A Grande Beleza

novembro 6, 2013

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por Janaina Pereira

Roma é uma das cidades que mais amo neste mundo. Mas, quando estive lá, saí com a sensação de que não teria condições emocionais de voltar tão cedo. A cidade me absorveu por completo, me deixou esgotada com seu caos e beleza. Era tanta igreja, praça, museus, fontes, histórias … parecia que eu estava dentro de um livro. Eu me sentia, finalmente, fazendo parte da história do mundo. Ao mesmo tempo, Roma me sufocou não só pelo verão escaldante, mas pelos seus excessos. De informação, de situações, de romantismo, de felicidade, de coisas que vivi em suas ruas e que nunca mais terei de volta. E é exatamente essa sensação de ter tudo e não ter nada que o filme A Grande Beleza (La Grande Bellezza), de Paolo Sorrentino (Aqui é o meu lugar), mostra com precisão. O longa, indicado italiano a uma vaga na categoria filme estrangeiro do Oscar 2014, será exibido na 9ª edição do Festival Pirelli de Cinema Italiano, em São Paulo, de 29 de novembro a 5 de dezembro. A estreia em circuito nacional está prevista para dezembro.

Logo nos primeiros minutos do filme vemos uma grande festa para comemorar os 65 anos de Jep Gambardella (Toni Servillo). Ele é um escritor napolitano que mora em Roma, um tipo sarcástico que vive cercado de pessoas consideradas influentes. Mas Jep, na verdade, escreveu um livro que fez muito sucesso – e vive da fama desde então. Entrevista supostas celebridades aqui e ali, e não explica para ninguém o porquê de não ter escrito outro livro. Sua casa é o ponto de encontro de intelectuais e artistas, a ‘nata’ romana. Sob o ponto de vista de Jep, a trama se desenvolve mostrando um mundo de pessoas vazias; a aparência que sempre engana; o que parece ser, mas não é.

Há de tudo um pouco: Jep descobrindo que não quer mais sexo casual; tentando reviver sentimentos de afeto com a ajuda de uma stripper quarentona (um dos momentos mais sensíveis do filme); observando o culto à beleza nos dias de hoje (na ótima cena sobre o que as pessoas fazem para se manterem jovens e bonitas); destruindo verbalmente uma amiga que posa de superior aos outros; e sonhando com um amor do passado, a mulher que o largou sem dizer o porquê, e que, talvez, tenha feito ele perder um pouco da fé na humanidade. A fé, aliás, é um dos destaques no trecho final do filme, na impecável cena do jantar com o cardeal que um dia será Papa, onde Jep questiona a espiritualidade daqueles que supostamente vivem pela fé. E é justamente no julgamento sobre a fé que Jep revela o motivo de não escrever mais livros, algo que justifica todo o seu olhar cínico e irônico para o mundo.

No meio de tantas reflexões, Roma aparece como um personagem importante e, se transportarmos as situações para as metrópoles mundo a fora, facilmente conseguiremos nos identificar. A cena em que um dos amigos de Jep, depois de finalmente conseguir sucesso no teatro, resolve ir embora da cidade – argumentando que Roma o decepcionou – mostra o quanto as contradições das metrópoles se fazem cada vez mais presente: às vezes estas cidades nos dão exatamente o que queremos, e aí descobrimos que nada daquilo valeu a pena.

A Grande Beleza tem roteiro de Paolo Sorrentino e Umberto Contarello, em que as imagens de Roma são pontuadas por uma ótima trilha sonora (com música de Lele Marchitelli) e pela elaborada edição de som da brasileira Silvia Moraes. Para contrapor a superficialidade das pessoas, cores vivas no figurino do protagonista, criado por Daniela Ciancio, e sequências cheias de intensidade, na montagem de Cristiano Travaglioli. O longa conta também com a atuação brilhante de um dos maiores atores italianos, Toni Servillo (A bela que dorme) e a direção impecável de Sorrentino, que faz de Roma um personagem tão marcante quanto Jep Gambardella. Ainda que não tenha sido lembrado com o carinho que merece no Festival de Cannes deste ano, o filme foi exibido com sucesso no Festival do Rio, e é, sem dúvida, um dos melhores do ano.

No final da história, fica a pergunta: onde está a grande beleza da vida? Num mundo de contradições, onde o que é bonito para uns pode ser horrível para outros, de repente essa beleza nem existe mais. Por isso não se espante se sair do cinema com uma sensação de tristeza e melancolia, porque talvez seja exatamente isto que o mundo de hoje tem para nos oferecer.

