Armadilha

julho 19, 2012

 por Pedro Costa de Biasi

O início de Armadilha, filme de David Brooks que estreia nesta sexta-feira, 20, é bom. É muito bom, na verdade. As três personagens, David (Brian Geraghty), Corey (Josh Peck) e Emily (Alice Eve) ganham um tratamento muito natural pelos intérpretes e pelo roteiro, escrito por Chris Sparling. Ambientes como o trabalho ou a festa-da-firma são ideaispara explorar situações sociais triviais e, nessa trivialidade, os atores soammuito singelos e verazes mesmo encarnando estereótipos como o amigo-pentelho ouo cara-sem-atitude.

Com muito custo, David seaproxima de Emily na confraternização e a oferece carona, mas um Coreylevemente alterado também pede que o amigo o leve de carro para casa. Ummomento incômodo –que mesmo assim coloca as personagens em situações que asfazem reagir de forma coesa – tornado cada vez pior por Corey, com sua exigênciade parar em uma pizzaria para comer e, antes, em um caixa eletrônico para sacardinheiro. Do lado de fora do caixa há um homem misterioso, que logo mata outroindivíduo sem razão aparente. Receosos de que serão mortos assim que saírem, ostrês colegas precisam sobreviver à noite fria e ao maníaco.

Preciso dizer que eu nãoacredito, ao menos não tão piamente quanto algumas pessoas, na “obrigação” queas personagens têm de cativar e envolver. Filmes sobre psicopatas esituações-limite envolvem uma curiosidade mórbida que entra em conflito diretocom essa dita necessidade de torcer pelos heróis, e há cineastas que trabalhamessa dicotomia de forma a engajar o espectador nos dois extremos da expectativa.Um ótimo exemplo é Violência Gratuita,de Michael Haneke, com suas vítimas irritantes e seus algozes repulsivos.

No caso de Armadilha é possível perceber a futilidade desse argumento poroutra via. A apresentação de David, Corey e Emily é muito bem realizada, masassim que eles se veem presos, nada dessa construção encontra ecos muitointeressantes. As tensões previstas para David e Corey emergem de forma óbvia, assimcomo outros remorsos que possam envolver o casal formado por David e Emily.Sentimentos de camaradagem e humanismo também dão as caras, nunca de formaparticular para lembrar das interações antes delineadas, mas como consequênciasmecânicas de uma situação extrema. Os atores não pioram, mas a naturalidade queeles bem emulam dá lugar às emoções exacerbadas previstas pela cartilha.

Brooks e Sparling também seatrapalham com outro elemento narrativo. O “prólogo” do filme intercala cenasde um estacionamento cercado de carros da polícia, dos bombeiros e de perícias– não é difícil supor que se trata do palco dos assassinatos – com outras deuma figura de parka fazendo cálculos,traçando linhas e desenhando mapas como se planejasse algo – também é possíveldeduzir que se trata do maníaco estudando o cenário de seu futuro crime. Arepetição, não tanto daquelas mas destas últimas imagens no fim da projeção ébastante frustrante, pecando não só pela redundância mas pela falta de impacto.

Embora algumas situações sejamóbvias e não impressionem, o roteirista utiliza uma porção de ótimas ideias (ouso da parka do assassino ou dacadeira que ele coloca para assistir ao terror de suas vítimas) que o diretor aproveitabem, segurando a tensão até o instante certo. Essas boas sacadas estãoespalhadas ao longo do filme, tornando-o irregular, mas ao menos mantendo ointeresse até o final – até pouco antes do péssimo final, na verdade.

Outro aspecto digno de nota,talvez o mais notável em um suspense que bebe de diversas fontes, é umametalinguagem vaga, mas muito instigante. Quando o maníaco de parka abre uma cadeira de armar e sesenta para contemplar o desespero alheio, sua imagem lembra a de um diretor decinema. Como o início do filme já estabelece que o assassino é do tipo queplaneja minuciosamente suas ações, sua comparação a um cineasta como Brooks –que, antes deste longa, já realizou um curta-metragem focado em um psicopata, Gone – não é um desatino.

A opção por um cenário específicoe minimamente inusitado, como é o caso de um caixa eletrônico, assim como todasas torturas psicológicas e físicas boladas para os três azarados ali encurralados,têm autoria dupla indissociável: tanto o diretor quanto seu vilão ficcionalfizeram escolhas idênticas. Com as sutis alusões comparativas introduzidas natrama, é seguro inferir que Brooks está se projetando em seu maníaco de parka, até no final circular – dando até,pode-se dizer, uma razão de ser para uma conclusão tão morna.

Esta proposta se tornaparticularmente curiosa pelo fato de Armadilha ser um daqueles filmes quebuscam angustiar o espectador ao máximo com a potência ilimitada do sadismohumano. Fosse sua estrutura mais sólida, este suspense poderia ser mais que umaboa ideia perdida em uma obra irregular.

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