Os Descendentes

janeiro 27, 2012

Por Pedro Costa de Biasi

Nas primeiras cenas de Os Descendentes, que estreia nesta sexta-feira, 27, as principais operações do filme já estão claras. A voz de Matthew King (George Clooney) explica que, apesar de morar no Havaí, nem tudo é surfe e descanso: ele tem de lidar com problemas mundanos, sendo o principal o coma em que se encontra sua esposa Elizabeth (Patricia Hastie) após um acidente de barco. Incapaz de lidar com suas filhas Scottie (Amara Miller) e Alexandra (Shailene Woodley), Matt ainda tem de lidar com as revelações de que Beth em breve morrerá e que ela o traía.

Durante a narração em off no início da projeção, o protagonista afirma que, de fato, trabalhava muito e não tinha contato o bastante com a esposa, mas que, quando ela acordar do coma, ele compensará tudo e aproveitará a oportunidade de reestabelecer a proximidade. É um discurso ativo que contrasta com a imagem, uma lenta aproximação da câmera em direção a Clooney, ao que ele, em dado instante, se inclina para trás, na parede, até o plano se fechar em seu rosto.

Esse momento de fuga e o obstáculo atrás (esse “beco sem saída”) comunicam a disparidade entre o ato e a fala, indicando que, na verdade, ele não avançou em direção a uma oportunidade, e sim reagiu a uma situação sem saída com um voto de esperança e de promessa. Ao longo da trama, o diretor Alexander Payne aborda oposições similares, sejam estas breves cenas de transição que mostram cidades de arquitetura destacável em meio às mais características palmeiras ou as repetidas evasões e mentiras de Matt.

Também os momentos cômicos do roteiro, escrito por Payne, Nat Faxon e  Jim Rash, baseiam-se na aparência de contradição. Quando Matt descreve Scottie como um “anjo”, a menina aparece jogando cadeiras na piscina sem razão aparente, em uma técnica humorística bastante comum. Não é por ser clichê que a cena peca, e sim porque reitera dois fatos (a índole da filha e as mentiras do pai) que não poderiam ser mais inquívocos, pois são parte do mote da trama – e o mesmo pode ser dito da espionagem de Matt atrás da cerca-viva.

Ainda há momentos de maior incorreção (como quando Matt chama Sid, o amigo de Alex, de “retardado”), que confirmam impressões anteriores sobre certos personagens e soam um pouco mais sinceras que as ironias tolas de Payne. No limite oposto, o cineasta coloca traços de afabilidade até em figuras desagradáveis, como o próprio Sid e Scott (Robert Forster), o pai de Beth, apenas oferecendo um vislumbre –através de uma precipitada encenação – de verdadeira humanidade. É um caso complexo mas típico de não saber quanto e como mostrar: na cena de Clooney se afastando da câmera, há um equilíbrio que muitas vezes Payne perde de vista.

Problemático também é o retrato dos primos de Matt, que querem vender terras intocadas em Kaua’i que foram passadas de geração em geração através da família King – a árvore genealógica de Matt remonta ao rei Kamehameha I, que conquistou o Havaí e lá estabeleceu seu reinado. O protagonista é o único que pode firmar a decisão sobre a venda ou a manutenção dessa propriedade, e suas hesitações deixam os parentes tensos, numa antipatia por vezes grosseiramente expressa pelos intérpretes. No entanto, a subtrama em questão adentra uma questão delicada, e a aborda com incrível habilidade.

Posto que os King foram herdando as terras ao longo dos séculos, havia a perigosa possibilidade de opor a negociação à manutenção da posse, romantizando a segunda opção quase que através da demonização natural da primeira. Cientes dessa falácia, os roteiristas atrelam à venda da propriedade uma questão bastante pessoal para Matt, cujas motivações nunca ficam às claras – aqui, mais uma vez, Payne acerta no que oculta e no que mostra.

Toda a estética da obra tem como fundamento a contradição entre aparência e essência, aspecto que, novamente, pode ser notado já nas primeiras palavras narradas por Matt: ele começa derrubando suposições sobre a vida no Havaí para apresentar seu drama, talvez preocupado demais com essas suposições. É um procedimento espinhoso que atenta à ideia falsa apenas para apontar o fato, como se este fosse se valorizar no processo de desilusão. Se essa valorização de fato acontece, tanto faz, pois o espectador nota (pela negação) um exotismo e um lugar-comum que, permanecessem intocados, talvez nem seriam uma questão.

No entanto, a trilha sonora, que abarca ritmos, instrumentos e artistas perceptivelmente havaianos, reafirma esse lugar-comum, às vezes contrastando uma música veranil com uma cena triste, e às vezes acompanhando o tom do que se vê na tela. A narração inicial, embora indique uma harmonia entre Payne e suas ferramentas que ocasionalmente se perderá, também não prevê as escolhas musicais que tornam Os Descendentes mais interessante.

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