A Árvore da Vida

agosto 11, 2011

por Pedro Costa de Biasi

Em um cinema como o de Terrence Malick, é sempre um prazer acompanhar o desenvolvimento de sua estética e de seus temas. Embora pareça muito diferente das obras anteriores do cineasta, A Árvore da Vida – vencedor da Palam de Ouro este ano em Cannes e que estreia nesta sexta, dia 12 –  tem muitos elementos reconhecíveis. Desde Terra de Ninguém Malick explora ainteração entre personagens e as regras que lhes são impostas, trabalha alinguagem cinematográfica com ações fragmentadas e averigua o anseio humano deviver uma utopia. Pois, antes que tudo, estamos nosreferindo a um cineasta utópico. Esse desejo, antes, podia ser atribuído aoconteúdo, às mentes dos personagens e, assim, não necessariamente formaria umdiscurso. Até por conta da finitude dessa vivência ideal, havia a possibilidade de distanciamento. No quinto longa, Malick apresenta uma mudança radical: agora a utopia é indissociavelmente narrativa e estética.

A Árvore da Vida é quase que inteiramente construído de forma utópica. Tendo início com a morte de um dos irmãos O’Brien, o filme acompanha o luto de seus pais (Brad Pitt e JessicaChastain) e a vida adulta do primogênito Jack (Sean Penn), agora um arquiteto distante da família. Quando ele vê uma árvore plantada entre os prédios comerciais, a narrativa se desloca para o momento em que o Universo se formou, acompanhando o desenvolvimento de galáxias e planetas, da Terra e suas formasde vida, alcançando o nascimento de Jack.

Daí em diante, a trama será predominantemente situada no calmo bairro suburbano onde os O’Brien vivem nos anos 50. A utopia está em partir de uma morte – um cessar de existir – para retomar o existir universal, absoluto. Através de perguntas narradas por Jack e pela Sra. O’Brien, Malick busca respostas nos primórdios, em uma arrebatadora ruptura narrativa. Mais importante, é uma procura ainda mais grandiosa que a de O Novo Mundo.

Enquanto a princesa Pocahontas acessava a Natureza e outros seres para responder suas questões, aqui as indagaçõe ssaltam para os limites da existência, nem mesmo se limitando ao impacto daperda. Em determinado momento, dizem à Sra. O’Brien que seu filho está, agora,nas mãos de Deus, ao que ela replica: “ele sempre esteve nas mãos Dele. Não?” Jack,já adulto, pede: “Irmão, guarde-nos, guie-nos.”

O momento da morte é aquele em que a ausência se faz sentir, pois desdiz uma presença que antes era dada como certa – seja a do irmão morto ou a do Deus que deixa o Mal acontecer. Ao testemunhar a morte de um garoto, o jovem Jack pergunta, em meio às preces rotineiras, por que deveria ser bom, se Ele não é. É o discurso do “caminho da natureza” do pai, que, individualista, busca o próprio bem a todo custo e assumeuma postura de dominância. A mãe, por outro lado, segue o “caminho da graça”,que aceita ofensas e se deixa ser ferida.

Ela ouviu esta dualidade das freiras, que ainda diziam que quem escolhe o caminho da graça nunca terminaráinfeliz. Mais do que com um plot,Malick se mostra atento a estas duas perspectivas, destituindo, assim, as cenas de uma dramaturgia (e principalmente de uma montagem) convencional em favor deexpor as distintas essências do Sr. e da Sra. O’Brien. No entanto, ambas atormentam Jack em seu crescimento. Ele não sabe se deve se impor ou atender aimposições, nem se a pureza é importante ou supérflua. Outro dado essencial são asimagens que surgem durante certas narrações em off. A principal delas é muito vaga, assemelhando-se ora a uma chama, ora a paredes iluminadas de uma caverna, ora a reflexos na água.

O cineasta se dedica a questionamentos tão fundamentais que a própria divisibilidadeem categorias ou elementos reconhecíveis se perde. São questões sobre o tudoque se sabe (Malick procurou estudiosos para representar a formação doUniverso) e ainda sobre o que é incerto. Por isso, a sequência de eventos cósmicos e terrestres – algumas das mais belas imagens que já vi em um cinema –sempre encontra o que busca.

O não-reconhecimento do que se encontra e do que se procura tem a ver com o desejo de elevação espiritual, que Malick transmuta em contra-plongées ao céu aberto. Muito do filme se passa próximo ao chão, como Terra de Ninguém e Cinzas no Paraíso, mas são cenas de Jack, constantemente incerto sobre que caminhodeve ou pode tomar. Quando os referenciais humanos (os pais) se tornaminsuficientes, ou quando a crença no mundano se perde, as perguntas se dirigemalém, para o centro, para cima, para antes, para depois.

A esperança é um elemento pontual no cinema de Malick, presente na tomada final de Além da Linha Vermelha ou na revelação de O Novo Mundo. Neste, porém, a princesa recebe a iluminação de sobressalto,vinda da direção oposta àquela em que estava buscando. Aqui, os impassesmetafísicos são conciliados (não resolvidos) com a constatação do acaso.Eventos que definiram vidas (o ser aquático fugindo do perigo na praia, opredador poupando sua vítima, a água-viva marrom entre as brancas, o irmãofalecendo) se deram por vias erráticas, misteriosas.

Ao encontrarem o desejo de seguiradiante na certeza de que muito está fora de seu controle, os personagens estão realizando o salto de fé supremo. Estão se entregando, e entregando tudo que têm, a uma força superior que talvez seja o Deus ou outra coisa. Não basta encontrar um sentido casual, como Pocahontas: é necessário encontrar sentido noacaso, ou na ordem indevassável. O que pode soar trágico se torna milagroso: Malick acompanha as errâncias de personagens que poderiam facilmente cair na tragédia,mas que buscam a sublimação. Por isso o filme dificulta analogias internas (exemplo: o elevador do trabalho de Jack casualmente emula sonsde uma máquina que mede sinais vitais), e até mesmo as põe em crise. Afinal, as questões metafísicas levam à exploração científica do Universo e da Terra,identificando apenas uma regência inacessível.

A transcendência, então, se dá em vertentes menos empíricas que a do tempo, a do espaço e a da ciência Malick já tateou no caminho da transcendência no amor; transcender na aceitação do acaso, por outro lado, provavelmentediz respeito mais a mim que ao filme, pois tem a ver com minhas convicções. A Árvore da Vida dá acesso a uma utopia explosivamente narrativa que pode funcionar menos como um quebra-cabeças e mais como um espelho ao espectador.

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