O Homem que mudou o Jogo

fevereiro 19, 2012

por Pedro Costa de Biasi

Em O Homem Que Mudou o Jogo, Billy Beane (Brad Pitt, indicado ao Oscar) administra o time de beisebol Oakland Athletics, cujo orçamento impede a contratação grandes astrosdo esporte. Ciente de que, nessas circunstâncias, sua equipe nunca chegará aotopo, o gerente encontra Peter Brant (Jonah Hill), um jovem com ideias interessantes e potencialmente revolucionárias sobre o jogo. Após contratá-lo, Beane começa a escolher jogadores de formas nunca antes tentadas no beisebol, umadecisão extrema de tudo-ou-nada que o indispõe com todos os puristas dentro efora do Oakland Athletics.

Existe esta separação bem clara no filme, entre a tradição e a inovação, onde Billy e Peter representam umpensamento inovador na instuição do esporte. Todos os outros são desacreditados(tanto no sentido de terem descrédito na proposta do protagonista, quanto nosentido de receberem um verniz de antipatia e/ou ignorância pelo roteiro), pois o filme de Bennett Miller, escrito por Steve Zaillian e Aaron Sorkin, é um representante genuíno do melodrama.

Billy Beane está tentando reinventar um sistema que funciona há 150 anos, diz o coro formado pela mídiaesportiva e pelos olheiros do Oakland, pois ele quer escolher jogadores que osoutros times rejeitaram por algum motivo tradicional. O embate principal se dácontra a tradição, que valoriza grandes jogadores-astros, ao passo que oorçamento de que Billy dispõe torna esse tipo de contratação proibitiva. Assim,ele prefere ganhar marcando pontos, escolhendo jogadores que estatisticamenteconseguem chegar mais às bases.

Faz pouco sentido para quem nãoconhece as regras do jogo, e, como este é o meu caso, para mim a revolução deBilly continua não fazendo sentido estrito. Uma das qualidades mais elogiadasdo filme foi essa capacidade de se fazer entender sem  explicar o esporte regra a regra, feito que Zaillian e Sorkin alcançam literalmente criando mantras (“chegar à base”) que,para apreciadores do jogo, explicam tudo e, para leigos, determinam o que seespera dos jogadores. No fim, os roteiristas e Miller deixam muito claro quandoum jogador pode ou não ser útil, e quando tudo vai bem ou mal.

Não que não seja uma qualidade(pois diálogos expositivos sem dúvida arrastariam o filme), mas esse aspecto éprevisível no formato melodramático, cuja tendência, mesmo em situaçõesespecíficas, é buscar sentimentos universais. O diretor também não mede esforços para comunicar o suspense, a derrota ou o sucesso, esticando e expandindo ao máximo a sensação pretendida. Astécnicas estão calcadas em um minimalismo cênico e sonoro: os planos e o focoda mixagem de som se concentram em uma ação crucial. É a tediosa canetamarca-texto de Miller.

Uma cena  é notável por evitar arroubos estéticos mesmoque se trate de um momento importante para o time de Billy Beane. É uma sequênciarelativamente longa em que o gerente faz várias ligações para negociar seusjogadores, criando quase que uma bolsa de valores com suas artimanhas, encenadana base do campo/contracampo, sem música e sem manipulação do tempo cênico.Bons momentos surgem sempre que Miller se permite esse tipo de diálogo impessoale ágil (“Por que ninguém está me ligando?”, pergunta Beane, impaciente por 5segundos de silêncio), e a consistente montagem de Christopher Tellefsen colabora muito.

Claro que letreiros e um monólogo, este ainda mais mancomunado com o didatismo melodramático queaqueles, mostram que O Homem Que Mudou o Jogo não é ummelodrama que sobrevive aos anúncios sufocantes de sua própria pungência.Também poder-se-ia dizer que o maniqueísta embate entre tradicionalismo e progressismono beisebol pesa contra o filme, mas, incômodo que seja, é um retrato bastanteaceitável. A bem da verdade, é a obviedade com que o roteiro expõe os prós doprojeto de Beane e Brant que cria essa bipartição entre ousados e acomodados. Écompreensível, mas perigosamente anacrônico.

Por outro lado, Pitt dá uma solidez incrível ao protagonista, pois está em todo momento ciente que o texto trabalha com flutuações por vezes violentas, principalmente as de Beane. Sua firmeza, seja manifesta em uma conversa despojada-mas-séria com a filha ou emseus picos de destrutividade, dá o exato tipo de unidade que um personagem deextremos precisa. Hill, com uma figura que ora apresenta uma alegoria ao ladode Beane, ora se constrói como personagem, encontra o tom certo – e econômico –de ambas as funções.

É difícil antipatizar ou simpatizartotalmente com uma obra que varia tanto do bem-feito para o “sobre-feito”,entre o impessoal e o melodramático, entre o retrato e o julgamento de valores.Essa esquizofrenia não é tão danosa para o todo, mas tampouco constrói umrecorte mais abrangente do que as perspectivas conflitantes que o filme convulsivamente abriga.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: