor. O filme é ambientado em 1969, e segue duas famílias diferentes – uma americana e outra britânica – que se reunem pela morte da ex-mulher de Duval e Hurt.

Na coletiva, Thornton alfinetou Hollywood, e contou que não conseguiu financiamento dentro dos EUA para seu filme. “A maioria dos filmes americanos que são fáceis de obter financiamento são filmes sobre modelos de uniforme de gladiadores e comédias malucas com crianças que se envolvem com as ovelhas no hotel. Então, ao invés de reclamar, decidi simplesmente escrever e direcioná-lo.”, disse. “É uma história que eu tive na minha cabeça por muito tempo e acho que sou um diretor melhor quando estou fazendo meu próprio material. Minha última experiência foi em ‘All The Pretty Horses’, que foi um filme que eu estava contratado para dirigir. Eu não tinha controle sobre o que aconteceu com ele. Neste caso, eu era capaz de lançar que eu queria e cortar o filme do jeito que eu queria. ”

Thornton também disse que Berlim era o único festival que queria estrear. “A razão por que quis vir para Berlim com o filme é que isso é conhecido como um festival de cinema muito sério, onde a qualidade dos filmes é fundamental. Ficamos muito honrados de ser aceito aqui.”

Em um momento constrangedor, Thornton foi questionado se estaria saindo com Angelina Jolie, sua ex-mulher, em Berlim – Angelina está na cidade lançando In The Land of Blood and Honey, sua estreia como diretora. Elegante, ele respondeu que Angelina é uma mulher maravilhosa e uma das suas melhores amigas.

“Quando os artistas se separam, as pessoas gostam de inventar histórias sobre o quanto estão uns contra os outros. Isso nunca foi verdade. Nunca será. Eu vou amá-la até o fim da minha vida e ela vai me amar. Somos amigos. Brad é um meu amigo também, e eu amo os dois. Eu amo seus filhos, e eles me adoram. Eu ainda não a vi, mas tenho certeza que vamos nos ver, quem sabe esta tarde.”

Jayne Mansfield’s Car não tem previsão de estreia no Brasil.

por Janaina Pereira, de Berlim

O Festival de Berlim foi marcado nesta segunda-feira, 13, pela exibição – fora de comeptição – do mais novo filme do aclamado diretor chinês Zhang Yimou (Herói): Flowers of War relata a traumática invasão japonesa na China em 1937, mas precisamente na cidade de Nanquim – onde mais de 200 mil pessoas foram mortas. A grande curiosidade do filme, no entanto, está em seu protagonista, o astro americano Christian Bale, mas conhecido como o Batman da trilogia de Christopher Nolan e ganhador do Oscar de melhor ator coadjuvante ano passado, por O Vencedor.

Na coletiva de imprensa que aconteceu à noite, horas antes da premiere do longa, Bale conversou com a imprensa sobre a oportunidade de fazer um filme em chinês, sendo dirigido por um cineasta que não fala inglês. “Tinhamos a ajuda de un intérprete, e foi uma experiência incrível. Fazer um filme chinês, com um diretor como o Yimou foi algo muito marcante na minha carreira”, revelou o ator, que interpreta um americano perdido no meio da guerra, que acaba se refugiando em um colégio junto com dois grupos bem differentes: pequenas estudantes de 12 anos e refinadas prostitutas chinesas. No meio da batalha que se instala em Naquim, ele se veste de padre para tentar salvar as meninas e as prostitutas.

Yimou é um dos diretores mais celebrados na Berlinale. Em 1987 ele ganhou o Urso de Ouro por O Sogro Vermelho, e desde então lança todos os seus filmes durante o festival, ainda que fora de competição. O cineasta explicou a importância de Bale no projeto.

“Eu queria mostrar um episódio difícil da nossa história, um trauma nacional. E queria um personagem que fosse incomum naquele cenário, para dar consciência a todos ao que acontecia. E é por isso que quis Bale neste trabalho.”

O grandioso filme de 141 minutos de duração chama a atenção pelo forte apelo visual e a ótima interpretação de Bale. Flowers of War ainda não tem distribuição no Brasil.

