Bastardos

outubro 18, 2013

bastardos

Por Pedro de Biasi

Em Bastardos (Les Salauds), exibido no Festival do Rio e que estreia nesta sexta, 18, não há exatamente elementos inovadores ou originais. Os temas de família, abuso sexual, reencontros, o conflito de romance com drama, o díptico personagem principal/perspectiva do espectador e outros aspectos já foram pisados e repisados em um sem-número de filmes. Normalmente, o sabor que faz com que uma obra se destaque não é a suposta novidade de um ou outro ingrediente, mas sim a forma como todos os elementos se misturam como experiência dramática. É assim com o mais recente trabalho de Claire Denis, que a diretora co-escreveu junto de seu colaborador de longa data Jean-Paul Fargeau.

O protagonista é Marco Silvestri (Vincent Lindon), capitão náutico que volta à terra parisiense ao descobrir que seu cunhado, Jacques (Laurent Grévill), se suicidou. Além do luto, sua irmã Sandra (Julie Bataille) tem de lidar com a falência da empresa de sapatos da família e o preocupante caso de sua filha Justine (Lola Créton), que foi encontrada vagando pelas ruas após ser violentada. Sandra insiste que o culpado pela morte de seu marido é o empresário Edouard Laporte (Michel Subor), mas não explica de que forma. Mesmo envolvido em todos os problemas da vida da irmã, Marco acaba iniciando um romance com Raphaëlle (Chiara Mastroianni), esposa de Edouard.

Pelo ponto de vista de um membro distante da família, o espectador tem acesso a um drama de raízes tão profundas que elas continuam a ser expostas até os últimos minutos de projeção. O que torna o filme de Denis mais potente é a combinação do personagem principal com a situação que ele encontra. Num dos momentos centrais da história, Marco confronta Sandra sobre a verdade horrenda da família que ela criou. A mulher retruca: “Você não estava aqui.” O tom não é acusatório, mas impotente, espelhando sua postura perante os acontecimentos misteriosos do passado. Surge a abertura para conjecturas não sobre o horror em si (este, para Denis, precisa ser mostrado), mas sobre o tipo de situação que levou aquela personagem a permitir tamanha atrocidade.

Bataille encena essa impotência de forma bruta, desmoronando ao ter de assumir que sabia de tudo. Sua fraqueza é tamanha que Lindon grita para ela se levantar, pois o homem é incapaz de testemunhar a irmã na ruína em que ela própria se colocou. Mesmo assim, é talvez em Créton que essa passividade se mostra de forma mais estarrecedora. Seu rosto é vulnerável, mas impassível em quase todas as suas cenas. Sua expressão pétrea causa um gélido assombro quando ela perambula à noite, nua, com sangue escorrendo pelas pernas. Até seus parcos momentos de expressividade são marcados por essa apatia, que se faz particularmente potente quando a personagem surge sorrindo em uma cena no fim do filme.

É a entrada de Marco nesse mundo de mulheres feridas além do possível, mutiladas e passivas, que torna a história tão intensa. Um único diálogo, com a declaração de que ele “não estava lá”, cria um retrato familiar que expõe exatamente quanto o personagem esteve distante e quanto ele deixou de vivenciar da vida de sua irmã. Mais doloroso ainda é que foi ele mesmo que apresentou Jacques, seu amigo, a Sandra. Emergem inúmeros “e se”, que incomodam pelo potencial desperdiçado de prevenir não uma, mas várias tragédias. Marco se desdobra em todos os sentidos para ajudar suas parentas – até mesmo conseguindo a simpatia do filho de Edouard e Raphaëlle, aproximando-se do suposto culpado –, mas ele já chega sem poder algum. Afinal, Jacques, figura central nesse imbróglio, já havia se retirado absolutamente da situação, seu mal já estava feito.

Apesar da importância das revelações finais para a forma como os personagens são vistos, Denis e Fargeau logo estabelecem um conflito igualmente delicado no romance entre Marco e Raphaëlle, que nunca é explanado como maquinação ou sentimento. Questões familiares se fazem notar até mesmo nesse caso extraconjugal, com a simplicidade que marca a dramaturgia da diretora. Em determinado momento, Marco derruba sua camisa com um pacote de cigarros pela janela para Raphaëlle, e, quando ela vai a seu apartamento devolver a peça, ele está recebendo a visita da filha, com quem tem pouco contato, símbolo de sua distante família. Também interessante é a cena em que o homem se preocupa em colocar camisinha antes do sexo, atitude que levanta diversas hipóteses sobre sua postura e seus interesses reais.

