Bastardos

outubro 18, 2013

bastardos

Por Pedro de Biasi

Em Bastardos (Les Salauds), exibido no Festival do Rio e que estreia nesta sexta, 18, não há exatamente elementos inovadores ou originais. Os temas de família, abuso sexual, reencontros, o conflito de romance com drama, o díptico personagem principal/perspectiva do espectador e outros aspectos já foram pisados e repisados em um sem-número de filmes. Normalmente, o sabor que faz com que uma obra se destaque não é a suposta novidade de um ou outro ingrediente, mas sim a forma como todos os elementos se misturam como experiência dramática. É assim com o mais recente trabalho de Claire Denis, que a diretora co-escreveu junto de seu colaborador de longa data Jean-Paul Fargeau.

O protagonista é Marco Silvestri (Vincent Lindon), capitão náutico que volta à terra parisiense ao descobrir que seu cunhado, Jacques (Laurent Grévill), se suicidou. Além do luto, sua irmã Sandra (Julie Bataille) tem de lidar com a falência da empresa de sapatos da família e o preocupante caso de sua filha Justine (Lola Créton), que foi encontrada vagando pelas ruas após ser violentada. Sandra insiste que o culpado pela morte de seu marido é o empresário Edouard Laporte (Michel Subor), mas não explica de que forma. Mesmo envolvido em todos os problemas da vida da irmã, Marco acaba iniciando um romance com Raphaëlle (Chiara Mastroianni), esposa de Edouard.

Pelo ponto de vista de um membro distante da família, o espectador tem acesso a um drama de raízes tão profundas que elas continuam a ser expostas até os últimos minutos de projeção. O que torna o filme de Denis mais potente é a combinação do personagem principal com a situação que ele encontra. Num dos momentos centrais da história, Marco confronta Sandra sobre a verdade horrenda da família que ela criou. A mulher retruca: “Você não estava aqui.” O tom não é acusatório, mas impotente, espelhando sua postura perante os acontecimentos misteriosos do passado. Surge a abertura para conjecturas não sobre o horror em si (este, para Denis, precisa ser mostrado), mas sobre o tipo de situação que levou aquela personagem a permitir tamanha atrocidade.

Bataille encena essa impotência de forma bruta, desmoronando ao ter de assumir que sabia de tudo. Sua fraqueza é tamanha que Lindon grita para ela se levantar, pois o homem é incapaz de testemunhar a irmã na ruína em que ela própria se colocou. Mesmo assim, é talvez em Créton que essa passividade se mostra de forma mais estarrecedora. Seu rosto é vulnerável, mas impassível em quase todas as suas cenas. Sua expressão pétrea causa um gélido assombro quando ela perambula à noite, nua, com sangue escorrendo pelas pernas. Até seus parcos momentos de expressividade são marcados por essa apatia, que se faz particularmente potente quando a personagem surge sorrindo em uma cena no fim do filme.

É a entrada de Marco nesse mundo de mulheres feridas além do possível, mutiladas e passivas, que torna a história tão intensa. Um único diálogo, com a declaração de que ele “não estava lá”, cria um retrato familiar que expõe exatamente quanto o personagem esteve distante e quanto ele deixou de vivenciar da vida de sua irmã. Mais doloroso ainda é que foi ele mesmo que apresentou Jacques, seu amigo, a Sandra. Emergem inúmeros “e se”, que incomodam pelo potencial desperdiçado de prevenir não uma, mas várias tragédias. Marco se desdobra em todos os sentidos para ajudar suas parentas – até mesmo conseguindo a simpatia do filho de Edouard e Raphaëlle, aproximando-se do suposto culpado –, mas ele já chega sem poder algum. Afinal, Jacques, figura central nesse imbróglio, já havia se retirado absolutamente da situação, seu mal já estava feito.

Apesar da importância das revelações finais para a forma como os personagens são vistos, Denis e Fargeau logo estabelecem um conflito igualmente delicado no romance entre Marco e Raphaëlle, que nunca é explanado como maquinação ou sentimento. Questões familiares se fazem notar até mesmo nesse caso extraconjugal, com a simplicidade que marca a dramaturgia da diretora. Em determinado momento, Marco derruba sua camisa com um pacote de cigarros pela janela para Raphaëlle, e, quando ela vai a seu apartamento devolver a peça, ele está recebendo a visita da filha, com quem tem pouco contato, símbolo de sua distante família. Também interessante é a cena em que o homem se preocupa em colocar camisinha antes do sexo, atitude que levanta diversas hipóteses sobre sua postura e seus interesses reais.

