Hoje-Eu-Quero-Voltar-Sozinho-cartaz

por Janaina Pereira

Pense num filme sensível, que fale sobre o primeiro amor. Mas não é um primeiro amor qualquer: o protagonista é cego, nunca beijou uma menina e se depara com um sentimento profundo por um menino que acaba de chegar ao seu colégio. Os detalhes poderiam fazer de Hoje eu quero voltar sozinho , estreia desta quinta, dia 10, mais um filme sobre adolescentes, ou mais uma história de amor entre meninos, mas não é nada disso. O primeiro longa-metragem de Daniel Ribeiro (que também assina o roteiro) é, na verdade, uma história de amor tão comum que qualquer um de nós poderia ter vivido – e escrita de modo tão inteligente que torna o filme um dos grandes destaques do cinema nacional recente.

O filme nasceu do premiado curta de nome parecido –  Eu não quero voltar sozinho – onde Ribeiro já explorava o universo adolescente, e apresentava Leonardo (Ghilherme Lobo), o protagonista, e seus amigos Giovana (Tess Amorim) e Gabriel (Fabio Audi). No longa, Leonardo, adolescente cego que está em busca de seu lugar, planeja libertar-se do cotidiano fazendo uma viagem de intercâmbio. Ele quer ser mais independente, mas precisa lidar com a superproteção da mãe. A notícia cai como uma bomba no colo de sua inseparável melhor amiga, Giovana, mas a chegada de Gabriel, um novo aluno na escola, desperta sentimentos até então desconhecidos em Leonardo.

Diante de uma história simples, o roteiro de Daniel Ribeiro explora as emoções e sensações dos personagens. Desde a dança desengonçada de Leonardo às birras de Giovana com a amizade de Leo e Gabriel, tudo flui numa leveza que conquista de imediato o espectador. Nem mesmo as cenas de bullying (Leonardo é o único cego em seu colégio, e volta e meia um grupo de meninos implica com ele) querem dar lição de moral nas pessoas. O filme não foi feito com esta intenção – definitivamente o que vemos na tela é algo para nos identificarmos, sem o intuito de chocar ninguém. Ser cego e gay não é o que faz do protagonista um personagem que nos chame atenção – é o amor que ele tem pela vida, é a busca pela liberdade e realização de sonhos que movem seu universo. Vale a pena ressaltar que o ator Ghilherme Lobo não é cego, portanto sua interpretação absolutamente convincente é um grande destaque do filme.

A direção minimalista de Ribeiro coloca poesia em algumas cenas fundamentais – como os momentos em que Gabriel trata Leonardo como se ele enxergasse tudo, ou quando os dois vão ao cinema. A naturalidade como isso é apresentado, sem choques para ambos os personagens, fascina. E se eu contar mais vou estragar o melhor de Eu não quero voltar sozinho: o filme surpreende a cada cena, e a sensação que temos quando ele acaba é uma saudade imensa da adolescência e de como era legal viver aquelas emoções.

Vencedor de dois prêmios no Festival de Berlim deste ano – melhor filme da mostra Panorama, pela Fipresci (Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica) e prêmio Teddy de melhor filme com temática ou personagens LGBTs –  Hoje eu quero voltar sozinho também foi o segundo filme preferido do público do festival pelo voto popular. A boa repercussão contribuiu para que o filme seja distribuído para 14 países, incluindo Estados Unidos, França, Alemanha, Itália e Reino Unido. Agora é esperar que o Brasil corresponda, e prestigie o talento não só do diretor e roteirista, como de toda a equipe do filme. Afinal, a produção cinematográfica brasileira merece novos caminhos e Daniel Ribeiro e companhia encontraram um ótimo rumo: o do cinema sem exageros, onde a sensibilidade e a delicadeza falam mais alto.

Rivalidades no Oscar 2014

fevereiro 28, 2014

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Por Janaina Pereira

 

Mais uma edição do Oscar acontece no próximo dia 2, e alguns duelos entre os indicados estão sendo muito aguardados. Como o ano passado teve uma boa safra de produções, está difícil saber quem vai vencer em algumas categorias. É o caso dos indicados a melhor filme, onde 12 anos de Escravidão e Gravidade concorrem com igualdade de condições, sendo seguidos de perto por Trapaça. Os diretores destes filmes, concorrentes entre si também em sua respectiva categoria, também travam um bom duelo. Embora David O. Russel – diretor de Trapaça – corra por fora na disputa, quando se trata de Oscar tudo é possível. Mas, aqui, o favorito parece mesmo ser Alfonso Cuáron, que pode levar o prêmio de diretor mas ver o seu Gravidade não ganhar como melhor filme. Assim como o inglês Steve McQueen pode não se tornar o primeiro negro a ganhar o prêmio de diretor, mas pode vencer com seu filme 12 anos de Escravidão. Ou vice-versa. Nesta rivalidade, o mais difícil parece ser uma vitória dupla – para filme e diretor. A tendência é a Academia de Hollywood amenizar a disputa dando um prêmio para cada um.

