Poder sem limites

fevereiro 29, 2012

Alguns cartazes americanos de Poder Sem Limites, que estreia nesta sexta-feira, 2, estampavam a tagline “Boys will be boys”, algo como “Garotos (sempre) serão garotos”. Essa troça, referência à propensão irresponsável tão marcante em amizades masculinas, banha toda a primeira metade do filme dirigido por Josh Trank. A primeira cena após a introdução da trama exemplifica bem esse clima: os três amigos brincam de jogar uma bola de tênis um no outro, rindo a cada acerto.

No começo, a narrativa tropeça em sua velocidade: em um único dia,somos apresentados a todos os aspectos da vida de Andrew Detmer (Dane DeHaan),um jovem antissocial que sofre bullying na escola, recebe ameaças e golpes constantes do pai e ainda tem de lidar com a mãe acamada, necessitada de remédios caríssimos para suportar sua doença. É também o dia em que ele começa a gravar seu dia-a-dia com uma câmera. Em uma festa, após arranjar uma briga por estar filmando as pessoas, ele conhece o popular Steve Montgomery (MichaelB. Jordan), amigo de seu primo Matt Garretty (Alex Russell).

Juntos, eles vão investigar um buraco misterioso no meio da floresta, e lá descobrem uma estrutura brilhante. Depois desse encontro, os três passam a apresentar habilidades telecinéticas: podem mover objetos e até mesmo pessoas apenas com o pensamento. Por algum tempo, o desenvolvimento desses poderes é pura diversão para os jovens. Eles fazem pegadinhas com as pessoas e se maravilham com os novos e engenhosos usos que encontram para atelecinese. São os grandes momentos do filme, por seu inconsequente hedonismo.

Não chega a ser problemático que Andrew seja a apoteose do garoto problemático, ou que a apresentação de seus algozes rotineiros sirva fundamentalmente para uma previsível – e potencialmente catártica – desforra. O problema é quando o filme resolve tirar o “in” da inconsequência dos garotos, eadota um tom mais grave. O roteirista Max Landis faz más escolhas para informaressa transformação: logo após um incidente quase fatal, Matt dita uma série de regras, expondo grosseiramente a “grande responsabilidade” que vem com o grandepoder.

Outra questão importante é a sabotagem da catarse. Quando Derek começa a apresentar certo desequilíbrio emocional e psicológico, ele (ainda) não se vingou dos que lhe fizeram mal, e esse desligamento do protagonista sofrido para dar lugar – de forma extremamente brusca – a um psicopata ensandecido tenta anular todo o potencial alívio e, por que não?, prazer de ver babacas sofrendo nas mãos de um pária agora superpoderoso.

O papel cada vez mais conciliador de Matt, contraposto às atitudes cada vez mais descontroladas de Andrew, acaba por engessar o roteiro em uma moraltradicional e maniqueísta – em suma, frustrante. Como em Kick-Ass –Quebrando Tudo, a irreverência não serve para muita coisa, pois tanto Matthew Vaughn quanto Josh Trank decidiram voltar a modelos consagrados (afórmula, no caso do primeiro, e a moral, no caso do segundo) que deixam emdúvida se a audácia pontual realmente busca desestabilizar algum cânone.

Comparada à produção de Vaughn, a segunda metade de PoderSem Limites soa igualmente ou até mais domesticado. Claro que Trank eLandis não deveriam ter adotado uma misantropia que orgulhasse Erik Lensherr(vulgo Magneto), mas algum cinismo ou alguma ousadia mais tenebrosa teriam tirado o filme dos simplismos maniqueístas. Bastava que os personagens seembrenhassem em índoles mais amorais ou que Andrew mantivesse a capacidade dejulgamento, sem a saída fácil do “ele não é detestável, só está desequilibradoporque sofreu demais e perdeu o controle”.

É uma pena que esse tipo de mudança ocorra, pois o protagonista tem características intrigantes. A principal delas se mostra, em silêncio,quando ele começa a filmar a si próprio com a câmera levitando no ar. É umatragédia bem construída em cima dessa ideia: Andrew julga ter ganhado ocontrole sobre o modo como é visto. Esta tensão, claro, não é desenvolvida,pois o personagem se transforma (perde todo tipo de controle), logo, não podemais ser trabalhado como se fosse o mesmo.

Enquanto Trank segue a irresponsabilidade dos personagens, o filme não só convence (os efeitos visuais, aliás, funcionam muito bem) como tambémdiverte. O problema é quando o cineasta decide se tornar responsável para comuma moral que há muito tempo segue superprotegida.

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