Rivalidades no Oscar 2014

fevereiro 28, 2014

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Por Janaina Pereira

 

Mais uma edição do Oscar acontece no próximo dia 2, e alguns duelos entre os indicados estão sendo muito aguardados. Como o ano passado teve uma boa safra de produções, está difícil saber quem vai vencer em algumas categorias. É o caso dos indicados a melhor filme, onde 12 anos de Escravidão e Gravidade concorrem com igualdade de condições, sendo seguidos de perto por Trapaça. Os diretores destes filmes, concorrentes entre si também em sua respectiva categoria, também travam um bom duelo. Embora David O. Russel – diretor de Trapaça – corra por fora na disputa, quando se trata de Oscar tudo é possível. Mas, aqui, o favorito parece mesmo ser Alfonso Cuáron, que pode levar o prêmio de diretor mas ver o seu Gravidade não ganhar como melhor filme. Assim como o inglês Steve McQueen pode não se tornar o primeiro negro a ganhar o prêmio de diretor, mas pode vencer com seu filme 12 anos de Escravidão. Ou vice-versa. Nesta rivalidade, o mais difícil parece ser uma vitória dupla – para filme e diretor. A tendência é a Academia de Hollywood amenizar a disputa dando um prêmio para cada um.

Entre os atores uma das mais fortes rivalidades coloca de um lado Leonardo Di Caprio e do outro Matthew McConaughey. Embora McConaughey seja o favorito por seu desempenho em Clube de Compras Dallas, cresce uma corrente que acha que Di Caprio (indicado por O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese) já passou da hora de vencer – o ator soma quatro indicações, sem contar as várias ‘não indicações’ ao longo dos anos. Muitos críticos de cinema apontam uma certa perseguição da Academia com Leo, mas até o público entrou nessa briga, lançando vários ‘memes’ em que Leonardo Di Caprio aparece como injustiçado por não ter a estatueta dourada.

Na categoria ator coadjuvante a disputa está entre Jared Leto (por Clube de Compras Dallas) e Michael Fassbender (por 12 anos de Escravidão). Até o final do ano passado, a atuação de Fassbender era apontada como uma das melhores dos últimos tempos no cinema. Porém, Leto parece ter arrebatado a crítica com seu transexual vítima da Aids, e vem conquistando todos os prêmios da temporada.

Entre as mulheres, algumas curiosidades: ninguém deve tirar o Oscar das mãos de Cate Blanchett. Uma rara unanimidade por sua atuação em Blue Jasmine, de Woody Allen, Cate deve levar sua segunda estatueta para casa – ela ganhou como coadjuvante por O Aviador (2004), de Martin Scorsese. Porém, a loira deve ficar atenta à sua maior rival – ninguém menos que Judi Dench, que contracenou com Cate em Notas sobre um Escândalo, que, aliás, rendeu indicação as duas no ano de 2007 – Judi como atriz, Cate como coadjuvante.

Outro fato curioso é o duelo velado de duas das maiores estrelas do cinema americano: Julia Roberts e Sandra Bullock. Julia já era famosa quando Sandra apareceu na telona e a crítica começou a comparar o trabalho de ambas. Na época, Julia Roberts alegou que Sandra não podia ser “uma nova Julia” porque era mais velha que ela. As atrizes sempre foram campeãs de bilheteria mas demoraram a ter seu lugar ao sol no Oscar. Julia ganhou em 2001 por Erin Brockovich e Sandra levou a melhor em 2011 por Um Sonho Possível (depois de 20 anos de carreira e em sua primeira indicação). A crítica sempre apostou que elas nunca mais seriam indicadas. E este ano lá estão elas de volta, só que em categorias diferentes: Sandra concorre como atriz por Gravidade e Julia como coadjuvante por Álbum de Família.

A rivalidade mais acirrada, porém, é entre as atrizes coadjuvantes. A estreante Lupita Nyong’o, 30 anos, disputa palmo a palmo o Oscar com a ‘veterana’ Jennifer Lawrence, 23 anos. Lupita é a revelação de 12 anos de Escravidão, e tem a seu favor um filme forte e muito bem cotado nas premiações. Porém, Jennifer, que faz uma alcóolatra em Trapaça, é a queridinha do cinema americano, e já está em sua terceira indicação – e não podemos esquecer que o Oscar de melhor atriz do ano passado foi dela. Elas dividem os holofotes nesta temporada de premiações: ora uma ganha um prêmio aqui, ora a outra ganha ali. Façam suas apostas.

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12 anos de Escravidão

fevereiro 18, 2014

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por Janaina Pereira

 

Steve McQueen é um dos melhores cineastas da atualidade. No entanto, o inglês, homônimo do falecido ator americano, não é conhecido do ‘grande público’ no Brasil. Seus dois primeiros filmes – Hunger e Shame – foram exibidos em festivais de cinema (Cannes e Veneza, respectivamente) com muito sucesso, e lançaram aos olhos do mundo o ator alemão Michael Fassbender. Com uma história real americana, McQueen vem chamando a atenção do público e da crítica e parece que, finalmente, será reconhecido também em solo tupiniquim. Porque 12 anos de Escravidão (12 years a Slave), seu novo filme que estreia nesta sexta, 21, é uma das melhores produções dos últimos tempos.

