O Grande Gatsby

junho 5, 2013

gatsby

Por Pedro de Biasi

A proposta oferecida por Baz Luhrmann ao clássico O Grande Gatsby, que estreia nesta sexta, 7, é um bom caso de ousadia bem trabalhada, especialmente quando os riscos são tão grandes. No entanto, ao invés de buscar uma narrativa inventiva, um elenco surpreendente ou outros recursos estilísticos menos óbvios, o cineasta opta por adaptar a trama básica do romance de F. Scott Fitzgerald com fidelidade, narrar de maneira linear e escalar atores perfeitos para seus papéis. Em que âmbito ele ousa? Na delicada e perigosa dinâmica entre conteúdo e forma, regida pelo espetáculo e um romance que se permite tempo para aflorar. Em uma arte que sofre com críticas de “estilo sobre substância”, sua aposta é definitivamente corajosa.

O personagem-título é apresentado através dos relatos de Nick Carraway (Tobey Maguire), um jovem formado em Yale que se muda para Nova York em 1922. Logo ao lado de sua modesta casa, reside o misterioso Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), um bilionário que faz grandes festas em sua mansão, mas nunca dá as caras. O homem, de trinta e poucos anos e passado obscuro, revela seu antigo romance com Daisy (Carey Mulligan), prima de Nick, e pede auxílio ao vizinho para resgatar essa paixão. No entanto, a mulher já está casada, com Tom Buchanan (Joel Edgerton), um indivíduo infiel e perigoso.

Gatsby se abre cada vez mais para Carraway, eventualmente revelando que sempre organizou suas imensas festanças, que prescindem totalmente de convites, para que, um dia, Daisy aparecesse. Essa revelação é uma das principais vitrines do belo casamento entre o espetáculo suntuoso que Luhrmann proporciona através de Gatsby e seus intuitos sentimentais secretos. Daisy não aparece em nenhuma das festas, o que ressalta tanto os esforços do bilionário em chamar sua atenção quanto a inutilidade dessas tentativas.

Não por acaso, a cena em que o casal finalmente se reencontra ressalta com humor a megalomania de Gatsby, mas se dá em um local intimista, a sala de Carraway, um espaço ainda mais limitado pelo excesso de flores a decorar a sala. Em sua maioria, os outros momentos afetuosos se dão de forma reservada, com conversas sussurradas e danças calmas em um mundo só deles. Quando Gatsby decide exibir sua riqueza com incontáveis roupas e relatos de viagens, a mulher fica incomodada, induzindo-o a se aproximar novamente. Entretanto, o homem é irredutível em seus métodos, pois acredita que deve ser capaz de oferecer tudo do bom e do melhor para ser digno daquela que ama – uma competição curiosa, pois se torna uma competição de maioridade com Tom, também rico e também fruto do afeto de Daisy.

Essa visão do homem provedor e da mulher necessitada de um parceiro estável e cheio de recursos é datada, obsoleta, pois retrata outra época. Luhrmann, que não estranharia uma atualização da história clássica após seu Romeu + Julieta, opta por manter a ambientação nos anos 1920 e as noções que marcam uma sociedade mais regressista: o racismo, o papel feminino subjugado e o moralismo. A trilha sonora, recheada de belas canções de Lana Del Rey, Beyoncé, Florence + the Machine e The XX, é o principal elemento modernizador, e uma sábia escolha: para uma adaptação direta, seria excessivo atualizar todos os aspectos da história e, talvez, até distrativo, já que a obra de Fitzgerald tratava de sua própria contemporaneidade e as questões mais importantes de então.

De qualquer forma, há diversos temas atemporais entre os fundamentos da história, como a insistência num amor antigo, a tentativa de reproduzir o passado, a importância das aparências e os abismos de classe e renda. Regido por essas diretrizes, Gatsby não consegue se convencer que pode fugir com Daisy, abandonando o sonho imperial que construiu para ela. Enquanto Luhrman pretende embriagar o público com a beleza da direção de arte, dos figurinos e da trilha sonora , Daisy se mostra imune a todo esse encanto – uma reação contrária à que o diretor pretende causar nos espectadores, diga-se. Não é por acaso que Gatsby revela seus ideais a Carraway ao fim de uma festa, enquanto seus empregados limpam e arrumam a desordem: trata-se da afirmação da artificialidade daquele cortejo grandiloquente, e o principal sinal de que aqueles ideais são incompatíveis com os de Daisy.

Durante o confronto dos personagens principais no quarto de um hotel, ensaia-se o fim do sonho romântico. O surto colérico de Gatsby revela uma instabilidade emocional que se prova fatal para seu relacionamento com Daisy, pois o expõe como um indivíduo menos confiável e mais incerto que Tom. Sua incapacidade de manter o controle da situação, apenas aludida no desajeitado reencontro do casal, se torna gritante. Se aquela vida calcada em aparências se tornou tão escancarada, resta apenas manter uma postura digna em meio ao turbilhão emocional e às revelações de condutas imorais. Quando Daisy finalmente assume que, sim, ama Tom, não importa se são dois sentimentos distintos, um amor de conveniência e outro puro – ela opta pelo homem que pode lhe prover de afeto e estabilidade.

Ao contrário de Gatsby, porém, Luhrmann se mostra preciso e firme em seus intentos, perfeitamente capaz de narrar a história com imagens opulentas que se escoram nos aspectos mais sentimentais do filme. Um dos melhores exemplos é a explosão de Daisy antes de seu casamento, uma orgia visual e musical que se mantém totalmente transparente para exibir o sofrimento da mulher. Esse emotivo espetáculo se torna ainda mais sólido com personagens delineados com cuidado e otimamente representados pelos talentos – e personas – de DiCaprio, Maguire, Edgerton, Mulligan, Jason Clarke e outros membros do elenco. Seja em forma ou conteúdo, como ponderação existencial ou experiência emocional, O Grande Gatsby é uma obra bem resolvida, tecida por um artesão extremamente habilidoso.

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