Melancolia

agosto 4, 2011

por Pedro Costa de Biasi

Lars von Trier torna o quase lendário exercício da isenção ainda mais difícil. Durante o festival de Cannes, mais uma vez, o show-man virou para si os holofotes, alegando compreender Hitler em alguns aspectos e soltando piadas inadequadas ao lado de uma embaraçadíssima Kirsten Dunst. Batata: ele provavelmente triplicou a quantidade de veículos midiáticos interessados, diretamente ou não, em seu novo filme, Melancolia, que estreia nesta sexta, 5.

A questão é que ele não só se superou na parte extra-fílmica da publicidade. A produção é profundamente publicitária, e marca um salto até mesmo para um realizador famoso por fazer suas atrizes principais comerem o pão que o Diabo (o próprio von Trier?Ele regozijaria com a comparação) amassou. Após flertes com a divulgação negativa, como a “sala de insatisfações” de Dogville e o sumiço de Björk em Dançando no Escuro, a atenção do cineasta em Melancolia está integralmente voltada às expectativas geradas em torno de sua obra.

No prólogo, imagens em câmer alenta mostram as irmãs Justine (Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg) e os planetas Terra e Melancolia se aproximando. Na Parte I, Claire e seu marido ,John (Kiefer Sutherland) se irritam com Justine, pois eles organizaram seu casamento e ela parece desinteressada na cerimônia e no noivo Michael (AlexanderSkarsgård).

Na Parte II, Claire recebe o enfoque. John diz que Melancolia vai apenas passar perto da Terra, mas ela continua aterrorizada com o choque entre os planetas. Não é um fenômeno isolado, mas é muito representativo: logo de cara, vonTrier ostenta a obliteração da Terra, atingida pelo imenso Melancolia. Mais que uma carta de intenções do roteiro, resposta rápida aos que queriam saber como acabaria o filme apocalíptico de um cineasta de mão pesada, essa imagem diz muito sobre seusprocedimentos – assim como toda a sequência inicial, com sua estética impressionista.

Entre referências a pinturas, a metáforas do filme e a eventos que não serão mostrados novamente, as passagens cumprem a função de continuar as aventuras do dinamarquês com a câmera lenta e com o tratamento pesado dasimagens, muito notáveis em Anticristo. Aqui, o cunho publicitário chega ao ápice: realmente, parece que estamosassistindo a comerciais de vários perfumes. Também previsível é a mudança brusca para uma filmagem fragmentada edogmática e para arroubos de grosseria dos personagens, características dostrabalhos anteriores do cineasta. Justine é avessa a rituais consolidados, como o casamento e a hipocrisia, e escancara esta posição em atos e falas. A segunda parte mostra como Claire se dedica a cuidar da irmã deprimida, embora se apavore com a aproximação de Melancolia.

Em seus melhores momentos, o roteiro consegue se desassociar das preocupações gerais de von Trier. O modo como as irmãs lidam com a ameaça apocalíptica cria uma interessante dinâmica entre apego e desapego, como se pode ver na gradual inversão de cuidados entre Claire e Justine. Essa mudança desvencilha o fim do mundo de uma mera metáfora para o isolamento e a ruína individuais. Da mesma forma, ao construir um mito próprio (a gruta mágica), inocente e espontâneo, Justine se posiciona muito mais organicamente contra os rituais sobre os quais vomitou escárnio antes. No entanto, o enfoque frequentementereside na incerteza presente no filme anterior do cineasta. Ele insiste na tese de que as mulheres têm uma sensibilidade superior à dos homens, racionalistaspor excelência.

Novamente, o retrato pode ser interpretado como misógino ou não– para mim, Anticristo se encaixa na segunda opção –, pois mesmo que o sexo feminino seja palco constante para depressão e neuroses, a proximidade prévia de Melancolia – que alvoroça animais, também –pode ter gerado tais distúrbios. Além disso, von Trier parece interessado nas mulheres porque elas não se entregam a atos tão resolutos como os dos homens. Elas não são o objeto de interesse do diretor, e sim veículos para a visão que ele pretende exibir – no caso, do fim do mundo. E as duas impressões continuam cabíveis: o sexo feminino pode ser visto como prestativo e valioso para a proposta da trama ou odioso por conta dos horrores acessíveis e visíveis por conta de sua presença.

Enfim, o dinamarquês imprime em Melancolia todo o mau gosto para receber a atenção que busca e toda a ambiguidade para não ser prontamente amado ou repudiado como de costume. O filme se desdobra para amaciar a polêmica e atender às expectativas em torno de um cineasta essencialmente grosseiro.

 

 

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