Prometheus

junho 14, 2012

 

por Pedro Costa de Biasi

Apontar verossimilhança no cinema pode ser um exercício de aporrinhação sem limites, tamanha a facilidade de umespectador ou crítico – distinção capciosa – ir além da lógica interna eignorar questões estéticas. Argumentar que John Dillinger provavelmente seria reconhecido em diversas cenas de Inimigos Públicos seria descartar o simbolismo que Michael Mann ressalta com essa ruptura da lógica. Fosse Prometheus um filme menos falho, épossível que esse tipo de inverossimilhança também tivesse um lastro sagaz.

Na trama, os arqueólogos Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) descobrem um mapa estelar escondido nas pinturas rupestres de váriascivilizações. Anos depois, o androide David (Michael Fassbender) desperta a equipeda nave Prometheus, formada por Shaw e Holloway, pelo piloto Janek (Idris Elba) e por especialistas em várias áreas. Meredith Vickers (Charlize Theron) cuidada missão, que consiste em pousar na lua LV-223 e confirmar a existência dealienígenas apelidados de “Engenheiros” – que supostamente criaram a raçahumana. O contato, porém, resultará em mistérios e perigos imprevisíveis.

Ao estabelecer uma expedição interplanetária com grandes chances de interação com formas de vida extraterrestres,o roteiro de Jon Spaihts e Damon Lindelof determina que deve haver algum rigorcientífico e protocolos, mesmo que intuitivos, de segurança. Mesmo assim,minutos depois de adentrar uma pirâmide construída por seres desconhecidos,Holloway decide tirar seu capacete. O resto da equipe, já ciente de que o ar dolugar é respirável, repete a temeridade e se expõe àquela atmosfera.

Esse tipo de comportamento serepete bastante enquanto o filme não dá início a suas tensões (a insanaexperiência com a cabeça sendo a mais grosseira), e sequer servem paraconstruir o suspense, que surge sempre ao longo de outros caminhos. Vickers temuma postura obscura e não freia os cientistas, mas a impetuosidade destes nãose fundamenta em algum grande deslumbramento perante as descobertas, nemtampouco em qualquer traço psicológico dessas personagens – todas, com aexceção de Shaw, rascunhos apressados de pouca valia para a trama. Parece haverum subtexto abordando a curiosidade humana como uma tendência natural que podeser positiva ou negativa, mas o absurdo inverossímil se sobressai.

Quando as situações se tornammais dramáticas, o diretor Ridley Scott mostra sua proposta para o suspense:arroubos no lugar de construção, violência bruta contra o espectador ao invésde uma lenta e crescente angústia. É verdade que, por vezes, a escolha funcionagraças à pura intensidade das cenas (única característica que distingue cenasde maior e menor impacto, já que o ritmo é indiscriminadamente veloz), mas essetipo de tensão construída no instante da reviravolta morre rapidamente efrustra o caos que deveria dominar a expedição.

Isto leva à que deveria ser umadas cenas mais angustiantes do cinema recente, por uma série de motivos.Igualmente (ou até mais pronunciadamente, já que ocorre após duas elipses) construídano ato de uma descoberta, a sequência protagonizada por Shaw na sala de Vickerssofre com a que seja talvez a mais profunda falha do filme: a edição de Pietro Scalia. A cena é montada paralelamente a outro conflito, de natureza muitodistinta. O desserviço a esse momento tão aflitivo não poderia ser mais óbvio.

Mesmo que essas questõesestruturais sejam periclitantes, há muito que apreciar. Se lacunas drenam acredibilidade das personagens e das situações, a falta de informações torna váriosaspectos da trama mais instigantes. A natureza das criaturas e seu intrincado ciclode vida ou o motivo do abandono das pirâmides na LV-223 são elementos que geramcuriosidade e permitem conjecturas bastante sólidas, fomentando um mistério dequalidade. Mas são as maiores perguntas em aberto que realmente fascinam no filme.

Prometheus é abertamente existencialista, e cria questionamentos grandiosos que não serão e nem poderiamser respondidos. A relação dos Engenheiros com a humanidade reflete a doCriador de várias religiões com as pessoas de fé, e o subtexto que entrelaçacrença e fato científico no cerne de Elizabeth Shaw é um reflexo belíssimo dabusca humana por revelações sobre a existência. Da mesma forma, a presença deum inquisidor David cria outro paralelo: caso a ciência seja capaz de criarandroides tão perfeitos no futuro, que tipo de relação teremos com eles? Iremosconsiderá-los seres vivos ou sintéticos? (A pele dos Engenheiros, vale notar,parece sintética). Teremos sempre poder sobre eles ou dar-lhes-emos a liberdade?

O diálogo de David com Holloway embriagadopermite destrinchar ainda mais questões nessa área. Quando responde à pergunta“Por que vocês me criaram?” com um brusco “Porque nós éramos capazes”, oarqueólogo salta um estágio importante da psicologia humana: o anseio. O desejoardente que busca soluções e realizações é tão forte quanto aquele que buscarespostas. O Homem, no universo do filme, não pode ter criado cópias humanas meramenteporque era capaz: ele se tornou capaz porque sempre ambicionou essa capacidade “divina”.

Também positiva é a presença deum vilão, por muito tempo oculto, com um objetivo tão ancestral – e, como nãopodia deixar de ser, tão existencialista. Prometheus é um filme profundamentehumano, tanto por seus erros basais quanto por suas mais instigantesqualidades.

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