Hoje-Eu-Quero-Voltar-Sozinho-cartaz

por Janaina Pereira

Pense num filme sensível, que fale sobre o primeiro amor. Mas não é um primeiro amor qualquer: o protagonista é cego, nunca beijou uma menina e se depara com um sentimento profundo por um menino que acaba de chegar ao seu colégio. Os detalhes poderiam fazer de Hoje eu quero voltar sozinho , estreia desta quinta, dia 10, mais um filme sobre adolescentes, ou mais uma história de amor entre meninos, mas não é nada disso. O primeiro longa-metragem de Daniel Ribeiro (que também assina o roteiro) é, na verdade, uma história de amor tão comum que qualquer um de nós poderia ter vivido – e escrita de modo tão inteligente que torna o filme um dos grandes destaques do cinema nacional recente.

O filme nasceu do premiado curta de nome parecido –  Eu não quero voltar sozinho – onde Ribeiro já explorava o universo adolescente, e apresentava Leonardo (Ghilherme Lobo), o protagonista, e seus amigos Giovana (Tess Amorim) e Gabriel (Fabio Audi). No longa, Leonardo, adolescente cego que está em busca de seu lugar, planeja libertar-se do cotidiano fazendo uma viagem de intercâmbio. Ele quer ser mais independente, mas precisa lidar com a superproteção da mãe. A notícia cai como uma bomba no colo de sua inseparável melhor amiga, Giovana, mas a chegada de Gabriel, um novo aluno na escola, desperta sentimentos até então desconhecidos em Leonardo.

Diante de uma história simples, o roteiro de Daniel Ribeiro explora as emoções e sensações dos personagens. Desde a dança desengonçada de Leonardo às birras de Giovana com a amizade de Leo e Gabriel, tudo flui numa leveza que conquista de imediato o espectador. Nem mesmo as cenas de bullying (Leonardo é o único cego em seu colégio, e volta e meia um grupo de meninos implica com ele) querem dar lição de moral nas pessoas. O filme não foi feito com esta intenção – definitivamente o que vemos na tela é algo para nos identificarmos, sem o intuito de chocar ninguém. Ser cego e gay não é o que faz do protagonista um personagem que nos chame atenção – é o amor que ele tem pela vida, é a busca pela liberdade e realização de sonhos que movem seu universo. Vale a pena ressaltar que o ator Ghilherme Lobo não é cego, portanto sua interpretação absolutamente convincente é um grande destaque do filme.

A direção minimalista de Ribeiro coloca poesia em algumas cenas fundamentais – como os momentos em que Gabriel trata Leonardo como se ele enxergasse tudo, ou quando os dois vão ao cinema. A naturalidade como isso é apresentado, sem choques para ambos os personagens, fascina. E se eu contar mais vou estragar o melhor de Eu não quero voltar sozinho: o filme surpreende a cada cena, e a sensação que temos quando ele acaba é uma saudade imensa da adolescência e de como era legal viver aquelas emoções.

Vencedor de dois prêmios no Festival de Berlim deste ano – melhor filme da mostra Panorama, pela Fipresci (Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica) e prêmio Teddy de melhor filme com temática ou personagens LGBTs –  Hoje eu quero voltar sozinho também foi o segundo filme preferido do público do festival pelo voto popular. A boa repercussão contribuiu para que o filme seja distribuído para 14 países, incluindo Estados Unidos, França, Alemanha, Itália e Reino Unido. Agora é esperar que o Brasil corresponda, e prestigie o talento não só do diretor e roteirista, como de toda a equipe do filme. Afinal, a produção cinematográfica brasileira merece novos caminhos e Daniel Ribeiro e companhia encontraram um ótimo rumo: o do cinema sem exageros, onde a sensibilidade e a delicadeza falam mais alto.

Trio

por Janaina Pereira

Ísis Valverde e Fabrício Boliveira foram as estrelas da coletiva de imprensa paulistana do filme Faroeste Caboclo, realizada no último dia 20 de maio. Intérpretes de Maria Lúcia e João de Santo Cristo, os célebres personagens criados pelo cantor e compositor Renato Russo para a música que inspirou o filme, os atores mostraram total consciência da importância do longa para suas carreiras e para uma legião (com trocadilho) de fãs de Renato.

