Tudo Pelo Poder

dezembro 21, 2011

por Pedro Costa de Biasi

 

Durante o início de Tudo Pelo Poder, que estreia nesta sexta-feira, o diretor George Clooney adota um tom impessoal. StephenMeyers (Ryan Gosling) é o administrador-júnior da campanha do democrata Mike Morris (Clooney), pré-candidato à presidência dos Estados Unidos. O político disputa a preferência do Partido Democrata, Ted Pullman (Michael Mantell), cujacampanha Tom Duffy (Paul Giamatti) administra. Os republicanos, diz-se, estãodesorganizados e não estão no páreo, então a briga é pela representação democrata.

A atmosfera dura dos bastidoresda concorrência perdura até o momento em que Duffy chama Stephen para umaconversa, convidando-o para trabalhar com Pullman. Stephen diz que não está comMorris porque quer fazê-lo ganhar, mas porque acredita no político, e maistarde relata o encontro ao administrador-sênior de Morris, Paul Zara (PhillipSeymour Hoffman). Ao mesmo tempo, começa a se envolver com uma estagiária dotrabalho: Molly Stearns (Evan Rachel Wood), filha do diretor do Comitê Nacionaldos Democratas.

Os roteiristas (Clooney, GrantHeslov e Beau Willimon, autor da peça FarragutNorth, na qual o filme se baseia) vão colocando essas peças em determinadas posições, mantendo o protagonista alheio a esses movimentos. O diretorapresenta esses elementos com expressividade pontual. A primeira cena apresentaStephen como se fosse um discursador, mas, em seguida, um plano preciso naaltura do chão revela não só um técnico que testa o equipamento, mas também anatureza ensaiada e minuciosamente construída do discurso.

Outras escolhas eficientes deClooney são os planos fechados no rosto dos atores, os enquadramentos quedividem Stephen em reflexos vítreos, a separação dos escritórios dos empregadosde Morris (através do som ou da câmera) e os diálogos. Em vez da edição maiscorriqueira, que permite leves invasões do quadro pela fala do interlocutor, ocampo-contracampo é realizado de forma firme, brusca, veloz. É um exemplo de comoo cineasta valoriza a atuação e o texto, e busca fazê-lo com uma estéticasutil, mas expressiva.

Por vezes essa proposta leva aresoluções constrangedoras, vide o encontro de Molly com um Stephen ocultopelas sombras. O questionável uso da trilha sonora – muito mais pronunciado apartir do momento em que os dramas pessoais se tornam o centro da narrativa – écompreensível levando-se em conta as escolhas de Clooney, mas é um impasse: paraa adequação estética que o diretor busca a todo instante, a música só cabe ondese torna uma redundância. Alexandre Desplat ao menos oferece belas composições,dramatizando sem reservas os dramas e as tensões políticas.

Curiosamente, a primeira parte datrama tem semelhanças com MeraCoincidência, de Barry Levinson, por um viés mais cínico e menoscarnavalesco. As construções dementes para distrair a população dão lugar ao controledireto de elementos que passam apenas tangencialmente pelo povo – que apareceapenas em rápidas cenas de debates. A propaganda também é apenas mencionada,pois a alma do trabalho de Stephen, Paul e Tom é negociar o apoio público decertas figuras através de propostas escusas.

A maior diferença entre os dois filmes, no entanto, está nas ferramentas dos cineastas. Em vez de mostrar amanipulação através de um espetáculo extravagante, existe aqui uma tragédia muitobem delineada. Também se trata de colocar os elementos em determinadasposições, sem manifestar a função do arranjo – e, no caso, são poucas decisõesque levam a muitas consequências. É uma escolha muito sensível, já que asmaquinações, mote do filme, passam das pequenas politicagens aos conluios queafetam direta ou indiretamente a vida dos envolvidos na guerra eleitoral.

Gosling, que sempre suscita alguminteresse, encarna um papel trágico com excelente economia. Sua expressão dechoque em dois encontros específicos com Molly representa a ruína de suasidealizações com singeleza – e, como se tratam de momentos apoteóticos, essaqualidade tem muito mais valor. Também notáveis são os trabalhos de Wood, sinceraem todas as suas cenas, e Marisa Tomei, que interpreta uma jornalista decaráter ardiloso.

Um diálogo é bastante representativo como encenação: atrás do cenário nacionalista em que Morrisdiscursa, Stephen confessa a Paul que se encontrou com Tom Duffy. Uma imensabandeira dos Estados Unidos sangra o enquadramento, apequenando os intérpretes.Em vez de servir como denúncia de alguma hipocrisia, Clooney demonstra que osvalores americanos são de fato maiores que a(s) vida(s), apenas incluindo entreesses valores o idealismo – que, obviamente, nunca pode ser representado deforma ideal pela figura real de uma pessoa.

Como a lealdade – ou melhor, suapercepção pelos olhos alheios – é também fundamental em Tudo Pelo Poder, o filmedelata o desprezo pelo indivíduo, reificado para que ideais inalcançáveismantenham a aparente pureza. A acidez pode ser indireta, mas indica quequalquer virtude ideal está sujeita à má interpretação de quem tem o poder defazer decisões. O título original (“Idos de Março”) se refere ao dia 15 de março, data em que conspiradores assassinaram Júlio César. Essa comparação permite diferentes análises, boa parte delas referente à natureza traiçoeira doser humano.

A ponderação construída no final (aberto) é intrigante: mais pérfida é a pessoa que trai outra em favor de um ideal, ou vice-versa? Ou melhor, deve-se trair a pessoa ou o ideal? As respostas têm em comum a certeza de que colocar qualquer ideal em prática é sujeitá-lo à falibilidade humana.

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