Na mostra competitiva, três filmes se destacaram: o italiano Cesare deve morire, dos veteranos irmãos Taviani – relato sobre a montagem da peça Julio Cesar, de Shakespeare, em um presídio, traçando um paralelo entre os presos e os personagens da peça  -, o filipino Captire, de Brillante Mendonza, e o alemão Barbara, de Chiristian Petzold. Em um festival morno, esses filmes aparecem como possíveis vencedores do Urso de Ouro.

A Separação

janeiro 18, 2012

Por Pedro Costa de Biasi

Não é fácil aderir discursos políticos ou éticos ao tecido de A Separação, filme de Asghar Farhadi que estreia nesta sexta-feira, dia 20. O cineasta naturalmente tem posicionamentos sobre os inúmeros temas que aborda em seu roteiro, mas identificar seus pontos de vista não é só uma atividade capciosa, como também um tanto fútil. A bem da verdade, o eixo da trama é sua natureza conflituosa.

Simin (Leila Hatami) quer levar a filha Termeh (Sarina Farhadi) para estudar longe do Irã, em uma situação mais branda, mas seu marido Nader (Peyman Moadi) se opõe, e ela pede o divórcio para cumprir seu desejo. Apesar de ter a solicitação negada, Simin se muda, o que obriga Nader a encontrar alguém para cuidar de seu pai (Ali-Asghar Shahbazi), que sofre de Alzheimer. Ele contrata Razieh (Sareh Bayat), mulher muito devota aos preceitos do islamismo.

Em tese, ela necessitaria do consentimento do marido Hodjat (Shahab Hosseini) para trabalhar, mas ele tem dívidas com alguns credores e a família (eles têm uma filha pequena e esperam um bebê) precisa do dinheiro. A relação marido-mulher é uma das questões abordadas por Farhadi, não tanto pelos contrastes gritantes com a perspectiva ocidental, mas sim como um conflito e um incidental paralelismo com Nader e Simin – este último, inclusive, vai além do fato de Simin ter pedido um divórcio, o que aos ideais religiosos de Razieh.

São sutis comparações, entre uma mulher que pega dinheiro sem contar para o marido e outra que trabalha em segredo para completar a renda familiar, ou na semelhança que Razieh e Simin apresentam ao tentar resolver os problemas de seus cônjuges mesmo que a honra de ambos lhes impeça de aceitar com naturalidade essa ajuda. Apesar do forte teor religioso e político que essa questão apresenta, Farhadi está atento primeira e fundamentalmente aos conflitos.

Neste sentido, ele se limita a acompanhar e observar os desdobramentos das tensões que afloram entre Hodjat, Nader, Simin e Razieh, sem digredir em direção a questionamentos ideológicos de qualquer espécie. Problemas éticos agudos são abordados apenas com a profundidade que as violentas discussões permitem, e com a cordialidade provinda do desespero. Nessa cordialidade – esse falar e fazer segundo emoções fulminantes e egoístas que passam por cima da justiça e da verdade -, a matéria dos conflitos acaba dando o tom das cenas, e os valores aparentes se sobrepõe aos de fato existentes – contraste cristalizado na sorumbática personagem de Termeh.

Os conflitos são universais, transcendem a mera função da mulher interpretada pelo Corão e atingem antes o mecanismo de defesa que usamos para acusar e nos isentar moralmente, mesmo que a origem de tudo sejam as emoções mais explosivas. É uma trama primeiramente humana, e só por consequência política. Quanto à ética, o mergulho é em águas caudalosas. Uma porção de chaves para respostas morais surgem ao se acoplar valores positivos ou negativos às ações dos personagens.

Estender-se em avaliações dessa natureza não tem grande serventia, pois os próprios discursos dos personagens se cruzam em inúmeros maniqueísmos – compreensíveis, em algum grau. O método de observar as consequências de atos e acusações não priva a obra de pontos de vista reconhecíveis (essa privação não é impossível: filmes como Transformers: O Lado Oculto da Lua demonstram que uma isenção grosseira funciona), mas ao menos o enfoque se mantém em discussões enérgicas que assomam, com seus argumentos, perante posicionamentos externos.

Acompanhar A Separação é gratificante na medida em que Asghar Farhadi evita tratar firmemente de especificidades e opta por abordar conflitos abrangentes, essencialmente humanos, sem alardear valores absolutizantes nem soluções.