“Tive cuidado ao construir a personagem porque sei que Maria Lúcia é uma presença marcante no imaginário dos fãs de Legião Urbana. Foi importante nesse processo a ajuda da Dona Carmem, mãe do Renato Russo, que nos recebeu na casa da família em Brasília. Perguntei para ela em quem o Renato havia se inspirado para criar Maria Lúcia, e ela me mostrou fotos da turma dele na época e explicou: ‘não era uma Maria Lúcia, mas várias Marias Lúcias.’ Aí eu identifiquei o sorriso de uma, a tristeza de outra, e assim fui criando a personagem”, revelou Ísis, que foi questionada por uma repórter sobre a importância de Maria Lúcia ser maior no filme do que na música. A atriz não titubeou: “Não concordo, acho que Maria Lúcia é importante na música sim. E não escolho personagem pelo tamanho, mas pela densidade”.

Fabrício

Articulado, o ator Fabrício Boliveira (foto) descreveu Faroeste Caboclo como um filme político. “Apesar de retratar uma história dos anos 80, permite um diálogo com o Brasil de hoje, quando temos a resistência de Marco Feliciano (presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara), às diferenças e às minorias. E acho que as cenas mais violentas não são as de pancadaria, mas as que mostram o preconceito contra o Santo Cristo. Ele é negro, pobre, então seu destino é o tráfico, de olho na ascensão social. Mas há um tanto de escolha pessoal também. Que caminhos ele pode vislumbrar? Quero que o filme desperte essas questões e que elas permaneçam, em vez de a pessoa sair do cinema e ir comer uma pizza depois e esquecer”.

Faroeste Caboclo não segue linearmente a música de nove minutos de Renato Russo, o que é uma saída inteligente do roteiro. Ainda assim, o diretor René Sampaio foi confrontado por alguns jornalistas sobre essa opção. “A gente nunca quis fazer um clipe da música. Um clipe de 100 minutos seria meio chato. Achei que a gente devia amplificar o sentido e o significado da história e, além disso, buscar o que era essencial. Então quando você assiste ao filme, permanece com a essência dos personagens e do drama, sem perder o espírito”, explicou Sampaio, que mostrou durante a coletiva de imprensa a mesma segurança apresentada na direção deste seu primeiro longa-metragem.

Giuliano

Quem também esteve presente na coletiva foi o filho de Renato Russo, Giuliano Manfredini (foto), um dos produtores do longa. Ele contou sobre sua emoção ao participar do projeto, e revelou que seu pai escreveu a música já pensando em transformá-la em filme. “Faroeste foi destinado pelo meu pai para que virasse filme. Acompanhar esse resultado e participar disso… não tenho nem palavras para descrever a minha felicidade e o meu orgulho. É verossímil, extremamente fiel, mas ao mesmo tempo autônomo, tem vida própria. Meu pai com certeza teria adorado”.

O filme Faroeste Caboclo tem pré-estreia nesta quarta, dia 29, e estreia na quinta, dia 30.

Fotos: Angela Debellis

Estamos Juntos

junho 2, 2011

por Pedro Costa de Biasi

O paulistano frio, focado em seu trabalho, distante: Estamos Juntos pretende problematizar essa figura do lugar-comum. Não em um nível externo, mas puramente interno, criando conflitos para alterar o ângulo pelo qual Carmem (Leandra Leal) pode ser observada.

Vinda de uma cidade do interior do Rio de Janeiro, ela está se empenhando em sua carreira de médica. Desacostumada a sair e encontrar pessoas, negando até a companhia do amigo gay Murilo (Cauã Reymond), ela vive para seu trabalho. A pessoa que mais vê é o homem com quem mora (Lee Taylor). Apesar de resistir, ela começa a viver mudanças: o envolvimento com Juan (Nazareno Casero), o trabalho voluntário em uma comunidade de Sem-Teto e um mal-estar cada vez mais frequente que a faz suspeitar de uma doença séria.

Como dito, o interesse do diretor Toni Venturi não é propor uma reflexão sobre a insensibilidade paulistana ou com a natureza desse estereótipo. A razão das rupturas que atingem Carmem é de ordem causal e dramatúrgica. E, por mais que haja doses de pieguice ao largo dessa dramaturgia, muitas das boas escolhas de Venturi e do roteirista Hilton Lacerda também se constroem na mais básica interação entre os atores.

Há naturalidade dos diálogos e nas cenas, uma qualidade da encenação que cineastas brasileiros frequentemente erram. Sem os gaguejos de uma espontaneidade forçada e sem a entoação mecânica das falas, mas também longe de comprometer o entendimento, o contato entre os personagens ganha firmeza por soar tão verdadeiro. Até mesmo em instantes menos singelos, como a briga de Carmem com Murilo e a discussão com Juan, Reymond e Casero passam a franca insegurança da surpresa.

