Poder sem limites

fevereiro 29, 2012

Alguns cartazes americanos de Poder Sem Limites, que estreia nesta sexta-feira, 2, estampavam a tagline “Boys will be boys”, algo como “Garotos (sempre) serão garotos”. Essa troça, referência à propensão irresponsável tão marcante em amizades masculinas, banha toda a primeira metade do filme dirigido por Josh Trank. A primeira cena após a introdução da trama exemplifica bem esse clima: os três amigos brincam de jogar uma bola de tênis um no outro, rindo a cada acerto.

No começo, a narrativa tropeça em sua velocidade: em um único dia,somos apresentados a todos os aspectos da vida de Andrew Detmer (Dane DeHaan),um jovem antissocial que sofre bullying na escola, recebe ameaças e golpes constantes do pai e ainda tem de lidar com a mãe acamada, necessitada de remédios caríssimos para suportar sua doença. É também o dia em que ele começa a gravar seu dia-a-dia com uma câmera. Em uma festa, após arranjar uma briga por estar filmando as pessoas, ele conhece o popular Steve Montgomery (MichaelB. Jordan), amigo de seu primo Matt Garretty (Alex Russell).

Juntos, eles vão investigar um buraco misterioso no meio da floresta, e lá descobrem uma estrutura brilhante. Depois desse encontro, os três passam a apresentar habilidades telecinéticas: podem mover objetos e até mesmo pessoas apenas com o pensamento. Por algum tempo, o desenvolvimento desses poderes é pura diversão para os jovens. Eles fazem pegadinhas com as pessoas e se maravilham com os novos e engenhosos usos que encontram para atelecinese. São os grandes momentos do filme, por seu inconsequente hedonismo.

Não chega a ser problemático que Andrew seja a apoteose do garoto problemático, ou que a apresentação de seus algozes rotineiros sirva fundamentalmente para uma previsível – e potencialmente catártica – desforra. O problema é quando o filme resolve tirar o “in” da inconsequência dos garotos, eadota um tom mais grave. O roteirista Max Landis faz más escolhas para informaressa transformação: logo após um incidente quase fatal, Matt dita uma série de regras, expondo grosseiramente a “grande responsabilidade” que vem com o grandepoder.

Outra questão importante é a sabotagem da catarse. Quando Derek começa a apresentar certo desequilíbrio emocional e psicológico, ele (ainda) não se vingou dos que lhe fizeram mal, e esse desligamento do protagonista sofrido para dar lugar – de forma extremamente brusca – a um psicopata ensandecido tenta anular todo o potencial alívio e, por que não?, prazer de ver babacas sofrendo nas mãos de um pária agora superpoderoso.

O papel cada vez mais conciliador de Matt, contraposto às atitudes cada vez mais descontroladas de Andrew, acaba por engessar o roteiro em uma moraltradicional e maniqueísta – em suma, frustrante. Como em Kick-Ass –Quebrando Tudo, a irreverência não serve para muita coisa, pois tanto Matthew Vaughn quanto Josh Trank decidiram voltar a modelos consagrados (afórmula, no caso do primeiro, e a moral, no caso do segundo) que deixam emdúvida se a audácia pontual realmente busca desestabilizar algum cânone.

Comparada à produção de Vaughn, a segunda metade de PoderSem Limites soa igualmente ou até mais domesticado. Claro que Trank eLandis não deveriam ter adotado uma misantropia que orgulhasse Erik Lensherr(vulgo Magneto), mas algum cinismo ou alguma ousadia mais tenebrosa teriam tirado o filme dos simplismos maniqueístas. Bastava que os personagens seembrenhassem em índoles mais amorais ou que Andrew mantivesse a capacidade dejulgamento, sem a saída fácil do “ele não é detestável, só está desequilibradoporque sofreu demais e perdeu o controle”.

É uma pena que esse tipo de mudança ocorra, pois o protagonista tem características intrigantes. A principal delas se mostra, em silêncio,quando ele começa a filmar a si próprio com a câmera levitando no ar. É umatragédia bem construída em cima dessa ideia: Andrew julga ter ganhado ocontrole sobre o modo como é visto. Esta tensão, claro, não é desenvolvida,pois o personagem se transforma (perde todo tipo de controle), logo, não podemais ser trabalhado como se fosse o mesmo.

