O Lado Bom da Vida

janeiro 30, 2013

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por Janaina Pereira

Não gosto de filmes em que, nas primeiras cenas, eu já descubro o final. E foi isso que aconteceu quando assisti O Lado Bom da Vida, de David O. Russel (O Vencedor), o filme mais querido da temporada de caça ao Oscar que estreia nesta sexta, dia 1. Não, o longa estrelado pelo galã Bradley Cooper e pela nova namoradinha da América, Jennifer Lawrence, não é ruim. Pelo contrário, é um passatempo que diverte em alguns momentos e tem Robert DeNiro em sua melhor atuação dos últimos anos. O problema é que falam tanto do filme e há uma avalanche de comentários de que é uma comédia romântica incrível, fantástica, e todos os adjetivos que não cabem em um único texto. Tudo isso gerou uma expectativa que não foi correspondida e, confesso, sai frustrada da sessão.

A trama – baseada no livro homônimo de Matthew Quick – gira em torno do professor Pat (Cooper), um cara que perdeu casa, trabalho e a esposa. Bipolar – a doença da moda em todo mundo – ele passou oito meses em um sanatório e, quando sai, vai morar com os pais. Pat tem que lidar com a mãe silenciosa (Jacki Weaver) e o pai cheio de manias (Robert DeNiro), está disposto a recuperar o casamento, mas encontra pelo caminho a jovem viúva Tiffany (Jennifer), que caiu na boca do povo por fazer sexo sem compromisso. Pat foge de Tiffany, mas ela oferece ajuda para ele reconquistar a mulher e, em troca, ele vira parceiro da moça em um concurso de dança. A proximidade dos dois, é claro, vai gerar confusão e novos sentimentos para ambos.

O começo do filme é de uma gritaria irritante, embora daí resultem boas cenas de DeNiro com Cooper. Mas, apesar de toda a tentativa do roteiro em fazer ‘viradas’, tudo é previsível do começo ao fim. Indicado a oito categorias do Oscar – incluindo filme, diretor, ator, atriz, ator e atriz coadjuvantes, e roteiro adaptado – é favorito com a bochechuda Jennifer Lawrence, que venceu o SAG Awards, prêmio do Sindicato dos Atores. Justo ela, a mais fraca do bom elenco, pois se é para premiar um ator DeNiro merece muito mais. E se O Lado Bom da Vida tem alguma coisa inusitada é que o longa dá chances ao belo Bradley Cooper de, finalmente, mostrar que tem mais talento do que a série Se beber, não case permite mostrar. O filme é todo focado nele, e perde muito quando as cenas são feitas para Jennifer brilhar.

Mulheres românticas, fãs de comédias despretenciosas, pessoas que não são exigentes quando vão ao cinema, certamente vão amar O Lado Bom da Vida. Mas para aqueles que, como eu, buscam originalidade nos roteiros, o filme é uma grande decepção. Você até consegue assistir, mas fica procurando o motivo que leva tanta gente a achar a história original, surpreendente, incrível, fantástica… e todos os adjetivos que não justificam essa euforia. É um filme fofo, E só.

O Mestre

janeiro 29, 2013

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Por Pedro Costa de Biasi

Com um título que parece dizer tão pouco, O Mestre, de Paul Thomas Anderson (em cartaz), convida a uma reflexão logo de cara. A menção não é meramente à figura do Mestre da Causa, pois isso não respeitaria a indefinição sobre qual dos dois personagens, o de Joaquin Phoenix (indicado ao Oscar de melhor ator e prêmio Coppa Volpi no Festival de Veneza 2012)ou o de Phillip Seymour Hoffman (indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante e que dividiu com Phoenix o prêmio Coppa Volpi de melhor ator no Festival de Veneza 2012), é a peça central do filme. Afinal, eles estão sempre disputando esse lugar, e a disputa é uma das questões fundadoras da obra.

Phoenix interpreta Freddie Quell, um homem impulsivo e sexual que saiu da 2ª Guerra Mundial com estresse pós-traumático e com um vício em bebidas que ele produz com substâncias variadas. Incapaz de se manter em um emprego, ele acaba conhecendo e ganhando a simpatia de Lancaster Dodd (Hoffman), fundador e Mestre de um movimento filosófico intitulado a Causa. O roteiro acompanha o relacionamento dos dois homens, que perpassa os ensinamentos de Dodd e o comportamento de Quell.