Venturi é menos feliz em sua proposta visual. Esbarrando em recursos pobres de instabilidade imagética, como planos-detalhe movimentados e irregularidades no foco, ele é vítima dos mesmos vícios do “Cinema-visceral” que atrapalharam Feliz Natal, embora, felizmente, não tenha cometido tamanhos excessos. A variação dessa filmagem derivativa para tomadas mais clássicas, algumas bem elegantes, chama a atenção.

Isto porque , desde o começo mas com intensidade crescente ao longo da projeção, sua falta de enfoque vai se escancarando. Os temas não se somam a um todo, e criam uma justaposição irregular de discursos políticos, sociais, culturais e até mesmo estéticos. O movimento dos Sem-Teto é apenas uma das atividades de Carmem, e se mistura com outras partículas de rotina como as conversas misteriosas com o personagem de Taylor e os encontros com Juan. A trama é sobre abertura afetiva, relações domésticas, tensões sociais e estereótipos sociais.

O único eixo é a protagonista, e chega a ser tocante a honestidade de admitir que todas essas ideias e intenções foram acopladas para produzir uma existência plural. Não digo que as questões sócio-culturais foram escolhidas de modo aleatório, pois algum interesse Lacerda e Venturi nutriam por elas. Porém, a construção de uma vida tão natural em sua disparidade envigora o retrato de Carmem.

O final acaba fragilizado, já que a proposta de manter a problematização no nível narrativo encontra óbvias inconsistências no momento de tecer as soluções dramatúrgicas. São saídas pobres, ainda mais no caso de dúvidas que podiam permanecer em aberto. Adicionar mais uma camada (distinta, inerente e própria) à vida de Carmem é uma opção natural, mas não se compara à possibilidade de deixar a dúvida sobre como se compõe a personagem.

Por conta desse gostinho de surpresa, como resposta à fala da protagonista (“Tudo anda tão sem surpresa”), Estamos Juntos acaba resvalando na banalidade que impregna a filmagem de Venturi. Felizmente, a narrativa e a encenação têm tanta vivacidade e tanta desordem que confeccionam uma experiência mundana muito gratificante.

Bruna Surfistinha

fevereiro 25, 2011

por Paloma Ornelas

A vida é uma gangorra. Uma hora se está por cima, na outra não. Assim foi a vida de Bruna Surfistinha. A história já é conhecida. Raquel Pacheco era uma adolescente comum adotada por uma família rica, mal compreendida por eles e sofria bullying no colégio. Em meio a essa conturbada realidade resolveu sair de casa e cair literalmente na vida. Sob a ótica de uma garota de programa sem meias palavras ou meias ações surge Bruna Surfistinha. Diferente de outras tantas histórias sobre prostituição Bruna não entrou nessa vida por necessidade, ela mergulhou no universo do sexo para se descobrir e saber quem era.

Além das escolhas que a garota fez e as transformações que acarretaram em sua vida, a grande questão apresentada pelo roteiro – o filme estreia hoje em grande circuito – é o modo como Bruna resolve se ‘conhecer’ melhor.  Era realmente necessário chegar ao fundo do poço por vias de álcool e drogas para se descobrir? Não seria mais fácil procurar um terapeuta? Essas são questões que somente a própria Surfistinha pode responder, o que fica claro é uma certa lição de auto ajuda que não chega a prejudicar o filme no todo, mas dá a narrativa um tom meio piegas no final das contas que destoa da personalidade de sua protagonista.

Bruna foi somente Bruna Surfistinha por ter o diferencial das outras garotas de programa e não excluir clientes, ter um blog bombado, saber se vender como ninguém, não se arrepender da atividade que abraçou e virar uma celebridade da internet como muitas vezes sua real pessoa criadora afirmou. Bruna é o alter ego de Raquel, é o contrário do que ela era. Na realidade Raquel não se descobre, ela dá vida a uma espécie de ser imbatível, inabalável, desejado, popular características opostas a sua verdadeira pessoa. Ela faz uma viagem ao submundo do sexo e das drogas para no fim achar a mesma garota que foi um dia. Mas, isso só foi possível pelos altos e baixos por quais ela passou, porque a vida é uma gangorra.