Baseado no livro homônimo de Solomon Northup, o longa conta a história do próprio Solomon (interpretado de forma ímpar por Chiwetel Ejiofor, de Coisas Belas e Sujas), violinista negro e alforriado em Saratoga, Estado de Nova York. Em 1841 ele foi sequestrado em Washington e vendido como escravo na Louisiana. Acompanhamos sua saga ao longo de 12 anos, quando passa por alguns senhores de escravo até chegar às mãos do cruel Epps (o sempre brilhante Michael Fassbender, de Shame), que açoita os escravos sem dó nem piedade.

Em sua sangrenta jornada, Solomon tenta esconder que sabe ler e escrever, para que sua formação não lhe custe a própria vida. Ele vê negros morrendo por nada, e tenta compreender o porquê da escravidão. Ainda assim, se mantém aparentemente passivo diante dos constantes abusos físicos que Patsey (a estreante Lupita Nyong’o) sofre de Epps, e a forma como isso vira agressão pelas mãos da esposa do senhor de escravos (Sarah Paulson, de Amor Bandido). 

A passividade, porém, é puro instinto de sobrevivência. Não reagir com o corpo é corroer a alma e expressar no olhar. E aí entra a força da interpretação de Chiwetel Ejiofor – desde já uma das mais marcantes da história do cinema. Enquanto no dia-a-dia ele parece aceitar aquela vida injusta, seus olhos dizem outra coisa.  O desespero, o pavor e o pedido de socorro que são vistos claramente no olhar de Solomon/ Ejiofor fazem o espectador querer entrar na tela para salvá-lo. Reparem na cena do enterro de um escravo, onde Solomon canta e parece colocar para fora, pela primeira vez, a sua dor, expressa pelas palavras da música, e não apenas pelo olhar.  

No ótimo elenco que tem nomes como Benedict Cumberbatch (Star Trek Além da Escuridão), Paul Giamatti (Tudo pelo Poder), Paul Dano (Os Suspeitos) e (o também produtor do longa) Brad Pitt (Guerra Mundial Z),  Michael Fassbender (parceiro de McQueen em todos os seus filmes) mais uma vez mostra porque é um dos melhores atores do mundo, e dá ao público outra atuação visceral e memorável. Já a revelação Lupita Nyong’o aparece o suficiente para garantir seu (merecido) Oscar de coadjuvante – o longa foi indicado em nove categorias, entre elas melhor filme, diretor, ator (Ejiofor) e ator coadjuvante (Fassbender). 

Destacam-se também a trilha sonora de Hans Zimmer, a fotografia, o roteiro no ritmo certo e a direção impecável de Steve McQueen. 

Muito se fala que 12 anos de Escravidão é um filme violento, uma espécie de Paixão de Cristo (filme de Mel Gibson) dos escravos. Discordo. A produção traz à tona uma história real sobre sequestro de escravos livres, algo que eu – e a maioria da humanidade – sequer imaginava que um dia tivesse acontecido. A violência de fato está lá – e sabemos que isso foi real – e vem num crescente, explodindo na cena em que Epps resolve castigar Patsey, já na parte final do filme.  Não há nada de desnecessário ou abusivo nas cenas de sangue e lágrimas: McQueen apenas mostra corajosamente o que de fato aconteceu. 

Perdendo terreno na corrida para o Oscar para Gravidade e Trapaça, é de se espantar que alguém ainda tenha dúvidas de que 12 anos de Escravidão é o filme do ano. O tema é árido, existem cenas difíceis, mas diante de uma humanidade que insiste na discriminação – de negros, mulheres, homossexuais, judeus, idosos – este é o filme mais importante produzido nos últimos anos.  

Se você tiver que escolher um filme, um único filme para assistir, veja 12 anos de Escravidão. Você vai ficar emocionalmente abalado, pode até chorar e ficar angustiado, mas ele é necessário para o mundo em que vivemos. E se eu puder descrevê-lo em uma palavra, digo a vocês que 12 anos de Escravidão é devastador.

Thor: O Mundo Sombrio

novembro 1, 2013

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Por Pedro Costa de Biasi

O impacto de Os Vingadores na franquia da Marvel nos cinemas foi tão fulminante que gerou um modelo de sucesso. Por mais que Homem de Ferrofosse construído sobre o humor de Robert Downey Jr., foi só com a reunião dos super-heróis que certa veia cômica foi explorada a contento, como proposta fundamental do filme. O primeiro Thor deu passos tímidos nessa direção, mas sua (ocasional) graça residia praticamente na exploração de uma piada única, sem a disposição anárquica de transformar qualquer tipo de cena ou personagem em fonte de comédia. Eis que Thor: O Mundo Sombrio, que estreou nesta sexta, 1, explora suas possibilidades de diversão não apenas nesse quesito, mas também em outro aspecto muito mais lúdico. 

A história começa com um prólogo que não poderia ser mais esquemático, mas certamente poderia ter saído mais destrambelhado. Milênios atrás, Malekith (Christopher Eccleston), um Elfo Negro do mundo de Svartalfheim, tentou usar uma substância chamada Éter para cobrir todo o universo com a escuridão. Após ser derrotado, ele foge, e sua arma é levada pelos Asgardianos, que a enterram no lugar mais profundo e seguro possível. Nos dias atuais, Thor (Chris Hemsworth) está tentando retomar a paz nos nove mundos após os eventos deOs Vingadores, enquanto Jane Foster (Natalie Portman) identifica, na Terra, uma anomalia inexplicável que cria portais para outras dimensões. Quando uma dessas fendas no espaço desperta o Éter e, com ele, os Elfos Negros, o Deus do Trovão precisa impedir os avanços de Malekith para proteger todos os mundos. O problema é que, para isso, ele precisará da ajuda de Loki (Tom Hiddleston), que é prisioneiro em Asgard pelo que fez na Terra. 

De início, é importante tirar algo do caminho: O Mundo Sombrio do título pode fazer sentido dentro da trama, mas em questão de tom, o filme é muito diferente do que os cartazes podem indicar. Não é por acaso que Joss Whedon teve uma participação (limitada e relativamente sorrateira) no roteiro. Não é difícil adivinhar quais cenas tiveram seu dedo, já que alguns dos diálogos têm seu característico humor desavergonhado. Mas a verdade é que, salvo o primeiro terço, mais ou menos, de projeção, o filme é repleto de piadas e brincadeiras espirituosas. Se os esforços cômicos de Thor se limitavam a explorar o protagonista como peixe fora d’água, e todo o resto era solenidade exacerbada, a sequência certamente capitaliza na fórmula de Os Vingadores e se vale da comédia em todo tipo de situação, passando a bem-vinda sensação de uma aventura despreocupada. 

Nem sempre essa proposta é bem manuseada, e o elemento que causa os piores resultados é a pavorosa montagem de Dan Lebental e Wyatt Smith. O primeiro filme foi drenado pela forçada seriedade da apresentação de sua mitologia, mas, aqui, a falta de cuidado com os momentos devidamente dramáticos beira o lamentável. Quando alguém apontou que a continuação deveria equilibrar humor e drama, essa pessoa certamente não quis dizer que os editores deveriam enganchar uma cena cômica (e fácil de realocar em vários outros momentos da narrativa) logo atrás do momento mais trágico da franquia até então. A desastrosa piada é com Erik Selvig (Stellan Skarsgard), que curiosamente protagoniza outra escolha bizarra da edição: em um lapso inexplicável, o noticiário em que ele aparece é exibido duas vezes. 

Embora a montagem seja o principal desastre da narrativa, o roteiro de Christopher Markus, Christopher Yost e Stephen McFeely não usufrui de uma unidade louvável. No quesito personagens, Odin (Anthony Hopkins) realmente incomoda por receber a função limitada de emperrar as ações de Thor através de acessos avulsos de teimosia e estreiteza de pensamento. Jane também não tem uma profundidade cativante, apenas a graça que seus clichês lhe permitem. Já os colegas guerreiros de Thor recebem exatamente tanta atenção quanto deveriam, e se tornam meras ferramentas da ação. Loki, por sua vez, ganha bastante estofo por sua qualidade temerária, de alguém que não tem mais nada a perder, mas também por ter ótimas oportunidades de exercitar seu sarcasmo. Aliás, é curioso como ele foi tratado de forma sardônica quando era vilão, ao passo que Malekith não tem um momento sequer como figura ridícula ou cômica. Este antagonista sério é mais uma intrigante variação em uma fauna de personagens tão diversos que é difícil vê-los como parte do mesmo filme. 

Pelo menos essa disposição à variedade rende um clímax fabuloso. Trata-se do maior (mas não único) arroubo lúdico do filme, superando os constantes gracejos e tiradas verbais. A batalha final tem muito a ver com a de Homem de Ferro 3, na medida em que ambas se assemelham à cena inicial de Toy Story 3. O filme realmente se dá a permissão de assumir a tendência infantil de boa parte dos filmes de super-herói. Assistir a Thor arrebentar inimigos através de portais espaciais imprevisíveis não é muito diferente de ver Andy criando histórias nonsense com seus brinquedos. Deliciosamente tragado por seu universo fantasioso, o novo Thor aproveita seu orçamento como uma criança com bonequinhos de heróis e vilões aproveita sua imaginação, e o resultado é contagiante. 

Os roteiristas também se abstêm de responsabilidades restritivas de outras formas. Quando o assunto são as teorias quânticas de Jane, os diálogos são vagos, para dizer o mínimo. Uma postura totalmente válida para uma pseudociência tão disparatada. Já nos casos em que um ou outro elemento de fato precisam de uma explicação vagabunda qualquer, os diálogos expositivos são distribuídos por outras cenas, quase como se os realizadores acreditassem nas capacidades dos espectadores. Quem acompanha a produção de Hollywood sabe que não é uma pequena conquista. Além disso, o diretor Alan Taylor, que já deita e rola nas variações tresloucadas da narrativa, também não se restringe no quesito visual. Este é sem dúvida o filme mais bonito da Marvel, com tratamentos de cor variados e uma direção de arte decidida em suas escolhas estrambóticas. 