Enquanto Trank segue a irresponsabilidade dos personagens, o filme não só convence (os efeitos visuais, aliás, funcionam muito bem) como tambémdiverte. O problema é quando o cineasta decide se tornar responsável para comuma moral que há muito tempo segue superprotegida.

O Homem que mudou o Jogo

fevereiro 19, 2012

por Pedro Costa de Biasi

Em O Homem Que Mudou o Jogo, Billy Beane (Brad Pitt, indicado ao Oscar) administra o time de beisebol Oakland Athletics, cujo orçamento impede a contratação grandes astrosdo esporte. Ciente de que, nessas circunstâncias, sua equipe nunca chegará aotopo, o gerente encontra Peter Brant (Jonah Hill), um jovem com ideias interessantes e potencialmente revolucionárias sobre o jogo. Após contratá-lo, Beane começa a escolher jogadores de formas nunca antes tentadas no beisebol, umadecisão extrema de tudo-ou-nada que o indispõe com todos os puristas dentro efora do Oakland Athletics.

Existe esta separação bem clara no filme, entre a tradição e a inovação, onde Billy e Peter representam umpensamento inovador na instuição do esporte. Todos os outros são desacreditados(tanto no sentido de terem descrédito na proposta do protagonista, quanto nosentido de receberem um verniz de antipatia e/ou ignorância pelo roteiro), pois o filme de Bennett Miller, escrito por Steve Zaillian e Aaron Sorkin, é um representante genuíno do melodrama.

Billy Beane está tentando reinventar um sistema que funciona há 150 anos, diz o coro formado pela mídiaesportiva e pelos olheiros do Oakland, pois ele quer escolher jogadores que osoutros times rejeitaram por algum motivo tradicional. O embate principal se dácontra a tradição, que valoriza grandes jogadores-astros, ao passo que oorçamento de que Billy dispõe torna esse tipo de contratação proibitiva. Assim,ele prefere ganhar marcando pontos, escolhendo jogadores que estatisticamenteconseguem chegar mais às bases.

Faz pouco sentido para quem nãoconhece as regras do jogo, e, como este é o meu caso, para mim a revolução deBilly continua não fazendo sentido estrito. Uma das qualidades mais elogiadasdo filme foi essa capacidade de se fazer entender sem  explicar o esporte regra a regra, feito que Zaillian e Sorkin alcançam literalmente criando mantras (“chegar à base”) que,para apreciadores do jogo, explicam tudo e, para leigos, determinam o que seespera dos jogadores. No fim, os roteiristas e Miller deixam muito claro quandoum jogador pode ou não ser útil, e quando tudo vai bem ou mal.

Não que não seja uma qualidade(pois diálogos expositivos sem dúvida arrastariam o filme), mas esse aspecto éprevisível no formato melodramático, cuja tendência, mesmo em situaçõesespecíficas, é buscar sentimentos universais. O diretor também não mede esforços para comunicar o suspense, a derrota ou o sucesso, esticando e expandindo ao máximo a sensação pretendida. Astécnicas estão calcadas em um minimalismo cênico e sonoro: os planos e o focoda mixagem de som se concentram em uma ação crucial. É a tediosa canetamarca-texto de Miller.

Uma cena  é notável por evitar arroubos estéticos mesmoque se trate de um momento importante para o time de Billy Beane. É uma sequênciarelativamente longa em que o gerente faz várias ligações para negociar seusjogadores, criando quase que uma bolsa de valores com suas artimanhas, encenadana base do campo/contracampo, sem música e sem manipulação do tempo cênico.Bons momentos surgem sempre que Miller se permite esse tipo de diálogo impessoale ágil (“Por que ninguém está me ligando?”, pergunta Beane, impaciente por 5segundos de silêncio), e a consistente montagem de Christopher Tellefsen colabora muito.

Claro que letreiros e um monólogo, este ainda mais mancomunado com o didatismo melodramático queaqueles, mostram que O Homem Que Mudou o Jogo não é ummelodrama que sobrevive aos anúncios sufocantes de sua própria pungência.Também poder-se-ia dizer que o maniqueísta embate entre tradicionalismo e progressismono beisebol pesa contra o filme, mas, incômodo que seja, é um retrato bastanteaceitável. A bem da verdade, é a obviedade com que o roteiro expõe os prós doprojeto de Beane e Brant que cria essa bipartição entre ousados e acomodados. Écompreensível, mas perigosamente anacrônico.

Por outro lado, Pitt dá uma solidez incrível ao protagonista, pois está em todo momento ciente que o texto trabalha com flutuações por vezes violentas, principalmente as de Beane. Sua firmeza, seja manifesta em uma conversa despojada-mas-séria com a filha ou emseus picos de destrutividade, dá o exato tipo de unidade que um personagem deextremos precisa. Hill, com uma figura que ora apresenta uma alegoria ao ladode Beane, ora se constrói como personagem, encontra o tom certo – e econômico –de ambas as funções.

É difícil antipatizar ou simpatizartotalmente com uma obra que varia tanto do bem-feito para o “sobre-feito”,entre o impessoal e o melodramático, entre o retrato e o julgamento de valores.Essa esquizofrenia não é tão danosa para o todo, mas tampouco constrói umrecorte mais abrangente do que as perspectivas conflitantes que o filme convulsivamente abriga.

por Janaina Pereira, de Berlim

 

O elogiado Cesare deve morire, dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, ganhou na noite deste sábado, dia 18, o Urso de Ouro do Festival de Berlim 2012. O longa, que vinha sendo apontado pela crítica como um dos favoritos ao prêmio, conta a história de um grupo de presidiários que vai montar a peça Julio César, de William Shakespeare. A trama traça um pararelo entre a obra shakesperiana e o universo do presídio, e os atores são presidiários de verdade.

“É o nosso prêmio mais importante, porque este filme é diferente dos outros que fizemos. Para nós, era essencial que o filme fosse visto aqui, um festival preocupado com os problemas sociais do mundo. Trabalhando na prisão, é fácil falar de liberdade, de tirania e de assassinato. Para nós na Itália, ‘Julius Caesar’, de William Shakespeare, é uma obra muito atual.””, disse Paolo Taviani na coletiva de imprensa dos vencedores.

O júri presidido por Mike Leigh deu o Prêmio Especial a Csak a Szel, fraco filme do húngaro Bence Fliegauf, que trata da situação dos ciganos. O Urso de Prata de melhor direção ficou com Christian Petzold pelo preferido da crítica alemã, Barbara. O diretor disse que o filme foi diferente das suas experiências anteriores. “Eu perdi o controle das coisas. E foi bom.”

O Urso de Prata de melhor atriz ficou com Rachel Mwanza, de apenas 14 anos, por sua interpretação de uma menina-soldado no Congo em Rebelle. Desde a exibição do longa ontem, Rachel despontou como favorita ao prêmio. “Tive uma vida muito dura, sabia que era uma grande chance para mim e tentei fazer o meu melhor”, disse a jovem, que viveu nas ruas de Kinshasa antes de ser escolhida para fazer o papel.

Polêmicas foram as premiações dadas a En Kongelig Affaere, de Nikolaj Arcel. O filme ganhou como melhor roteiro e o ator Mikkel Boe Følsgaard surpreendentemente venceu como melhor ator – batendo Robert Duval e John Hurt, considerados favoritos por  Jayne Mansfield’s Car.

O troféu de inovação foi para o português Tabu, coprodução com a brasileira Gullane Filmes e dirigido por Miguel Gomes. A fotografia de Lutz Reitemeier para o chinês Bay Lu Yuan, de Wang Quan’an, recebeu o Urso de Prata por sua contribuição artística. Já o bom Sister, de Ursula Meier, ganhou menção especial do júri.