O longa é feito para Deborah Secco brilhar e é justamente isso o que acontece. Na televisão Deborah em seus personagens mais sensuais não conseguiu mostrar seu potencial de atuação da mesma maneira como acontece nesse trabalho. Competente logo nas primeiras cenas acompanhamos a transição da menina ingênua para a garota de programa descolada naturalmente. Misto de despudorada, erótica, cínica, engraçada, vulgar a atriz imprime ritmo do começo ao fim do filme captando as nuances da personagem de modo impecável.

Agradeça a Deborah, Bruna Surfistinha, por tornar sua personagem mais humana, menos robótica, menos máquina. Agradeça por defender o papel de forma tão competente e demonstrar na telona o que é trabalhar com prazer.

Nosso Lar

agosto 31, 2010

por Pedro Costa de Biasi


Falar que Nosso Lar – estreia desta sexta, dia 4, baseado no mais popular livro do médium Chico Xavier –  é moralista, doutrinador e antiquado é um jeito de perder outras questões de vista. Sim, os três adjetivos servem mais ou menos bem para descrever o filme de Wagner de Assis, mas não é construtivo se limitar a entender a proposta. O moralismo não é mais ou menos pronunciado que o normal só porque a temática é religiosa, e o roteiro é honesto em sua abordagem ideológica. Esta, por outro lado, se confunde com outro processo que se pode aproveitar sem nenhum laço doutrinário.
 
Mas, primeiro, a história: André Luiz (Renato Prieto) morre. Seu espírito desperta no Umbral, uma paisagem desolada e escura, repleta de almas desesperadas. Depois de muito sofrimento, ele faz uma oração e é resgatado por moradores do Nosso Lar, uma cidade espiritual situada 50 km acima da Terra. Lá ele conhece a existência após a vida e o funcionamento da sociedade das almas.
 
Sem a necessidade alguma de se identificar com o pensamento espírita, o espectador pode abordar a história como quem conhece um universo fantástico. Por mais que seja uma crença, Nosso Lar é um território que ninguém pode alcançar, a não ser depois de abrir mão do corpo, da boca que relata e das mãos que documentam. É uma mistura homogênea e ambígua entre verdade inalcançável e ficção.
 
Pode-se argumentar que a apropriação da crença como fantasia e vice-versa também ocorre em filmes como Irmãos de Fé e Maria – Mãe do Filho de Deus, mas há diferenças. Enquanto as parábolas cristãs se firmam no passado mesmo quando querem tratar do presente, Nosso Lar abarca presente e futuro. A descoberta da cidade das almas só ocorre após a vida, e o aprendizado é constante, sempre direcionado para frente. Até a arquitetura futurista passa a noção de avanço e desapego ao que já passou.
 
A inexistência física afrouxa os laços com a realidade em que vivemos, e até mesmo com a História ou com o futuro de nossa vivência. Não importa o que foi real na vida terrena, e sim o que será real depois dela – ou mesmo entre uma encarnação e outra. Quando Assis escolhe manter a trama nos anos 30 e 40, é apenas para criar uma interessante tensão envolvendo a II Guerra Mundial.
 
Infelizmente, quando a dramaturgia demanda um cruzamento entre a vida mundana e a espiritual, o roteiro de Assis se desequilibra. André Luiz é chamado de “suicida inconsciente”, por causa de seus hábitos degradantes, mas esse conceito é espiritual. Dessa forma, nunca se explica a ausência de orações dos familiares após sua morte, uma vez que tudo que o filme mostra são cenas de família-margarina.
 
Embora carismático, Prieto também atrapalha na construção do personagem, pois às vezes lhe falta a intensidade para transformar um sorriso ou um choro no gesto forte que deveria ser. O razoável elenco oferece uma atuação vibrante, de Rosanne Mulholland como Eloisa, mas sua personalidade desafiadora acaba sufocada por truques de roteiro baratos.
 
Todos são vítimas daquela encenação travada que caracteriza muitos filmes brasileiros. Assis ainda trabalha mal os embates ideológicos, não raro saltando para conciliações apressadas que não fazem jus ao crescimento de André – e até exagerando o impacto de questionamentos rasos de Eloisa. Resta o bom uso da trilha do sempre ótimo Phillip Glass, que constrói o deslumbramento e a proposta empreendedora do mundo espiritual.
 
