Shame

março 16, 2012

Image

Por Pedro Costa de Biasi

Shame, que estreia nesta sexta-feira, 16, é um filme sobre rotina, antes mesmo de ser sobre compulsões ou sobre sexo. O trabalho de Brandon (Michael Fassbender) parece se tratar de pano de fundo para a trama, mas sua importância é perceptível, tanto pelo tempo quanto pela seriedade que demanda do homem. Mesmo que o vício sexual que o acomete seja o tema do filme, é a relação entre esses impulsos patológicos e a vida corriqueira que cria o eixo da obra.

A perturbação dessa rotina se faz notar com a visita da irmã do protagonista, Sissy (Carey Mulligan). Ela é cantora e está acostumada a viajar para se apresentar, mas, em Nova Iorque, só conhece o irmão, e não tem outro lugar para ficar. Os dois parecem ter vivido uma infância difícil, mas pouco do seu passado é revelado, salvo que eles vieram de Nova Jersey. A presença de Sissy no apartamento de Brandon vai interferir na rotina do irmão e também em suas necessidades sexuais.

O roteiro e a direção de Steve McQueen são bastante lacunares, e é interessante notar como o cineasta constrói a compulsão de Brandon em termos de estrutura narrativa. De início, parece haver alguma harmonia entre o dia-a-dia do personagem e a satisfação de seus desejos. Por outro lado, ao não especificar dias e horários e montar o filme de forma bastante livre, McQueen não destrincha a dimensão do impacto, logístico ou emocional, que esse vício causa na vida de Brandon.

Enquanto a trama avança, porém, a incompatibilidade vai se tornando clara. Ao devolver o computador de Brandon do conserto, seu chefe diz que uma pessoa doentia provavelmente estava invadindo a máquina, pois na memória estava registrada toda sorte de páginas de teor obceno – que, tudo indica, o próprio Brandon visitou. Duas vezes é possível ver o protagonista indo ao banheiro para se masturbar durante o expediente, mas a frequência com que isto acontece é difícil de especular. A presença de Sissy põe em crise hábitos sexuais que já não se encaixavam harmoniosamente na vida de Brandon.

McQueen comunica visualmente coisas que os personagens não verbalizam. Sean Bobbitt mantém a fotografia de algum modo incômoda, usando tanto a frieza típica de tons dessaturados ou azulados quanto uma iluminação amarelada que sombreia o ambiente de forma opressora. Já a opção recorrente por planos que colocam um vazio ao lado de Fassbender busca uma analogia que se manifesta de forma às vezes mais – especialmente em uma cena perto nos minutos finais de projeção – e às vezes menos óbvia.

Esse tipo de opressão parece encurralar Brandon aonde quer que ele vá, indicando que, talvez, os vazios não sejam espaços que demandam preenchimento, mas sim uma ameaça palpável e impositora que encurrala o personagem e cobra uma resposta intensa. Tudo que envolve sexo – sons vindos de outro quarto, uma masturbação interrompida de supetão ou uma situação embaraçosa envolvendo uma colega de trabalho – atinge Brandon de forma violenta; sua reação nunca é moderada.

Pois é um ato sem sentido. A montagem irregular, a estadia de Sissy, a interpretação intensa de Fassbender e a atenção de McQueen a todos esses elementos vão levando gradualmente à conclusão de que a sexualidade do protagonista é uma parte desconexa de sua vida. Em determinada cena, somos “apresentados” a todos os objetos sexuais que Brandon possui em seu apartamento, e sua quantidade quase absurda escancara a obsessão por algo que, mesmo presente em toda parte e de todas as formas, nunca satisfaz completamente.

Outras imagens, como a de um corpo masculino extremamente rígido durante um ato sexual explícito, comunicam com naturalidade uma dissonância entre o que o sexo pode representar e o que de fato representa para Brandon. Um plano um tanto óbvio, mas tornado excelente, mostra o rosto de Fassbender durante um orgasmo, crispando cada músculo facial como se estivesse a um passo de soltar um grito de dor ou lágrimas de angústia.

Nessa cena, não entra só a questão da duração do plano ou da interpretação totalmente entregue do ator, mas também a montagem de ações paralelas, que envolve mais sexo e consequências concretas das compulsões de Brandon. É um jogo de causalidade, com ações levando a reações, que problematiza o fundamento da ação, tirando-lhe o significado. O orgasmo como dor precisa ser abordado para expor que não só o gozo erótico está em desarmonia com as emoções de Brandon como também o atinge como uma angústia que nunca justificaria uma busca tão desesperada.

McQueen encontra quase sempre a pungência em planos singelos, e um deles, que acompanha Brandon correndo pela calçada após um incidente insuportável em seu apartamento, culmina em uma das mais belas imagens de Shame: enquanto espera para atravessar a faixa, um sinal de pedestres quebrado indica passagem livre, e só quando muda para o vermelho o homem volta a correr. É quase uma gag, mas comunica com tanta simplicidade a incompatibilidade entre o pensar e o fazer que mostra a capacidade do diretor de fazer grande arte.

Um desastre em que ordem, naturalidade e prazer se perdem, sem sentido, a compulsão de Brandon é abordada com toda a suavidade e a conflitante intensidade de um pesadelo.

Anúncios

Uma resposta to “Shame”

  1. Ótimo filme! Foi impodoável a ausência de Michael Fassbender e Carey Mulligan no Oscar 2012.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: