As Aventuras de Tintin

janeiro 17, 2012

 

 

por Pedro Costa de Biasi

Uma imagem que me ocorreu enquanto assistia a As Aventuras de Tintin, que estreia sexta-feira, dia 20, foi de outro desenho clássico: trepado em uma carroça desgovernada prestes a atravessar uma bifurcação, o Pica-Pau abre um zíper no veículo e o parte em dois para atravessar os dois caminhos, remontando-o novamente quando a estrada se une. Boa parte das cenas de ação da animação de Steven Spielberg se comporta de maneira análoga a essa gag surrealista.

Logo de partida é bom apresentar um fato: o filme trata de aventuras, e não necessariamente de personagens. Na trama, o repórter Tintin (voz de Jamie Bell) compra um modelo do navio Licorne e logo percebe que não é um objeto ordinário: dois homens surgem cobiçando-o. Dentro do Licorne, está um pergaminho com um poema misterioso, e na busca por respostas, Tintin e seu cão Milu conhecem o Capitão Haddock (Andy Serkis) e com ele enfrentam o ameaçador Ivan Ivanovitch Sakharine (Daniel Craig).

É verdade que dois personagens do roteiro ganham grande importância no fim, mas mesmo esse enfoque segue a proposta detetivesca da trama e desemboca em confronto. Seja em uma perseguição entre cão e gato ou em um duelo de navios e capitães em alto mar revolto, o diretor está sempre disposto a criar uma caótica sequência de ação se há a possibilidade, e normalmente os agentes que perseguem, são perseguidos e/ou se enfrentam saem e voltam ao centro da ação de formas inesperadas e francamente absurdas – como as metades da carroça do Pica-Pau.

Além de momentos espetaculosos, essa abordagem da ação por Spielberg fornece mais duas grandes qualidades ao filme. Uma delas é a mescla orgânica entre humor e tensão. A inacreditável perseguição em Bagghar é o exemplo perfeito: em um plano ininterrupto, Tintin, Haddock, Sakharine e seus capangas (inclusive um falcão) descem as ruas da cidade árabe para tomar posse de certos objetos, e não só surgem várias piadas no caminho, como a própria coreografia da sequência chega a disparates hilários e ao mesmo tempo embasbacantes.

O outro benefício é o papel “secundário” dos humanos. São poucos os momentos em que a excelência das técnicas de texturização e animação toma a frente com estardalhaço, como acontecia ocasionalmente em Avatar. Embora a pele, os cabelos e barbas sejam fotorrealistas, esta qualidade nunca se impõe como atração principal. Além disso, a estilização das proporções corporais e faciais de Tintin, Haddock e outros personagens cria um contraste interessante: a ilusão de realismo nunca faz falta, mas alcança um nível adequado para as formas mais ou menos icônicas adaptadas dos traços de Hergé.

Também interessante é como os roteiristas Steven Moffat, Edgar Wright e Joe Cornish amealham elementos de várias histórias do autor belga (as principais são O Caranguejo das Tenazes de Ouro, O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rackham, o Terrível), por vezes meras situações ou ambientações, para ressignificar personagens e construir uma história  única. Pode-se argumentar que esse tipo de apropriação é um sinal de reverência exacerbada à fonte, mas nota-se que Spielberg está sempre usando ferramentas cinematográficas: a cena de ação bem coreografada, o plano-sequência, encenação dramática, etc.

Enfim, mais do que uma defesa, é importante fazer uma análise da “bunda-molice” do diretor, que tantos vêm apontando em seus filmes. Aqui, após uma morte encenada com pronunciada dramaticidade, um sem-número de capangas tem de ser vencido para que a trama prossiga, e Spielberg nunca falha em mostrar que eles sobrevivem. Esta busca quase paranoica por mostrar a não-morte é mais que um contraste com o assassinato visto no início da trama, mas também uma bem-vinda delimitação: a questão da morte, mais delicada em animações, acabaria roubando atenção para si.

Até mesmo a perfeição da computação gráfica e, em menor grau, da captura de movimentos (que, vez ou outra, emperra) são secundários, indicando que toda a atenção precisava estar voltada ao elemento principal do filme: a aventura. As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne tem um título expressivo e honesto. E isto é um grande elogio, já que um filme menos consciente poderia ter se chamado Técnicas Modernas de Animação: Um Estudo Em Hergé.

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