A profissão de Marco como um homem do mar, distante de todos, pode não ser um simbolismo muito elaborado, mas cria um cenário crível para seu afastamento. Ele não recebe muito mais ou menos informações do que o espectador, e também termina com inúmeras dúvidas sobre o cunhado, a irmã e a sobrinha. A razão de Jacques se suicidar não é esmiuçada a contento, ao passo que tudo que se deu na família antes desse acontecimento é um mistério tão obscuro quanto suas potenciais elucidações são hediondas. É importante notar, porém, que o protagonista não se importa em ouvir explicações, ao passo que quem assiste ao filme sequer tem a possibilidade de ter um esclarecimento definitivo e tem de ficar à deriva com as possibilidades (in)imagináveis.

Para um roteiro com tantas questões em aberto, Bastardos tem um final terrivelmente explícito em vários sentidos. Pode-se considerar que as imagens derradeiras servem apenas para chocar, mas elas têm todo o sentido para Sandra. Assistir a uma história como essa é testemunhá-la. Apenas saber que algo ocorreu não transmitiria o peso da conivência que é tão fundamental para a dura moral da história. Ao mesmo tempo, ser confrontado com cenas tão grotescas leva ao questionamento de que tipo de situação levaria à inação diante de tal comportamento. Dessa forma, Marco é um protagonista perfeito, pois é um homem de ação para todos os efeitos (vide as cenas de pancadaria), mas embarca no imbróglio já sem o poder de agir positivamente. Ao fim, Claire Denis mostra que mesmo posturas radicalmente diferentes perante um mundo de pessoas brutais podem desembocar em destinos semelhantes.

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Os Suspeitos

outubro 17, 2013

Suspeitos

por Janaina Pereira

O cineasta canadense Denis Villeneuve ganhou fama mundial com o polêmico Incêndios, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011. Nesta sexta, 18, ele volta às telas com um elenco repleto de estrelas no thriller Os Suspeitos, já apontado como um forte candidato à temporada de premiações. 

A trama se passa em Boston, onde um pai de família (Hugh Jackman) tem que lidar com o desaparecimento de sua filha e de uma amiga dela. Quando suspeita que o detetive encarregado das buscas (Jake Gyllenhaal) já desistiu de procurar pelo culpado, ele resolve fazer sua própria investigação. 

Durante a maior parte do tempo, o filme transcorre devagar, com nuances de quem poderia ser, de fato, o culpado pelo desaparecimento das meninas. Ao mesmo tempo que vemos um pai desesperado, e entendemos o seu drama, percebemos que o policial quer ser justo, mas sabe que nem sempre isso é possível. Para uma produção de mais de duas horas de duração, tudo é muito lento, mas bem explicado. Nos momentos finais, porém, há uma acelerada no ritmo, e diversas viradas no roteiro, algumas consistentes, outras nem tanto.  

No elenco que conta com Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Paul Dano, Viola Davis, Maria Bello, Melissa Leo e Terrence Howard, os destaques são Jackman e Gyllenhaal, que dão veracidade a seus papéis. Impossível não ficar transtornado com toda a angústia e fúria que saem dos olhos de Hugh Jackman – que chegou a ser cotado ao Oscar 2014, mas em um ano com grandes atuações masculinas, sua presença na lista será uma surpresa. Já Jake Gyllenhaal faz um policial jovem, mas experiente, íntegro, focado, e com um ‘tique’ nos olhos que deixa claro toda sua fissura pelo trabalho. Uma construção, física e mentalmente, perfeita, que pode render ao ator uma indicação à estatueta dourada de coadjuvante. 

No geral, Os Suspeitos é um bom suspense, que prende a atenção, mas não chega a ser brilhante como dizem por aí.

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

Na lista de 380 filmes do Festival do Rio, sempre tem algum preferido do público que um ou outro espectador não conseguiu entrar na sessão, porque ela estava lotada. Para não deixar ninguém na mão, começa nesta sexta, 11, e vai até o dia 17, a tradicional repescagem do Festival do Rio. É a chance de ver – ou rever – os filmes que mais lotaram as salas de cinema ao longo do Festival. É o caso de Alì tem olhos azuis (Alì ha agli occhi azzurri), do italiano Claudio Giovannesi, que será exibido novamente no domingo, 13, às 20 horas, no Instituto Moreira Salles.

Vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Roma 2012 – onde também ganhou o prêmio de Novos Diretores – o filme vem percorrendo, desde a sua premiação, um longo caminho em festivais de cinema, como o badalado Tribeca Film Festival, onde foi exibido em abril deste ano. Este é o segundo longa-metragem de Giovannesi, que também assinou o documentário Fratelli D´Italia (Irmãos da Itália, em tradução literal), sobre a relação de três adolescentes filhos da imigração – um romeno, um árabe e uma russa – com a Itália. Foi neste trabalho que ele conheceu Nader, adolescente italiano de origem egípcia, que é o protagonista de Alì tem olhos azuis.

