A hora mais escura

fevereiro 14, 2013

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por Janaina Pereira

A cineasta Kathryn Bigelow chamou a atenção do mundo ao conquistar o Oscar de melhor direção por Guerra ao Terror (2010), e se tornar a primeira mulher a receber este prêmio. No ‘Clube do Bolinha’ que é Hollywood, a ex-mulher de James Cameron impõe respeito e ganha admiradores por fugir do estereótipo de ‘diretora de comédias românticas/dramas’ e apostar em filmes essencialmente masculinos. Seu novo trabalho, A Hora mais Escura (Zero Dark Thirty), em cartaz a partir desta sexta, 15, é, na minha modesta opinião, o melhor dos concorrentes ao Oscar – ao lado de Amor, de Michael Haneke.

A trama relata o que supostamente aconteceu na caçada a Osama Bin Laden, inimigo número 1 dos EUA após os atentados em 11 de setembro. Seguindo a determinação da agente da CIA, Maya (Jessica Chastain), o filme narra os bastidores da ação que mataria Bin Laden em maio de 2011.

Apesar da trama ser original, foi baseada em relatos de agentes que estiveram envolvidos na caça a Bin Laden, incluindo a agente mulher que liderou boa parte da operação, e que inspirou a personagem de Jessica. A CIA teria, inclusive, dado acesso a alguns documentos à Bigelow e ao roteirista Mark Boal (que também é jornalista), mas depois do lançamento do filme questionou as cenas de tortura que aparecem no longa, negando que os EUA façam qualquer coisa neste sentido.

O grande diferencial de A hora mais escura é o fato do filme ser dirigido por uma mulher. Bigelow dá um olhar feminino à trama, mostrando os dramas pessoais entre as cenas de ação. Dificilmente um homem deixaria tão claro que foi o desejo pessoal de uma mulher que levou Bin Laden à morte – e é essa visão feminina em um terreno masculino e árido que transforma o filme em algo mais do que uma história de ação/guerra.

Infelizmente Kathryn Bigelow sofre com o machismo e a falta de compostura tipicamente americana quando o assunto é abafar seus próprios podres. Machismo porque só isso explica a não-inclusão da (ótima) diretora na categoria direção do Oscar 2013, mesmo seu filme concorrendo em outras categorias importantes, como melhor filme e roteiro original (no total, foram cinco indicações). A campanha que vários políticos americanos fizeram contra A Hora mais Escura – pelo fato de o filme apresentar cenas de tortura – só mostra como o povo que acha que domina o mundo também acredita que nós, pessoas de outros países, realmente pensamos que os EUA nunca torturaram ninguém. Bigelow não disse nada que a gente já não sabia.

Também é importante ressaltar o ótimo desempenho de Jessica Chastain, atriz que nos últimos dois anos vem se transformando em um dos nomes sólidos do cinema americano. Indicada ao Oscar, era favorita até Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida) começar a arrebatar todos os prêmios – o que é uma pena, pois Jessica tem atuação infinitamente melhor que Jennifer, e é merecedora de todo e qualquer prêmio.

Mesmo que A hora mais escura tenha sido extremamente questionado pelas cenas de tortura, é importante lembrar que o filme não se baseia apenas isso, pois esta seria apenas uma das táticas usadas pelos americanos para conseguirem o que desejam. Neste ponto, o roteiro de Mark Boal é bem claro, apontando todas as controvérsias do sistema americano. Também deixa claro que não há heróis nem vilões, pois tudo que é feito – de um lado ou de outro da ‘guerra’ – tem sua justificativa.

Espero que longe dos EUA A hora mais escura faça o sucesso que merece. É, desde já, um dos grandes filmes do ano, e que passa a limpo um dos pontos mais importante da história recente.

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O Voo

fevereiro 7, 2013

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por Janaina Pereira

Denzel Washington é um dos melhores atores americanos, mas na última década vinha trabalhando em filmes bem abaixo do seu talento. Duas vezes premiado no Oscar – como coadjuvante por Tempo de Glória (1990) e como ator por Dia de Treinamento (2002), ele finalmente estrela um filme à sua altura depois de uma série de fiascos. Em O Voo (Flight), de Robert Zemeckis, que estreia nesta sexta, 8, Denzel mostra que continua em forma na arte de atuar bem.

No longa ele interpreta Whip Whitaker, experiente piloto que consegue salvar a vida de seus passageiros em um voo comercial. A manobra arriscada, que poderia transformar Whip em herói, acaba trazendo à tona um problema pessoal: o piloto é alcoólatra. O uso de álcool e drogas antes e durante o voo colocam Whip em uma situação extrema: continuar mentindo para permanecer herói ou encarar sua dura realidade.

Diante de um personagem complexo, Denzel esbanja talento, o que valeu ao ator sua sexta indicação ao Oscar. O Voo também concorre como melhor roteiro original. O elenco coadjuvante, que conta com nomes como Don Cheadle, John Goodman, Kelly Reilly, Bruce Greenwood e Melissa Leo, também têm bons momentos. Outro destaque é a competente direção de Robert Zemeckis, o diretor da clássica trilogia De Volta para o Futuro. Afastado das produções ‘de carne e osso’ – dedicou os últimos anos à animação – Zemeckis mostra versatilidade e segurança nas boas cenas de ação – em especial a do acidente de avião – e também nas sequências dramáticas que envolvem o vício do protagonista.