A 62ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim teve como presidente do júri da mostra competitiva o cineasta inglês Mike Leigh. Os outros componentes do júri foram o fotógrafo e cineasta holandês Anton Corbijn, o diretor e roteirista iraniano Ashghar Farhadi, a atriz francesa Charlotte Gainsbourg, o ator americano Jake Gyllenhaal, o cineasta e roteirista francês François Ozon, o escritor argelino Boualem Sansal e a atriz alemã Barbara Sukowa.

 

por Janaina Pereira, de Berlim

 

No último dia de exibição oficial dos filmes da mostra competitiva, o Festival de Berlim parou para ver Robert Pattinson passar. Nesta sexta, 17, ele brilhou no tapete vermelho do lançamento mundial de Bel Ami, de Declan Donnellan e Nick Ormerod, exibido fora de competição.

O longa, baseado num romance de Guy de Maupassant sobre Georges Duroy (Robert Pattinson), um ex-soldado e filho de lavradores pobres que se sente no direito de ser rico, tem uma trama bem amarrada e interessante, que se torna cansativo graças à atuação fraquíssima de Pattinson. Limitado, o ator parece que vai virar vampiro a qualquer momento durante o filme.

Na coletiva, em que Pattinson surpreendeu ao aparecer de cabeça raspada, o ator comentou como foi fazer um jornalista. “Foi engraçado, quando ele entrou na coluna de fofocas do jornal… Fiz um paralelo. Mas ele não é bem um jornalista, é como se, hoje, fosse astro de reality show, algo em que pudesse ter dinheiro e fama sem fazer nada.”

A atriz Christina Ricci que também participou da coletiva, falou sobre a cena de sexo entre sua personagem e Pattinson. “Ah, elas foram tão íntimas e românticas… Havia cem pessoas no set sem teto! E eu não depilei as axilas, para ser fiel ao período histórico. É, realmente estávamos muito atraentes!”.

Bel Ami será distribuído no Brasil pela Califórnia Filmes.

por Janaina Pereira, de Berlim

Em seus momentos finais, o Festival de Berlim apresenta claramente seus favoritos. Billy Bob Thornton se junta aos irmãos Taviani como cotadíssimo ao Urso de Ouro por Jayne Mansfield’s Car, seu novo trabalho como diretor.

Thornton também atua no filme ao lado de Robert Duvall, John Hurt – que participou da coletiva em Berlim e foi ovacionado pelos jornalistas – Kevin Bacon e Frances O’Connor. O filme é ambientado em 1969, e segue duas famílias diferentes – uma americana e outra britânica – que se reunem pela morte da ex-mulher de Duval e Hurt.

Na coletiva, Thornton alfinetou Hollywood, e contou que não conseguiu financiamento dentro dos EUA para seu filme. “A maioria dos filmes americanos que são fáceis de obter financiamento são filmes sobre modelos de uniforme de gladiadores e comédias malucas com crianças que se envolvem com as ovelhas no hotel. Então, ao invés de reclamar, decidi simplesmente escrever e direcioná-lo.”, disse. “É uma história que eu tive na minha cabeça por muito tempo e acho que sou um diretor melhor quando estou fazendo meu próprio material. Minha última experiência foi em ‘All The Pretty Horses’, que foi um filme que eu estava contratado para dirigir. Eu não tinha controle sobre o que aconteceu com ele. Neste caso, eu era capaz de lançar que eu queria e cortar o filme do jeito que eu queria. ”

Thornton também disse que Berlim era o único festival que queria estrear. “A razão por que quis vir para Berlim com o filme é que isso é conhecido como um festival de cinema muito sério, onde a qualidade dos filmes é fundamental. Ficamos muito honrados de ser aceito aqui.”

Em um momento constrangedor, Thornton foi questionado se estaria saindo com Angelina Jolie, sua ex-mulher, em Berlim – Angelina está na cidade lançando In The Land of Blood and Honey, sua estreia como diretora. Elegante, ele respondeu que Angelina é uma mulher maravilhosa e uma das suas melhores amigas.

“Quando os artistas se separam, as pessoas gostam de inventar histórias sobre o quanto estão uns contra os outros. Isso nunca foi verdade. Nunca será. Eu vou amá-la até o fim da minha vida e ela vai me amar. Somos amigos. Brad é um meu amigo também, e eu amo os dois. Eu amo seus filhos, e eles me adoram. Eu ainda não a vi, mas tenho certeza que vamos nos ver, quem sabe esta tarde.”

