Minha Felicidade

março 1, 2012

por Pedro Costa de Biasi

Existe uma harmonia intrigante entre a forma e o conteúdo em Minha Felicidade, filme de Sergei Loznitsa que estreia nesta sexta-feira, 2. Alguns disseram que a intenção do diretor é propagar a “russofobia”, ao passo que outros enxergaram na produção ucraniana um estudo genealógico do Mal. Nenhuma das duas perspectivas parece incoerente, e tampouco são excludentes. No entanto, as discussões aqui parecem se voltar mais à estrutura.

Um dos primeiros planos já cria uma oposição que será típica ao longo da projeção: a câmera acompanha bem de perto um corpo, aparentementesem vida, que é arrastado por dois homens, jogado em uma vala e coberto decimento e terra. A cena não tem relação sequencial com a trama, mas o desprezo pelo ser humano e a própria existência de uma passagem tão distinta das queencaminharão o roteiro dali em diante é parte do discurso de Loznitsa. Se é uma“genealogia do Mal”, os resultados são tão caóticos quanto a natureza humana.

Georgy (Viktor Nemets), o protagonista, é caminhoneiro e parte para uma viagem de rotina. Apesar de certa dureza nas expressões e notrato, ele dá sinais de se preocupar com seu próximo, aceitando dar carona a umsenhor de idade e tentando ajudar uma jovem prostituta (Olga Shuvalova). Nomais das vezes, porém, ele é recebido com hostilidade, seja pelo guarda de umaparada no trajeto, seja por aproveitadores que perambulam regiões desertas.

Mesmo seguindo essa linha narrativa, o cineasta apresenta duas digressões, uma contada pelo sofrido idoso a quem Georgy dá carona e outra“contada” por uma casa que serviu de palco para um caso violento. Ambasfuncionam segundo a mesma lógica que rege cada micro ou macro história do filme: a brutalidade que homens cometem contra outros por motivos por vezesinsondáveis, e por vezes terrivelmente familiares.

É nessas constatações e na onipresente violência que aspassagens digressivas encontram sua harmonia. Essa, no entanto, é uma tendência típica na proposta alegórica que Loznitsa adota, e o mesmo não se pode dizer daencenação desconcertante das mais variadas ações. A intensa proximida de acorpos mortos ou fadados a morrer é uma dessas escolhas incômodas, mas a montageme a decupagem também usam outros recursos, como uma ofensa séria encenada e editadade forma inusitada e um assassinato cometido de um trem em movimento.

Até momentos passageiros, como a vida doméstica de Georgy,mostrada apenas de relance, e centrais, como a cena onde dois homens escapam deuma prisão, evitam o didatismo dramático e cênico, substituído por um silêncio lacunare por uma enervante placidez que acabam por dominar o filme. É sem dúvida maisuma amostra de cinema ríspido feito com aparente frieza, mas o diretor encontraformas quase sempre interessantes de registrar índoles e atos extremados.

Por outro lado, é decepcionante que, em meio a tanta brutalidade, Georgy soe totalmente deslocado, como se fosse completamente incapaz – impressão que Nemets nunca passa. Esse arquétipo da pureza é uminstrumento de acessibilidade para a visão um tanto surreal e muito sorumbáticade Loznitsa, mas partir da ingenuidade para a perda dela é o atalho mais óbviopara comunicar essa visão. Em um filme tão fortemente alegórico a ferramentafica em relevo como produtora de impacto por excelência.

A cena final, encenada como um surto epifânico, é particularmente infeliz ao cristalizar a experiência de Georgy em uma explosãode violência arbitrária e em uma metáfora sobre a escuridão. Como conclusãonarrativa, é impressionante, e até mesmo por isso, soa por demais apelativa. Averdade é que todo o filme tem essa predisposição provocadora, mas, quando elatende ao bombástico e às metáforas óbvias (vide o homem desaparecendo naescuridão), o perigoso anseio de chamar atenção trai o alvo e o objetivo daprovocação.

Por outro lado, é interessante que uma obra, diferente do que por vezes se vê, ofereça uma mise-en-scène capaz de transcender discursos e propostas padronizadas no cinema contemporâneo.

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