REALITY

por Pedro de Biasi

O cineasta Matteo Garrone demora algum tempo para apresentar o conflito central de Reality – A Grande Ilusão, que estreia nesta sexta, 26, mas expõe o grosso do conteúdo e da forma do filme na primeira tomada, um plano-sequência que parte de uma panorâmica de Nápoles para focar em uma carruagem anacrônica que desfila pelas ruas da cidade. Ao som da trilha sonora de Alexandre Desplat, que claramente evoca contos de fadas, a cena de abertura continua com um casamento espalhafatoso, uma verdadeira fantasia comprada pelos noivos. O protagonista, Luciano (Aniello Arena), está lá apenas como parte da festa, vestido de drag queen para animar os pombinhos e os convidados. É lá que ele conhece o ex-participante do Big Brother Enzo (Raffaele Ferrante), o primeiro passo para sua ruína.

Graças à insistência de suas filhas, loucas pelo reality show, Luciano decide fazer um teste para participar da próxima edição. Com uma boa dose de cordialidade e favores de Enzo, o homem consegue uma audição, e tem início uma obsessão patológica. Ansioso pela ligação dos organizadores do programa (conhecido na Itália como Grande Fratello), ele começa a viver em função de sua possível – mas, em sua cabeça, certa – seleção. Essa fixação infecta até mesmo seu dia a dia: o protagonista acredita que agentes da televisão o observam sempre, para avaliar se ele é digno de participar.

Embora a estrutura geral da narrativa não seja entregue logo de cara, muitos dos temas e posicionamentos estão expressos logo no plano inicial. Na cena, há uma delação dos contos de fadas modernos, através da música de Desplat e da imagem surreal da carruagem rodando pela Nápoles de hoje em dia. Trata-se, é verdade, de um casamento, mas essa mesma visão irônica sobre a quebra da realidade é aplicada para o sonho do Grande Fratello. Além disso, antes da tomada seguinte não fica claro quem está dentro do coche espalhafatoso, e a impressão é de que aquela extravagância tem algo a ver com o reality show.

Com seus pontos de vista declarados tão rapidamente e de forma tão cristalina, o que resta é a dramática exploração da instabilidade psicológica do protagonista, o que não é uma grande surpresa quando se trata do cineasta cujo trabalho anterior foi o implacável Gomorra. Ambos os longas usam a realidade de forma denunciatória, embora Reality tenha tinturas um pouco mais elaboradas. Por outro lado, o uso das noções de fantasia e idealização é, mais uma vez na obra de Garrone, um método óbvio para envolver o público nos posicionamentos que o interessam – problema que se intensifica quando o protagonista verbaliza o “subtexto” da história, já estabelecido na cena inicial.

Se o realismo foi usado como a ferramenta mais simples possível em Gomorra, em Reality há uma oposição entre a vida cotidiana de Luciano e seus sonhos de fama e fortuna, bem representada na tomada final, que ecoa aquela que abre o filme. Trata-se de outra panorâmica que explora, de forma quase idêntica, o conflito entre realidade e sonho, encerrando um discurso que se faz claro desde o início e estanque até o fim. A proposta, na verdade, é firmar a obsessão desmedida de Luciano em suas instabilidades mentais, objetivo que Garrone e os outros três co-roteiristas se esmeram para alcançar. O personagem cai em um círculo vicioso que distorce a realidade, como conseqüência da promessa da fantasia (sur)real de uma casa que se torna vitrine de relações humanas.

Além de ser visto como um retrato ridículo de um grupo de pessoas (todas, claro, dotadas de corpos atraentes) em uma situação supostamente sem corte e sem censura, o Big Brother surge como uma chance de se dar bem na vida que não envolve os meios tradicionais. Luciano, que trabalha duro em seu mercado de peixe e complementa renda com bicos, vê no programa uma oportunidade extraordinária, mágica. Seus delírios de ansiedade não raro incluem Enzo, o ex-Brother que não aparece fazendo qualquer tipo de atividade digna de nota, apenas exibindo sua figura conhecida em eventos aleatórios. Neste sentido, o fato de o filme se passar na Itália não cria a menor diferença cultural, pois esse gênero de celebridades recebe o mesmo tratamento no Brasil.

Apesar de seu realismo, que resvala na paradoxal natureza dos reality shows, o mais impressionante em Reality – A Grande Ilusão é o pouco que tem a dizer, especialmente por se tratar de um tema discutido em tantos países e em todo tipo de círculo social. Escancarado sem perda de tempo, inclusive no título ambíguo, o discurso é apenas ponto de partida para uma narrativa dramática sobre a mais tradicional loucura – a incapacidade de diferenciar realidade e imaginação. Que poucos vieses adicionais sejam incluídos no decorrer das duas horas de projeção são prova de que Matteo Garrone continua determinado a sacrificar a complexidade para explorar a emoção humana da forma mais bruta.

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