X-Men: Primeira Classe

junho 3, 2011

por Pedro Costa de Biasi

Contar a origem de uma franquia sem rever toda a roupagem anterior é uma proposta interessante, mas cheia de armadilhas. X-Men: Primeira Classe – que estreia hoje – cai na principal delas, ou melhor, em um grilhão: o de criar um elo com os elementos dos filmes anteriores.

No início, Erik (Michael Fassbender) e Charles Xavier (James McAvoy) sequer se conhecem. O futuro Professor X se envolve fraternalmente com Raven/Mística (Jennifer Lawrence), ensinando-a a esconder sua mutação, enquanto aquele que se tornará Magneto cresce obcecado com o assassino de sua mãe, Sebastian Shaw (Kevin Bacon). Durante uma crise na Guerra Fria, os mutantes vão se encontrando e tentam conservar a união enquanto Shaw se coloca como uma ameaça muito maior do que se imaginava.

Embora os 131 minutos de duração pareçam adequados para retomar a história, na inexplicável obrigação de não deixar pontas soltas com os filmes anteriores os acontecimentos são apressados e degringolam. É algo similar ao que aconteceu em X-Men: O Confronto Final, embora a trama deste tenha seguido sempre para frente. A do filme de Matthew Vaughn, por sua vez, se esforça para alcançar um estado das coisas definido.

O que não fica claro é a razão de subjugar a narrativa à duração de um filme ao invés de dois. Na primeira parte, haveria chance e espaço para construir muito melhor as situações, e a segunda poderia fazer as ligações com a trilogia sem tanto desespero. Logo no início já fica claro que é preciso introduzir muitas coisas, tanto que a apresentação de personagens e conexões coincidem com o desenvolvimento avançado de certos aspectos da trama. Erik, ocasionalmente jogado em cenas passageiras, sofre muito no processo.

Fassbender faz um belo trabalho, portando alguma belicosidade até em momentos serenos – esta dualidade é o mote do personagem –, mas seu entrosamento no grupo de Xavier, seja conflituoso ou harmônico, se faz em passagens atabalhoadas. Ele é uma figura deslocada, distante demais para criar relações de qualquer tipo. Sendo ele um dos dois pólos fundamentais dos X-Men no cinema, falta-lhe presença e construção dramatúrgica.

Este é um desserviço à já perigosa proposta da produção. Ao tentar contar um início satisfatório em um único longa, Vaughn e outros três roteiristas abarrotam o miolo da história com cenas que deveriam sinalizar alguma transição, mas são na verdade intromissões de uma situação  já prevista dentro da que vige naquele estágio da narrativa. Na prática, X-Men: Primeira Classe passa boa parte do tempo sem uma motivação própria.

Ao menos o clímax ganha com a pressa de antes, e se compõe com bastante precisão e cadência.  A sequência é uma generosa set-piece que ainda tem um sentido intranarrativo ao estabelecer tensões e conflitos pontuais. Mesmo as mudanças mais bruscas têm um terreno propício, menos açoitado pela progressão vertiginosa da trama. Mas não se enganar: os personagens não são  profundamente desenvolvidos nem nessa meia hora final. Há apenas um equilíbrio entre a integridade do filme e o desenvolvimento de situações e estados que explicam os pormenores consagrados no cinema.

Outra escolha sensata foi manter a mentalidade de Erik coerente e não submeter  seus ideais ao maniqueísmo. As raízes de sua personalidade carregam alguma ambiguidade, seguindo a bela relação raiva/serenidade que Xavier vê nele. É também uma amostra de que, quando a progressão narrativa não é um empecilho, belos momentos vêm à tona – e, apesar da irregularidade, o diretor e os roteiristas merecem elogios por tais ilhas de sensibilidade. Há uma porção delas, mas a enxurrada do ritmo os arrasta e afoga.

Vaughn também manipula – ou, para ser mais brando, manuseia –a dramaticidade das cenas com eficiência. Ele tem olho para o grandioso, permitindo arroubos na trilha sonora quando o espetáculo consegue se cruzar com o ápice de situações e personagens. Vale também apontar que a produção é esmerada, contando com com efeitos visuais via de regra eficientes e uma direção de arte criativa, menos reverente à reprodução de época que o de costume.

Costumeiro trapalhão, o editor Lee Smith mais uma vez erra no frenesi de acontecimentos simultâneos, mas monta bem o clímax. O problema do filme não é a vertigem da montagem, nem mesmo a dos sentidos (Vaughn filma bem), e sim a vertigem da narrativa. Não há nada mais típico no cinema de ação atual, e o prejuízo continua a se fazer sentir.

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