O Mestre

janeiro 29, 2013

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Por Pedro Costa de Biasi

Com um título que parece dizer tão pouco, O Mestre, de Paul Thomas Anderson (em cartaz), convida a uma reflexão logo de cara. A menção não é meramente à figura do Mestre da Causa, pois isso não respeitaria a indefinição sobre qual dos dois personagens, o de Joaquin Phoenix (indicado ao Oscar de melhor ator e prêmio Coppa Volpi no Festival de Veneza 2012)ou o de Phillip Seymour Hoffman (indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante e que dividiu com Phoenix o prêmio Coppa Volpi de melhor ator no Festival de Veneza 2012), é a peça central do filme. Afinal, eles estão sempre disputando esse lugar, e a disputa é uma das questões fundadoras da obra.

Phoenix interpreta Freddie Quell, um homem impulsivo e sexual que saiu da 2ª Guerra Mundial com estresse pós-traumático e com um vício em bebidas que ele produz com substâncias variadas. Incapaz de se manter em um emprego, ele acaba conhecendo e ganhando a simpatia de Lancaster Dodd (Hoffman), fundador e Mestre de um movimento filosófico intitulado a Causa. O roteiro acompanha o relacionamento dos dois homens, que perpassa os ensinamentos de Dodd e o comportamento de Quell.

Como o roteiro trata de dois homens já (de)formados, a disputa de poder entre os dois personagens centrais é simbólica em vários planos. Esses conflitos levam a diversas interpretações que variam a fórmula de um homem se impondo sobre outro, seja pelo viés da pura virilidade, da sabedoria empírica ou do conhecimento espiritual. Há uma ambiguidade nesta última dicotomia que surge muito explícita no filme: Lancaster é tanto o pastor que prega quanto o que doma animais, e Freddie se mostra tanto como fiel iniciado quanto como bicho selvagem. O primeiro inclusive chama o segundo de “animal”, mencionando seu comportamento irascível e primitivo.

Essa dupla de acepções para a palavra Mestre é quase unilateral, pois, no mais das vezes, o termo é atrelado a Lancaster. Não haveria problema com essa análise, a não ser o fato de que Freddie constantemente prova que não pode ser mantido na posição de subjugado ou mesmo de aluno. Por outro lado, ele erra pela vida de tal forma que seria impossível dizer que ele é o senhor dela. Uma vez que nem ele mesmo nem o fundador da Causa é seu mestre, e “é impossível viver sem um mestre”, o papel se encontra preenchido não por um indivíduo, mas por uma condição: a selvageria.

Embora o charlatanismo e a petulância de Lancaster sejam expostos constantemente através da virulência de Hoffman, sua visão sobre Freddie como um animal acaba se provando muito pertinente e exata, na medida em que abarca as pulsões que o atraem ao sexo e à violência e sua estreiteza de conhecimento, com Phoenix provendo um retrato irretocável de um indivíduo rústico. No entanto, O Mestre aborda conceitos puros a partir de denominações, palavras e interpretações; assim, não há dúvida de que os impulsos bestiais são parte intrínseca do ser humano, mesmo que Lancaster lhes dê a pecha de defeitos. Nessa delicada percepção, o engodo do fundador da Causa é crer em uma humanidade pura, dissociada das raízes animais e senhora de si.

Lancaster, afinal, não é seu próprio Mestre, com sua limitação sangrando frequentemente quando pessoas e regras de fora invadem seu espaço e obtêm sucesso em se impor sobre ele. A questão emerge com mais clareza na cena do reencontro com Freddie, na qual ele se faz afetuoso e cheio de boa vontade, mas sua esposa (Amy Adams, indicada a melhor atriz coadjuvante no Oscar 2013) insiste que o caótico homem não é adequado à Causa porque não quer melhorar. Mais que levantar suspeitas sobre quem realmente fundou o movimento ou incitar uma discussão mais geral sobre o papel da mulher perante o homem, essa cena mostra que Lancaster não é senhor de si, e só tem poder sobre seus seguidores. Sua “descoberta” existencial, filosófica e espiritual pode ter se apossado dele e o tornado marionete.

Freddie, por outro lado, não tem mestre humano, como a cena do deserto expõe: se o rosto de Hoffman preenche a tela, totalizante, a figura de Freddie simplesmente se dissipa no quadro, vai de um grão de imagem a nada. Seu senhor são os impulsos, são a obsessão com a liberdade. Ele não deixa de ser um realista, o que o torna menos capaz de relevar os fatos táteis e empíricos enquanto, presume-se, avança espiritualmente. Sua tragédia é individual e em muito pouco influenciada por Lancaster: o filme não é um conto moral sobre a influência vil da religião, mas sim uma amostra das tragédias que diferentes tipos de ignorância geram.

O foco tão predominante nessa análise de símbolos e metáforas acaba dividindo a atenção com o material humano que Phoenix e Hoffman entregam de forma tão visceral. O que mais pesa é a ilustração farta dos vários planos interpretativos do embate entre os personagens, seja com verbalizações (“… seu animal idiota”, “… você inventa tudo na medida em que avança”) ou com a exposição das conotações sexuais, que duas cenas próximas do fim (o cantar de Lancaster, como a uma amada, e o questionário de Freddie a uma mulher na cama) escancaram.

Ao ressaltar os supostos subtextos, o roteiro esgota os temas do filme de forma um tanto frustrante, mesmo enquanto ressalta as qualidades independentes, como as do elenco e da elaborada fotografia. Há alguns aspectos que se tornam menos interessantes com o devassamento das perspectivas pelas quais os personagens são vistos: a natureza tensa de Lancaster e a inconstância de Freddie são, além de traços dos personagens, rubricas de pareceres já expostos sobre eles.

Por outro lado, Anderson escapa do discurso de mero repúdio a ensinamentos dogmáticos ao mostrar a pulsão ignorante e animalesca como um arco trágico semelhante ao de Lancaster. Afinal, os dois personagens se mostram completamente dominados por mulheres, seja a esposa de Lancaster ou a figura geral da mulher (a escultura de areia é outra ilustração sobressalente) para Freddie, e são incapazes de tomar decisões independentes delas.

O Mestre é um exercício de competência em várias frentes, seja na construção dos personagens, da narrativa, das imagens ou das interpretações dos atores, mas as ideias por trás desses feitos são muito menos dignas de atenção. O filme tem fundações tão portentosas que chega a surpreender quão pouco elas precisam suportar.

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