Como o roteiro trata de dois homens já (de)formados, a disputa de poder entre os dois personagens centrais é simbólica em vários planos. Esses conflitos levam a diversas interpretações que variam a fórmula de um homem se impondo sobre outro, seja pelo viés da pura virilidade, da sabedoria empírica ou do conhecimento espiritual. Há uma ambiguidade nesta última dicotomia que surge muito explícita no filme: Lancaster é tanto o pastor que prega quanto o que doma animais, e Freddie se mostra tanto como fiel iniciado quanto como bicho selvagem. O primeiro inclusive chama o segundo de “animal”, mencionando seu comportamento irascível e primitivo.

Essa dupla de acepções para a palavra Mestre é quase unilateral, pois, no mais das vezes, o termo é atrelado a Lancaster. Não haveria problema com essa análise, a não ser o fato de que Freddie constantemente prova que não pode ser mantido na posição de subjugado ou mesmo de aluno. Por outro lado, ele erra pela vida de tal forma que seria impossível dizer que ele é o senhor dela. Uma vez que nem ele mesmo nem o fundador da Causa é seu mestre, e “é impossível viver sem um mestre”, o papel se encontra preenchido não por um indivíduo, mas por uma condição: a selvageria.

Embora o charlatanismo e a petulância de Lancaster sejam expostos constantemente através da virulência de Hoffman, sua visão sobre Freddie como um animal acaba se provando muito pertinente e exata, na medida em que abarca as pulsões que o atraem ao sexo e à violência e sua estreiteza de conhecimento, com Phoenix provendo um retrato irretocável de um indivíduo rústico. No entanto, O Mestre aborda conceitos puros a partir de denominações, palavras e interpretações; assim, não há dúvida de que os impulsos bestiais são parte intrínseca do ser humano, mesmo que Lancaster lhes dê a pecha de defeitos. Nessa delicada percepção, o engodo do fundador da Causa é crer em uma humanidade pura, dissociada das raízes animais e senhora de si.

Lancaster, afinal, não é seu próprio Mestre, com sua limitação sangrando frequentemente quando pessoas e regras de fora invadem seu espaço e obtêm sucesso em se impor sobre ele. A questão emerge com mais clareza na cena do reencontro com Freddie, na qual ele se faz afetuoso e cheio de boa vontade, mas sua esposa (Amy Adams, indicada a melhor atriz coadjuvante no Oscar 2013) insiste que o caótico homem não é adequado à Causa porque não quer melhorar. Mais que levantar suspeitas sobre quem realmente fundou o movimento ou incitar uma discussão mais geral sobre o papel da mulher perante o homem, essa cena mostra que Lancaster não é senhor de si, e só tem poder sobre seus seguidores. Sua “descoberta” existencial, filosófica e espiritual pode ter se apossado dele e o tornado marionete.

Freddie, por outro lado, não tem mestre humano, como a cena do deserto expõe: se o rosto de Hoffman preenche a tela, totalizante, a figura de Freddie simplesmente se dissipa no quadro, vai de um grão de imagem a nada. Seu senhor são os impulsos, são a obsessão com a liberdade. Ele não deixa de ser um realista, o que o torna menos capaz de relevar os fatos táteis e empíricos enquanto, presume-se, avança espiritualmente. Sua tragédia é individual e em muito pouco influenciada por Lancaster: o filme não é um conto moral sobre a influência vil da religião, mas sim uma amostra das tragédias que diferentes tipos de ignorância geram.

O foco tão predominante nessa análise de símbolos e metáforas acaba dividindo a atenção com o material humano que Phoenix e Hoffman entregam de forma tão visceral. O que mais pesa é a ilustração farta dos vários planos interpretativos do embate entre os personagens, seja com verbalizações (“… seu animal idiota”, “… você inventa tudo na medida em que avança”) ou com a exposição das conotações sexuais, que duas cenas próximas do fim (o cantar de Lancaster, como a uma amada, e o questionário de Freddie a uma mulher na cama) escancaram.

Ao ressaltar os supostos subtextos, o roteiro esgota os temas do filme de forma um tanto frustrante, mesmo enquanto ressalta as qualidades independentes, como as do elenco e da elaborada fotografia. Há alguns aspectos que se tornam menos interessantes com o devassamento das perspectivas pelas quais os personagens são vistos: a natureza tensa de Lancaster e a inconstância de Freddie são, além de traços dos personagens, rubricas de pareceres já expostos sobre eles.

