A Guerra Está Declarada

janeiro 10, 2012

por Pedro Costa de Biasi

 

Alguns filmes não mostram sua relevância através de arroubos técnicos, narrativos ou mercadológicos. No caso de A Guerra Está Declarada, de Valerié Donzelli, bastou uma singela decisão estética. A bandeira de “importante” não está em quantos cineastas repetirão ou adaptarão essa rica proposta – e é pouco provável que isto aconteça –, mas sim nos próprios méritos da obra. Não é uma bandeira, em outras palavras, e sim bom cinema.

A questão é o tratamento do tema: o casal Roméo (Jérémie Elkaïm) e Juliette (papel de Donzelli) começa a observar sintomas estranhos em seu filho Adam, e descobrem que ele tem um tumor no cérebro. O roteiro (escrito por Donzelli e Elkaïm) trata do núcleo familiar – a relação do casal, os vômitos de Adam, as preocupações paternas e maternas – e acompanha as consequências da doença, e se basta nessa singela premissa.

Quanto à abordagem dos roteiristas, também não há grande complexidade. Boa parte das escolhas peculiares pode ser incluída em uma tendência irreverente. No início, parecem apenas gags para quebrar o clima austero que acompanha os primeiros problemas e consultas médicas do filho. São momentos como a revelação dos nomes dos protagonistas, aquele em que a pediatra vai fazer uma ligação e pega o telefone de brinquedo por engano ou outro em que o bebê aparece risonho, coberto de seu próprio vômito.

Uma mudança radical se dá quando o tumor no cérebro de Adam é confirmado. Juliette descobre e prontamente liga para Roméo, para os pais do homem e para seus próprios – ela indo e vindo entre as pilastras do hospital, os outros em lugares diferentes, andando com algum colega ou parente. Se no início, com os urros de Roméo, parece que é apenas uma dramatização comum, logo a montagem acumulará reações (surtos de fúria no meio da rua, gente se jogando no chão em desespero) que acabam soando assombrosamente ridículas.

Como se a possível ambiguidade dessa passagem não bastasse, em pouco tempo os parentes de Adam se dirigem ao hospital em que está Juliette, e uma canção sobre o amor de Roméo e Juliette, entoada pelos pombinhos – com direito a planos complementares, ele à direita, ela à esquerda, se não me engano – acaba com qualquer dúvida sobre a irreverência de Donzelli. Até detalhes curiosos e furtivos, como o rebolado do amigo de Roméo quando este corre para ir de encontro à família, sinalizam o tom ambivalente.

Daí em diante, a desconcertante propensão cômica manter-se-á em uma série de momentos cômicos – um close rápido no rosto do médico que tratará de Adam, um conselho de Roméo a Juliette que ele em seguida ignora, um diálogo de humor negro sobre os problemas que o filho pode desenvolver durante o crescimento. São ferramentas clássicas da ironia colocadas em favor de uma história que parece quase incompatível com esse tratamento.

O genial de Donzelli e Elkaïm é expor o ridículo sem passar pelo positivismo sorumbático que marca os personagens que enfrentam o câncer. Muitas cenas são abertamente escrachadas, sem uma camada triste subjacente na trilha sonora ou nas atuações. Quando Juliette afirma que cuidar do filho está sendo uma maratona, a cineasta assume esse mesmo ridículo e filma o casal correndo em um parque. É uma subversão poderosa dos ditames do drama, seja no tocante ao tom da mise-en-scène (no caso da metáfora óbvia e do título do filme, citado ironicamente num instante bastante nonsense) ou aos pressupostos estéticos do “bom gosto”.

Igualmente, quando Roméo beija uma outra mulher em uma festa, o impacto na relação inexiste, ao menos dentro do quadro e da montagem final. Os problemas do casal se esgueiram sutilmente (ela reage mal a uma troça dele, feita de forma similar à de uma amiga dela ao saber do câncer de Adam), e muito do que se passa na vida a dois fica sugerido ou suposto. E, justamente, sua história de amor se constrói na base da sugestão, pois, até mesmo na amenidade da primeira parte do filme, o enfoque do roteiro está na doença do menino.

Curiosamente, os momentos mais austeros se dão durante as consultas médicas, incluindo aí a bela cena em que a pediatra começa a atentar para o rosto de Adam. Fica claro que a intenção não é simplesmente subverter e ironizar para demolir certas tradições dramáticas, e sim mostrar como certos assuntos podem ser tratados de forma madura. Essa maturidade também está presente nos “papéis” dos pais, já que o pai tem momentos “de mãe” e vice-versa, e, por que não?, na cena inicial, que mostra Adam vivo e saudável aos 8 anos de idade.

Não se trata de um filme puramente permissivo, orgulhoso de suas subversões, e sim de um tratado de maturidade não só dos personagens ao encarar um caso clínico gravíssimo, mas também dos realizadores (e é curioso que, nesta categoria, entrem os atores principais) ao contornar alternativas dramáticas já há muito pacificadas e aceitas. A Guerra Está Declarada.

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