Em vez de agregar valores negativos ao vilão e positivos ao herói, no caso de Nosso Lar, os valores dentro de cada um fazem esse papel. Tirando essa diferença, a produção pode ser classificada como uma mediana aventura de fantasia: um filme cheio de efeitos visuais ambientado em uma realidade alternativa de onde brotam tensões, mistérios e lições de vida.

por Pedro Costa de Biasi

Uma coletiva realizada no CineSesc reuniu jornalistas e elenco da produção Cabeça a Prêmio, que estreia nessa sexta, 20. Estiveram presentes Marçal Aquino, autor do livro homônimo em que o filme foi inspirado; Felipe Braga, roteirista da adaptação; Paulo Schmidt, produtor; Marco Ricca, diretor; e os atores Otávio Müller, Fulvio Stefanini, Cássio Gabus Mendes e Eduardo Moscovis.

Moscovis nem citou que era ator: “Eduardo Moscovis, amigo do Cássio”. Todos os entrevistados faziam questão de se referir uns aos outros como amigos. O diretor Marco Ricca se disse sortudo por ter contado com atores tão talentosos dispostos a trabalhar em seu primeiro longa.

“Fui cercado de uma equipe impressionante”, elogiou, agora também se referindo aos outros profissionais com quem trabalhou. “Não só a gente, como a equipe toda fazia questão de estar ali”, acrescentou Moscovis.

O filme acompanha personagens angustiados, apresentados a partir do desmoronamento de uma situação estável. “Parece que o universo conspira contra esses personagens”, disse Ricca, sobre o enfoque da trama. “(O filme) É angustiante porque a vida é angustiante”, completou, deixando claro que é essa sensação que espera causar no público.

Com um filme voltado para os personagens, o trabalho dos atores foi muito valorizado. Perguntado sobre a base de uma boa interpretação, Fulvio Stefanini disse: “O essencial é ter um bom personagem. Tem que ser um pouco irresponsável, arriscar. O trabalho de ator é o risco que a gente corre.”

A produção, orçada em R$ 4 milhões e 300 mil, foi rodada principalmente no município de Cidrolândia (MT). A pré-produção durou três meses e as filmagens ocuparam sete semanas. Apesar disso, a equipe passou seis meses na cidade, com viagens esporádicas para visitar suas famílias. Iniciado em 2007, o projeto foi finalizado em três anos, tempo relativamente curto para um filme nacional.

O principal problema enfrentado por Ricca foi a captação de recursos. “A iniciativa privada não está fácil. Os editais também, são feitos por amigos de amigos de amigos”, desabafou. O diretor revelou ainda que discorda do modo como o BNDES oferece fundos para o cinema brasileiro. Faz pouco tempo que o cineasta recebeu a primeira parcela do valor prometido para a realização do filme. “Os caras dão o dinheiro quando eles querem”, criticou.

Cabeça a Prêmio estreia nos cinemas brasileiros nessa sexta-feira, dia 20.

Cabeça a Prêmio

agosto 17, 2010

por Pedro Costa de Biasi

 

Tudo em Cabeça A Prêmio, produção nacional dirigida por Marco Ricca que estreia sexta, dia 20, se movimenta para sair do lugar. Muitos percalços depois, o caminho leva de volta ao ponto de onde partira. No entanto, o desvio usado para fugir das situações originais as reencontra potencializadas. De uma condição antes estável, então em seus primeiros estágios de desmoronamento, cai-se nas consequências mais extremas. O filme não é só sobre a derrocada de pessoas e sobre suas tentativas de escapar, mas também sobre a moralidade intrínseca a tais temas.
 
Os vários personagens se mantêm atrelados à família de um rico criador de gado, Miro (Fulvio Stefanini). O ciúme que sente da filha Elaine (Alice Braga) ameaça a relação da moça com o piloto de seu pai, Denis (Daniel Hendler). Ele voa pelas fronteiras do Brasil com cargas ilícitas. A presença do irmão do fazendeiro, Abílio (Otávio Müller), atrapalha os negócios, tornando a relação familiar tensa. Para proteger seus entes queridos, Miro mantém o capanga Albano (Cássio Gabus Mendes) e contrata Brito (Eduardo Moscovis), que tem seus próprios dramas.
 
No mundo ríspido que o diretor Marco Ricca constrói, os afetos não têm vez. O romance proibido de Denis e Elaine, assim como a aproximação entre Brito e Marlene (Via Negromonte) nunca alcançam a plenitude. Não é um ou outro obstáculo, mas toda a existência naquele universo que restringe as emoções humanas. Apenas um dos personagens é capaz de mudar algo com seus “sentimentos”, e a natureza dessa mudança explicita as regras do jogo.
 