Por outro lado, Anderson escapa do discurso de mero repúdio a ensinamentos dogmáticos ao mostrar a pulsão ignorante e animalesca como um arco trágico semelhante ao de Lancaster. Afinal, os dois personagens se mostram completamente dominados por mulheres, seja a esposa de Lancaster ou a figura geral da mulher (a escultura de areia é outra ilustração sobressalente) para Freddie, e são incapazes de tomar decisões independentes delas.

O Mestre é um exercício de competência em várias frentes, seja na construção dos personagens, da narrativa, das imagens ou das interpretações dos atores, mas as ideias por trás desses feitos são muito menos dignas de atenção. O filme tem fundações tão portentosas que chega a surpreender quão pouco elas precisam suportar.

Django Livre

janeiro 9, 2013

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por Janaina Pereira

Desde Pulp Fiction (1994), Quentin Tarantino vem colecionando elogios da crítica porcausa de seu estilo pop. Sangue, ironia e uma ótima trilha sonora sempre foram a santíssima trindade do cineasta, que construiu uma carreira sólida e conquistou uma legião de fãs fiéis. Vencedor do Oscar de melhor roteiro por Pulp Fiction, presidente do júri do Festival de Veneza em 2010, indicado algumas vezes ao Oscar de melhor diretor – feito que, surpreendentemente não se repetiu este ano – Tarantino é um dos nomes fortes do cinema hollywoodiano. Quando parecia que ele continuaria fazendo mais do mesmo, surgiu com Bastardos Inglórios (2009), a improvável incursão do diretor nas tramas de guerra. Mostrando maturidade, criou um roteiro em que coloca Hitler no centro de uma história criativa, mas sem perder o jeito pop e sangrento que sempre o acompanharam.

Sob esta perspectiva, muito se esperava de Django Livre, seu novo trabalho que chega aos cinemas brasileiros no dia 18. Tarantino dessa vez faz uma homenagem ao gênero western spaghetti que dominou o cinema nos anos 1960 – o título do filme é uma referência a Django (1966), de Sergio Corbucci, estrelado pelo astro italiano Franco Nero. O veterano ator, inclusive, faz uma participação especial em Django Livre para deleite dos cinéfilos – difícil é saber se os mais jovens entenderão a piada porque Nero não é conhecido da nova geração.

Na trama que se passa na América do século 19, dois anos antes da Guerra Civil, o escravo Django Freeman (Jamie Foxx) tem sua liberdade comprada por um caçador de recompensas alemão, o Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Com a ajuda de Schultz, Django vai em busca da mulher Brunhilde (Kerry Washington), vendida para o fazendeiro Calvin Candie (Leonardo DiCaprio).

Tendo a escravidão como foco central, Tarantino abusa do sangue, que jorra pela telona sem dó nem piedade. São 165 minutos de muitas chibatadas e tiros, bem ao estilo do diretor. No meio das cenas sanguinárias o destaque fica com Christoph Waltz (repetindo com Tarantino a dobradinha de sucesso de Bastardos Inglórios, que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante), que domina a primeira hora do filme até surgir Leonardo DiCaprio com seu lápis nos olhos a la Johnny Depp e uma excelente interpretação mais uma vez ignorada pelo Oscar. Mesmo tendo boa atuação, o protagonista Jamie Foxx ‘some’ diante das performances arrebatadoras de Waltz e DiCaprio. Vale ressaltar ainda a presença irreconhecível de Samuel L. Jackson, parceiro de Tarantino desde Pulp Fiction, que embora não esteja sendo lembrado nas premiações de ator coadjuvante, merece aplausos.

A trilha sonora, que vai do hip hop ao blues, pontua com impressionante perfeição as cenas, mostrando mais uma vez que Tarantino sabe como valorizar seus filmes. Ainda que o cineasta tenha voltado ao comodismo das produções que espirram sangue, ele mantém os bons e irônicos diálogos – uma de suas marcas registradas como roteirista – e faz de Django Livre um prato cheio para seus fãs e uma boa diversão para quem gosta de cinema. Não chega a ser maduro e perspicaz como Bastardos Inglórios, mas certamente vale o ingresso.