Mostra Tiradentes

dezembro 21, 2012

o_afinador_07

Por Janaina Pereira

A Mostra Tiradentes chega em sua edição número 16 como uma das principais janelas de exibição e lançamento da produção curta-metragista brasileira. Entre 18 e 26 de janeiro de 2013 a cidade histórica mineira vai receber 97 curtas da safra recente da produção nacional, divididos em oito mostras temáticas – Fora de Centro, Foco, Panorama, Praça, Formação, Juvenil, Mostrinha e Cena Mineira. O público poderá conferir produções diversificadas e descentralizadas de várias partes do País.

Os curtas representam 14 estados brasileiros. São Paulo tem 35 representantes, seguida por Minas Gerais, com 17 curtas selecionados, Rio (9 curtas), Ceará e Paraná (8 cada) e Pernambuco (7). Também há presenças de produções de Bahia e Paraíba (3 cada), Rio Grande do Sul (2), Alagoas, Distrito Federal, Maranhão, Santa Catarina e Sergipe (1 cada).

Segundo o curador da Mostra Foco Francis Vogner dos Reis, a configuração dos filmes programados para este ano é curiosa, em razão dos critérios adotados e também porque o contingente dos filmes dessa leva muda um pouco o mapa da produção cinematográfica no país. “A questão do ineditismo é fundamental, não porque a mostra visa mera exclusividade, mas porque a busca por trabalhar filmes “não legitimados”, por outros festivais ou por quaisquer contingências do cinema, há alguns anos tem sido a tônica da Mostra e que, inclusive, fez com que se tornasse evento tão particular no calendário dos festivais no país”, disse Vogner dos Reis.

Para o curador da Mostra Panorama, Pedro Maciel Guimarães, essa edição está mais concentrada, visando dar maior destaque aos filmes e apresentar uma seleção mais apurada de tudo que se tem produzido no curta-metragem brasileiro. “A proposta é apresentar a diversidade de forma e temática do cinema brasileiro em curta, seja ela realizada por novos diretores ou por realizadores já experientes”, comentou.

Entre os curtas selecionados estão os premiados A GALINHA QUE BURLOU O SISTEMA, de Quico Meirelles – SP (selecionado para 52 festivais e premiado 17 vezes); A ONDA TRAZ, O VENTO LEVA, de Gabriel Mascaro – PE (premiado no festival Curta Cinema, no Rio), O AFINADOR (foto), de Fernando Camargo e Matheus Parizi – SP (premiado no festival Curta Cinema, no Rio, e Menção Especial no Festival de Cinema de Havana) e O DUPLO, de Juliana Rojas – SP (Menção Especial na Semana da Crítica do Festival de Cannes).

Confira a lista completa dos concorrentes aqui.

no-bernal-poster

Por Janaina Pereira

Foram anunciados na última sexta-feira (14) os vencedores da 34ª edição do Festival de Cinema de Havana – oficialmente chamado de Festival Internacional do Novo Cinema Latinoamericano. O filme No, do cineasta chileno Pablo Larraín (exibido na Mostra de São Paulo deste ano) foi o vencedor do prêmio Coral de melhor filme. Em segundo lugar ficou a co-produção Brasil/Chile/Argentina Violeta se fue a los cielos, do também chileno Andrés Wood. O terceiro lugar ficou com o brasileiro Febre de Rato,de Claudio Assis, enquanto o argentino Dias de Pesca, de Carlos Sorín, conquistou o Prêmio Especial do Júri. 

Violeta se fue a los cielos ainda venceu o Prêmio Coral de direção de arte para Rodrigo Bazaes. O Brasil ganhou também uma menção especial do júri com Era uma vez eu, Verônica, de Marcelo Gomes (co-produção Brasil/França); e uma menção especial do prêmio SIGNIS, concedido pela Associação Católica Mundial pela Comunicação para o curta O Afinador, de Fernando Camargo e Matheus Parizi.  