Em sua passagem pelo Festival do Rio, Claudio Giovannesi conversou com o Cinemmarte e contou que, algum tempo depois de fazer seu documentário, reencontrou Nader. “Ele estava morando na rua e me contou sobre seu amor proibido. Fiquei comovido e quis contar aquela história. Mas ele praticava pequenos furtos, e seria complicado mostrar isso em um documentário, então tive a ideia de fazer um filme de ficção, com não-atores. Todos que aparecem são os mesmos na vida real: os pais dele, os amigos, a namorada, menos a irmã”.

O longa é ambientado em Ostia, periferia de Roma, e mostra como Nader foi morar na rua: seus pais desaprovam seu relacionamento com a italiana Brigitte e ele resolve sair de casa. Ao mesmo tempo, ele vê sua irmã se interessar por um italiano, e reprova a situação, chocando-se com sua própria realidade e as tradições de sua família.
Giovannesi também assina o roteiro (com Felippo Gravino) e a trilha sonora do filme. “No início seria só o som do tráfego, do vento e do mar, mas depois do trabalho pronto optei por destacar três momentos do filme, três emoções diferentes, então surgiu a música, que eu compus com Andrea Moscianese”, explicou.

Mesmo sendo uma ficção, Alì tem olhos azuis possui uma abordagem documental, graças à intrépida câmera do diretor, que segue a passos firmes os personagens. O título do longa é uma homenagem ao cineasta e escritor Pier Paolo Pasolini – de quem o cineasta é fã – e foi tirado de Profecia, que Pasolini escreveu para Jean Paul-Sartre em 1962 e prenunciava a sociedade multicultural de hoje. Sobre a Itália dividida entre italianos e imigrantes, Claudio Giovannesi acredita que o país tem duas posições distintas: aqueles que aceitam tudo, e os que nada aceitam. “A integração é para quem chega e para quem já está no lugar, por isso é uma palavra que não existe sem os dois lados”.

Com sua vivência em festivais tão diferentes mundo afora, o diretor observou que em cada lugar as pessoas veem o filme de acordo com suas próprias experiências com a imigração. “Em Nova York os italianos é quem são imigrantes, então eles viram o filme de outra forma. Já na França pode-se dizer que é um filme velho, porque eles já passaram por isso”.

Em comum com o também italiano Salvo – Uma História de Amor e Máfia estão a produção de Fabrizio Mosca e a direção de fotografia do aclamado Daniele Cipri. “Gosto muito dos filmes do Cipri, que é uma pessoa maravilhosa. Foi uma experiência importante trabalhar com ele”.

Aos 35 anos, Claudio Giovannesi é um dos novos expoentes do cinema italiano. Este ano foi indicado ao Nastri D´Argento, prêmio do Sindicato de Jornalistas Cinematográficos italiano, na categoria de melhor diretor, ao lado dos consagrados Marco Bellocchio, Giuseppe Tornatore, Roberto Ando e Paolo Sorrentino. Pela primeira vez no Rio de Janeiro, ele se revelou profundo conhecedor da música brasileira. “Sou guitarrista e amo bossa nova, que conheci nos discos de João Gilberto e Stan Getz”.

Já trabalhando em um próximo projeto, Giovannesi adiantou ao CinePOP qual será seu novo filme. “É a história de uma adolescente italiana que vai parar em um reformatório. Optei, mais uma vez, por trabalhar com o universo jovem”, concluiu. Confira a programação da Repescagem do Festival do Rio em
http://www.festivaldorio.com.br/

Foto: Janaina Pereira

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

O cinema italiano vem apresentando uma nova safra de bons diretores, que estão sobressaindo nos festivais internacionais de cinema. Mas, infelizmente, a maioria desses filmes não chega ao circuito brasileiro. Por isso vale aproveitar o Festival do Rio para conferir Alì tem olhos azuis, do jovem cineasta Claudio Giovannesi, que ainda não tem distribuidora no Brasil.

Interpretado por não-atores – por isso o nome de cada um também é o nome do personagem – o longa aborda a história real de Nader (Nader Sarhan), adolescente de origem egípcia nascido em Roma, que vive em conflito com os pais e sai de casa após eles desaprovarem seu namoro com uma italiana. O menino passa a viver nas ruas, roubando e passeando com o amigo Stefano (Stefano Rabatti).

A trama é ambientada em Ostia, na periferia de Roma, região pouco conhecida para quem só vai a capital italiana por turismo. O grande mérito do roteiro é mostrar que os conflitos multiculturais continuam fortes na Itália – e, embora o tema seja recorrente em outros filmes italianos, é a primeira vez que o protagonista é a pessoa que realmente vive essa história em seu dia a dia.

Outro fato interessante que o roteiro frisa é que, ainda que Nader seja italiano, sua origem e as tradições de sua família falam mais alto – tão alto que, quando a irmã de Nader se interessa por um italiano, ele se mostra totalmente contrário ao relacionamento. É neste ponto que o longa enfatiza que o conflito dos pais do garoto, também é o seu próprio. Essas contradições são acompanhadas pela câmera nervosa de Giovannesi, que segue os personagens de um jeito quase documental.

Prêmio Especial do Júri no Festival de Roma do ano passado, e exibido este ano no Festival de Tribeca, Alì tem olhos azuis tem direção de fotografia do aclamado Daniele Cipri, e trilha sonora composta pelo próprio Giovannesi, que também assina o roteiro. E, embora o filme deixe o final em aberto e não tome partido de nenhum dos lados, fica a sensação de que o dilema dos personagens é o dilema da própria Itália, que nem sempre enxerga com bons olhos os filhos da imigração.

Confira a página do filme no Facebook clicando aqui

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Por Janaina Pereira

Alexander Payne, um dos mais promissores diretores americanos, está de volta depois do bem-sucedido Os Descendentes (2011). Nebraska, em cartaz no Festival do Rio, é o novo trabalho do diretor. O filme é um road movie que acompanha Woody Grant (Bruce Dern), um senhor que, após receber uma carta que promove assinaturas de revistas, acredita ter ganho o prêmio de um milhão de dólares. Depois de uma série de tentativas de ir a pé de sua cidade, em Montana, até Nebraska, onde o prêmio supostamente está, ele acaba tendo a companhia do filho mais novo, David (Will Forte), que decide acompanhá-lo. David, na verdade, está preocupado com o estado de saúde do pai, e acaba alimentando a idéia de Woody ganhou mesmo o tal prêmio. Durante o trajeto, Woody sofre um pequeno acidente, sendo obrigado a ficar uns dias na cidade onde nasceu, que fica no meio do caminho para Nebraska. Quando a notícia de que Woody se tornou um milionário se espalha, pai e filho começam a enfrentar sérios problemas com os moradores do local.

O (ótimo) roteiro de Bob Nelson, com diálogos afiadíssimos, explora a relação de pai e filho e, especialmente, a inversão de papéis que é comum em determinado momento de nossas vidas – quando os filhos se tornam pais de seus pais. David tem consciência que seu pai está senil, e que qualquer coisa que o faça feliz pode significar muito. Woody, que na maior parte das vezes não sabe o que está fazendo, parece estar sempre em um mundo paralelo – o que torna o personagem familiar, já que todo espectador certamente já conheceu um idoso assim.

Os grandes momentos do filme ficam por conta da atuação de Bruce Dern – vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Cannes deste ano – e de June Squibb, que interpreta Kate, a esposa de Woody. A atriz, inclusive, tem a melhor cena do filme, quando visita o cemitério e começa a descrever as pessoas que morreram. Mérito, também, do cineasta Alexandre Payne, que se firma como um bom diretor de atores.

Filmado em preto e branco – o que só aumenta o clima nostálgico do filme –Nebraska tem uma trama triste, mas não é feito para chorar. As boas doses de humor tornam o filme leve, embora a sequência final cause uma certa melancolia. Ao espectador, fica a sensação de fazer parte da história – e muitos certamente se identificarão com ela.

Nebraska é o caso raro de filme inteligente que alcança as multidões, e que não deve passar despercebido na temporada de premiações. Que o Oscar seja justo – e generoso – com ele.

O Grande Gatsby

junho 5, 2013

gatsby

Por Pedro de Biasi

A proposta oferecida por Baz Luhrmann ao clássico O Grande Gatsby, que estreia nesta sexta, 7, é um bom caso de ousadia bem trabalhada, especialmente quando os riscos são tão grandes. No entanto, ao invés de buscar uma narrativa inventiva, um elenco surpreendente ou outros recursos estilísticos menos óbvios, o cineasta opta por adaptar a trama básica do romance de F. Scott Fitzgerald com fidelidade, narrar de maneira linear e escalar atores perfeitos para seus papéis. Em que âmbito ele ousa? Na delicada e perigosa dinâmica entre conteúdo e forma, regida pelo espetáculo e um romance que se permite tempo para aflorar. Em uma arte que sofre com críticas de “estilo sobre substância”, sua aposta é definitivamente corajosa.

O personagem-título é apresentado através dos relatos de Nick Carraway (Tobey Maguire), um jovem formado em Yale que se muda para Nova York em 1922. Logo ao lado de sua modesta casa, reside o misterioso Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), um bilionário que faz grandes festas em sua mansão, mas nunca dá as caras. O homem, de trinta e poucos anos e passado obscuro, revela seu antigo romance com Daisy (Carey Mulligan), prima de Nick, e pede auxílio ao vizinho para resgatar essa paixão. No entanto, a mulher já está casada, com Tom Buchanan (Joel Edgerton), um indivíduo infiel e perigoso.