Também é curioso como o carinho que Elaine recebe do pai não raro soa incestuoso, mesmo que só na imaginação do espectador. Outro bom indício de como funciona a moral do roteiro de Ricca e Felipe Braga está na forma como Miro tenta cuidar da família. A incapacidade de perceber os problemas da esposa Jussara (Ana Braga) contrasta com a proteção que sufoca Elaine.
 
O aspecto que mais enfraquece o corpo da obra é sua estrutura. Embora a trama se desdobre entre os personagens e seus anseios, a trajetória cíclica nunca é perdida de vista. Esse processo de fuga perde a força na medida em que elementos banais (o romance Romeu/Denis e Julieta/Elaine, o doentio ciúme paterno, as estranhezas de Brito) unem, fragilmente, as formas gerais que Ricca e Felipe Braga pretendem criar.
 
A moral básica da história também acaba danificada. A ausência de uma conclusão definitiva oferece possibilidades que remetem à natureza moralista do roteiro – que não é um defeito. O problema é que, entre corroborar o moralismo, negá-lo, afastar a catarse e duvidar de sua existência, o filme parece fugir de sua postura original de reagir à desumanidade. Tudo aponta para um final, e, quando ele surge, coloca em xeque coisas cuja integridade nunca foi enfrentada, talvez para evitar a alcunha de “moralista”.
 
De outra maneira, pareceria apenas uma continuação da linguagem interessante criada pelo roteirista e pelo diretor. Apesar da predominância das entrelinhas e dos subentendidos, nenhuma informação se perde por falta de clareza, resultando em uma alternativa muito bem-vinda a uma narrativa expositiva. A encenação inteligente de Ricca oferece tempo e espaço para as tensões se desenvolverem em silêncio, indo além do campo/contracampo tanto em olhares unidirecionais quanto em planos abertos.
 
A valorização do elenco também é notável, dando muito mais liberdade de imagem que outro ator-diretor, Selton Mello, deu em sua estreia. A intensidade dos intérpretes é capturada com eficiência, independentemente do formato da cena. Embora não haja elos fracos, merecem destaque as valorosas participações de Ana Braga e de Negromonte, assim como Alice Braga, que vai se intensificando ao longo da história.
 
Com uma potência nítida em cena, Gabus Mendes traz um cinismo efusivo e Moscovis rebate com uma postura lacônica mas muitíssimo expressiva. Cada um tem suas hesitações, mas Albano representa uma conivência com o “lado errado”, enquanto o “bom” Brito se esforça para escapar de um círculo vicioso em que a frieza afasta a ternura, levando a mais frieza. Os dois representam o que há de mais brilhante no elenco, o que diz muito sobre a posição dos roteiristas perante sua obra.
 
É triste que o final, nas variações que consciente ou inconscientemente possibilita, acabe drenando parte da firmeza de um conto de moral bem construído e recheado de ótimos atores.

400 contra 1

agosto 8, 2010

 

por Alice Jones

O cinema brasileiro cada vez mais se confunde com a tríade violência- favela – pobreza. 400 contra 1 — A história do Comando Vermelho, de Caco Souza, é mais um filme para entrar nesta lista e, provavelmente, vai ficar no final dela. O longa já está sendo exibido desde a últiam sexta, dia 6.

Baseado na autobiografia de William da Silva Lima, um dos articuladores do Comando Vermelho, considerada a maior facção criminosa do país, 400 contra 1 tenta relatar os acontecimentos que levaram a criação do grupo. A locação principal é a prisão de Ilha Grande, onde William (o sempre competente Daniel de Oliveira) é levado preso pela segunda vez.

Quando chega lá o rapaz percebe que as coisas mudaram e os presos ‘normais’ estavam separados dos presos políticos. A partir daí se desenrola a história, contada de forma não linear e extremamente confusa.

400 contra 1 também possui uma narração em off  fraca, que se limita a repetir o que está sendo exibido nas telas, ou seja, totalmente desnecessária. O foco da trama – que seria mostrar que o Comando Vermelho era, inicialmente, uma tentativa de melhorar as condições entre os presidiários, construindo principalmente uma união entre eles – acaba perdido numa trama lenta, com diálogos fracos e monótonos.

Bem que o diretor tentou fazer um filme cult, com trilha sonora pop, mas isso – e algumas atuações regulares – não salvaram a história.