Entre os atores uma das mais fortes rivalidades coloca de um lado Leonardo Di Caprio e do outro Matthew McConaughey. Embora McConaughey seja o favorito por seu desempenho em Clube de Compras Dallas, cresce uma corrente que acha que Di Caprio (indicado por O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese) já passou da hora de vencer – o ator soma quatro indicações, sem contar as várias ‘não indicações’ ao longo dos anos. Muitos críticos de cinema apontam uma certa perseguição da Academia com Leo, mas até o público entrou nessa briga, lançando vários ‘memes’ em que Leonardo Di Caprio aparece como injustiçado por não ter a estatueta dourada.

Na categoria ator coadjuvante a disputa está entre Jared Leto (por Clube de Compras Dallas) e Michael Fassbender (por 12 anos de Escravidão). Até o final do ano passado, a atuação de Fassbender era apontada como uma das melhores dos últimos tempos no cinema. Porém, Leto parece ter arrebatado a crítica com seu transexual vítima da Aids, e vem conquistando todos os prêmios da temporada.

Entre as mulheres, algumas curiosidades: ninguém deve tirar o Oscar das mãos de Cate Blanchett. Uma rara unanimidade por sua atuação em Blue Jasmine, de Woody Allen, Cate deve levar sua segunda estatueta para casa – ela ganhou como coadjuvante por O Aviador (2004), de Martin Scorsese. Porém, a loira deve ficar atenta à sua maior rival – ninguém menos que Judi Dench, que contracenou com Cate em Notas sobre um Escândalo, que, aliás, rendeu indicação as duas no ano de 2007 – Judi como atriz, Cate como coadjuvante.

Outro fato curioso é o duelo velado de duas das maiores estrelas do cinema americano: Julia Roberts e Sandra Bullock. Julia já era famosa quando Sandra apareceu na telona e a crítica começou a comparar o trabalho de ambas. Na época, Julia Roberts alegou que Sandra não podia ser “uma nova Julia” porque era mais velha que ela. As atrizes sempre foram campeãs de bilheteria mas demoraram a ter seu lugar ao sol no Oscar. Julia ganhou em 2001 por Erin Brockovich e Sandra levou a melhor em 2011 por Um Sonho Possível (depois de 20 anos de carreira e em sua primeira indicação). A crítica sempre apostou que elas nunca mais seriam indicadas. E este ano lá estão elas de volta, só que em categorias diferentes: Sandra concorre como atriz por Gravidade e Julia como coadjuvante por Álbum de Família.

A rivalidade mais acirrada, porém, é entre as atrizes coadjuvantes. A estreante Lupita Nyong’o, 30 anos, disputa palmo a palmo o Oscar com a ‘veterana’ Jennifer Lawrence, 23 anos. Lupita é a revelação de 12 anos de Escravidão, e tem a seu favor um filme forte e muito bem cotado nas premiações. Porém, Jennifer, que faz uma alcóolatra em Trapaça, é a queridinha do cinema americano, e já está em sua terceira indicação – e não podemos esquecer que o Oscar de melhor atriz do ano passado foi dela. Elas dividem os holofotes nesta temporada de premiações: ora uma ganha um prêmio aqui, ora a outra ganha ali. Façam suas apostas.

12 anos de Escravidão

fevereiro 18, 2014

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por Janaina Pereira

 

Steve McQueen é um dos melhores cineastas da atualidade. No entanto, o inglês, homônimo do falecido ator americano, não é conhecido do ‘grande público’ no Brasil. Seus dois primeiros filmes – Hunger e Shame – foram exibidos em festivais de cinema (Cannes e Veneza, respectivamente) com muito sucesso, e lançaram aos olhos do mundo o ator alemão Michael Fassbender. Com uma história real americana, McQueen vem chamando a atenção do público e da crítica e parece que, finalmente, será reconhecido também em solo tupiniquim. Porque 12 anos de Escravidão (12 years a Slave), seu novo filme que estreia nesta sexta, 21, é uma das melhores produções dos últimos tempos.

Baseado no livro homônimo de Solomon Northup, o longa conta a história do próprio Solomon (interpretado de forma ímpar por Chiwetel Ejiofor, de Coisas Belas e Sujas), violinista negro e alforriado em Saratoga, Estado de Nova York. Em 1841 ele foi sequestrado em Washington e vendido como escravo na Louisiana. Acompanhamos sua saga ao longo de 12 anos, quando passa por alguns senhores de escravo até chegar às mãos do cruel Epps (o sempre brilhante Michael Fassbender, de Shame), que açoita os escravos sem dó nem piedade.

Em sua sangrenta jornada, Solomon tenta esconder que sabe ler e escrever, para que sua formação não lhe custe a própria vida. Ele vê negros morrendo por nada, e tenta compreender o porquê da escravidão. Ainda assim, se mantém aparentemente passivo diante dos constantes abusos físicos que Patsey (a estreante Lupita Nyong’o) sofre de Epps, e a forma como isso vira agressão pelas mãos da esposa do senhor de escravos (Sarah Paulson, de Amor Bandido). 

A passividade, porém, é puro instinto de sobrevivência. Não reagir com o corpo é corroer a alma e expressar no olhar. E aí entra a força da interpretação de Chiwetel Ejiofor – desde já uma das mais marcantes da história do cinema. Enquanto no dia-a-dia ele parece aceitar aquela vida injusta, seus olhos dizem outra coisa.  O desespero, o pavor e o pedido de socorro que são vistos claramente no olhar de Solomon/ Ejiofor fazem o espectador querer entrar na tela para salvá-lo. Reparem na cena do enterro de um escravo, onde Solomon canta e parece colocar para fora, pela primeira vez, a sua dor, expressa pelas palavras da música, e não apenas pelo olhar.  