Gatsby se abre cada vez mais para Carraway, eventualmente revelando que sempre organizou suas imensas festanças, que prescindem totalmente de convites, para que, um dia, Daisy aparecesse. Essa revelação é uma das principais vitrines do belo casamento entre o espetáculo suntuoso que Luhrmann proporciona através de Gatsby e seus intuitos sentimentais secretos. Daisy não aparece em nenhuma das festas, o que ressalta tanto os esforços do bilionário em chamar sua atenção quanto a inutilidade dessas tentativas.

Não por acaso, a cena em que o casal finalmente se reencontra ressalta com humor a megalomania de Gatsby, mas se dá em um local intimista, a sala de Carraway, um espaço ainda mais limitado pelo excesso de flores a decorar a sala. Em sua maioria, os outros momentos afetuosos se dão de forma reservada, com conversas sussurradas e danças calmas em um mundo só deles. Quando Gatsby decide exibir sua riqueza com incontáveis roupas e relatos de viagens, a mulher fica incomodada, induzindo-o a se aproximar novamente. Entretanto, o homem é irredutível em seus métodos, pois acredita que deve ser capaz de oferecer tudo do bom e do melhor para ser digno daquela que ama – uma competição curiosa, pois se torna uma competição de maioridade com Tom, também rico e também fruto do afeto de Daisy.

Essa visão do homem provedor e da mulher necessitada de um parceiro estável e cheio de recursos é datada, obsoleta, pois retrata outra época. Luhrmann, que não estranharia uma atualização da história clássica após seu Romeu + Julieta, opta por manter a ambientação nos anos 1920 e as noções que marcam uma sociedade mais regressista: o racismo, o papel feminino subjugado e o moralismo. A trilha sonora, recheada de belas canções de Lana Del Rey, Beyoncé, Florence + the Machine e The XX, é o principal elemento modernizador, e uma sábia escolha: para uma adaptação direta, seria excessivo atualizar todos os aspectos da história e, talvez, até distrativo, já que a obra de Fitzgerald tratava de sua própria contemporaneidade e as questões mais importantes de então.

De qualquer forma, há diversos temas atemporais entre os fundamentos da história, como a insistência num amor antigo, a tentativa de reproduzir o passado, a importância das aparências e os abismos de classe e renda. Regido por essas diretrizes, Gatsby não consegue se convencer que pode fugir com Daisy, abandonando o sonho imperial que construiu para ela. Enquanto Luhrman pretende embriagar o público com a beleza da direção de arte, dos figurinos e da trilha sonora , Daisy se mostra imune a todo esse encanto – uma reação contrária à que o diretor pretende causar nos espectadores, diga-se. Não é por acaso que Gatsby revela seus ideais a Carraway ao fim de uma festa, enquanto seus empregados limpam e arrumam a desordem: trata-se da afirmação da artificialidade daquele cortejo grandiloquente, e o principal sinal de que aqueles ideais são incompatíveis com os de Daisy.

Durante o confronto dos personagens principais no quarto de um hotel, ensaia-se o fim do sonho romântico. O surto colérico de Gatsby revela uma instabilidade emocional que se prova fatal para seu relacionamento com Daisy, pois o expõe como um indivíduo menos confiável e mais incerto que Tom. Sua incapacidade de manter o controle da situação, apenas aludida no desajeitado reencontro do casal, se torna gritante. Se aquela vida calcada em aparências se tornou tão escancarada, resta apenas manter uma postura digna em meio ao turbilhão emocional e às revelações de condutas imorais. Quando Daisy finalmente assume que, sim, ama Tom, não importa se são dois sentimentos distintos, um amor de conveniência e outro puro – ela opta pelo homem que pode lhe prover de afeto e estabilidade.

Ao contrário de Gatsby, porém, Luhrmann se mostra preciso e firme em seus intentos, perfeitamente capaz de narrar a história com imagens opulentas que se escoram nos aspectos mais sentimentais do filme. Um dos melhores exemplos é a explosão de Daisy antes de seu casamento, uma orgia visual e musical que se mantém totalmente transparente para exibir o sofrimento da mulher. Esse emotivo espetáculo se torna ainda mais sólido com personagens delineados com cuidado e otimamente representados pelos talentos – e personas – de DiCaprio, Maguire, Edgerton, Mulligan, Jason Clarke e outros membros do elenco. Seja em forma ou conteúdo, como ponderação existencial ou experiência emocional, O Grande Gatsby é uma obra bem resolvida, tecida por um artesão extremamente habilidoso.

