por Janaina Pereira

O filme mais esperado do ano chega às telas brasileiras no próximo dia 27. Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises), última parte da trilogia de Batman sob o comando de Christopher Nolan – iniciada em 2005 com Batman Begins, seguido de O Cavaleiro das Trevas em 2008 – , traz em suas 2 horas e 45 minutos de duração toda a expectativa de um final apoteótico para um dos personagens mais queridos das HQs. Se você tem algum temor que o filme não esteja à altura da grandiosidade dos anteriores, pode relaxar: Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge é sensacional.

Ok, ele tem lá seus defeitos. É tudo muito explicado, quase didaticamente, para que ninguém tenha dúvidas de nada (típico dos roteiros de Nolan e seu irmão Jonathan, mais uma vez escrevendo a trama juntos). Personagens estabelecem relações intensas em segundos, outros têm um final menos glamouroso do que o esperado. Tudo isso, no entanto, não tira a grandiosidade do longa, que tem grandes sequências de ação e encerra a trilogia com muita dignidade. Ponto para Nolan, um diretor que já mostrou que tem competência de sobra. E ponto também para o ótimo elenco repleto de estrelas, que inclui Anne Hathaway (Selina Kyle/Mulher Gato), Joseph Gordon-Levitt (John Blake), Marion Cotillard (Miranda Tate) e Tom Hardy (Bane) ao lado de Christian Bale (Bruce Wayne/Batman), Michael Caine (Alfred), Morgan Freeman (Lucius Fox) e Gary Oldman (Comissário Gordon), o quarteto que atuou em todos os três filmes sempre dando show de interpretação.

A história começa exatamente onde o anterior, O Cavaleiro das Trevas, terminou. Harvey Dent, o Duas Caras, morreu mas deixou, supostamente, um legado de justiça em Gothan City. Oito anos depois, a Lei Dent colocou na cadeia um bando de criminosos, Gothan é uma cidade tranquila, Batman sumiu e Bruce Wayne está recluso. Mas um mercenário cheio de má intensão, Bane, quer colocar fogo em Gothan – literalmente. O bilionário Wayne vai precisar sair de seu casulo, mesmo relutando em colocar Batman de volta às ruas. Nesta jornada em que precisa resgatar a confiança em si mesmo e nas pessoas que o cercam, Wayne/Batman acaba esbarrando em duas mulheres que podem ser decisivas em seu destino – a ladra Selina Kyle e a ambientalista Miranda Tate – e em um jovem policial, John Blake, que questiona a idolatria à Harvey Dent.

Contar mais é estragar a trama, que tem suas pequenas reviravoltas, momentos que não chegam a surpreender mas dão muito charme ao filme. Com muitos personagens e histórias a desenvolver, o longa dá espaço para todo mundo ter sua grande cena, mas é impossível não destacar o veterano Michael Caine em uma interpretação recheada de emoção, fazendo de Alfred um dos personagens mais queridos da trilogia. Tom Hardy em versão músculos a la Vin Diesel acerta o tom do seu Bane, e para os que se preocupavam com a atuação de Anne Hathaway como Selena, podem respirar aliviados: a atriz não tenta competir com a inesquecível Mulher Gato de Michelle Pfeiffer (em Batman – O Retorno, de Tim Burton – 1991) e cria sua própria versão da personagem, em uma atuação correta e segura.

É claro que falar de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge sem elogiar a atuação de Christian Bale é uma tremenda injustiça. O ator mostra de novo que o uniforme do homem morcego caiu como uma luva nele, e dessa vez tem um desafio um pouco maior: em diversos momentos Batman fica em segundo plano para evidenciar Bruce Wayne, apresentado como um homem comum, cheio de defeitos e falhas, que sempre será movido por um sentimento menos nobre, a vingança. Dessa vez, mais do que nos filmes anteriores, vemos Wayne e suas feridas, e Bale consegue dar o tom certo a esses momentos de exposição das fraquezas do seu personagem – e isso foi o que mais me agradou. Sou muito fã de Batman, e sou fã justamente porque ele não é um herói com super poderes; ele é apenas um homem que tentar consertar o mundo a partir de uma vingança pessoal. Na verdade Batman é um anti-herói, o alterego de um bilionário que deseja fazer justiça de qualquer jeito. Focar nesse lado sombrio (muito claro nas HQs, mas pouco visto nas adaptações para o cinema e TV) deixou evidente que o diretor Christopher Nolan sempre soube o que estava fazendo, o que dá um encerramento épico à trilogia.

Em um ano em que os heróis das HQs estiveram em alta nos cinemas, com Os Vingadores e O Espetacular Homem-Aranha, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge chega para mostrar que nessa briga quem ganha mesmo é Batman. Mesmo que Nolan e Bale jurem que não haverá outros filmes, todo mundo vai especular sobre essa possibilidade. Quando o filme acabou, já me bateu uma saudade imensa dessa bem-sucedida série que pode ser conhecida como ‘o Batman de Nolan’. É de se aplaudir um diretor que consegue fazer três filmes que se encaixam perfeitamente, mantendo o mesmo nível de interesse e qualidade, sem deixar buracos ou perder os detalhes, e com um protagonista tão complexo como o homem morcego. Mas confesso que, se for para fazer algo meia-boca, é melhor parar por aqui mesmo. E, que me desculpem os fãs do Homem-Aranha, mas espetacular mesmo é o Batman.