O que torna Thor: O Mundo Sombrio um bom programa não é sua regularidade ou o domínio das técnicas – estas qualidades com certeza faltam –, mas sua predisposição à diversão. É um pouco exagerado dizer que uma aventura despreocupada como essa é uma ousadia na Hollywood de hoje em dia, já que outro filme recente teve resultados ainda mais saborosos. Mas, ondeCírculo de Fogo aliou a experiência lúdica com o espetáculo grandiloquente que só o cinema pode oferecer, Thor manteve a escala relativamente modesta e deixou a imaginação acrescentar elementos e misturá-los ao sabor do entretenimento.

O Conselheiro do Crime

outubro 26, 2013

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Por Pedro Costa de Biasi

É inevitável que todo filme carregue diversas facetas dentro de si. Alguns dobram essas características diversas em sua história, sejam elas patentes ou ocultas. O Conselheiro do Crime, que estreou nesta sexta, 25, é um caso curioso, em que vários filmes diferentes coabitam nem sempre em harmonia. Há uma quantidade considerável de tramas e personagens, que se desenvolvem em cenas que não poderiam ser mais distintas umas das outras. É difícil determinar se tudo é calculado, mas, de uma maneira ou de outra, há instantes tão instigantes e potentes que a coerência do todo ganha outra relevância. 

O Conselheiro do título é um advogado chamado apenas de Doutor (Michael Fassbender), que está em um apaixonado relacionamento com Laura (Penélope Cruz). Ele decide se arriscar em uma passagem pelo crime, idealizada como breve, junto de seu amigo Reiner (Javier Bardem), já experiente no submundo das drogas. Ele ajudará a transportar um grande carregamento de cocaína, mas nunca de forma direta, apenas através do filho de sua cliente. Embora pareça uma empreitada rotineira e sem grandes riscos, o advogado descobre gradualmente qual o nível de seu envolvimento quando a situação começa a fugir de controle. 

Não é surpresa que o gênero do filme ondule pelo romance, pelo drama e pelo thriller criminal. Interessante, mesmo, é como o roteiro de Cormac McCarthy se apresenta como uma tragédia antes de outra perspectiva, sub-reptícia, ser denunciada. É verdade que a chave para essa trama paralela é a omissão de detalhes da história, mas há simbologias e sinais (não tão sutis) espalhados pela narrativa que apontam obliquamente para o jogo que de fato está sendo jogado. Justo; essa reviravolta acontece à revelia do protagonista e de seus próximos, e McCarthy usa as informações como iscas para pescar o espectador, emparelhando o que este e os personagens sabem. 

A palavra é “pescar”, mesmo, como na frieza do esporte, e não como no eufemismo glamourizado do “fisgar”. Não é exagero dizer que dar de cara com o desfecho do imbróglio é uma experiência semelhante à do peixe que é içado água afora, indefeso e sem ar. Este é um filme em que a brutalidade caminha a passos que aparentam erráticos, variando da angustiante violência gráfica à horripilante sugestão. Claro que, nessa caminhada irregular, há desvios e paradas que desviam do curso. É difícil, por exemplo, reconhecer o mérito de toda a “subtrama” do caminhão que carrega as drogas. É como se essa ilustração em cenas evitasse diálogos expositivos para compensar a tendência do filme à digressão verbal. 

No entanto, essa destroncada história – pontuada por uma amostra prematura dos horrendos métodos de violência em operação no submundo do tráfico – não tem como função principal explanar a história, mas sim atestar a distância do protagonista em relação a seu ato. O roteiro não liga o desastre no transporte das drogas ao Doutor através de minucioso rastreamento, mas de forma direta, numa única linha. As forças que operam por detrás do cenário são seres oniscientes, capazes de encontrar quaisquer informações e, é claro, agir de forma implacável para atingir todos os envolvidos. 

Não há elegância em qualquer aspecto da trama; as pontas não se juntam de forma intrincada e cuidadosamente confeccionada, mas como decorrência inevitável de um deus castigador atento para suas criaturas desviantes. É verdade que nem todos esses chefões manipuladores estão totalmente ocultos, mas mesmo quando um deles se mostra, é como uma figura não dilapidada, cheia de arestas – morais, comportamentais, procedimentais – e desconstruída em suas idiossincrasias mais gratuitas. Não por acaso, uma de suas cenas é a mais cômica num filme quase destituído de graça. Também há de se especular se a estranha e estilizada trilha sonora de Daniel Pemberton não foi criada em cima dessa personagem, assim como a fotografia de Dariusz Wolski, de uma beleza inusitada para um filme tão cru. 

Falando em elementos centrífugos, é importante voltar aos monólogos nos quais McCarthy tanto se esmera. Todos são relacionados a algum aspecto da criminalidade, mas os resultados são irregulares e não raro esbarram na gratuidade. O roteirista também não resiste a incluir cenas inteiras dedicadas a amostras sobressalentes de cinismo – com destaque para a horrível cena com John Leguizamo. Toda a história converge para a mesma realidade desumana, e este tipo de excesso, ao contrário dos já citados, soa mais como indulgência solta do que como resíduo da narrativa. No entanto, em uma das mais intensas cenas de Fassbender, seu personagem recebe um conselho por telefone, uma exaustiva, mas fútil exploração moral de suas escolhas. O solilóquio, que poderia ser um caso de “dourar a pílula”, se eleva do puro preciosismo por representar, em seu âmago, uma mensagem que é o puro embelezamento da inevitabilidade e do terrível conformismo. 

O fato é que o filme carrega fortes dissonâncias – enaltecidas frontalmente pelo elenco e pelo diretor Ridley Scott –, mas elas quase sempre têm sua razão de ser. Na história, a situação só fica fora de controle quando esse controle é substituído por outro. Neste sentido, curiosamente, o longa aproxima-se do oposto do cinema dos irmãos Coen – que já filmaram um texto de McCarthy com belos resultados. Há sempre alguém no controle de tudo, seja das mercadorias ou das vidas dos envolvidos. Que o resultado final da obra beire o caótico e o errático é um testamento para as reais intenções por trás do roteiro. O tema principal é o domínio, incluindo aí o caos controlado e as formas brutais e grosseiras como determinada ordem é reassegurada. Frustrar-se com a desordem de O Conselheiro do Crime é apenas reflexo natural de se esperar dominar com uma só corrente um cão de três cabeças.

O Conselheiro do Crime

outubro 26, 2013

conselheiro

por Janaina Pereira

Michael Fassbender, Javier Barden, Penélope Cruz, Brad Pitt e Cameron Diaz. Com um elenco deste, mesmo se quisesse e fizesse um esforço danado, Ridley Scott não tinha como fazer um filme ruim. E de fato seu novo filme, O Conselheiro do Crime (The Counselor), que chegou aos cinemas sexta, 25, e é estrelado por esta constelação, está longe de ser horrível, mas também é a prova de que grande elenco nem sempre é sinônimo de grande filme.

O roteiro original é do consagrado escritor Cormac McCarthy, autor do livro Onde os fracos não tem vez, que foi adaptado pelos irmãos Coen para o cinema. Como roteirista, McCarthy resolve fazer uma trama de aparência complexa mas que, ao ser desvendada, mostra-se muito simples. Michael Fassbender vive um advogado sem nome (a legenda o identifica como “doutor”,que é a forma como chamamos, no Brasil, os profissionais do direito, mas na verdade ele é o ‘counselor’ do título original), apaixonado por sua noiva (Penélope Cruz). Ao se envolver num esquema de transporte de drogas, com a ajuda de dois criminosos experientes (Javier Bardem e Brad Pitt), ele coloca em risco a sua vida e de sua noiva.

Fassbender, como sempre, tem boa atuação, especialmente nas cenas com Bardem e Pitt. Penélope Cruz, no entanto, é apenas enfeite; sua personagem tem uma única função e não exige maiores esforços da atriz. Já Cameron Diaz, a misteriosa namorada de Javier Bardem na trama, é quem manda e desmanda em cena, mostrando versatilidade na interpretação de uma vilã dissimulada. Sem dúvida a melhor e mais bem construída personagem do roteiro intrincado de Cormac McCarthy.

Ainda que não seja um grande filme, O Conselheiro do Crime pode ser uma boa distração para quem não for muito exigente.

Os Suspeitos

outubro 17, 2013

Suspeitos

por Janaina Pereira

O cineasta canadense Denis Villeneuve ganhou fama mundial com o polêmico Incêndios, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011. Nesta sexta, 18, ele volta às telas com um elenco repleto de estrelas no thriller Os Suspeitos, já apontado como um forte candidato à temporada de premiações. 

A trama se passa em Boston, onde um pai de família (Hugh Jackman) tem que lidar com o desaparecimento de sua filha e de uma amiga dela. Quando suspeita que o detetive encarregado das buscas (Jake Gyllenhaal) já desistiu de procurar pelo culpado, ele resolve fazer sua própria investigação. 

Durante a maior parte do tempo, o filme transcorre devagar, com nuances de quem poderia ser, de fato, o culpado pelo desaparecimento das meninas. Ao mesmo tempo que vemos um pai desesperado, e entendemos o seu drama, percebemos que o policial quer ser justo, mas sabe que nem sempre isso é possível. Para uma produção de mais de duas horas de duração, tudo é muito lento, mas bem explicado. Nos momentos finais, porém, há uma acelerada no ritmo, e diversas viradas no roteiro, algumas consistentes, outras nem tanto.  

No elenco que conta com Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Paul Dano, Viola Davis, Maria Bello, Melissa Leo e Terrence Howard, os destaques são Jackman e Gyllenhaal, que dão veracidade a seus papéis. Impossível não ficar transtornado com toda a angústia e fúria que saem dos olhos de Hugh Jackman – que chegou a ser cotado ao Oscar 2014, mas em um ano com grandes atuações masculinas, sua presença na lista será uma surpresa. Já Jake Gyllenhaal faz um policial jovem, mas experiente, íntegro, focado, e com um ‘tique’ nos olhos que deixa claro toda sua fissura pelo trabalho. Uma construção, física e mentalmente, perfeita, que pode render ao ator uma indicação à estatueta dourada de coadjuvante. 

No geral, Os Suspeitos é um bom suspense, que prende a atenção, mas não chega a ser brilhante como dizem por aí.

O Grande Gatsby

junho 5, 2013

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Por Pedro de Biasi

A proposta oferecida por Baz Luhrmann ao clássico O Grande Gatsby, que estreia nesta sexta, 7, é um bom caso de ousadia bem trabalhada, especialmente quando os riscos são tão grandes. No entanto, ao invés de buscar uma narrativa inventiva, um elenco surpreendente ou outros recursos estilísticos menos óbvios, o cineasta opta por adaptar a trama básica do romance de F. Scott Fitzgerald com fidelidade, narrar de maneira linear e escalar atores perfeitos para seus papéis. Em que âmbito ele ousa? Na delicada e perigosa dinâmica entre conteúdo e forma, regida pelo espetáculo e um romance que se permite tempo para aflorar. Em uma arte que sofre com críticas de “estilo sobre substância”, sua aposta é definitivamente corajosa.

O personagem-título é apresentado através dos relatos de Nick Carraway (Tobey Maguire), um jovem formado em Yale que se muda para Nova York em 1922. Logo ao lado de sua modesta casa, reside o misterioso Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), um bilionário que faz grandes festas em sua mansão, mas nunca dá as caras. O homem, de trinta e poucos anos e passado obscuro, revela seu antigo romance com Daisy (Carey Mulligan), prima de Nick, e pede auxílio ao vizinho para resgatar essa paixão. No entanto, a mulher já está casada, com Tom Buchanan (Joel Edgerton), um indivíduo infiel e perigoso.

Gatsby se abre cada vez mais para Carraway, eventualmente revelando que sempre organizou suas imensas festanças, que prescindem totalmente de convites, para que, um dia, Daisy aparecesse. Essa revelação é uma das principais vitrines do belo casamento entre o espetáculo suntuoso que Luhrmann proporciona através de Gatsby e seus intuitos sentimentais secretos. Daisy não aparece em nenhuma das festas, o que ressalta tanto os esforços do bilionário em chamar sua atenção quanto a inutilidade dessas tentativas.

Não por acaso, a cena em que o casal finalmente se reencontra ressalta com humor a megalomania de Gatsby, mas se dá em um local intimista, a sala de Carraway, um espaço ainda mais limitado pelo excesso de flores a decorar a sala. Em sua maioria, os outros momentos afetuosos se dão de forma reservada, com conversas sussurradas e danças calmas em um mundo só deles. Quando Gatsby decide exibir sua riqueza com incontáveis roupas e relatos de viagens, a mulher fica incomodada, induzindo-o a se aproximar novamente. Entretanto, o homem é irredutível em seus métodos, pois acredita que deve ser capaz de oferecer tudo do bom e do melhor para ser digno daquela que ama – uma competição curiosa, pois se torna uma competição de maioridade com Tom, também rico e também fruto do afeto de Daisy.

Essa visão do homem provedor e da mulher necessitada de um parceiro estável e cheio de recursos é datada, obsoleta, pois retrata outra época. Luhrmann, que não estranharia uma atualização da história clássica após seu Romeu + Julieta, opta por manter a ambientação nos anos 1920 e as noções que marcam uma sociedade mais regressista: o racismo, o papel feminino subjugado e o moralismo. A trilha sonora, recheada de belas canções de Lana Del Rey, Beyoncé, Florence + the Machine e The XX, é o principal elemento modernizador, e uma sábia escolha: para uma adaptação direta, seria excessivo atualizar todos os aspectos da história e, talvez, até distrativo, já que a obra de Fitzgerald tratava de sua própria contemporaneidade e as questões mais importantes de então.

De qualquer forma, há diversos temas atemporais entre os fundamentos da história, como a insistência num amor antigo, a tentativa de reproduzir o passado, a importância das aparências e os abismos de classe e renda. Regido por essas diretrizes, Gatsby não consegue se convencer que pode fugir com Daisy, abandonando o sonho imperial que construiu para ela. Enquanto Luhrman pretende embriagar o público com a beleza da direção de arte, dos figurinos e da trilha sonora , Daisy se mostra imune a todo esse encanto – uma reação contrária à que o diretor pretende causar nos espectadores, diga-se. Não é por acaso que Gatsby revela seus ideais a Carraway ao fim de uma festa, enquanto seus empregados limpam e arrumam a desordem: trata-se da afirmação da artificialidade daquele cortejo grandiloquente, e o principal sinal de que aqueles ideais são incompatíveis com os de Daisy.

Durante o confronto dos personagens principais no quarto de um hotel, ensaia-se o fim do sonho romântico. O surto colérico de Gatsby revela uma instabilidade emocional que se prova fatal para seu relacionamento com Daisy, pois o expõe como um indivíduo menos confiável e mais incerto que Tom. Sua incapacidade de manter o controle da situação, apenas aludida no desajeitado reencontro do casal, se torna gritante. Se aquela vida calcada em aparências se tornou tão escancarada, resta apenas manter uma postura digna em meio ao turbilhão emocional e às revelações de condutas imorais. Quando Daisy finalmente assume que, sim, ama Tom, não importa se são dois sentimentos distintos, um amor de conveniência e outro puro – ela opta pelo homem que pode lhe prover de afeto e estabilidade.

Ao contrário de Gatsby, porém, Luhrmann se mostra preciso e firme em seus intentos, perfeitamente capaz de narrar a história com imagens opulentas que se escoram nos aspectos mais sentimentais do filme. Um dos melhores exemplos é a explosão de Daisy antes de seu casamento, uma orgia visual e musical que se mantém totalmente transparente para exibir o sofrimento da mulher. Esse emotivo espetáculo se torna ainda mais sólido com personagens delineados com cuidado e otimamente representados pelos talentos – e personas – de DiCaprio, Maguire, Edgerton, Mulligan, Jason Clarke e outros membros do elenco. Seja em forma ou conteúdo, como ponderação existencial ou experiência emocional, O Grande Gatsby é uma obra bem resolvida, tecida por um artesão extremamente habilidoso.

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por Janaina Pereira, do Rio de Janeiro

Debaixo de uma forte chuva, aconteceu na noite desta terça-feira, 28, a Premiere Latina de Se Beber, não Case! Parte 3, e a cidade escolhida para acolher o elenco da franquia foi o Rio de Janeiro. Por cerca de uma hora, os atores Bradley Cooper, Ed Helms, Zach Galifianakis, Justin Bartha, Jen Keong, Heather Graham e o diretor Todd Phillips circularam pelo tapete vermelho do tradicional Cine Odeon, na Cinelândia, centro do Rio.

brad e todd

Cooper, galã mais cobiçado do momento, foi esperado por uma centena de fãs que não arredaram o pé da porta do Odeon enquanto não conseguiram uma foto ou autógrafo do ator. Ainda que rapidamente, o ele satisfez a vontade de algumas fãs, mas não deixou de fotografar a si mesmo, especialmente em companhia do diretor Todd Phillips (foto).

Elegante em um terno claro, mas exibindo uma questionável escova no cabelo, Bradley Cooper, que faz o personagem Phil na franquia, passou rapidamente pelos fotógrafos e emissoras de TV, assim como seu companheiro de elenco Zach Galifianakis, o divertido Alan da trilogia. Ed Helms, que interpreta o nerd Stu, mostrou certa timidez diante dos fotógrafos. Enquanto isso, Justin Bartha (o Doug), Jen Keong (Mr. Chow) e Heather Graham (Jade) esbanjavam simpatia no red carpet carioca.

elenco

Nesta quarta, 29, a trupe de Se beber, não case! Parte 3 sobe o Morro da Urca para uma coletiva de imprensa, seguida por uma série de entrevistas para jornalistas brasileiros e de outros países da América Latina. Bradley Cooper e cia. devem deixar o Rio na quinta-feira à noite.

Trio

por Janaina Pereira

Ísis Valverde e Fabrício Boliveira foram as estrelas da coletiva de imprensa paulistana do filme Faroeste Caboclo, realizada no último dia 20 de maio. Intérpretes de Maria Lúcia e João de Santo Cristo, os célebres personagens criados pelo cantor e compositor Renato Russo para a música que inspirou o filme, os atores mostraram total consciência da importância do longa para suas carreiras e para uma legião (com trocadilho) de fãs de Renato.

“Tive cuidado ao construir a personagem porque sei que Maria Lúcia é uma presença marcante no imaginário dos fãs de Legião Urbana. Foi importante nesse processo a ajuda da Dona Carmem, mãe do Renato Russo, que nos recebeu na casa da família em Brasília. Perguntei para ela em quem o Renato havia se inspirado para criar Maria Lúcia, e ela me mostrou fotos da turma dele na época e explicou: ‘não era uma Maria Lúcia, mas várias Marias Lúcias.’ Aí eu identifiquei o sorriso de uma, a tristeza de outra, e assim fui criando a personagem”, revelou Ísis, que foi questionada por uma repórter sobre a importância de Maria Lúcia ser maior no filme do que na música. A atriz não titubeou: “Não concordo, acho que Maria Lúcia é importante na música sim. E não escolho personagem pelo tamanho, mas pela densidade”.

Fabrício

Articulado, o ator Fabrício Boliveira (foto) descreveu Faroeste Caboclo como um filme político. “Apesar de retratar uma história dos anos 80, permite um diálogo com o Brasil de hoje, quando temos a resistência de Marco Feliciano (presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara), às diferenças e às minorias. E acho que as cenas mais violentas não são as de pancadaria, mas as que mostram o preconceito contra o Santo Cristo. Ele é negro, pobre, então seu destino é o tráfico, de olho na ascensão social. Mas há um tanto de escolha pessoal também. Que caminhos ele pode vislumbrar? Quero que o filme desperte essas questões e que elas permaneçam, em vez de a pessoa sair do cinema e ir comer uma pizza depois e esquecer”.

Faroeste Caboclo não segue linearmente a música de nove minutos de Renato Russo, o que é uma saída inteligente do roteiro. Ainda assim, o diretor René Sampaio foi confrontado por alguns jornalistas sobre essa opção. “A gente nunca quis fazer um clipe da música. Um clipe de 100 minutos seria meio chato. Achei que a gente devia amplificar o sentido e o significado da história e, além disso, buscar o que era essencial. Então quando você assiste ao filme, permanece com a essência dos personagens e do drama, sem perder o espírito”, explicou Sampaio, que mostrou durante a coletiva de imprensa a mesma segurança apresentada na direção deste seu primeiro longa-metragem.