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

O cinema italiano vem apresentando uma nova safra de bons diretores, que estão sobressaindo nos festivais internacionais de cinema. Mas, infelizmente, a maioria desses filmes não chega ao circuito brasileiro. Por isso vale aproveitar o Festival do Rio para conferir Alì tem olhos azuis, do jovem cineasta Claudio Giovannesi, que ainda não tem distribuidora no Brasil.

Interpretado por não-atores – por isso o nome de cada um também é o nome do personagem – o longa aborda a história real de Nader (Nader Sarhan), adolescente de origem egípcia nascido em Roma, que vive em conflito com os pais e sai de casa após eles desaprovarem seu namoro com uma italiana. O menino passa a viver nas ruas, roubando e passeando com o amigo Stefano (Stefano Rabatti).

A trama é ambientada em Ostia, na periferia de Roma, região pouco conhecida para quem só vai a capital italiana por turismo. O grande mérito do roteiro é mostrar que os conflitos multiculturais continuam fortes na Itália – e, embora o tema seja recorrente em outros filmes italianos, é a primeira vez que o protagonista é a pessoa que realmente vive essa história em seu dia a dia.

Outro fato interessante que o roteiro frisa é que, ainda que Nader seja italiano, sua origem e as tradições de sua família falam mais alto – tão alto que, quando a irmã de Nader se interessa por um italiano, ele se mostra totalmente contrário ao relacionamento. É neste ponto que o longa enfatiza que o conflito dos pais do garoto, também é o seu próprio. Essas contradições são acompanhadas pela câmera nervosa de Giovannesi, que segue os personagens de um jeito quase documental.

Prêmio Especial do Júri no Festival de Roma do ano passado, e exibido este ano no Festival de Tribeca, Alì tem olhos azuis tem direção de fotografia do aclamado Daniele Cipri, e trilha sonora composta pelo próprio Giovannesi, que também assina o roteiro. E, embora o filme deixe o final em aberto e não tome partido de nenhum dos lados, fica a sensação de que o dilema dos personagens é o dilema da própria Itália, que nem sempre enxerga com bons olhos os filhos da imigração.

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Nine

janeiro 16, 2010

por Janaina Pereira

Em um passado não muito distante, os musicais eram a menina dos olhos do cinema hollywoodiano. Se no teatro eles mantiveram o seu valor, na telona foram perdendo prestígio até a volta triunfal com Moulin Rouge (2001), de Baz Luhrmman, indicado ao Oscar de melhor filme após 23 anos de ausência deste gênero na premiação.

Com o sucesso do longa junto ao público e à crítica, uma nova safra de musicais invadiu o cinema, com destaque para Chicago (2002), de Rob Marshall, vencedor de seis Oscars em 2003. O coreógrafo e diretor teatral acabou conquistando seu espaço como cineasta, e depois de filmar Memórias de uma gueixa (2005), assumiu a difícil missão de levar o musical Nine para as telas.

Nine chegou à Broadway nos anos 1980 como uma adaptação para os palcos de Oito e meio, o clássico filme autobiográfico de Federico Fellini, em que o diretor narra sua própria crise existencial e criativa. A peça foi premiada com o Tony®. Na versão cinematográfica, com música e letras de Maury Yeston e roteiro de Michael Tolkin e de Anthony Minghella (falecido em 2008 e a quem o filme é dedicado), a escolha do elenco foi um capítulo à parte.

Alguns atores consagrados fizeram testes de voz e dança para conquistar um papel no filme. E assim Nicole Kidman assumiu o lugar que seria de Catherine Zeta-Jones e que também foi disputado por Penélope Cruz, que acabou ficando com o personagem que seria de Renée Zellweger. Marion Cotillard fez teste para o papel que ficou com Judi Dench e assumiu outra função no elenco. A cantora Fergie ganhou a disputa com Katie Holmes e Demi Moore. E Kate Hudson venceu a briga com Annie Hataway e Sienna Miller. O protagonista, que seria Javier Barden, foi parar nas mãos de Daniel Day-Lewis. A única que sempre teve papel para ela foi Sophia Loren.

Com um elenco de estrelas e beldades premiadas – dos oito atores do elenco principal, apenas Kate Hudson e Fergie não ganharam o Oscar – Nine , o filme, prometia arrebatar público e crítica. Mas, pelo menos nos EUA, foi recebido como uma enorme decepção.

Com exceção da eterna Piaf  Marion Cotillard, o restante do elenco foi massacrado. Acho que há um certo exagero nisso. De fato, o filme – que só estreia por aqui no final deste mês – não empolga e, comparado à Chicago, é musicalmente inferior. Porém, tem seus méritos, e eles estão, justamente, na escolha acertada de alguns atores do estrelar elenco.

