Rivalidades no Oscar 2014

fevereiro 28, 2014

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Por Janaina Pereira

 

Mais uma edição do Oscar acontece no próximo dia 2, e alguns duelos entre os indicados estão sendo muito aguardados. Como o ano passado teve uma boa safra de produções, está difícil saber quem vai vencer em algumas categorias. É o caso dos indicados a melhor filme, onde 12 anos de Escravidão e Gravidade concorrem com igualdade de condições, sendo seguidos de perto por Trapaça. Os diretores destes filmes, concorrentes entre si também em sua respectiva categoria, também travam um bom duelo. Embora David O. Russel – diretor de Trapaça – corra por fora na disputa, quando se trata de Oscar tudo é possível. Mas, aqui, o favorito parece mesmo ser Alfonso Cuáron, que pode levar o prêmio de diretor mas ver o seu Gravidade não ganhar como melhor filme. Assim como o inglês Steve McQueen pode não se tornar o primeiro negro a ganhar o prêmio de diretor, mas pode vencer com seu filme 12 anos de Escravidão. Ou vice-versa. Nesta rivalidade, o mais difícil parece ser uma vitória dupla – para filme e diretor. A tendência é a Academia de Hollywood amenizar a disputa dando um prêmio para cada um.

Entre os atores uma das mais fortes rivalidades coloca de um lado Leonardo Di Caprio e do outro Matthew McConaughey. Embora McConaughey seja o favorito por seu desempenho em Clube de Compras Dallas, cresce uma corrente que acha que Di Caprio (indicado por O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese) já passou da hora de vencer – o ator soma quatro indicações, sem contar as várias ‘não indicações’ ao longo dos anos. Muitos críticos de cinema apontam uma certa perseguição da Academia com Leo, mas até o público entrou nessa briga, lançando vários ‘memes’ em que Leonardo Di Caprio aparece como injustiçado por não ter a estatueta dourada.

Na categoria ator coadjuvante a disputa está entre Jared Leto (por Clube de Compras Dallas) e Michael Fassbender (por 12 anos de Escravidão). Até o final do ano passado, a atuação de Fassbender era apontada como uma das melhores dos últimos tempos no cinema. Porém, Leto parece ter arrebatado a crítica com seu transexual vítima da Aids, e vem conquistando todos os prêmios da temporada.

Entre as mulheres, algumas curiosidades: ninguém deve tirar o Oscar das mãos de Cate Blanchett. Uma rara unanimidade por sua atuação em Blue Jasmine, de Woody Allen, Cate deve levar sua segunda estatueta para casa – ela ganhou como coadjuvante por O Aviador (2004), de Martin Scorsese. Porém, a loira deve ficar atenta à sua maior rival – ninguém menos que Judi Dench, que contracenou com Cate em Notas sobre um Escândalo, que, aliás, rendeu indicação as duas no ano de 2007 – Judi como atriz, Cate como coadjuvante.

Outro fato curioso é o duelo velado de duas das maiores estrelas do cinema americano: Julia Roberts e Sandra Bullock. Julia já era famosa quando Sandra apareceu na telona e a crítica começou a comparar o trabalho de ambas. Na época, Julia Roberts alegou que Sandra não podia ser “uma nova Julia” porque era mais velha que ela. As atrizes sempre foram campeãs de bilheteria mas demoraram a ter seu lugar ao sol no Oscar. Julia ganhou em 2001 por Erin Brockovich e Sandra levou a melhor em 2011 por Um Sonho Possível (depois de 20 anos de carreira e em sua primeira indicação). A crítica sempre apostou que elas nunca mais seriam indicadas. E este ano lá estão elas de volta, só que em categorias diferentes: Sandra concorre como atriz por Gravidade e Julia como coadjuvante por Álbum de Família.

A rivalidade mais acirrada, porém, é entre as atrizes coadjuvantes. A estreante Lupita Nyong’o, 30 anos, disputa palmo a palmo o Oscar com a ‘veterana’ Jennifer Lawrence, 23 anos. Lupita é a revelação de 12 anos de Escravidão, e tem a seu favor um filme forte e muito bem cotado nas premiações. Porém, Jennifer, que faz uma alcóolatra em Trapaça, é a queridinha do cinema americano, e já está em sua terceira indicação – e não podemos esquecer que o Oscar de melhor atriz do ano passado foi dela. Elas dividem os holofotes nesta temporada de premiações: ora uma ganha um prêmio aqui, ora a outra ganha ali. Façam suas apostas.