Os diretores de O Afinador conversaram com o Cinemmarte sobre a premiação. Para Matheus Parizi, ser premiado em Havana é uma alegria enorme. “Havana é uma janela para a produção latino-americana contemporânea e ao mesmo tempo é um festival com um público muito diferente de Veneza. Então estar inserido nesse contexto e ter esse tipo de resposta daqueles que veem o nosso filme nos ensina mais coisas sobre a sua universalidade, sobre a sua atualidade e também sobre aquilo que é específico da sua poética. Sempre é uma relação de troca importante, que nos instiga. Estamos muito felizes com a menção especial”, comentou o cineasta. 

Fernando Camargo disse que está lisonjeado com o prêmio. “Sermos premiados em um dos Festivais mais tradicionais da América Latina como o de Havana é como dar continuidade ao sonho que se iniciou em 2010 e que foi aos poucos se materializando. Agora fechamos o ano de 2012 em plena felicidade. Que venha 2013!” 

No prêmio SIGNIS, além da menção especial para o curta brasileiro, No foi escolhido como o melhor longa-metragem, e o argentino Elefante Branco, de Pablo Trapero, um dos maiores sucessos do Festival do Rio 2012, recebeu uma menção. 

No é o quarto filme de Pablo Larraín, considerado o mais promissor cineasta chileno da atualidade. O longa,protagonizado pelo mexicano Gael García Bernal – o Che Guevara de Diários de Motocicleta (2004), do brasileiro Walter Salles – trata do plebiscito que, em 1988, precipitou o fim da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990). No é a indicação chilena para disputar o Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro. 

Veja a lista completa dos vencedores do Festival de Cinema de Havana aqui. http://www.habanafilmfestival.com/noticias/index.php?newsid=655

Novo-Cartaz-O-Hobbit-22_09_12

Por Pedro Costa de Biasi

Que O Hobbit é um livro infantil de menos de 400 páginas, qualquer caminhada a uma livraria próxima pode atestar. Que a adaptação cinematográfica desse romance seminal de J.R.R. Tolkien foi projetada como dois longas-metragens e se estendeu para uma trilogia, qualquer portal de notícias pode informar. E essas informações só seriam importantes em uma crítica de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada – em cartaz a partir desta sexta, 14 – se a análise se restringisse aos trailers e imagens de divulgação, e não pudesse contar com a observação direta do produto final. É preciso tirar esse obstáculo rançoso do caminho, pois seja a obra original o que for, é importante em vários níveis observar e interpretar o filme sem levar em consideração sua genealogia comercial. 

Essencial, sim, é estabelecer as conexões da trama com O Senhor dos Anéisde Peter Jackson, que em todas as mídias é a história que sucede cronologicamente os eventos de O Hobbit. Dirigido novamente por Jackson, o prólogo se passa 60 anos antes dos eventos da trilogia do Anel, e encontra o pacato hobbit Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) iniciando uma aventura com Gandalf, o Cinzento (Ian McKellen). O mago pretende ajudar os anões, liderados por Thorin Escudo-de-Carvalho (Richard Armitage), a reconquistar seu lar do monstruoso dragão Smaug. Reticente, Bilbo acaba embarcando na viagem e se envolve em diversas aventuras, inclusive naquela que mudará o destino de toda a Terra Média: o encontro com a criatura Gollum (Andy Serkis), que possui o nefasto Anel do Poder. 

Infelizmente, o início é insatisfatório como introdução da nova trama. Se a narração em off que abre A Sociedade do Anel é um bom recurso para condensar muitos acontecimentos, a longa apresentação expositiva de Bilbo, já idoso (mais uma vez vivido por Ian Holm), não faz mais do que confundir o foco da narrativa. O hobbit narra fatos que dizem respeito a indivíduos, a uma raça, a uma história que tem outros personagens como protagonistas. A tática pode até fazer sentido, dada a conexão afetiva que Bilbo criou com os anões desterrados, mas a necessidade de exposição logo no começo do filme – uma permissão tácita, já que a narrativa ainda não se iniciou – é onerosa. Outras cenas, que retomam em flashbacks o heroico Thorin e a derrota de seu povo, reforçam quão encurralado o roteiro estava, buscando explicar toda a história e, ao mesmo tempo, evitar a repetição de recursos narrativos. 