A profissão de Marco como um homem do mar, distante de todos, pode não ser um simbolismo muito elaborado, mas cria um cenário crível para seu afastamento. Ele não recebe muito mais ou menos informações do que o espectador, e também termina com inúmeras dúvidas sobre o cunhado, a irmã e a sobrinha. A razão de Jacques se suicidar não é esmiuçada a contento, ao passo que tudo que se deu na família antes desse acontecimento é um mistério tão obscuro quanto suas potenciais elucidações são hediondas. É importante notar, porém, que o protagonista não se importa em ouvir explicações, ao passo que quem assiste ao filme sequer tem a possibilidade de ter um esclarecimento definitivo e tem de ficar à deriva com as possibilidades (in)imagináveis.

Para um roteiro com tantas questões em aberto, Bastardos tem um final terrivelmente explícito em vários sentidos. Pode-se considerar que as imagens derradeiras servem apenas para chocar, mas elas têm todo o sentido para Sandra. Assistir a uma história como essa é testemunhá-la. Apenas saber que algo ocorreu não transmitiria o peso da conivência que é tão fundamental para a dura moral da história. Ao mesmo tempo, ser confrontado com cenas tão grotescas leva ao questionamento de que tipo de situação levaria à inação diante de tal comportamento. Dessa forma, Marco é um protagonista perfeito, pois é um homem de ação para todos os efeitos (vide as cenas de pancadaria), mas embarca no imbróglio já sem o poder de agir positivamente. Ao fim, Claire Denis mostra que mesmo posturas radicalmente diferentes perante um mundo de pessoas brutais podem desembocar em destinos semelhantes.

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Minha Terra, África

novembro 5, 2010

por Janaina Pereira

Destaque do Festival de Veneza 2009, Minha Terra, África (White Material), o elogiado drama de Claire Denis finalmente chega em circuito hoje. Na trama, a francesa Maria (Isabelle Huppert) mora em um local da África devastado pela guerra civil.

Ela tem uma plantação de café e se  mudar está fora de cogitação. Maria alega ter laços sentimentais com o local e mesmo sabendo dos riscos que corre, luta bravamente por sua terra. No entanto, o café produzido por ela, segundo os nativos, não é consumido por eles.

Maria e sua família, composta apenas por brancos, podem atrair a segurança e reiniciar o banho de sangue. Todos querem fugir, menos ela. Maria representa a coragem. André (Christopher Lambert), seu ex-marido, a submissão. O filho deles é a própria loucura em pessoa, a personificação da angustiante situação.

A linguagem cinematográfica de Claire Denis explora as reações repentinas dos personagens, mostrando como cada um reage diante daquele cotidiano sangrento. É criança com arma na mão, é gente sendo morta sem motivo, é uma guerra onde o único canal que assume a voz dos “rebeldes” é uma estação de rádio que toca música jamaicana e assume postura radical sobre os conflitos.

A diretora constrói o emocional dos personagens deixando claro que o conflito racial está acima de tudo. E o pior de tudo: não espere justiça no final. Assim como a vida, Minha Terra, África mostra os dois lados da moeda: não há mocinhos nem bandidos, nem verdades e mentiras.  O que importa ali é a cor da pele, é isso que faz a diferença e o mundo inteiro sabe que é assim mesmo que funciona.

Palmas para a editora que soube tão bem explorar o tema em uma análise seca e bilateral.

35-doses-de-rum

por Janaina Pereira

Um dos filmes mais esperados da Mostra de SP, 35 Doses de Rum não cumpre suas expectativas. O filme não é ruim, longe disso, mas a arrastada narrativa da cineasta Claire Denis, que preza pelas intenções, e não pelas ações dos personagens, tira o brilho de uma história que poderia ser melhor.

O roteiro segue Lionel, um condutor de trem que vive num complexo habitacional com sua filha, Josephine, com quem tem fortes laços por tê-la criado sozinho. Ele tem um caso mal resolvido com Gabrielle, sua vizinha taxista. Ela tem um caso mal resolvido com seu vizinho solitário, Noé.

Cúmplices até nas histórias amorosas confusas, pai e filha irão entrar em choque quando Noé resolve sair do País e Josephine cogita a possibilidade de deixar de cuidar do pai para seguir sua vida. Mas este choque entre os dois não passa de uma cena com alguns gritos. Porque nada em 35 doses de rum é agitado.

O que permeia o filme são os silêncios, a rotina, a relação de dependência, o amor, o desejo de romper o cordão, o ciúme, o cansaço da rotina, tudo isso é mostrado com muita calma pela diretora. Calma até demais.

O melhor do longa é o título, explicado na última cena. Lionel diz que, quando algo é especial, deve-se comemorar com 35 goles de rum. Infelizmente não dá para beber o rum para festejar o filme.