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

Debaixo de uma forte chuva, aconteceu na noite desta terça-feira, 28, a Premiere Latina de Se Beber, não Case! Parte 3, e a cidade escolhida para acolher o elenco da franquia foi o Rio de Janeiro. Por cerca de uma hora, os atores Bradley Cooper, Ed Helms, Zach Galifianakis, Justin Bartha, Jen Keong, Heather Graham e o diretor Todd Phillips circularam pelo tapete vermelho do tradicional Cine Odeon, na Cinelândia, centro do Rio.

brad e todd

Cooper, galã mais cobiçado do momento, foi esperado por uma centena de fãs que não arredaram o pé da porta do Odeon enquanto não conseguiram uma foto ou autógrafo do ator. Ainda que rapidamente, o ele satisfez a vontade de algumas fãs, mas não deixou de fotografar a si mesmo, especialmente em companhia do diretor Todd Phillips (foto).

Elegante em um terno claro, mas exibindo uma questionável escova no cabelo, Bradley Cooper, que faz o personagem Phil na franquia, passou rapidamente pelos fotógrafos e emissoras de TV, assim como seu companheiro de elenco Zach Galifianakis, o divertido Alan da trilogia. Ed Helms, que interpreta o nerd Stu, mostrou certa timidez diante dos fotógrafos. Enquanto isso, Justin Bartha (o Doug), Jen Keong (Mr. Chow) e Heather Graham (Jade) esbanjavam simpatia no red carpet carioca.

elenco

Nesta quarta, 29, a trupe de Se beber, não case! Parte 3 sobe o Morro da Urca para uma coletiva de imprensa, seguida por uma série de entrevistas para jornalistas brasileiros e de outros países da América Latina. Bradley Cooper e cia. devem deixar o Rio na quinta-feira à noite.

Trio

por Janaina Pereira

Ísis Valverde e Fabrício Boliveira foram as estrelas da coletiva de imprensa paulistana do filme Faroeste Caboclo, realizada no último dia 20 de maio. Intérpretes de Maria Lúcia e João de Santo Cristo, os célebres personagens criados pelo cantor e compositor Renato Russo para a música que inspirou o filme, os atores mostraram total consciência da importância do longa para suas carreiras e para uma legião (com trocadilho) de fãs de Renato.

“Tive cuidado ao construir a personagem porque sei que Maria Lúcia é uma presença marcante no imaginário dos fãs de Legião Urbana. Foi importante nesse processo a ajuda da Dona Carmem, mãe do Renato Russo, que nos recebeu na casa da família em Brasília. Perguntei para ela em quem o Renato havia se inspirado para criar Maria Lúcia, e ela me mostrou fotos da turma dele na época e explicou: ‘não era uma Maria Lúcia, mas várias Marias Lúcias.’ Aí eu identifiquei o sorriso de uma, a tristeza de outra, e assim fui criando a personagem”, revelou Ísis, que foi questionada por uma repórter sobre a importância de Maria Lúcia ser maior no filme do que na música. A atriz não titubeou: “Não concordo, acho que Maria Lúcia é importante na música sim. E não escolho personagem pelo tamanho, mas pela densidade”.

Fabrício

Articulado, o ator Fabrício Boliveira (foto) descreveu Faroeste Caboclo como um filme político. “Apesar de retratar uma história dos anos 80, permite um diálogo com o Brasil de hoje, quando temos a resistência de Marco Feliciano (presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara), às diferenças e às minorias. E acho que as cenas mais violentas não são as de pancadaria, mas as que mostram o preconceito contra o Santo Cristo. Ele é negro, pobre, então seu destino é o tráfico, de olho na ascensão social. Mas há um tanto de escolha pessoal também. Que caminhos ele pode vislumbrar? Quero que o filme desperte essas questões e que elas permaneçam, em vez de a pessoa sair do cinema e ir comer uma pizza depois e esquecer”.

Faroeste Caboclo não segue linearmente a música de nove minutos de Renato Russo, o que é uma saída inteligente do roteiro. Ainda assim, o diretor René Sampaio foi confrontado por alguns jornalistas sobre essa opção. “A gente nunca quis fazer um clipe da música. Um clipe de 100 minutos seria meio chato. Achei que a gente devia amplificar o sentido e o significado da história e, além disso, buscar o que era essencial. Então quando você assiste ao filme, permanece com a essência dos personagens e do drama, sem perder o espírito”, explicou Sampaio, que mostrou durante a coletiva de imprensa a mesma segurança apresentada na direção deste seu primeiro longa-metragem.

Giuliano

Quem também esteve presente na coletiva foi o filho de Renato Russo, Giuliano Manfredini (foto), um dos produtores do longa. Ele contou sobre sua emoção ao participar do projeto, e revelou que seu pai escreveu a música já pensando em transformá-la em filme. “Faroeste foi destinado pelo meu pai para que virasse filme. Acompanhar esse resultado e participar disso… não tenho nem palavras para descrever a minha felicidade e o meu orgulho. É verossímil, extremamente fiel, mas ao mesmo tempo autônomo, tem vida própria. Meu pai com certeza teria adorado”.

