Inquietos

novembro 24, 2011

por Pedro Costa de Biasi

 

Gus van Sant faz uma homenagem evidente a Ensina-me A Viver em seu novo longa, Inquietos, que estreia nesta sexta-feira. Seu protagonista temo mesmo hábito de visitar funerais de desconhecidos, apresenta idêntica escassezde cores no guarda-roupa e também se envolve com um espécime muito singular dosexo oposto. O casal é formado por Annabel Cotton (Mia Wasikowska), que está enfrentando um câncer terminal, eEnoch Brae (Henry Hopper), que conversa com o fantasma Hiroshi (Ryo Kase), um piloto kamikaze.

Existe algum desequilíbrio aí:enquanto Enoch tem seu passado gradualmente desvelado, Annabel revela suadoença relativamente cedo, e não oculta lembranças bombásticas. Na verdade,essa distinção se vincula ao desenvolvimento pretendido para os protagonistas. Seela está enfrentando a morte iminente e opta por tirar o máximo do presente,ele ainda vive envencilhado em traumas e receoso quanto ao futuro. Essavivência deslocada no tempo será importante na cena final, que mostra um vanSant muito mais consciente que aquele que inseriu flashbacks piegas em Milk – A Voz da Igualdade.

No entanto, o cineasta escancaramuito mais com a construção dos personagens – e, a bem da verdade, com quasetodas as outras escolhas do filme. O projeto estético é bastante reconhecível,pois emula uma porção de obras indievindas dos Estados Unidos. O inusitado é a regra (a paixão de Annabel por avesmarinhas, por exemplo, ou a conversa casual do casal com a lápide dos pais de Enoch), a moral é subvertida, o romance está manifesto em ações atípicas. E haverá traços de lápis ou giz em alguma cena.

Essas características estão presentes em obras de Miranda July, Jason Reitman, Marc Webb – marcas que podem ser resgatadas no longínquo Ensina-me AViver, de Hal Ashby, ou no mais recente O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet. É fato que vanSant opta por uma abordagem muito mais naturalista e singela, com a atençãovoltada menos a estilizações moderninhas do que aos afetos e à subversão decertas lógicas, mas a estética é tão perceptível que mesmo o texto carrega tonsindies. Trata-se, no caso, um eau de indie.

De qualquer forma, os quarentaanos que separam a obra de Ashby e Inquietos acabam permitindo umdiálogo interessante. Por que van Sant e o roteirista Jason Lew optaram por essasinspirações? É um bom ponto de partida para um estudo sobre as propostas desseprojeto. É fácil notar que, antes de seguir ou desconstruir a lógica do afeto, Lewtrata do afeto por trás da lógica.

A racionalidade de certas decisões e convicções é desenvolvida para evitar sofrimentos futuros, especialmenteo carpe diem velado que banha onamoro dos dois. A lógica tradicional, fria, quase inexiste (a discussão deEnoch com o médico mostra essa recusa de forma bem exagerada), pois a base dos indies é o pathos. São filmes “fofos”, “adoráveis” e “ousados” na linha de Pequena Miss Sunshine, tratamabertamente de temas densos e de desvios do comportamento tido como padrão – sejano universo fílmico ou extra-fílmico.

Personagens como Enoch e Annabel são moldados para não parecerem ficcionais, pois, extremos que sejam,  seus dramas são inteiramente mundanos. Do conflitoentre a certeza e o temor da morte, nasce uma atmosfera ensolarada de humor ehedonismo – em oposição ao melodrama “mainstream”,que trata situações singulares com seriedade. É a melhor ilustração do racionalismovoltado ao afeto. Ao mesmo tempo, esse tom confronta expectativas típicas para ofim da vida, e, assim, escancara o aspecto irracional e emocional da visão lúgubre.

Detalhes perfeitamente calculadoscomo o figurino (a transição quase imperceptível das roupas de Enoch do negro a algumas cores escuras), as metáforas (o pássaro que canta toda manhã por nãoter morrido após dormir) e as analogias (Hiroshi se aproxima de Enoch em váriosaspectos) fazem parte do caldo. A música típica dos indies, suave e potencialmente insossa (pense Belle &Sebastian), também marca presença aqui.

Não deixa de ser uma característica intrigante, já que muitas canções tratam de sentimentos banais,e podem dessa forma se relacionar com uma gama variada de ouvintes, mesmo queatravés da experiência alheia – no caso, do autor da letra. O mesmo pode serdito do cinema. Mesmo que sentimentos reais aflorem no espectador, é muito maisseguro e agradável passar por uma situação se ela é ficcional ou foi ficcionalizada:em ambos os casos, há distanciamento.

Esse procedimento é padrão no melodrama, mas o uso de músicas afetuosas lhe dá outra dimensão. Justamente poressa ficcionalização, a cena em que o casal ensaia a morte da jovem éinteressante – ainda mais porque a discussão e a revelação subsequentes colocamem xeque todo o prazer que há na vida dos dois. Ao se conciliarem, eles voltama um estado de coisas que, como qualquer outro, deixa certos fatos de lado.

São momentos como esse que tornamInquietosdigno das reações emocionais que pretende e é capaz de causar. No entanto,em boa parte do texto, discorri sobre o filme de Gus van Sant mesmo aomencionar aspectos abrangentes de vários indies. É uma obra interessante em suas particularidades, mas estranhamenteconfortável em uma lógica já bem divulgada.

 

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