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Valente

julho 19, 2012

 

por Pedro Costa de Biasi

A premissa de Valente, que estreia nesta sexta-feira, 20, parece menos Pixar e mais Disney. Como protagonista,temos a princesa Merida, que se dá bem com o pai bonachão, o rei Fergus, mastem uma relação difícil com sua austera mãe Elinor. Apegada à tradição, arainha lamenta a postura rebelde da filha, que culmina em uma atitude quecoloca o reino em perigo. Após uma discussão séria, Merida foge para umafloresta e lá encontra o casebre de uma velha bruxa, para quem pede um encantoque mude sua mãe e seu destino. Quando o resultado do feitiço se revela, ajovem percebe que seus problemas estão apenas começando.

Contando com uma princesa, uma bruxa(não exatamente má; apenas, digamos, especializada demais), um feitiço,metamorfoses mágicas e um clímax bastante emotivo, a impressão primeira é a deque o filme dirigido por Brenda Chapman e Mark Andrews faria sentido se fosseuma animação tradicional dos estúdios Walt Disney. No entanto, uma série dediferenças marcam a nova história original da Pixar.

É verdade que a ambientação escocesa éum universo de regras próprias que vão sendo reveladas ao longo do filme, elementocomum a longas diversos como Mulan, Toy Story, WALL·E e Pocahontas. Já a magia é menos simples,pois não é apenas um dado corriqueiro ou uma ferramenta para encaminhar a trama.Algumas personagens acreditam em sua existência enquanto outras são céticas, e essarelativização é também característica da Pixar, pois as obras do estúdio frequentementecolocam certas ideias ou situações em discussão.

O tom humorístico, tão forte que surgeaté mesmo em cenas sérias, também deixa Valentemuito mais próximo da comédia do que a maioria dos clássicos “filmes deprincesa”. Essa distinção, porém, tem seu peso negativo. Não há nada errado empersonagens que têm uma função determinada, e aqui, há uma porção de figurascom a missão única de fazer rir – e mesmo quando servem para movimentar ahistória, elas o fazem com humor. O engodo do roteiro é a apresentação narradapor Merida, que introduz cada personagem humorístico (e outros) como tal, eassim formata suas funções – que manter-se-ão imutáveis até o fim.

Há também algumas piadas, como a queenvolve o resultado do feitiço, que funcionam por algum tempo, mas sofrem pelarepetição e logo se tornam estafantes. Felizmente, nem todas as personagens seencontram engessadas em sua funcionalidade. Fergus, Elinor e Merida, porexemplo, alternam com bastante leveza suas facetas cômicas e dramáticas. Essetipo de ambivalência, fruto de um esforço para repensar os valores de certosarquétipos, proporciona ao filme algumas de suas mais gratificantes qualidades.

Merida, por exemplo, pode parecer umaversão mais revoltada da Rapunzel de Enrolados,com seu ímpeto de ir contra as regras e se aventurar onde não lhe é permitido,mas essa tímida semelhança atenta para a grande diferença entre a protagonistade Valente e boa parte das princesas animadas:ela não está enfrentando uma encarnação do Mal. Todos os conflitos surgem pelainsatisfação da jovem perante as tradições do reino, impostas por sua mãe. Nãoexiste um antagonismo maniqueísta nem um vilão propriamente dito.

Essa característica permite  não só uma estrutura narrativa mais livre,como também uma protagonista que representa diversos valores em vez de serapenas um oásis para o Bem e a pureza. Isso sinaliza uma humanização bastantesaudável: aquelas personagens cometem erros, reconhecem o fato e conseguem mudarsuas perspectivas. O roteiro não se limita a descartar a teimosia de Merida ouo conservadorismo de Elinor, optando por trabalhar essas (e outras)características e descobrir novas facetas das mulheres. A impressão é apretendida: de que as personalidades se mantêm, mas as situações mudam ospontos de vista.

As questões sobre o Destino chegam auma conclusão pacífica, previsível até, mas ao dispor as tensões de forma amudar a visão tanto de Elinor quanto de Merida, a moral do filme é permissiva obastante para não ser simplória. Um ato da princesa que poderia ser visto comointrinsecamente errado é tratado como uma escolha natural a sua índole, umaescolha com consequências que não precisam resultar em tragédia – a história dourso gigante Mor’du, afinal, serve de comparação como um exemplo de um erromanuseado de forma nociva.

Valente faz jus a seu título ao contestar a existência de um Bem ou de um Mal absoluto,oferecendo um discurso que valoriza as escolhas individuais e a dedicação paracompreender os outros. Por trás de sua aparência esquemática, esse “filme deprincesa” possui uma disposição admirável para desconstruir arquétipos eimbui-los de humanidade.