O filme Faroeste Caboclo tem pré-estreia nesta quarta, dia 29, e estreia na quinta, dia 30.

Fotos: Angela Debellis

Reino Escondido

maio 17, 2013

reino

Por Pedro de Biasi

As principais qualidades de Reino Escondido (Epic), que estreia nesta sexta, 17, chamam a atenção, mas permitem apreciar elementos ainda mais louváveis na animação. Não se trata de uma obra particularmente original ou subversiva – pelo contrário –, como a premissa deixa bastante claro. O ponto de vista principal é de uma sociedade de minúsculas pessoas que vivem na floresta e protegem o meio ambiente. Em conflito com esse grupo mantedor do equilíbrio, estão os Boggans, liderados por Mandrake, que pretendem espalhar a decomposição. Esse embate oculto se cruza com o mundo dos “pisadores”, as pessoas comuns, quando a jovem Mary Katherine visita o pai, obcecado por essas criaturas e determinado a provar sua existência.

É exatamente por se tratar de um filme tão tradicional que as qualidades se destacam. O ambientalismo, a perspectiva dos supervisores da ordem, a separação estética escancarada do bem e do mal, tudo indica uma moral tradicional ao ponto do irritante. Unido com um roteiro que segue caminhos nada surpreendentes, o engessamento parece contaminar e deteriorar qualquer elemento digno de interesse. No entanto, o longa é construído com uma habilidade notável: a simples premissa se desenvolve sem grandes trancos e os detalhes se encaixam sem esforço. Com uma narrativa tão fluida, é fácil acompanhar seu andamento e atentar para outros aspectos dignos de nota.

Além de contar sua história de forma precisa – algo um tanto raro em Hollywood hoje em dia –, Reino Escondido equilibra as várias facetas que formam o produto animado tradicional. Há bons momentos de humor, embora alguns personagens tenham essa função tão exacerbada que se tornam intrusos em qualquer cena. As sequências de ação, por sua vez, têm seu charme, mesmo que cenas confusas sejam usadas aqui e ali para disfarçar uma violência que não condiria com o público infantil. Além disso, o fotorrealismo e a qualidade da animação, outras áreas em que os realizadores mostram domínio da técnica, sustentam diversas imagens que o diretor Chris Wedge usa com habilidade para transmitir medo, apreensão, deslumbramento ou vertigem.

Se, por um lado, o programa é agradável o suficiente com essas qualidades, por outro, um filme redondo pode facilmente se tornar quadrado e inócuo. A verdade é que o longa trabalha de forma sutil – pode-se até dizer de forma reticente – a extrapolação das funções mais básicas do vilão. Mandrake não tem sua história de fundo revelada em um flashback, o que poderia tornar seu drama distante, e tampouco é uma força do mal cujo único sentimento é ganância por aquilo que seus inimigos possuem. Uma perda traumática em sua vida acontece em cena, e a questão é retomada alguns minutos depois para destacar sua cicatriz emocional. Além disso, sua própria condição sugere uma dialética real, e não apenas a pretensão de uma.

Ao invés de uma força maligna estéril, que existe apenas para ameaçar os valores corretos, os Boggans representam o outro lado da vida, cuja preservação é o objetivo dos heróis. Mandrake é o arauto da decomposição, um estágio natural na existência de um ser vivo. Mesmo que o personagem alastre ativamente a podridão, a Rainha da floresta usa de seus próprios poderes de forma semelhante para curar e rejuvenescer. O equilíbrio pressupõe a ação das duas forças em conflito, o que torna ambas necessárias, e a sobrevivência dos vilões em seu reino apodrecido mostra que eles não são descartáveis. É a mesma contraposição presente em O Rei Leão, mas com diferenças importantes: Scar e suas hienas vivem em miséria e fome, e o leão não revela características emocionais que não sejam “vilanescas”.

Outro elemento convencional, o romantismo, está presente em Reino Escondido como uma instituição menos garantida do que de costume. Não por acaso, o filme trata de separações românticas causadas por incompatibilidades distintas: pode ser o fim de uma vida ou a distinção entre duas espécies. Não é, de forma alguma, um filme que usa seu formato tradicional para introduzir um viés subversivo. Pode-se dizer, por outro lado, que a animação é muito bem-feita em seu nicho tradicional e, de quebra, coloca em xeque os clichês associados à maldade e aos finais felizes. Embora essa qualidade não seja tão impressionante, a boa ourivesaria é merecedora de elogios.