No ótimo elenco que tem nomes como Benedict Cumberbatch (Star Trek Além da Escuridão), Paul Giamatti (Tudo pelo Poder), Paul Dano (Os Suspeitos) e (o também produtor do longa) Brad Pitt (Guerra Mundial Z),  Michael Fassbender (parceiro de McQueen em todos os seus filmes) mais uma vez mostra porque é um dos melhores atores do mundo, e dá ao público outra atuação visceral e memorável. Já a revelação Lupita Nyong’o aparece o suficiente para garantir seu (merecido) Oscar de coadjuvante – o longa foi indicado em nove categorias, entre elas melhor filme, diretor, ator (Ejiofor) e ator coadjuvante (Fassbender). 

Destacam-se também a trilha sonora de Hans Zimmer, a fotografia, o roteiro no ritmo certo e a direção impecável de Steve McQueen. 

Muito se fala que 12 anos de Escravidão é um filme violento, uma espécie de Paixão de Cristo (filme de Mel Gibson) dos escravos. Discordo. A produção traz à tona uma história real sobre sequestro de escravos livres, algo que eu – e a maioria da humanidade – sequer imaginava que um dia tivesse acontecido. A violência de fato está lá – e sabemos que isso foi real – e vem num crescente, explodindo na cena em que Epps resolve castigar Patsey, já na parte final do filme.  Não há nada de desnecessário ou abusivo nas cenas de sangue e lágrimas: McQueen apenas mostra corajosamente o que de fato aconteceu. 

Perdendo terreno na corrida para o Oscar para Gravidade e Trapaça, é de se espantar que alguém ainda tenha dúvidas de que 12 anos de Escravidão é o filme do ano. O tema é árido, existem cenas difíceis, mas diante de uma humanidade que insiste na discriminação – de negros, mulheres, homossexuais, judeus, idosos – este é o filme mais importante produzido nos últimos anos.  

Se você tiver que escolher um filme, um único filme para assistir, veja 12 anos de Escravidão. Você vai ficar emocionalmente abalado, pode até chorar e ficar angustiado, mas ele é necessário para o mundo em que vivemos. E se eu puder descrevê-lo em uma palavra, digo a vocês que 12 anos de Escravidão é devastador.

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por Janaina Pereira

O italiano Paolo Sorrentino, diretor dos premiados Il Divo (2008) e Aqui é o meu lugar (2011), viveu dias intensos no começo de outubro, no Rio de Janeiro. Convidado a participar do Festival do Rio, onde seu filme A Grande Beleza (La grande bellezza) foi apresentado, o diretor também filmou na Cidade Maravilhosa um dos episódios do filme Rio, Eu te Amo, previsto para estrear em 2014. Durante o Festival, Sorrentino participou de um debate após a première do longa, que é o candidato apresentado pela Itália para concorrer a uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar. A Grande Beleza foi exibido em Cannes este ano com muito sucesso, mas não levou nenhum prêmio. No Festival do Rio, teve salas lotadas em todas as suas exibições, e foi apontado como um dos melhores do evento. Sua estreia em circuito – São Paulo, Rio e Brasília – acontece nesta sexta, 20.

Já o longa metragem em episódios Rio, Eu te Amo foi rodado por Sorrentino na praia carioca de Grumari. Ele participa do filme ao lado de outros diretores estrangeiros, como a libanesa Nadine Labaki e o mexicano Guillermo Arriaga, e os brasileiros Fernando Meirelles, José Padilha e Andrucha Waddington. O filme faz parte da franquia Cities of Love, que já exibiu Paris, Eu te Amo e Nova York, Eu te Amo.

Aos 43 anos, sendo 20 deles dedicados à sétima arte, o cineasta é considerado um dos mais importantes cineastas da nova geração do cinema italiano. Durante o Festival do Rio, ele conversou com um pequeno grupo de jornalistas, onde estávamos presente. Na entrevista, o diretor fala da atual produção de seu país, das comparações que A Grande Beleza recebeu com A Doce Vida de Fellini e da experiência de filmar no Rio de Janeiro.

A Grande Beleza é o representante italiano à indicação para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Como recebeu a notícia?
Paolo Sorrentino – Estou feliz e honrado. Mas, para nós, europeus, o Oscar é uma premiação que sempre parece um pouco distante. Sabemos que, na verdade, não passa de um jogo. Um grande jogo.

O cinema italiano está em uma boa fase, e tem recebido premiações em muitos festivais pelo mundo. O que o senhor acha disso?
PS – A Itália teve um passado cinematográfico com grandes gênios. Isso, para os diretores das novas gerações, é complicado, porque gera uma cobrança desnecessária em relação ao nosso trabalho. A premiação é importante para dar visibilidade a esta geração.

Em A Grande Beleza, os personagens parecem amar e odiar Roma ao mesmo tempo. Você, como napolitano, também tem este sentimento?
PS – Acho que esse é um sentimento controverso e que todas as pessoas em todas as grandes cidades do mundo podem entender. Toda metrópole tem atrações e problemas. Mas para mim, em particular, é fácil viver em Roma e eu realmente amo a cidade, com todos os seus encantos e defeitos.