Para todos os efeitos, esse início traz uma considerável confusão que, por motivos óbvios, é resolvida apenas de forma parcial: o papel central dos anões. A falta de foco causa estranhamento quando a atenção se desvia do personagem-título por longos períodos, e mais ainda quando ele precisa ser grosseiramente recolocado em um lugar de destaque– como é o caso do clímax à beira do precipício, onde Bilbo se torna o apelo“final” para evitar uma tragédia. Tanto suas ausências prolongadas quanto suas presenças forçadas se fazem sentir, embora estas sejam muito mais incômodas e malogradas. Em algumas questões da história, esse “protagonista” é apenas coadjuvante, e sua invisibilidade de hobbit cairia bem.

Jackson, no entanto, percebe essa confusão de foco, e é particularmente feliz ao revelar por que Gandalf queria discutir certos assuntos com Elrond (Hugo Weaving), Galadriel (Cate Blanchett) e Saruman (Christopher Lee). Não se tratava apenas de um desvio do assunto principal da trama para uma terceira questão – o renascimento do mal na Terra Média, que busca reforçar o elo com O Senhor dos Anéis –, mas também de uma distração. Há outras digressões do tipo, como a apresentação de Radagast, mas esta encontra uma justificativa bem mais tosca quando o mago encontra seu colega Gandalf. Como uma perseguição se segue, e uma bastante bem feita ainda por cima, pois Jackson usa a paisagem de forma precisa para criar tensão, as primeiras cenas de Radagast não se fazem notar como o inchaço narrativo que são.

Por outro lado, o ritmo do filme não difere tanto da elogiada trilogia original, com pausas, retomadas e retardamentos na narrativa que delimitam as aventuras-dentro-da-aventura. A quantidade generosa de ação – inspirada, no mais das vezes –, a progressão cadenciada dos acontecimentos e as subtramas bem amarradas têm a mesma função de estabelecer a natureza épica da jornada. A bem da verdade, as semelhanças entre os filmes ficam na tênue linha entre a homenagem e a imitação, entre a continuidade e a repetição estética. 

Os grandes avanços nas tecnologias de efeitos visuais acabam tomando a frente como principal diferencial da produção. No entanto, King Kong não foi apenas o ponto alto do trabalho de Peter Jackson: foi também uma experiência que rendeu frutos. Embora não haja espaço para muito intimismo, em oposição a King Kong, que o tinha de sobra, em O Hobbit os absurdos correm soltos, unindo o espírito fanfarrão do cineasta com a responsabilidade castradora de capitanear uma superprodução. Em relação a O Senhor dos Anéis, as cenas de ação estão mais estilizadas, pois em vários momentos Jackson se refestela nos exageros que lhe são tão naturais. O resultado são algumas imagens dignas dos Looney Toones, de uma puerilidade refrescante. 

Mesmo assim, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada é sério, tão solene quanto a trilogia anterior, e em vários momentos se faz bastante “impróprio”, seja com cenas de violência cômicas ou com referências a drogas. Nesse sentido, o filme chega aos limites de sua censura, ignorando sem cerimônia o fato de que sua fonte de inspiração é um livro infanto-juvenil e se firmando como uma adaptação curiosamente “infiel”. Peter Jackson nem sempre encontra o tom certo das cenas, resultando em pitadas de comédia desconexas e calombos de sisudez deslocada, e, como já dito, batalha para dar o foco certo a seus personagens. Em todo caso, o filme é apreciável e depreciável como a obra independente que ele tem a prerrogativa de ser.