REALITY

por Pedro de Biasi

O cineasta Matteo Garrone demora algum tempo para apresentar o conflito central de Reality – A Grande Ilusão, que estreia nesta sexta, 26, mas expõe o grosso do conteúdo e da forma do filme na primeira tomada, um plano-sequência que parte de uma panorâmica de Nápoles para focar em uma carruagem anacrônica que desfila pelas ruas da cidade. Ao som da trilha sonora de Alexandre Desplat, que claramente evoca contos de fadas, a cena de abertura continua com um casamento espalhafatoso, uma verdadeira fantasia comprada pelos noivos. O protagonista, Luciano (Aniello Arena), está lá apenas como parte da festa, vestido de drag queen para animar os pombinhos e os convidados. É lá que ele conhece o ex-participante do Big Brother Enzo (Raffaele Ferrante), o primeiro passo para sua ruína.

Graças à insistência de suas filhas, loucas pelo reality show, Luciano decide fazer um teste para participar da próxima edição. Com uma boa dose de cordialidade e favores de Enzo, o homem consegue uma audição, e tem início uma obsessão patológica. Ansioso pela ligação dos organizadores do programa (conhecido na Itália como Grande Fratello), ele começa a viver em função de sua possível – mas, em sua cabeça, certa – seleção. Essa fixação infecta até mesmo seu dia a dia: o protagonista acredita que agentes da televisão o observam sempre, para avaliar se ele é digno de participar.

Embora a estrutura geral da narrativa não seja entregue logo de cara, muitos dos temas e posicionamentos estão expressos logo no plano inicial. Na cena, há uma delação dos contos de fadas modernos, através da música de Desplat e da imagem surreal da carruagem rodando pela Nápoles de hoje em dia. Trata-se, é verdade, de um casamento, mas essa mesma visão irônica sobre a quebra da realidade é aplicada para o sonho do Grande Fratello. Além disso, antes da tomada seguinte não fica claro quem está dentro do coche espalhafatoso, e a impressão é de que aquela extravagância tem algo a ver com o reality show.

Com seus pontos de vista declarados tão rapidamente e de forma tão cristalina, o que resta é a dramática exploração da instabilidade psicológica do protagonista, o que não é uma grande surpresa quando se trata do cineasta cujo trabalho anterior foi o implacável Gomorra. Ambos os longas usam a realidade de forma denunciatória, embora Reality tenha tinturas um pouco mais elaboradas. Por outro lado, o uso das noções de fantasia e idealização é, mais uma vez na obra de Garrone, um método óbvio para envolver o público nos posicionamentos que o interessam – problema que se intensifica quando o protagonista verbaliza o “subtexto” da história, já estabelecido na cena inicial.

Se o realismo foi usado como a ferramenta mais simples possível em Gomorra, em Reality há uma oposição entre a vida cotidiana de Luciano e seus sonhos de fama e fortuna, bem representada na tomada final, que ecoa aquela que abre o filme. Trata-se de outra panorâmica que explora, de forma quase idêntica, o conflito entre realidade e sonho, encerrando um discurso que se faz claro desde o início e estanque até o fim. A proposta, na verdade, é firmar a obsessão desmedida de Luciano em suas instabilidades mentais, objetivo que Garrone e os outros três co-roteiristas se esmeram para alcançar. O personagem cai em um círculo vicioso que distorce a realidade, como conseqüência da promessa da fantasia (sur)real de uma casa que se torna vitrine de relações humanas.

Além de ser visto como um retrato ridículo de um grupo de pessoas (todas, claro, dotadas de corpos atraentes) em uma situação supostamente sem corte e sem censura, o Big Brother surge como uma chance de se dar bem na vida que não envolve os meios tradicionais. Luciano, que trabalha duro em seu mercado de peixe e complementa renda com bicos, vê no programa uma oportunidade extraordinária, mágica. Seus delírios de ansiedade não raro incluem Enzo, o ex-Brother que não aparece fazendo qualquer tipo de atividade digna de nota, apenas exibindo sua figura conhecida em eventos aleatórios. Neste sentido, o fato de o filme se passar na Itália não cria a menor diferença cultural, pois esse gênero de celebridades recebe o mesmo tratamento no Brasil.

Apesar de seu realismo, que resvala na paradoxal natureza dos reality shows, o mais impressionante em Reality – A Grande Ilusão é o pouco que tem a dizer, especialmente por se tratar de um tema discutido em tantos países e em todo tipo de círculo social. Escancarado sem perda de tempo, inclusive no título ambíguo, o discurso é apenas ponto de partida para uma narrativa dramática sobre a mais tradicional loucura – a incapacidade de diferenciar realidade e imaginação. Que poucos vieses adicionais sejam incluídos no decorrer das duas horas de projeção são prova de que Matteo Garrone continua determinado a sacrificar a complexidade para explorar a emoção humana da forma mais bruta.