A história, mais que uma adaptação de Oito e meio, é uma homenagem à Fellini. Acompanhamos, nos anos 1960, o famoso cineasta Guido Contini (Daniel Day-Lewis) em meio à uma crise criativa. O quarentão tem um talento inegável, assim como um conhecido poder de sedução com as mulheres. Mas parece que tudo está dando errado para Contini.

Ele não consegue escrever seu próximo roteiro, e é pressionado por todos, especialmente pelas inúmeras mulheres que cercam sua vida: a esposa dedicada Luisa Contini (Marion Cotillard), a amante sensual Carla (Penélope Cruz), a bela estrela de cinema e musa Claudia (Nicole Kidman), a confidente figurinista Liliane (Judi Dench), a esfuziante jornalista de moda americana Stephanie (Kate Hudson), a prostituta da sua juventude Saraghina (Fergie) e a querida mãe já falecida (Sophia Loren).

Entre as lembranças e as situações vividas com essas mulheres surpreendentes, Guido busca inspiração e uma possível salvação em meio à queda livre. Nesse processo, o estúdio 5, da Cinecittà, em Roma, se ilumina com os desejos e os devaneios do cineasta, pontuado com números musicais dramáticos, muitas vezes monótonos, mas que mostram a épica crise de meia-idade de um artista.

Mais que um musical, Nine é um filme de atores. Fiquei muito impressionada com Daniel Day-Lewis, reconhecidamente um grande ator, mas que surpreende com a garra e a versatilidade das cenas em que canta. Altivo, carismático e charmoso, ele faz de seu Guido Contini um homem apaixonado e apaixonante, frágil e forte, herói e vilão. Day-Lewis achou o tom certo para o personagem e enche a tela com sua beleza singular.

Marion Cotillard, a aparentemente submissa Luisa Contini, está uma graça, com figurino e maquiagem inspirados na musa dos anos 1960, Audrey Hepburn, e atuação que lembra os trejeitos de Giulieta Masina, esposa de Federico Fellini. Linda, doce, sempre com uma lágrima no olhar, ela empresta sua delicadeza à uma personagem contida, cheia de paixão sufocada. Marion entra para o hall de grandes atrizes de sua geração, e se destaca pela voz afinada e os números musicais intensos. Sem dúvida, a melhor das atrizes em cena – e, à primeira vista, não a mais bela, o que prova que talento maior está na interpretação e não em ser um mero enfeite cinematográfico.

Judi Dench continua elegente como sempre. Difícil é acreditar que ela e Sophia Loren têm a mesma idade – 75 anos. Enquanto Judi está dignamente com suas rugas, a eterna diva Sophia disputa com Nicole Kidman quem tem mais botox na cara. A câmera foge de Sophia – ou vice-versa – e não há nenhum close na atriz, mas é perceptível os retoques faciais da italiana. Nada demais em fazer plástica, o problema é que fica muito visível que não queriam mostrar sua face retocada.

Nicole (à imagem e semelhança de Anita Ekberg em La doce vita), a gente já sabe, tem 42 anos na certidão de nascimento, porque no rosto tem 20. É um festival de botox que não acaba mais. Isso só prejudica a atriz, que perdeu a expressão facial há alguns filmes. Penélope Cruz ((à imagem e semelhança da jovem Sophia Loren), faz seu papel direitinho, tem uma grande cena de dança e só. Está bem menos bonita do que nos filmes do Almodóvar, o único que sabe valorizar a sensualidade da atriz.

Por último, mas não a última, está Kate Hudson. Seu papel é até bobinho, mas seu número musical é o melhor. Endiabrada, Kate solta a voz e o quadril e arrasa cantando a ótima Cinema Italiano. Até esta cena, Nine  patina entre canções chorosas e ritmo arrastado. Quando Kate aparece, tudo muda. Ela está visivelmente feliz e se divertindo ao requebrar o esqueleto e jogar o cabelão de um lado para o outro. O figurino pop glamouroso, estilo Barbarella – personagem clássica de Jane Fonda em filme homônimo de 1968 – é uma atração por si só. Tudo bem que Barbarella foi exibido depois da época em que Nine se passa, mas aquele climão futurista dos anos 1960 está embutido na cena musical de Kate Hudson (que sim, destoa dos outros números por ser super alto astral). A atriz é a maior surpresa do filme: linda, loira, sexy e estonteante.

Com seus altos e baixos, Nine é razoável, embora cheio de boas intenções. Vai desagradar a muitos, agradar a poucos e será um típico caso de amor e ódio cinematográfico: quem gostar vai amar ardentemente, quem não gostar vai odiar com todo fervor.

Uma dica: fique para os créditos finais e acompanhe a singela homenagem que Rob Marshall faz ao cinema e aos musicais.

Assista ao trailer de Nine.