Giuliano

Quem também esteve presente na coletiva foi o filho de Renato Russo, Giuliano Manfredini (foto), um dos produtores do longa. Ele contou sobre sua emoção ao participar do projeto, e revelou que seu pai escreveu a música já pensando em transformá-la em filme. “Faroeste foi destinado pelo meu pai para que virasse filme. Acompanhar esse resultado e participar disso… não tenho nem palavras para descrever a minha felicidade e o meu orgulho. É verossímil, extremamente fiel, mas ao mesmo tempo autônomo, tem vida própria. Meu pai com certeza teria adorado”.

O filme Faroeste Caboclo tem pré-estreia nesta quarta, dia 29, e estreia na quinta, dia 30.

Fotos: Angela Debellis

Reino Escondido

maio 17, 2013

reino

Por Pedro de Biasi

As principais qualidades de Reino Escondido (Epic), que estreia nesta sexta, 17, chamam a atenção, mas permitem apreciar elementos ainda mais louváveis na animação. Não se trata de uma obra particularmente original ou subversiva – pelo contrário –, como a premissa deixa bastante claro. O ponto de vista principal é de uma sociedade de minúsculas pessoas que vivem na floresta e protegem o meio ambiente. Em conflito com esse grupo mantedor do equilíbrio, estão os Boggans, liderados por Mandrake, que pretendem espalhar a decomposição. Esse embate oculto se cruza com o mundo dos “pisadores”, as pessoas comuns, quando a jovem Mary Katherine visita o pai, obcecado por essas criaturas e determinado a provar sua existência.

É exatamente por se tratar de um filme tão tradicional que as qualidades se destacam. O ambientalismo, a perspectiva dos supervisores da ordem, a separação estética escancarada do bem e do mal, tudo indica uma moral tradicional ao ponto do irritante. Unido com um roteiro que segue caminhos nada surpreendentes, o engessamento parece contaminar e deteriorar qualquer elemento digno de interesse. No entanto, o longa é construído com uma habilidade notável: a simples premissa se desenvolve sem grandes trancos e os detalhes se encaixam sem esforço. Com uma narrativa tão fluida, é fácil acompanhar seu andamento e atentar para outros aspectos dignos de nota.

Além de contar sua história de forma precisa – algo um tanto raro em Hollywood hoje em dia –, Reino Escondido equilibra as várias facetas que formam o produto animado tradicional. Há bons momentos de humor, embora alguns personagens tenham essa função tão exacerbada que se tornam intrusos em qualquer cena. As sequências de ação, por sua vez, têm seu charme, mesmo que cenas confusas sejam usadas aqui e ali para disfarçar uma violência que não condiria com o público infantil. Além disso, o fotorrealismo e a qualidade da animação, outras áreas em que os realizadores mostram domínio da técnica, sustentam diversas imagens que o diretor Chris Wedge usa com habilidade para transmitir medo, apreensão, deslumbramento ou vertigem.

Se, por um lado, o programa é agradável o suficiente com essas qualidades, por outro, um filme redondo pode facilmente se tornar quadrado e inócuo. A verdade é que o longa trabalha de forma sutil – pode-se até dizer de forma reticente – a extrapolação das funções mais básicas do vilão. Mandrake não tem sua história de fundo revelada em um flashback, o que poderia tornar seu drama distante, e tampouco é uma força do mal cujo único sentimento é ganância por aquilo que seus inimigos possuem. Uma perda traumática em sua vida acontece em cena, e a questão é retomada alguns minutos depois para destacar sua cicatriz emocional. Além disso, sua própria condição sugere uma dialética real, e não apenas a pretensão de uma.

Ao invés de uma força maligna estéril, que existe apenas para ameaçar os valores corretos, os Boggans representam o outro lado da vida, cuja preservação é o objetivo dos heróis. Mandrake é o arauto da decomposição, um estágio natural na existência de um ser vivo. Mesmo que o personagem alastre ativamente a podridão, a Rainha da floresta usa de seus próprios poderes de forma semelhante para curar e rejuvenescer. O equilíbrio pressupõe a ação das duas forças em conflito, o que torna ambas necessárias, e a sobrevivência dos vilões em seu reino apodrecido mostra que eles não são descartáveis. É a mesma contraposição presente em O Rei Leão, mas com diferenças importantes: Scar e suas hienas vivem em miséria e fome, e o leão não revela características emocionais que não sejam “vilanescas”.

Outro elemento convencional, o romantismo, está presente em Reino Escondido como uma instituição menos garantida do que de costume. Não por acaso, o filme trata de separações românticas causadas por incompatibilidades distintas: pode ser o fim de uma vida ou a distinção entre duas espécies. Não é, de forma alguma, um filme que usa seu formato tradicional para introduzir um viés subversivo. Pode-se dizer, por outro lado, que a animação é muito bem-feita em seu nicho tradicional e, de quebra, coloca em xeque os clichês associados à maldade e aos finais felizes. Embora essa qualidade não seja tão impressionante, a boa ourivesaria é merecedora de elogios.