Por Diego Estrella
 
A coletiva de imprensa para o lançamento do filme Quincas Berro D’Água – que estreia hoje contou com a participação do diretor Sérgio Machado, do elenco, do diretor de arte, Adrian Cooper, e do compositor da trilha sonora, Beto Villares. Os membros do elenco presentes foram a trupe principal do enredo, Paulo José (Quincas), Flávio Bauraqui (Pastinha), Irandhir Santos (Cabo Martim), Luis Miranda (Pé de Vento) e Frank Menezes (Curió).

A conversa com os jornalistas foi marcada por um tom informal, com inúmeras brincadeiras entre o elenco e o diretor. De início, Sérgio Machado explicou que sua relação com Jorge Amado existe desde o começo de sua carreira, quando o escritor o apresentou a Walter Salles, com quem o diretor trabalha até hoje. O livro A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água é, segundo ele, o melhor livro do escritor.

“O tema central é a morte, mas [o filme] fala o tempo todo da vida”, explicou. E essa idéia foi reforçada depois por Frank Menezes ao falar que o filme é uma homenagem à amizade e à vida. A amizade, aliás, estava também fora das câmeras. Para cada declaração, sempre havia uma interrupção, principalmente de Paulo José, roubando a cenas com um comentário bem humorado, e que logo se transformava em uma conversa entre amigos lembrando bons momentos. Resultado de um grupo que passou dois meses se preparando para gravar.

Sobre a ambientação, Machado disse que a idéia era fazer um filme que se passasse nos anos 1950, mas com a linguagem cinematográfica atual, complementado por Adrian Cooper, que afirmou que Salvador continua como era há cinco décadas. Os detalhes na elaboração do filme foram meticulosos. O diretor afirmou que toda a produção levou dois anos, e lembra que determinadas cenas, como a do barco na tempestade, levaram meses até serem terminadas.

O perfeccionismo de Machado, aliás, foi além. Ele chegou a fazer 500 páginas de anotações com detalhes como a tampinha de garrafa que o Cabo Martim usa como medalha, um detalhe que passa praticamente despercebido ao público.

Sobre a música, Beto Villares deixou claro que não tiveram intenção de se prender a ritmos baianos ou da época da história, apesar da música parecer vinda de um circo. Eles chegaram a pedir para os músicos desafinarem um pouco, para ajudar no tom cômico, meio patético. Machado lembrou diversos ritmos usados: maracatu, reggae, sambarock, até mambo. Nenhum ritmo tipicamente baiano, porém. Villares lembra que não havia intenção de se prender à época e ao local em que estavam.

Apesar do resultado final ser cômico, o diretor afirmou que o humor veio de cenas intensas e dramáticas, do desencontro entre o ridículo da situação e a seriedade com que os personagens era interpretados. Paulo José comparou-os com o vagabundo de Chaplin. Para ele, os personagens eram sujos, suados, mas agem de maneira fina, aristocrata. E esse limiar entre o ridículo e o sério foi um desafio para Frank Menezes, com uma carreira longa como humorista, interpretando um personagem vestido de palhaço, mas triste.

 

Por Janaina Pereira

Os aclamados diretores Marcelo Gomes, de Cinema, Aspirinas e Urubus, e Karim Ainouz, de O Céu de Suely, estão de volta. Eles assinam a direção do introspectivo Viajo porque preciso, volto porque te amo, que estreia nesta sexta, dia 7.

O longa narra a solitária viagem pelo sertão nordestino feita por um geólogo, José Renato, que não aparece em momento algum do filme. Só ouvimos a sua voz, ou melhor, do ator Idanhir Santos, que o ‘interpreta’, e acompanhamos com seu olhar as andanças para esquecer a mulher que ama, mas que o abandonou.

Em entrevista exclusiva ao Cinemmarte, Gomes e Karim falam sobre o filme que nos leva a uma viagem pelo sertão nordestino mas que, acima de tudo, é uma grande história de amor.

Cinemmarte – Como surgiu a ideia dessa parceria para realizar Viajo porque preciso, volto porque te amo?

Marcelo Gomes – Quando eu e Karim nos conhecemos logo percebemos uma afinidade e, a partir daí, começamos a trabalhar juntos. Ele me ajudou no roteiro de Cinema, Aspirinas e Urubus, e eu o ajudei no roteiro de Madame Satã. Já faz alguns anos que tivemos a ideia de fazer esse filme viajando pelo sertão, uma coisa meio a flor da pele, destruindo estereótipos. Viajo porque preciso,volto porque te amo, na verdade, é meio que um filme de guerrilha, feito com poucas pessoas.

