A Separação

janeiro 18, 2012

Por Pedro Costa de Biasi

Não é fácil aderir discursos políticos ou éticos ao tecido de A Separação, filme de Asghar Farhadi que estreia nesta sexta-feira, dia 20. O cineasta naturalmente tem posicionamentos sobre os inúmeros temas que aborda em seu roteiro, mas identificar seus pontos de vista não é só uma atividade capciosa, como também um tanto fútil. A bem da verdade, o eixo da trama é sua natureza conflituosa.

Simin (Leila Hatami) quer levar a filha Termeh (Sarina Farhadi) para estudar longe do Irã, em uma situação mais branda, mas seu marido Nader (Peyman Moadi) se opõe, e ela pede o divórcio para cumprir seu desejo. Apesar de ter a solicitação negada, Simin se muda, o que obriga Nader a encontrar alguém para cuidar de seu pai (Ali-Asghar Shahbazi), que sofre de Alzheimer. Ele contrata Razieh (Sareh Bayat), mulher muito devota aos preceitos do islamismo.

Em tese, ela necessitaria do consentimento do marido Hodjat (Shahab Hosseini) para trabalhar, mas ele tem dívidas com alguns credores e a família (eles têm uma filha pequena e esperam um bebê) precisa do dinheiro. A relação marido-mulher é uma das questões abordadas por Farhadi, não tanto pelos contrastes gritantes com a perspectiva ocidental, mas sim como um conflito e um incidental paralelismo com Nader e Simin – este último, inclusive, vai além do fato de Simin ter pedido um divórcio, o que aos ideais religiosos de Razieh.

São sutis comparações, entre uma mulher que pega dinheiro sem contar para o marido e outra que trabalha em segredo para completar a renda familiar, ou na semelhança que Razieh e Simin apresentam ao tentar resolver os problemas de seus cônjuges mesmo que a honra de ambos lhes impeça de aceitar com naturalidade essa ajuda. Apesar do forte teor religioso e político que essa questão apresenta, Farhadi está atento primeira e fundamentalmente aos conflitos.

Neste sentido, ele se limita a acompanhar e observar os desdobramentos das tensões que afloram entre Hodjat, Nader, Simin e Razieh, sem digredir em direção a questionamentos ideológicos de qualquer espécie. Problemas éticos agudos são abordados apenas com a profundidade que as violentas discussões permitem, e com a cordialidade provinda do desespero. Nessa cordialidade – esse falar e fazer segundo emoções fulminantes e egoístas que passam por cima da justiça e da verdade -, a matéria dos conflitos acaba dando o tom das cenas, e os valores aparentes se sobrepõe aos de fato existentes – contraste cristalizado na sorumbática personagem de Termeh.

Os conflitos são universais, transcendem a mera função da mulher interpretada pelo Corão e atingem antes o mecanismo de defesa que usamos para acusar e nos isentar moralmente, mesmo que a origem de tudo sejam as emoções mais explosivas. É uma trama primeiramente humana, e só por consequência política. Quanto à ética, o mergulho é em águas caudalosas. Uma porção de chaves para respostas morais surgem ao se acoplar valores positivos ou negativos às ações dos personagens.

Estender-se em avaliações dessa natureza não tem grande serventia, pois os próprios discursos dos personagens se cruzam em inúmeros maniqueísmos – compreensíveis, em algum grau. O método de observar as consequências de atos e acusações não priva a obra de pontos de vista reconhecíveis (essa privação não é impossível: filmes como Transformers: O Lado Oculto da Lua demonstram que uma isenção grosseira funciona), mas ao menos o enfoque se mantém em discussões enérgicas que assomam, com seus argumentos, perante posicionamentos externos.

Acompanhar A Separação é gratificante na medida em que Asghar Farhadi evita tratar firmemente de especificidades e opta por abordar conflitos abrangentes, essencialmente humanos, sem alardear valores absolutizantes nem soluções.

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