Armadilha

julho 19, 2012

 por Pedro Costa de Biasi

O início de Armadilha, filme de David Brooks que estreia nesta sexta-feira, 20, é bom. É muito bom, na verdade. As três personagens, David (Brian Geraghty), Corey (Josh Peck) e Emily (Alice Eve) ganham um tratamento muito natural pelos intérpretes e pelo roteiro, escrito por Chris Sparling. Ambientes como o trabalho ou a festa-da-firma são ideaispara explorar situações sociais triviais e, nessa trivialidade, os atores soammuito singelos e verazes mesmo encarnando estereótipos como o amigo-pentelho ouo cara-sem-atitude.

Com muito custo, David seaproxima de Emily na confraternização e a oferece carona, mas um Coreylevemente alterado também pede que o amigo o leve de carro para casa. Ummomento incômodo –que mesmo assim coloca as personagens em situações que asfazem reagir de forma coesa – tornado cada vez pior por Corey, com sua exigênciade parar em uma pizzaria para comer e, antes, em um caixa eletrônico para sacardinheiro. Do lado de fora do caixa há um homem misterioso, que logo mata outroindivíduo sem razão aparente. Receosos de que serão mortos assim que saírem, ostrês colegas precisam sobreviver à noite fria e ao maníaco.

Preciso dizer que eu nãoacredito, ao menos não tão piamente quanto algumas pessoas, na “obrigação” queas personagens têm de cativar e envolver. Filmes sobre psicopatas esituações-limite envolvem uma curiosidade mórbida que entra em conflito diretocom essa dita necessidade de torcer pelos heróis, e há cineastas que trabalhamessa dicotomia de forma a engajar o espectador nos dois extremos da expectativa.Um ótimo exemplo é Violência Gratuita,de Michael Haneke, com suas vítimas irritantes e seus algozes repulsivos.

No caso de Armadilha é possível perceber a futilidade desse argumento poroutra via. A apresentação de David, Corey e Emily é muito bem realizada, masassim que eles se veem presos, nada dessa construção encontra ecos muitointeressantes. As tensões previstas para David e Corey emergem de forma óbvia, assimcomo outros remorsos que possam envolver o casal formado por David e Emily.Sentimentos de camaradagem e humanismo também dão as caras, nunca de formaparticular para lembrar das interações antes delineadas, mas como consequênciasmecânicas de uma situação extrema. Os atores não pioram, mas a naturalidade queeles bem emulam dá lugar às emoções exacerbadas previstas pela cartilha.

Brooks e Sparling também seatrapalham com outro elemento narrativo. O “prólogo” do filme intercala cenasde um estacionamento cercado de carros da polícia, dos bombeiros e de perícias– não é difícil supor que se trata do palco dos assassinatos – com outras deuma figura de parka fazendo cálculos,traçando linhas e desenhando mapas como se planejasse algo – também é possíveldeduzir que se trata do maníaco estudando o cenário de seu futuro crime. Arepetição, não tanto daquelas mas destas últimas imagens no fim da projeção ébastante frustrante, pecando não só pela redundância mas pela falta de impacto.

Embora algumas situações sejamóbvias e não impressionem, o roteirista utiliza uma porção de ótimas ideias (ouso da parka do assassino ou dacadeira que ele coloca para assistir ao terror de suas vítimas) que o diretor aproveitabem, segurando a tensão até o instante certo. Essas boas sacadas estãoespalhadas ao longo do filme, tornando-o irregular, mas ao menos mantendo ointeresse até o final – até pouco antes do péssimo final, na verdade.

Outro aspecto digno de nota,talvez o mais notável em um suspense que bebe de diversas fontes, é umametalinguagem vaga, mas muito instigante. Quando o maníaco de parka abre uma cadeira de armar e sesenta para contemplar o desespero alheio, sua imagem lembra a de um diretor decinema. Como o início do filme já estabelece que o assassino é do tipo queplaneja minuciosamente suas ações, sua comparação a um cineasta como Brooks –que, antes deste longa, já realizou um curta-metragem focado em um psicopata, Gone – não é um desatino.

A opção por um cenário específicoe minimamente inusitado, como é o caso de um caixa eletrônico, assim como todasas torturas psicológicas e físicas boladas para os três azarados ali encurralados,têm autoria dupla indissociável: tanto o diretor quanto seu vilão ficcionalfizeram escolhas idênticas. Com as sutis alusões comparativas introduzidas natrama, é seguro inferir que Brooks está se projetando em seu maníaco de parka, até no final circular – dando até,pode-se dizer, uma razão de ser para uma conclusão tão morna.

Esta proposta se tornaparticularmente curiosa pelo fato de Armadilha ser um daqueles filmes quebuscam angustiar o espectador ao máximo com a potência ilimitada do sadismohumano. Fosse sua estrutura mais sólida, este suspense poderia ser mais que umaboa ideia perdida em uma obra irregular.