Jayne Mansfield’s Car não tem previsão de estreia no Brasil.

por Janaina Pereira, de Berlim

A estreia mundial do novo filme de Steven Soderbergh, Haywire, aconteceu nesta quarta, dia 15, no Festival de Berlim. Para o lançamento do longa, o diretor veio à cidade acompanhado de Michael Fassbender, Antonio Banderas e da lutadora de artes marciais – e agora atriz – Gina Carano (foto).

Carano bate – e apanha – de Fassbender e de Ewan McGregor no divertido filme. “Ela realmente não me intimida”, disse Fassbender na entrevista coletiva, quando foi questionado se não ficou preocupada com sua imagem por fazer cenas em que bate em Gina. “Isso não é Michael Fassbender fazendo, é o personagem.  Estou aqui para servir a história e ao personagem. E na vida real, Gina iria bater em mim em qualquer circunstância”, comentou o ator, arrancando risadas dos jornalistas.

Carano disse que, apesar da brutalidade na tela, não houve ferimentos graves durante a filmagem.”Eu quebrei meu dedo no ombro de Michael uma vez, isso é tudo.”

Haywire foi bem recebido em sua estreia em Berlim, o que deixou Soderbergh satisfeito.  “Quando eu estava conversando com [o diretor do festival] Dieter Kosslick, disse que adoraria vir com este tipo de filme e mostrá-lo neste momento, depois de ter visto um monte de drama pesado. Agora o público está realmente pronto para relaxar.”

Haywire será lançado no Brasil ainda neste primeiro semestre pela Imagem Filmes.

por Janaina Pereira, de Berlim

Em sua 17ª indicação ao Oscar, a atriz americana Meryl Streep é apontada como favorita para levar a terceira estatueta para casa. Faltando poucos dias para a premiação, ela veio a Berlim receber o Urso de Ouro honorário, pelo conjunto de sua carreira. Antes da premiação, que aconteceu na noite desta terça, 14, Streep conversou com cerca de 350 jornalistas que lotaram a pequena sala de conferência de imprensa do Berlinale Palast.

Ovacionada, a atriz mostrou porque é uma das personalidades mais queridas do cinema: simpática e divertida, tinha sempre uma resposta surpreendente para a infinidade de perguntas. Em quase uma hora de coletiva, ela ganhou flores, uma matryoshka – tradicional boneca russa – recebeu declarações de amor dos jornalistas e dominou com facilidade o microfone, assim como domina bem a arte de interpretar.

“Cresci em Nova Jersey, uma cidade de 10 mil habitantes. E pensar que tantos anos depois ia receber um Urso de Ouro na Berlinale, o festival de cinema mais famoso do mundo, é um verdadeiro sonho”, disse.

Questionada sobre como decide os personagens que vai fazer, ela revelou que quando lê o roteiro e fica sensibilizada, sabe que aquele personagem e importante. “Gosto dos personagens de mulheres difíceis de serem compreendidas, por exemplo a de ‘O diabo veste Prada’.”

No meio da coletiva, um jornalista subiu no palco, entregou um buquê de flores brancas à atriz e deu um beijo nela. Outro repórter deu de presente uma boneca russa, com cada bonequinha pintada de forma diferente para representar os diversos papeis já interpretados por ela nos filmes. Neste momento Meryl brincou que o nariz da boneca era melhor que o dela.

Sobre o filme Dama de Ferro, pelo qual concorre mais uma vez ao Oscar e que foi exibido aqui em Berlim, ela disse que não foi complicado interpretar Margareth Tatcher. “Quando uma pessoa faz o que gosta, nada é difícil. Basta se concentrar. Meu desafio ao interpretar Margaret Thatcher era encarnar a mesma mulher, jovem e velha, numa parte importante de sua vida, em sua intimidade oculta.”