Karim Ainouz – A gente fez a viagem mas não tinha ideia de como seria o filme. Avaliando as imagens que captamos vimos que elas falavam de um lugar isolado e tinham um gosto de abandono. Foi aí que pensamos que seria bonito o personagem ter essa sensação de abandono, e surgiu a ideia do protagonista estar saindo de um processo de separação. Até pensamos em colocar traços do personagem em trechos do filme, mas chegamos a conclusão de que seria mais bonito ele não aparecer.

 Cinemmarte – Até que ponto o olhar do personagem sobre o sertão é o olhar de cada um de vocês?

MG – Mesmo o personagem sendo ficcional a gente acaba emprestando várias coisas a ele. Ele tem o meu conhecimento da região e, ao mesmo tempo, o meu desconhecimento. Ele descobre pessoas, lugares, um novo sertão diferente do que ele pensava. E, a medida que o personagem descobre tudo isso, eu vou aprendendo com o filme também.

KA – Têm algumas coisas em comum, mas o que o personagem faz é abrir os olhos e ter este olhar do sertão de agora. Quisemos que ele fosse um geólogo porque isso faz com que ele tenha relação física com o lugar. Ele viaja para descobrir aqueles lugares, embora os locais por onde ele passa nem sempre soem familiares. Ele olha as paisagens, e é quando sente falta da mulher que ama, mas também olha as pessoas.

Cinemmarte – O filme passou pelo Festival de Veneza, Festival do Rio, Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e agora finalmente chega ao circuito. Qual a expectativa em relação ao público que vai ver o filme?

MG – O público que prestigia nossos filmes certamente vai assistir, mas espero que ele alcance outro público também, de pessoas que podem nem conhecer nosso trabalho mas vão interessadas na história. Porque o filme conta uma grande história de amor, e histórias de amor são universais. O cinema instiga nossa imaginação e o objetivo do filme também é fazer o espectador compartilhar da viagem do personagem, lembrar de suas próprias viagens e se emocionar com essas lembranças. A magia do cinema é isso, esse compartilhamento. Espero também que as pessoas observem os silêncios que a história tem, pois esses silêncios são os pensamentos dos diretores, do personagem e do público.

KA – O filme propõe uma nova forma de narrar e tem um frescor só dele. Nossa grande dúvida era se as pessoas vão embarcar nessa viagem e ter afeto pelo personagem. Pelo que vimos nos festivais, parte do público não embarca e não se identifica com o protagonista, mas a outra parte olha e diz: “Eu sou o personagem que está viajando”. Muita gente já foi abandonado e caiu na estrada para esquecer, e é aí que está a identificação. Tem gente que esquece que o personagem não está lá. A proposta do filme é ‘senta aqui nessa sala escura e viaja comigo.’ Isso é muito particular dele, é como se o protagonista pegasse na mão do espectador e o levasse para viajar junto. Mas o cinema não é, verdadeiramente, uma pequena viagem? Sempre comparei o cinema a duas coisas: viagem e roda gigante. E no final até conseguimos ter uma imagem de roda gigante!

Cinemmarte – Qual o próximo projeto de vocês?

MG – Sempre quis fazer um filme sobre jovens, mas especificamente sobre o jovem recém saído da faculdade, na faixa de 23 a 25 anos, que não tem perspectiva, não sabe o que fazer da vida profissional e tem uma relação de amor e ódio com o Brasil. Também queria fazer um filme sobre Recife, a cidade em que sempre vivi. Resolvi unir as duas coisas e, a partir de outubro, começo a filmar. O título provisório é Era uma vez Verônica. Será um filme urbano, nada de road movie, e espero concluir até o início do ano que vem.

KA – Estou trabalhando agora na continuação da série Alice para a HBO e começando a filmar Praia do futuro, entre Fortaleza e Berlim. Tenho para 2011 um projeto no Japão, um filme sobre uma brasileira que vai morar lá. Para o ano que vem também vou filmar uma história baseada na música Olhos nos Olhos, do Chico Buarque. É sobre um casal que, depois de 20 anos juntos, ele abandona a mulher deixando apenas uma carta. A reação da mulher, que vai ser interpretada pela Alessandra Negrini, nas 24 horas após esse abandono é o eixo do filme.

Leia crítica de Viajo porque preciso, volto porque te amo.