O Voo é uma daquelas produções em que ator e diretor fazem toda a diferença. Denzel Washington e Robert Zemeckis são os responsáveis por fazer deste drama, que tinha tudo para ser piegas, um ótimo filme.

O Amante da Rainha

fevereiro 6, 2013

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Por Janaina Pereira

Indicado ao Oscar na categoria filme estrangeiro, o dinamarquês O Amante da Rainha, de Nikolaj Arcel, é um típico filme de época, com bela direção de arte, figurino impecável e boas atuações. Mesmo assim, o filme passou despercebido durante o Festival de Berlim 2012 – e causou surpresa sua dupla premiação no festival, como melhor roteiro e ator para Mikkel Boe Følsgaard. Exibido na Mostra de São Paulo do ano passado, agora o filme chega aos cinemas brasileiros nesta sexta, 8.

A trama se passa no século 18, quando a jovem britânica Carolina Matilde (Alicia Ikander), da Grã-Bretanha, se casa com o insano rei Christiano VII (Mikkel Boe Følsgaard), tornando-se rainha da Dinamarca. Quando Johann Struensee (Mads Mikkelsen), um intelectual alemão, se torna médico da corte, Christiano faz dele seu confidente e posteriormente ministro-chefe. Carolina também começa a se aproximar de Struensee. e logo os dois iniciam um romance. Idealistas e corajosos, o casal de amantes arrisca tudo em busca da liberdade do povo, e começam a propor reformas que acabam mudando a Dinamarca.

Como toda história de bastidores de família real, o filme é recheado de puxadas-de-tapetes, traições, loucuras e rancores. Tudo filmado corretamente, sem grandes surpresas e com destaques para as interpretações do trio protagonista Mikkel Boe Følsgaard, Mads Mikkelsen e Alicia Ikander.

O Amante da Rainha é um filme que não inova em seu formato, mas ainda assim não deixa de ser uma boa produção de época.

Os Miseráveis

fevereiro 1, 2013

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por Janaina Pereira

Não gosto de musicais. São poucos os musicais que eu vi até hoje que realmente curti, e para este seleto grupo entrou Os Miseráveis, de Tom Hooper (O Discurso do Rei), estreia dessa sexta, 1. O diretor, em incrível ousadia, colocou os atores para cantar ao vivo no set de flmagens, fato inédito que deve mudar para sempre a história desse gênero cinematográfico.

A clássica obra de Victor Hugo, encenada na Broadway e (re)conhecida em todo o mundo virou um filme grandioso, cheio de cenas difíceis tanto no aspecto de interpretação quanto no de direção, que dá a Hooper e ao elenco a oportunidade de mostrar talento e versatilidade. A história – roteirizado por Willliam Nicholson – se passa durante a Revolução Francesa do século XIX. Jean Valjean (Hugh Jackman) rouba um pão para alimentar a irmã mais nova e acaba sendo preso por isso. Solto tempos depois, ele tentará recomeçar sua vida e se redimir. Ao mesmo tempo em que tenta fugir da perseguição do inspetor Javert (Russell Crowe).

Desde a primeira cena Tom Hooper mostra a que veio. A música envolvente, a imensidão que invade a telona e um Hugh Jackman mostrando no olhar toda a emoção do personagem (e que ele é muito mais que Wolverine) deixam evidente que o diretor estava disposto a fazer um filme inesquecível. A partir dali são mais de duas horas de músicas que encantam e comovem, atuações convincentes e uma direção segura. Para pessoas como eu que não apreciam musicais, em determinado momento fica cansativo e tedioso. Mas logo Jackman (Globo de Ouro de melhor ator comédia/musical) surge para mostrar que agarrou com unhas e dentes a chance de fazer esse papel e o interesse pelo filme volta por completo.

Além de Jackman, Anne Hathaway se destaca. A atriz aparece pouco, mas o suficiente para garantir seu Oscar de melhor atriz coadjuvante – Os Miseráveis foi indicado em oito categorias, incluindo filme e ator, mas é Anne quem vem ganhando todos os prêmios por sua atuação como a humilde Fantine. Em seu musical solo, a atriz canta para (ganhar) o Oscar, em uma das mais memoráveis cenas do longa. Russell Crowe tem as músicas que mais me agradaram, e seus embates com Hugh Jackman mostram o talento de ambos – vamos combinar que atuar e cantar ao mesmo tempo é para poucos, e os dois se saem muito bem.

O lado cômico, com Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter, diverte e traz leveza ao filme, mas as cenas românticas com Amanda Seyfried e Eddie Redmayne são chatíssimas.

Por último, mas não o último, palmas para Tom Hooper. O diretor, tão questionado por ser Oscar com O Discurso do Rei, mostra que tem total domínio da câmera, aposta no talento de seu elenco, e investe em cenas complicadas, sempre com impressionante segurança. Para os fãs de musicais, Os Miseráveis é um prato cheio. Para quem gosta de bom cinema, vale dar uma chance ao filme, uma obra cinematográfica a altura do maravilhoso livro de Victor Hugo.