Quando pediram para fazer o sotaque britânico, ela disse “Não”, com sotaque e a mesma perfeição vista no filme. E sobre as escolhas políticas de Tatcher, Meryl fez questão de dar sua posição. “Aprendi muitas coisas interpretando ela. Antes, tinha preconceito, eu sou uma atriz meio esquerdista. Não gostava muito que tivesse sido amiga de Ronald Reagan. Pensava, como mulher, que usava um penteado horrível. Nós, mulheres, reparamos nessas coisas. Agora que estou do outro lado, vocês também podem falar dos meus cabelos.”

Nos momentos finais da coletiva, uma frase de efeito deixou claro que Meryl Streep é mesmo alguém especial. “O começo de uma filmagem é mais difícil. As pessoas podem nos intimidar, temos que ter truques para esconder a insegurança. O medo é importante como combustível, porque se não sentir medo, alguma coisa vai mal. E depois de 35 anos de carreira, sinto que devo surpreender a mim mesma, surpreender aos demais.”

E que agradável surpresa é Meryl Streep.

por Janaina Pereira, de Berlim

O Festival de Berlim foi marcado nesta segunda-feira, 13, pela exibição – fora de comeptição – do mais novo filme do aclamado diretor chinês Zhang Yimou (Herói): Flowers of War relata a traumática invasão japonesa na China em 1937, mas precisamente na cidade de Nanquim – onde mais de 200 mil pessoas foram mortas. A grande curiosidade do filme, no entanto, está em seu protagonista, o astro americano Christian Bale, mas conhecido como o Batman da trilogia de Christopher Nolan e ganhador do Oscar de melhor ator coadjuvante ano passado, por O Vencedor.

Na coletiva de imprensa que aconteceu à noite, horas antes da premiere do longa, Bale conversou com a imprensa sobre a oportunidade de fazer um filme em chinês, sendo dirigido por um cineasta que não fala inglês. “Tinhamos a ajuda de un intérprete, e foi uma experiência incrível. Fazer um filme chinês, com um diretor como o Yimou foi algo muito marcante na minha carreira”, revelou o ator, que interpreta um americano perdido no meio da guerra, que acaba se refugiando em um colégio junto com dois grupos bem differentes: pequenas estudantes de 12 anos e refinadas prostitutas chinesas. No meio da batalha que se instala em Naquim, ele se veste de padre para tentar salvar as meninas e as prostitutas.

Yimou é um dos diretores mais celebrados na Berlinale. Em 1987 ele ganhou o Urso de Ouro por O Sogro Vermelho, e desde então lança todos os seus filmes durante o festival, ainda que fora de competição. O cineasta explicou a importância de Bale no projeto.

“Eu queria mostrar um episódio difícil da nossa história, um trauma nacional. E queria um personagem que fosse incomum naquele cenário, para dar consciência a todos ao que acontecia. E é por isso que quis Bale neste trabalho.”

O grandioso filme de 141 minutos de duração chama a atenção pelo forte apelo visual e a ótima interpretação de Bale. Flowers of War ainda não tem distribuição no Brasil.

Na mostra competitiva, três filmes se destacaram: o italiano Cesare deve morire, dos veteranos irmãos Taviani – relato sobre a montagem da peça Julio Cesar, de Shakespeare, em um presídio, traçando um paralelo entre os presos e os personagens da peça  -, o filipino Captire, de Brillante Mendonza, e o alemão Barbara, de Chiristian Petzold. Em um festival morno, esses filmes aparecem como possíveis vencedores do Urso de Ouro.

 

por Janaina Pereira, de Berlim

Faltava uma estrela que realmente tivesse humor para encarar o frio alemao. E essa estrela apareceu neste domingo, dia 12, no quarto dia do Festival Internacional de Berlim: o ator inglês Clive Owen (foto) esbanjou simpatia na coletiva de Shadow Dancer, filme exibido fora de competição.

O filme é o novo trabalho do diretor James Marsh (do premiado documentário O Equilibrista), e traz ainda no elenco a jovem atriz Andrea Riseborough. A trama, baseada no livro homônimo de Tom Bradby, responsável também pela adaptação, gira em torno de uma mulher (Riseborough), ex-integrante da organização terrorista irlandesa IRA, que torna-se informante da inteligência britânica. Quando ela é presa por causa de um atentado abortado em Londres, é obrigada a revelar seu passado para conseguir voltar para sua família.