12 anos de Escravidão

fevereiro 18, 2014

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por Janaina Pereira

 

Steve McQueen é um dos melhores cineastas da atualidade. No entanto, o inglês, homônimo do falecido ator americano, não é conhecido do ‘grande público’ no Brasil. Seus dois primeiros filmes – Hunger e Shame – foram exibidos em festivais de cinema (Cannes e Veneza, respectivamente) com muito sucesso, e lançaram aos olhos do mundo o ator alemão Michael Fassbender. Com uma história real americana, McQueen vem chamando a atenção do público e da crítica e parece que, finalmente, será reconhecido também em solo tupiniquim. Porque 12 anos de Escravidão (12 years a Slave), seu novo filme que estreia nesta sexta, 21, é uma das melhores produções dos últimos tempos.

Baseado no livro homônimo de Solomon Northup, o longa conta a história do próprio Solomon (interpretado de forma ímpar por Chiwetel Ejiofor, de Coisas Belas e Sujas), violinista negro e alforriado em Saratoga, Estado de Nova York. Em 1841 ele foi sequestrado em Washington e vendido como escravo na Louisiana. Acompanhamos sua saga ao longo de 12 anos, quando passa por alguns senhores de escravo até chegar às mãos do cruel Epps (o sempre brilhante Michael Fassbender, de Shame), que açoita os escravos sem dó nem piedade.

Em sua sangrenta jornada, Solomon tenta esconder que sabe ler e escrever, para que sua formação não lhe custe a própria vida. Ele vê negros morrendo por nada, e tenta compreender o porquê da escravidão. Ainda assim, se mantém aparentemente passivo diante dos constantes abusos físicos que Patsey (a estreante Lupita Nyong’o) sofre de Epps, e a forma como isso vira agressão pelas mãos da esposa do senhor de escravos (Sarah Paulson, de Amor Bandido). 

A passividade, porém, é puro instinto de sobrevivência. Não reagir com o corpo é corroer a alma e expressar no olhar. E aí entra a força da interpretação de Chiwetel Ejiofor – desde já uma das mais marcantes da história do cinema. Enquanto no dia-a-dia ele parece aceitar aquela vida injusta, seus olhos dizem outra coisa.  O desespero, o pavor e o pedido de socorro que são vistos claramente no olhar de Solomon/ Ejiofor fazem o espectador querer entrar na tela para salvá-lo. Reparem na cena do enterro de um escravo, onde Solomon canta e parece colocar para fora, pela primeira vez, a sua dor, expressa pelas palavras da música, e não apenas pelo olhar.  

No ótimo elenco que tem nomes como Benedict Cumberbatch (Star Trek Além da Escuridão), Paul Giamatti (Tudo pelo Poder), Paul Dano (Os Suspeitos) e (o também produtor do longa) Brad Pitt (Guerra Mundial Z),  Michael Fassbender (parceiro de McQueen em todos os seus filmes) mais uma vez mostra porque é um dos melhores atores do mundo, e dá ao público outra atuação visceral e memorável. Já a revelação Lupita Nyong’o aparece o suficiente para garantir seu (merecido) Oscar de coadjuvante – o longa foi indicado em nove categorias, entre elas melhor filme, diretor, ator (Ejiofor) e ator coadjuvante (Fassbender). 

Destacam-se também a trilha sonora de Hans Zimmer, a fotografia, o roteiro no ritmo certo e a direção impecável de Steve McQueen. 

Muito se fala que 12 anos de Escravidão é um filme violento, uma espécie de Paixão de Cristo (filme de Mel Gibson) dos escravos. Discordo. A produção traz à tona uma história real sobre sequestro de escravos livres, algo que eu – e a maioria da humanidade – sequer imaginava que um dia tivesse acontecido. A violência de fato está lá – e sabemos que isso foi real – e vem num crescente, explodindo na cena em que Epps resolve castigar Patsey, já na parte final do filme.  Não há nada de desnecessário ou abusivo nas cenas de sangue e lágrimas: McQueen apenas mostra corajosamente o que de fato aconteceu. 

Perdendo terreno na corrida para o Oscar para Gravidade e Trapaça, é de se espantar que alguém ainda tenha dúvidas de que 12 anos de Escravidão é o filme do ano. O tema é árido, existem cenas difíceis, mas diante de uma humanidade que insiste na discriminação – de negros, mulheres, homossexuais, judeus, idosos – este é o filme mais importante produzido nos últimos anos.  

Se você tiver que escolher um filme, um único filme para assistir, veja 12 anos de Escravidão. Você vai ficar emocionalmente abalado, pode até chorar e ficar angustiado, mas ele é necessário para o mundo em que vivemos. E se eu puder descrevê-lo em uma palavra, digo a vocês que 12 anos de Escravidão é devastador.