Estamos Juntos

junho 2, 2011

por Pedro Costa de Biasi

O paulistano frio, focado em seu trabalho, distante: Estamos Juntos pretende problematizar essa figura do lugar-comum. Não em um nível externo, mas puramente interno, criando conflitos para alterar o ângulo pelo qual Carmem (Leandra Leal) pode ser observada.

Vinda de uma cidade do interior do Rio de Janeiro, ela está se empenhando em sua carreira de médica. Desacostumada a sair e encontrar pessoas, negando até a companhia do amigo gay Murilo (Cauã Reymond), ela vive para seu trabalho. A pessoa que mais vê é o homem com quem mora (Lee Taylor). Apesar de resistir, ela começa a viver mudanças: o envolvimento com Juan (Nazareno Casero), o trabalho voluntário em uma comunidade de Sem-Teto e um mal-estar cada vez mais frequente que a faz suspeitar de uma doença séria.

Como dito, o interesse do diretor Toni Venturi não é propor uma reflexão sobre a insensibilidade paulistana ou com a natureza desse estereótipo. A razão das rupturas que atingem Carmem é de ordem causal e dramatúrgica. E, por mais que haja doses de pieguice ao largo dessa dramaturgia, muitas das boas escolhas de Venturi e do roteirista Hilton Lacerda também se constroem na mais básica interação entre os atores.

Há naturalidade dos diálogos e nas cenas, uma qualidade da encenação que cineastas brasileiros frequentemente erram. Sem os gaguejos de uma espontaneidade forçada e sem a entoação mecânica das falas, mas também longe de comprometer o entendimento, o contato entre os personagens ganha firmeza por soar tão verdadeiro. Até mesmo em instantes menos singelos, como a briga de Carmem com Murilo e a discussão com Juan, Reymond e Casero passam a franca insegurança da surpresa.

Venturi é menos feliz em sua proposta visual. Esbarrando em recursos pobres de instabilidade imagética, como planos-detalhe movimentados e irregularidades no foco, ele é vítima dos mesmos vícios do “Cinema-visceral” que atrapalharam Feliz Natal, embora, felizmente, não tenha cometido tamanhos excessos. A variação dessa filmagem derivativa para tomadas mais clássicas, algumas bem elegantes, chama a atenção.

Isto porque , desde o começo mas com intensidade crescente ao longo da projeção, sua falta de enfoque vai se escancarando. Os temas não se somam a um todo, e criam uma justaposição irregular de discursos políticos, sociais, culturais e até mesmo estéticos. O movimento dos Sem-Teto é apenas uma das atividades de Carmem, e se mistura com outras partículas de rotina como as conversas misteriosas com o personagem de Taylor e os encontros com Juan. A trama é sobre abertura afetiva, relações domésticas, tensões sociais e estereótipos sociais.

O único eixo é a protagonista, e chega a ser tocante a honestidade de admitir que todas essas ideias e intenções foram acopladas para produzir uma existência plural. Não digo que as questões sócio-culturais foram escolhidas de modo aleatório, pois algum interesse Lacerda e Venturi nutriam por elas. Porém, a construção de uma vida tão natural em sua disparidade envigora o retrato de Carmem.

O final acaba fragilizado, já que a proposta de manter a problematização no nível narrativo encontra óbvias inconsistências no momento de tecer as soluções dramatúrgicas. São saídas pobres, ainda mais no caso de dúvidas que podiam permanecer em aberto. Adicionar mais uma camada (distinta, inerente e própria) à vida de Carmem é uma opção natural, mas não se compara à possibilidade de deixar a dúvida sobre como se compõe a personagem.

Por conta desse gostinho de surpresa, como resposta à fala da protagonista (“Tudo anda tão sem surpresa”), Estamos Juntos acaba resvalando na banalidade que impregna a filmagem de Venturi. Felizmente, a narrativa e a encenação têm tanta vivacidade e tanta desordem que confeccionam uma experiência mundana muito gratificante.

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Uma resposta to “Estamos Juntos”

  1. Lia said

    filme depressivo, aff maria! não indico!

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