Owen, Riseborough e Marsh conversaram longamente com os jornalistas. O ator comentou o que chamou sua atenção para trabalhar neste filme. “Me atraio muito por personagens com dilemas, pois esses dilemas são responsáveis pelo drama da história. Eu não preciso necessariamente julgá-los ou gostar dos meus personagens. Eu tenho que entender o que eles fazem e o que pensam para poder fazer bem o meu trabalho.”

O ator também ressaltou sua admiração pelo diretor James Marsh. “Estava terminando um projeto quando aceitei o papel. Não tive tempo para me preparar. Mas ao ler o roteiro, brilhantemente escrito, tive certeza que o filme iria dar certo. Quem cresceu na Inglaterra e tem a minha idade, se lembra que esse conflito estava na mídia todos os dias. Aí ao voltar a Belfast, me dei conta de como tudo isso ainda é recente.”

 Shadow Dancer ainda não tem distribuição brasileira.

Outro destaque do dia foi o Meteora, coprodução Grécia-Alemanha dirigida por Spiros Stathoulopoulos. O filme desponta como preferido  – ate agora – dos criticos. A trama conta a história de amor entre um monge (Theo Alexander) e uma freira (Tamila Koulieva) que vivem em um monastério no alto de montanhas rochosas em Metéora. A historia tem poucos diálogos e o diretor usa a animacao para contar uma parte da trama, especialmente quando aborda os conflitos internos dos protagonistas.

por Janaina Pereira, de Berlim

 

O frio continua assustando – a temperatura mais “quente” em Berlim esta semana foi -5 graus – e gelada tambem tem sido a exibição dos filmes no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Até o momento, 7 dos 18 concorrentes ao Urso de Ouro já foram exibidos para a imprensa e nenhum apareceu como favorito. O grande destaque deste sábado, dia 11, foi premiere mundial de In the Land of Blood and Honey , filme de estreia de Angelina Jolie como diretora. O longa foi exibido esta noite, fora de competição.

A atriz causou furor na coletiva de imprensa, disputada – literalmente – a tapa pelos jornalistas. Depois de muita confusão e quase 1 hora de atraso, Jolie e os atores do filme – todos desconhecidos – conversaram muito pouco com os jornalistas. O tema escolhido pela diretora – que também assina o roteiro – para seu primeiro trabalho atrás das cameras – uma história de amor que nasce junto com a guerra na Bósnia – foi sem dúvida ousado, assim como a coragem de Jolie ao mostrar cenas de estupro, crueldade e horror.

“Quando se faz um filme de guerra, sempre surge a questão sobre o quanto deve ser mostrado. O que se vê no filme é só uma parte. Nas estimativas da ONU, 50.000 mulheres foram estupradas, quando na realidade, uma mulher estuprada já é muito. Não há como recriar tudo. E filme de guerra tem de ser difícil de assistir mesmo, porque a realidade também foi assim. Eu não mostrei tudo que eu pude, especialmente em relação às crianças, porque eu também sou mãe e isso foi muito difícil”, revelou a diretora na coletiva.

De poucos sorrisos, Angelina Jolie não se mostrou confortável com os jornalistas. Antes que alguém pudesse concluir a pergunta, ela já interrompia e dava a resposta, sempre enfática. Questionada sobre o filme servir como ponto de vista das Nações Unidas (ONU), ela foi dura na resposta.,

“Isso não é um documentário, é uma interpretação artística. Espero que mais filmes explorem outras partes dessa história. Pois, de fato, existem muitas histórias pra contar e várias maneiras para mostrá-las. Eu faço o melhor que posso. Vou envelhecendo, me educando sobre o mundo e vendo que eu ainda tenho muito que aprender. Viajei durante 10 anos, vi muita coisa, e fico feliz de poder mostrar pra vocês um tema que realmente importa”.

 In the Land of Blood and Honey ainda não tem distribuição garantida no Brasil.