Reino Escondido

maio 17, 2013

reino

Por Pedro de Biasi

As principais qualidades de Reino Escondido (Epic), que estreia nesta sexta, 17, chamam a atenção, mas permitem apreciar elementos ainda mais louváveis na animação. Não se trata de uma obra particularmente original ou subversiva – pelo contrário –, como a premissa deixa bastante claro. O ponto de vista principal é de uma sociedade de minúsculas pessoas que vivem na floresta e protegem o meio ambiente. Em conflito com esse grupo mantedor do equilíbrio, estão os Boggans, liderados por Mandrake, que pretendem espalhar a decomposição. Esse embate oculto se cruza com o mundo dos “pisadores”, as pessoas comuns, quando a jovem Mary Katherine visita o pai, obcecado por essas criaturas e determinado a provar sua existência.

É exatamente por se tratar de um filme tão tradicional que as qualidades se destacam. O ambientalismo, a perspectiva dos supervisores da ordem, a separação estética escancarada do bem e do mal, tudo indica uma moral tradicional ao ponto do irritante. Unido com um roteiro que segue caminhos nada surpreendentes, o engessamento parece contaminar e deteriorar qualquer elemento digno de interesse. No entanto, o longa é construído com uma habilidade notável: a simples premissa se desenvolve sem grandes trancos e os detalhes se encaixam sem esforço. Com uma narrativa tão fluida, é fácil acompanhar seu andamento e atentar para outros aspectos dignos de nota.

Além de contar sua história de forma precisa – algo um tanto raro em Hollywood hoje em dia –, Reino Escondido equilibra as várias facetas que formam o produto animado tradicional. Há bons momentos de humor, embora alguns personagens tenham essa função tão exacerbada que se tornam intrusos em qualquer cena. As sequências de ação, por sua vez, têm seu charme, mesmo que cenas confusas sejam usadas aqui e ali para disfarçar uma violência que não condiria com o público infantil. Além disso, o fotorrealismo e a qualidade da animação, outras áreas em que os realizadores mostram domínio da técnica, sustentam diversas imagens que o diretor Chris Wedge usa com habilidade para transmitir medo, apreensão, deslumbramento ou vertigem.

Se, por um lado, o programa é agradável o suficiente com essas qualidades, por outro, um filme redondo pode facilmente se tornar quadrado e inócuo. A verdade é que o longa trabalha de forma sutil – pode-se até dizer de forma reticente – a extrapolação das funções mais básicas do vilão. Mandrake não tem sua história de fundo revelada em um flashback, o que poderia tornar seu drama distante, e tampouco é uma força do mal cujo único sentimento é ganância por aquilo que seus inimigos possuem. Uma perda traumática em sua vida acontece em cena, e a questão é retomada alguns minutos depois para destacar sua cicatriz emocional. Além disso, sua própria condição sugere uma dialética real, e não apenas a pretensão de uma.

Ao invés de uma força maligna estéril, que existe apenas para ameaçar os valores corretos, os Boggans representam o outro lado da vida, cuja preservação é o objetivo dos heróis. Mandrake é o arauto da decomposição, um estágio natural na existência de um ser vivo. Mesmo que o personagem alastre ativamente a podridão, a Rainha da floresta usa de seus próprios poderes de forma semelhante para curar e rejuvenescer. O equilíbrio pressupõe a ação das duas forças em conflito, o que torna ambas necessárias, e a sobrevivência dos vilões em seu reino apodrecido mostra que eles não são descartáveis. É a mesma contraposição presente em O Rei Leão, mas com diferenças importantes: Scar e suas hienas vivem em miséria e fome, e o leão não revela características emocionais que não sejam “vilanescas”.

Outro elemento convencional, o romantismo, está presente em Reino Escondido como uma instituição menos garantida do que de costume. Não por acaso, o filme trata de separações românticas causadas por incompatibilidades distintas: pode ser o fim de uma vida ou a distinção entre duas espécies. Não é, de forma alguma, um filme que usa seu formato tradicional para introduzir um viés subversivo. Pode-se dizer, por outro lado, que a animação é muito bem-feita em seu nicho tradicional e, de quebra, coloca em xeque os clichês associados à maldade e aos finais felizes. Embora essa qualidade não seja tão impressionante, a boa ourivesaria é merecedora de elogios.

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