E a atmosfera de sonho e decadência da sociedade romana que permeia todo o filme?
PS – Alguns personagens foram, de fato, inspirados em pessoas reais, mas a ideia era fazer um painel de Roma e sua fauna noturna como um todo. É uma mistura de sonho com realidade. O filme foi pensado assim, porque Roma pode ser uma cidade dos sonhos, com suas belezas e sensações, mas também com algo de falso; por isso, essa atmosfera de sonho.

A crítica o tem comparado ao filme a A Doce Vida de Federico Fellini.
PS – Sim, é verdade que ambos falam do mesmo tema, mas têm estilos diferentes. E, definitivamente, eu não sou Fellini.

Como surgiu o convite para participar do longa Rio, Eu te amo?
PS – O convite surgiu de um dos produtores, que me falou sobre o filme e perguntou se eu estaria interessado em participar.

Como é o episódio que o senhor dirige?
PS – Meu episódio fala sobre um casal de turistas americanos: a atriz inglesa Emily Mortimer e o americano Basil Hoffman, que está vivendo uma relação muito complicada. Eles se odeiam, vêm ao Rio e o marido resolve envolver a esposa em algo bastante perigoso. Filmamos durante dois dias em uma praia e já comecei a montagem. É uma história que não daria para ser um longa-metragem, então acho que, como curta, dentro de um filme sobre a cidade do Rio, é o ideal.

A Grande Beleza

novembro 6, 2013

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por Janaina Pereira

Roma é uma das cidades que mais amo neste mundo. Mas, quando estive lá, saí com a sensação de que não teria condições emocionais de voltar tão cedo. A cidade me absorveu por completo, me deixou esgotada com seu caos e beleza. Era tanta igreja, praça, museus, fontes, histórias … parecia que eu estava dentro de um livro. Eu me sentia, finalmente, fazendo parte da história do mundo. Ao mesmo tempo, Roma me sufocou não só pelo verão escaldante, mas pelos seus excessos. De informação, de situações, de romantismo, de felicidade, de coisas que vivi em suas ruas e que nunca mais terei de volta. E é exatamente essa sensação de ter tudo e não ter nada que o filme A Grande Beleza (La Grande Bellezza), de Paolo Sorrentino (Aqui é o meu lugar), mostra com precisão. O longa, indicado italiano a uma vaga na categoria filme estrangeiro do Oscar 2014, será exibido na 9ª edição do Festival Pirelli de Cinema Italiano, em São Paulo, de 29 de novembro a 5 de dezembro. A estreia em circuito nacional está prevista para dezembro.

Logo nos primeiros minutos do filme vemos uma grande festa para comemorar os 65 anos de Jep Gambardella (Toni Servillo). Ele é um escritor napolitano que mora em Roma, um tipo sarcástico que vive cercado de pessoas consideradas influentes. Mas Jep, na verdade, escreveu um livro que fez muito sucesso – e vive da fama desde então. Entrevista supostas celebridades aqui e ali, e não explica para ninguém o porquê de não ter escrito outro livro. Sua casa é o ponto de encontro de intelectuais e artistas, a ‘nata’ romana. Sob o ponto de vista de Jep, a trama se desenvolve mostrando um mundo de pessoas vazias; a aparência que sempre engana; o que parece ser, mas não é.

Há de tudo um pouco: Jep descobrindo que não quer mais sexo casual; tentando reviver sentimentos de afeto com a ajuda de uma stripper quarentona (um dos momentos mais sensíveis do filme); observando o culto à beleza nos dias de hoje (na ótima cena sobre o que as pessoas fazem para se manterem jovens e bonitas); destruindo verbalmente uma amiga que posa de superior aos outros; e sonhando com um amor do passado, a mulher que o largou sem dizer o porquê, e que, talvez, tenha feito ele perder um pouco da fé na humanidade. A fé, aliás, é um dos destaques no trecho final do filme, na impecável cena do jantar com o cardeal que um dia será Papa, onde Jep questiona a espiritualidade daqueles que supostamente vivem pela fé. E é justamente no julgamento sobre a fé que Jep revela o motivo de não escrever mais livros, algo que justifica todo o seu olhar cínico e irônico para o mundo.

No meio de tantas reflexões, Roma aparece como um personagem importante e, se transportarmos as situações para as metrópoles mundo a fora, facilmente conseguiremos nos identificar. A cena em que um dos amigos de Jep, depois de finalmente conseguir sucesso no teatro, resolve ir embora da cidade – argumentando que Roma o decepcionou – mostra o quanto as contradições das metrópoles se fazem cada vez mais presente: às vezes estas cidades nos dão exatamente o que queremos, e aí descobrimos que nada daquilo valeu a pena.

A Grande Beleza tem roteiro de Paolo Sorrentino e Umberto Contarello, em que as imagens de Roma são pontuadas por uma ótima trilha sonora (com música de Lele Marchitelli) e pela elaborada edição de som da brasileira Silvia Moraes. Para contrapor a superficialidade das pessoas, cores vivas no figurino do protagonista, criado por Daniela Ciancio, e sequências cheias de intensidade, na montagem de Cristiano Travaglioli. O longa conta também com a atuação brilhante de um dos maiores atores italianos, Toni Servillo (A bela que dorme) e a direção impecável de Sorrentino, que faz de Roma um personagem tão marcante quanto Jep Gambardella. Ainda que não tenha sido lembrado com o carinho que merece no Festival de Cannes deste ano, o filme foi exibido com sucesso no Festival do Rio, e é, sem dúvida, um dos melhores do ano.

No final da história, fica a pergunta: onde está a grande beleza da vida? Num mundo de contradições, onde o que é bonito para uns pode ser horrível para outros, de repente essa beleza nem existe mais. Por isso não se espante se sair do cinema com uma sensação de tristeza e melancolia, porque talvez seja exatamente isto que o mundo de hoje tem para nos oferecer.

Bastardos

outubro 18, 2013

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Por Pedro de Biasi

Em Bastardos (Les Salauds), exibido no Festival do Rio e que estreia nesta sexta, 18, não há exatamente elementos inovadores ou originais. Os temas de família, abuso sexual, reencontros, o conflito de romance com drama, o díptico personagem principal/perspectiva do espectador e outros aspectos já foram pisados e repisados em um sem-número de filmes. Normalmente, o sabor que faz com que uma obra se destaque não é a suposta novidade de um ou outro ingrediente, mas sim a forma como todos os elementos se misturam como experiência dramática. É assim com o mais recente trabalho de Claire Denis, que a diretora co-escreveu junto de seu colaborador de longa data Jean-Paul Fargeau.

O protagonista é Marco Silvestri (Vincent Lindon), capitão náutico que volta à terra parisiense ao descobrir que seu cunhado, Jacques (Laurent Grévill), se suicidou. Além do luto, sua irmã Sandra (Julie Bataille) tem de lidar com a falência da empresa de sapatos da família e o preocupante caso de sua filha Justine (Lola Créton), que foi encontrada vagando pelas ruas após ser violentada. Sandra insiste que o culpado pela morte de seu marido é o empresário Edouard Laporte (Michel Subor), mas não explica de que forma. Mesmo envolvido em todos os problemas da vida da irmã, Marco acaba iniciando um romance com Raphaëlle (Chiara Mastroianni), esposa de Edouard.

Pelo ponto de vista de um membro distante da família, o espectador tem acesso a um drama de raízes tão profundas que elas continuam a ser expostas até os últimos minutos de projeção. O que torna o filme de Denis mais potente é a combinação do personagem principal com a situação que ele encontra. Num dos momentos centrais da história, Marco confronta Sandra sobre a verdade horrenda da família que ela criou. A mulher retruca: “Você não estava aqui.” O tom não é acusatório, mas impotente, espelhando sua postura perante os acontecimentos misteriosos do passado. Surge a abertura para conjecturas não sobre o horror em si (este, para Denis, precisa ser mostrado), mas sobre o tipo de situação que levou aquela personagem a permitir tamanha atrocidade.

Bataille encena essa impotência de forma bruta, desmoronando ao ter de assumir que sabia de tudo. Sua fraqueza é tamanha que Lindon grita para ela se levantar, pois o homem é incapaz de testemunhar a irmã na ruína em que ela própria se colocou. Mesmo assim, é talvez em Créton que essa passividade se mostra de forma mais estarrecedora. Seu rosto é vulnerável, mas impassível em quase todas as suas cenas. Sua expressão pétrea causa um gélido assombro quando ela perambula à noite, nua, com sangue escorrendo pelas pernas. Até seus parcos momentos de expressividade são marcados por essa apatia, que se faz particularmente potente quando a personagem surge sorrindo em uma cena no fim do filme.

É a entrada de Marco nesse mundo de mulheres feridas além do possível, mutiladas e passivas, que torna a história tão intensa. Um único diálogo, com a declaração de que ele “não estava lá”, cria um retrato familiar que expõe exatamente quanto o personagem esteve distante e quanto ele deixou de vivenciar da vida de sua irmã. Mais doloroso ainda é que foi ele mesmo que apresentou Jacques, seu amigo, a Sandra. Emergem inúmeros “e se”, que incomodam pelo potencial desperdiçado de prevenir não uma, mas várias tragédias. Marco se desdobra em todos os sentidos para ajudar suas parentas – até mesmo conseguindo a simpatia do filho de Edouard e Raphaëlle, aproximando-se do suposto culpado –, mas ele já chega sem poder algum. Afinal, Jacques, figura central nesse imbróglio, já havia se retirado absolutamente da situação, seu mal já estava feito.

Apesar da importância das revelações finais para a forma como os personagens são vistos, Denis e Fargeau logo estabelecem um conflito igualmente delicado no romance entre Marco e Raphaëlle, que nunca é explanado como maquinação ou sentimento. Questões familiares se fazem notar até mesmo nesse caso extraconjugal, com a simplicidade que marca a dramaturgia da diretora. Em determinado momento, Marco derruba sua camisa com um pacote de cigarros pela janela para Raphaëlle, e, quando ela vai a seu apartamento devolver a peça, ele está recebendo a visita da filha, com quem tem pouco contato, símbolo de sua distante família. Também interessante é a cena em que o homem se preocupa em colocar camisinha antes do sexo, atitude que levanta diversas hipóteses sobre sua postura e seus interesses reais.

A profissão de Marco como um homem do mar, distante de todos, pode não ser um simbolismo muito elaborado, mas cria um cenário crível para seu afastamento. Ele não recebe muito mais ou menos informações do que o espectador, e também termina com inúmeras dúvidas sobre o cunhado, a irmã e a sobrinha. A razão de Jacques se suicidar não é esmiuçada a contento, ao passo que tudo que se deu na família antes desse acontecimento é um mistério tão obscuro quanto suas potenciais elucidações são hediondas. É importante notar, porém, que o protagonista não se importa em ouvir explicações, ao passo que quem assiste ao filme sequer tem a possibilidade de ter um esclarecimento definitivo e tem de ficar à deriva com as possibilidades (in)imagináveis.

Para um roteiro com tantas questões em aberto, Bastardos tem um final terrivelmente explícito em vários sentidos. Pode-se considerar que as imagens derradeiras servem apenas para chocar, mas elas têm todo o sentido para Sandra. Assistir a uma história como essa é testemunhá-la. Apenas saber que algo ocorreu não transmitiria o peso da conivência que é tão fundamental para a dura moral da história. Ao mesmo tempo, ser confrontado com cenas tão grotescas leva ao questionamento de que tipo de situação levaria à inação diante de tal comportamento. Dessa forma, Marco é um protagonista perfeito, pois é um homem de ação para todos os efeitos (vide as cenas de pancadaria), mas embarca no imbróglio já sem o poder de agir positivamente. Ao fim, Claire Denis mostra que mesmo posturas radicalmente diferentes perante um mundo de pessoas brutais podem desembocar em destinos semelhantes.

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

Na lista de 380 filmes do Festival do Rio, sempre tem algum preferido do público que um ou outro espectador não conseguiu entrar na sessão, porque ela estava lotada. Para não deixar ninguém na mão, começa nesta sexta, 11, e vai até o dia 17, a tradicional repescagem do Festival do Rio. É a chance de ver – ou rever – os filmes que mais lotaram as salas de cinema ao longo do Festival. É o caso de Alì tem olhos azuis (Alì ha agli occhi azzurri), do italiano Claudio Giovannesi, que será exibido novamente no domingo, 13, às 20 horas, no Instituto Moreira Salles.

Vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Roma 2012 – onde também ganhou o prêmio de Novos Diretores – o filme vem percorrendo, desde a sua premiação, um longo caminho em festivais de cinema, como o badalado Tribeca Film Festival, onde foi exibido em abril deste ano. Este é o segundo longa-metragem de Giovannesi, que também assinou o documentário Fratelli D´Italia (Irmãos da Itália, em tradução literal), sobre a relação de três adolescentes filhos da imigração – um romeno, um árabe e uma russa – com a Itália. Foi neste trabalho que ele conheceu Nader, adolescente italiano de origem egípcia, que é o protagonista de Alì tem olhos azuis.

Em sua passagem pelo Festival do Rio, Claudio Giovannesi conversou com o Cinemmarte e contou que, algum tempo depois de fazer seu documentário, reencontrou Nader. “Ele estava morando na rua e me contou sobre seu amor proibido. Fiquei comovido e quis contar aquela história. Mas ele praticava pequenos furtos, e seria complicado mostrar isso em um documentário, então tive a ideia de fazer um filme de ficção, com não-atores. Todos que aparecem são os mesmos na vida real: os pais dele, os amigos, a namorada, menos a irmã”.

O longa é ambientado em Ostia, periferia de Roma, e mostra como Nader foi morar na rua: seus pais desaprovam seu relacionamento com a italiana Brigitte e ele resolve sair de casa. Ao mesmo tempo, ele vê sua irmã se interessar por um italiano, e reprova a situação, chocando-se com sua própria realidade e as tradições de sua família.
Giovannesi também assina o roteiro (com Felippo Gravino) e a trilha sonora do filme. “No início seria só o som do tráfego, do vento e do mar, mas depois do trabalho pronto optei por destacar três momentos do filme, três emoções diferentes, então surgiu a música, que eu compus com Andrea Moscianese”, explicou.

Mesmo sendo uma ficção, Alì tem olhos azuis possui uma abordagem documental, graças à intrépida câmera do diretor, que segue a passos firmes os personagens. O título do longa é uma homenagem ao cineasta e escritor Pier Paolo Pasolini – de quem o cineasta é fã – e foi tirado de Profecia, que Pasolini escreveu para Jean Paul-Sartre em 1962 e prenunciava a sociedade multicultural de hoje. Sobre a Itália dividida entre italianos e imigrantes, Claudio Giovannesi acredita que o país tem duas posições distintas: aqueles que aceitam tudo, e os que nada aceitam. “A integração é para quem chega e para quem já está no lugar, por isso é uma palavra que não existe sem os dois lados”.

Com sua vivência em festivais tão diferentes mundo afora, o diretor observou que em cada lugar as pessoas veem o filme de acordo com suas próprias experiências com a imigração. “Em Nova York os italianos é quem são imigrantes, então eles viram o filme de outra forma. Já na França pode-se dizer que é um filme velho, porque eles já passaram por isso”.

Em comum com o também italiano Salvo – Uma História de Amor e Máfia estão a produção de Fabrizio Mosca e a direção de fotografia do aclamado Daniele Cipri. “Gosto muito dos filmes do Cipri, que é uma pessoa maravilhosa. Foi uma experiência importante trabalhar com ele”.

