Drive

março 2, 2012

por Pedro Costa de Biasi

Em Drive, que estreia nesta sexta-feira, 2, existe um trabalho empenhado para não devassar o protagonista sem nome, conhecido apenas como “o motorista” (Ryan Gosling). O diretor Nicolas Winding Refn (que ganhou pelo filme o prêmio de melhor direção do Festival de Cannes 2011), o roteirista Hossein Amini e Gosling têm como objetivo manter o personagem de alguma forma coberto, ou ao menos, como já foi dito, livre de traços psicológicosautoexplicativos.

O protagonista trabalha na oficina de Shannon (Bryan Cranston),que também lhe arranja serviços como dublê de cinema – dirigindo carros, claro–, como chofer-de-fuga para criminosos e planeja colocá-lo como piloto de stock car. No entanto, ele busca financiamento com Bernie (Albert Brooks), um perigoso gângster que conhece um antigo desafeto de Shannon, Nino (Ron Perlman). Ao lado do apartamento do Motorista, Irene (Carey Mulligan) e seu filho Benicio vivem sozinhos, pois Standard (Oscar Isaac), o pai do garoto, está na cadeia.

Enquanto passa alguns dias na companhia de Irene e Benicio, o Motorista se envolve com seus problemas, que aumentam com Standard, prestes a ganhar liberdade mas não totalmente livre do crime. Até então, o protagonista parecia um homem frio e profissional, sem interesses pela índole das pessoas que o empregam ou pela moralidade dos serviços que presta. Ele apenas segue regras, como dar exatos 5 minutos de espera no carro durante um trabalho e nunca dirigir duas vezes para as mesmas pessoas.

Pode-se dizer que ocorre uma mudança no Motorista quando ele começa a interferir no núcleo familiar de Irene. Por outro lado, não há dados para que identifiquemos uma personalidade bem desenhada. Refn trabalha a frieza das regras do protagonista não de forma determinista, apenas determinante – e apenas no âmbito profissional –, e no decorrer da trama fica claro que o personagem ainda não se completa no que foi apresentado. É uma armadilha intrigante, calcada em uma perspectiva racional que soa categórica, mas organicamente se reparte e revela outros estratos do homem.

Nem todas as camadas que aparecem nesse procedimento revelam um ser humano harmonioso. A violência do protagonista já se manifesta, em brutais palavras, no encontro com um homem com o qual ele trabalhara antes. Em dado momento, a situação entra em um redemoinho de ameaças e mortes, e continuará demandando do Motorista respostas violentas que ele oferece como se sempretivessem feito parte de seus instintos.

A menção à fábula do escorpião e do sapo faz sentido na proposta do diretor. (O escorpião quer atravessar um rio, e promete ao sapo que não o picará, pois sabe que os dois se afogariam, mas no meio da travessia ele o pica de qualquer maneira, dizendo que esta atitude está em sua natureza). O passado do Motorista – apenas vagamente mencionado por Shannon – não importa, pois seus atos, a todo momento, revelam sua natureza. Na cena do elevador, Gosling, Refn e o diretor de fotografia Newton Thomas Siegel, em mais um esforço coletivo de construção do personagem, comunicam genialmente a indissociabilidade do ato e da índole.

Aqui, cabe dizer que Drive é um dos filmes que melhor trabalha a violência gráfica no cinema recente. Não só os vilipêndios físicos, editados com magistral brevidade, surgem em momentos pontuais, como também servem aos arquétipos trabalhados no roteiro. O gore se limita aos capangas, aos peões da violência, ao passo que os que simbolizam um mal mais poderoso têm sofrimentos suavizados, tanto no sentido do corpo – eles não passam por mutilações sádicas – quanto no da imagem – através de procedimentos cada vez mais impressionantes (e banais: suspensão do ato, plano aberto/fade,sombras no lugar de corpos).

Mais intrigante é que nem assim Refn entrega a natureza doMotorista. Seu corpo sofre e faz sofrer em cena, mas ao mesmo tempo recebe o mesmo tratamento afastado dispensado aos mentores da maldade.  Uma das simbologias da máscara do protagonista é exatamente essa: ele continua sendo um homem, mas também representa e encarna uma força extra-humana ou inumana de desforra, é homem e personagem. O cineasta não hesita perante esse tipo de imagem arquetípica e, na mesma linha, investe pesado em cenas expressionistas,forte e belamente calcadas na encenação em si.

Nicolas Winding Refn oferece uma perspectiva e a relativiza, em uma abordagem sempre sedutora de seu personagem principal. Cada característicado Motorista emerge com a peremptoriedade de uma ação; sua construção se dá apartir de sedimentos irredutíveis. Irene, por sua vez, é gente. Não incorpora nada que não a emotividade com a qual recebe os choques da vida. Em um filme de Ação, como é Drive, humano é o arquétipo da vítima, aquele que vive à mercê. Os outros são elementos do cinema.

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