Aos 35 anos, Claudio Giovannesi é um dos novos expoentes do cinema italiano. Este ano foi indicado ao Nastri D´Argento, prêmio do Sindicato de Jornalistas Cinematográficos italiano, na categoria de melhor diretor, ao lado dos consagrados Marco Bellocchio, Giuseppe Tornatore, Roberto Ando e Paolo Sorrentino. Pela primeira vez no Rio de Janeiro, ele se revelou profundo conhecedor da música brasileira. “Sou guitarrista e amo bossa nova, que conheci nos discos de João Gilberto e Stan Getz”.

Já trabalhando em um próximo projeto, Giovannesi adiantou ao CinePOP qual será seu novo filme. “É a história de uma adolescente italiana que vai parar em um reformatório. Optei, mais uma vez, por trabalhar com o universo jovem”, concluiu. Confira a programação da Repescagem do Festival do Rio em
http://www.festivaldorio.com.br/

Foto: Janaina Pereira

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

O cinema italiano vem apresentando uma nova safra de bons diretores, que estão sobressaindo nos festivais internacionais de cinema. Mas, infelizmente, a maioria desses filmes não chega ao circuito brasileiro. Por isso vale aproveitar o Festival do Rio para conferir Alì tem olhos azuis, do jovem cineasta Claudio Giovannesi, que ainda não tem distribuidora no Brasil.

Interpretado por não-atores – por isso o nome de cada um também é o nome do personagem – o longa aborda a história real de Nader (Nader Sarhan), adolescente de origem egípcia nascido em Roma, que vive em conflito com os pais e sai de casa após eles desaprovarem seu namoro com uma italiana. O menino passa a viver nas ruas, roubando e passeando com o amigo Stefano (Stefano Rabatti).

A trama é ambientada em Ostia, na periferia de Roma, região pouco conhecida para quem só vai a capital italiana por turismo. O grande mérito do roteiro é mostrar que os conflitos multiculturais continuam fortes na Itália – e, embora o tema seja recorrente em outros filmes italianos, é a primeira vez que o protagonista é a pessoa que realmente vive essa história em seu dia a dia.

Outro fato interessante que o roteiro frisa é que, ainda que Nader seja italiano, sua origem e as tradições de sua família falam mais alto – tão alto que, quando a irmã de Nader se interessa por um italiano, ele se mostra totalmente contrário ao relacionamento. É neste ponto que o longa enfatiza que o conflito dos pais do garoto, também é o seu próprio. Essas contradições são acompanhadas pela câmera nervosa de Giovannesi, que segue os personagens de um jeito quase documental.

Prêmio Especial do Júri no Festival de Roma do ano passado, e exibido este ano no Festival de Tribeca, Alì tem olhos azuis tem direção de fotografia do aclamado Daniele Cipri, e trilha sonora composta pelo próprio Giovannesi, que também assina o roteiro. E, embora o filme deixe o final em aberto e não tome partido de nenhum dos lados, fica a sensação de que o dilema dos personagens é o dilema da própria Itália, que nem sempre enxerga com bons olhos os filhos da imigração.

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Por Janaina Pereira

Alexander Payne, um dos mais promissores diretores americanos, está de volta depois do bem-sucedido Os Descendentes (2011). Nebraska, em cartaz no Festival do Rio, é o novo trabalho do diretor. O filme é um road movie que acompanha Woody Grant (Bruce Dern), um senhor que, após receber uma carta que promove assinaturas de revistas, acredita ter ganho o prêmio de um milhão de dólares. Depois de uma série de tentativas de ir a pé de sua cidade, em Montana, até Nebraska, onde o prêmio supostamente está, ele acaba tendo a companhia do filho mais novo, David (Will Forte), que decide acompanhá-lo. David, na verdade, está preocupado com o estado de saúde do pai, e acaba alimentando a idéia de Woody ganhou mesmo o tal prêmio. Durante o trajeto, Woody sofre um pequeno acidente, sendo obrigado a ficar uns dias na cidade onde nasceu, que fica no meio do caminho para Nebraska. Quando a notícia de que Woody se tornou um milionário se espalha, pai e filho começam a enfrentar sérios problemas com os moradores do local.

O (ótimo) roteiro de Bob Nelson, com diálogos afiadíssimos, explora a relação de pai e filho e, especialmente, a inversão de papéis que é comum em determinado momento de nossas vidas – quando os filhos se tornam pais de seus pais. David tem consciência que seu pai está senil, e que qualquer coisa que o faça feliz pode significar muito. Woody, que na maior parte das vezes não sabe o que está fazendo, parece estar sempre em um mundo paralelo – o que torna o personagem familiar, já que todo espectador certamente já conheceu um idoso assim.

Os grandes momentos do filme ficam por conta da atuação de Bruce Dern – vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Cannes deste ano – e de June Squibb, que interpreta Kate, a esposa de Woody. A atriz, inclusive, tem a melhor cena do filme, quando visita o cemitério e começa a descrever as pessoas que morreram. Mérito, também, do cineasta Alexandre Payne, que se firma como um bom diretor de atores.

Filmado em preto e branco – o que só aumenta o clima nostálgico do filme –Nebraska tem uma trama triste, mas não é feito para chorar. As boas doses de humor tornam o filme leve, embora a sequência final cause uma certa melancolia. Ao espectador, fica a sensação de fazer parte da história – e muitos certamente se identificarão com ela.

Nebraska é o caso raro de filme inteligente que alcança as multidões, e que não deve passar despercebido na temporada de premiações. Que o Oscar seja justo – e generoso – com ele.

REALITY

por Pedro de Biasi

O cineasta Matteo Garrone demora algum tempo para apresentar o conflito central de Reality – A Grande Ilusão, que estreia nesta sexta, 26, mas expõe o grosso do conteúdo e da forma do filme na primeira tomada, um plano-sequência que parte de uma panorâmica de Nápoles para focar em uma carruagem anacrônica que desfila pelas ruas da cidade. Ao som da trilha sonora de Alexandre Desplat, que claramente evoca contos de fadas, a cena de abertura continua com um casamento espalhafatoso, uma verdadeira fantasia comprada pelos noivos. O protagonista, Luciano (Aniello Arena), está lá apenas como parte da festa, vestido de drag queen para animar os pombinhos e os convidados. É lá que ele conhece o ex-participante do Big Brother Enzo (Raffaele Ferrante), o primeiro passo para sua ruína.

Graças à insistência de suas filhas, loucas pelo reality show, Luciano decide fazer um teste para participar da próxima edição. Com uma boa dose de cordialidade e favores de Enzo, o homem consegue uma audição, e tem início uma obsessão patológica. Ansioso pela ligação dos organizadores do programa (conhecido na Itália como Grande Fratello), ele começa a viver em função de sua possível – mas, em sua cabeça, certa – seleção. Essa fixação infecta até mesmo seu dia a dia: o protagonista acredita que agentes da televisão o observam sempre, para avaliar se ele é digno de participar.

Embora a estrutura geral da narrativa não seja entregue logo de cara, muitos dos temas e posicionamentos estão expressos logo no plano inicial. Na cena, há uma delação dos contos de fadas modernos, através da música de Desplat e da imagem surreal da carruagem rodando pela Nápoles de hoje em dia. Trata-se, é verdade, de um casamento, mas essa mesma visão irônica sobre a quebra da realidade é aplicada para o sonho do Grande Fratello. Além disso, antes da tomada seguinte não fica claro quem está dentro do coche espalhafatoso, e a impressão é de que aquela extravagância tem algo a ver com o reality show.

Com seus pontos de vista declarados tão rapidamente e de forma tão cristalina, o que resta é a dramática exploração da instabilidade psicológica do protagonista, o que não é uma grande surpresa quando se trata do cineasta cujo trabalho anterior foi o implacável Gomorra. Ambos os longas usam a realidade de forma denunciatória, embora Reality tenha tinturas um pouco mais elaboradas. Por outro lado, o uso das noções de fantasia e idealização é, mais uma vez na obra de Garrone, um método óbvio para envolver o público nos posicionamentos que o interessam – problema que se intensifica quando o protagonista verbaliza o “subtexto” da história, já estabelecido na cena inicial.

Se o realismo foi usado como a ferramenta mais simples possível em Gomorra, em Reality há uma oposição entre a vida cotidiana de Luciano e seus sonhos de fama e fortuna, bem representada na tomada final, que ecoa aquela que abre o filme. Trata-se de outra panorâmica que explora, de forma quase idêntica, o conflito entre realidade e sonho, encerrando um discurso que se faz claro desde o início e estanque até o fim. A proposta, na verdade, é firmar a obsessão desmedida de Luciano em suas instabilidades mentais, objetivo que Garrone e os outros três co-roteiristas se esmeram para alcançar. O personagem cai em um círculo vicioso que distorce a realidade, como conseqüência da promessa da fantasia (sur)real de uma casa que se torna vitrine de relações humanas.

Além de ser visto como um retrato ridículo de um grupo de pessoas (todas, claro, dotadas de corpos atraentes) em uma situação supostamente sem corte e sem censura, o Big Brother surge como uma chance de se dar bem na vida que não envolve os meios tradicionais. Luciano, que trabalha duro em seu mercado de peixe e complementa renda com bicos, vê no programa uma oportunidade extraordinária, mágica. Seus delírios de ansiedade não raro incluem Enzo, o ex-Brother que não aparece fazendo qualquer tipo de atividade digna de nota, apenas exibindo sua figura conhecida em eventos aleatórios. Neste sentido, o fato de o filme se passar na Itália não cria a menor diferença cultural, pois esse gênero de celebridades recebe o mesmo tratamento no Brasil.

Apesar de seu realismo, que resvala na paradoxal natureza dos reality shows, o mais impressionante em Reality – A Grande Ilusão é o pouco que tem a dizer, especialmente por se tratar de um tema discutido em tantos países e em todo tipo de círculo social. Escancarado sem perda de tempo, inclusive no título ambíguo, o discurso é apenas ponto de partida para uma narrativa dramática sobre a mais tradicional loucura – a incapacidade de diferenciar realidade e imaginação. Que poucos vieses adicionais sejam incluídos no decorrer das duas horas de projeção são prova de que Matteo Garrone continua determinado a sacrificar a complexidade para explorar a emoção humana da forma mais bruta.