Entrevista: Jim Carrey

junho 27, 2011

por Janaina Pereira
 
 
Um dos atores mais populares das últimas décadas, Jim Carrey está pela primeira vez no Brasil, para o lançamento de Os Pinguins do Papai, de Mark Waters, seu mais recente filme que estreia nesta sexta, 1 de julho. Carrey chegou ao Rio de Janeiro no último sábado à noite, passou a tarde de domingo no Cristo Redentor e hoje teve seu primeiro contato com a imprensa brasileira, após almoçar com o ator Rodrigo Santoro – com quem filmou, em 2009, I love you Philip Morris. O astro americano fica no País até quarta – amanhã ele participa de uma premiere de Os Pinguins do Papai, também no Rio, apenas para convidados.
 
Os jornalistas brasileiros viram o filme em sessão especial na manhã desta segunda, chuvosa e surpreendentemente fria no Rio. Em Os Pinguins do Papai, Carrey é o Sr. Popper, um comprador de imóveis que recebe de herança do pai seis pinguins e tem sua vida modificada a partir disso. Sem grandes pretensões e aproveitando toda a fofura dos pinguins, o filme traz aquilo que se espera de Carrey: o ator faz piadinhas sem maiores riscos e não sai do confortável status de comediante de sucesso. 
 
Após a exibição do longa, os jornalistas participaram de uma coletiva de imprensa com Jim Carrey em carne, osso e caretas. Sempre com um sorriso no rosto, o ator mostrou que nunca sai do personagem: fez piadas, brincou com os jornalistas, apresentou seu vasto repertório de caretas e entrou para o time de fãs do Rio – como todos os outros artistas que estão passando pela Cidade Maravilhosa para lançar seus filmes, Carrey também rasgou elogios à cidade.
 
“Quando eu estava no colégio fiz uma maquete sobre o Rio, então foi muito interessante ontem ir ao Cristo Redentor e ver a cidade daquele ângulo. Foi legal ver que o Rio é bonito mesmo.”
 
 
Questionado sobre a diferença entre fazer comédias e filmes como Brilho Eterno de uma mente sem lembrança ou O Show de Truman (disparado os dois melhores filmes de sua carreira, que revelaram um Carrey muito mais talentoso quando bem dirigido), o ator disse que seu interesse é pela atuação, seja de que gênero for.
 
“Quero fazer coisas que as pessoas reconheçam; podem me inserir em qualquer categoria, pois o que me interessa é mesmo a interpretação”, comentou, acrescentando que o roteiro de Brilho Eterno, sobre pessoas que querem esquecer suas lembranças, é universal, e ele não poderia deixar de fazer o filme.
 
Carrey falou ainda da experiência em gravar com pinguins de verdade e contou ter sido bicado por eles em diversos momentos. “Passei a colocar sardinhas nos bolsos para atraí-los e mantê-los por perto, e também fazia questão de alimentá-los, o que me custou algumas bicadas, pois eles não sabiam a diferença entre os peixes e os meus dedos”, revelou, sempre em tom de brincadeira.
 
Para o ator, no entanto, o mais difícil não foi atuar como os pinguins de verdade, mas com os pinguins mecânicos, pela abstração que isso exige. “É difícil representar olhando para o vazio, imaginando que naquele X no chão deveria haver alguém ou alguma coisa”, informou.
 
 
Quando uma jornalista perguntou sobre suas famosas caras e bocas nos filmes, Carrey  explicou que elas nasceram durante os castigos que os seus pais lhe impunham, quando era criança. “Eu ficava trancado no quarto, escrevendo piadas e me olhando no espelho, fazendo caretas e tentando descobrir as diferentes pessoas que existiam em mim. Isso, certamente, me tornou mais criativo.”
 
No final da coletiva, Jim Carrey surpreendeu e saiu completamente do personagem engraçado que parece viver dentro e fora das telas: o ator se aproximou dos jornalistas, cumprimentou um a um, e posou para fotos, sempre sorrindo, mostrando que por trás de personagens caricatos como o Máskara e Ace Ventura existe um cara gente boa pacas.
 
 
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X-Men: Primeira Classe

junho 3, 2011

por Pedro Costa de Biasi

Contar a origem de uma franquia sem rever toda a roupagem anterior é uma proposta interessante, mas cheia de armadilhas. X-Men: Primeira Classe – que estreia hoje – cai na principal delas, ou melhor, em um grilhão: o de criar um elo com os elementos dos filmes anteriores.

No início, Erik (Michael Fassbender) e Charles Xavier (James McAvoy) sequer se conhecem. O futuro Professor X se envolve fraternalmente com Raven/Mística (Jennifer Lawrence), ensinando-a a esconder sua mutação, enquanto aquele que se tornará Magneto cresce obcecado com o assassino de sua mãe, Sebastian Shaw (Kevin Bacon). Durante uma crise na Guerra Fria, os mutantes vão se encontrando e tentam conservar a união enquanto Shaw se coloca como uma ameaça muito maior do que se imaginava.

Embora os 131 minutos de duração pareçam adequados para retomar a história, na inexplicável obrigação de não deixar pontas soltas com os filmes anteriores os acontecimentos são apressados e degringolam. É algo similar ao que aconteceu em X-Men: O Confronto Final, embora a trama deste tenha seguido sempre para frente. A do filme de Matthew Vaughn, por sua vez, se esforça para alcançar um estado das coisas definido.

O que não fica claro é a razão de subjugar a narrativa à duração de um filme ao invés de dois. Na primeira parte, haveria chance e espaço para construir muito melhor as situações, e a segunda poderia fazer as ligações com a trilogia sem tanto desespero. Logo no início já fica claro que é preciso introduzir muitas coisas, tanto que a apresentação de personagens e conexões coincidem com o desenvolvimento avançado de certos aspectos da trama. Erik, ocasionalmente jogado em cenas passageiras, sofre muito no processo.

Fassbender faz um belo trabalho, portando alguma belicosidade até em momentos serenos – esta dualidade é o mote do personagem –, mas seu entrosamento no grupo de Xavier, seja conflituoso ou harmônico, se faz em passagens atabalhoadas. Ele é uma figura deslocada, distante demais para criar relações de qualquer tipo. Sendo ele um dos dois pólos fundamentais dos X-Men no cinema, falta-lhe presença e construção dramatúrgica.

Este é um desserviço à já perigosa proposta da produção. Ao tentar contar um início satisfatório em um único longa, Vaughn e outros três roteiristas abarrotam o miolo da história com cenas que deveriam sinalizar alguma transição, mas são na verdade intromissões de uma situação  já prevista dentro da que vige naquele estágio da narrativa. Na prática, X-Men: Primeira Classe passa boa parte do tempo sem uma motivação própria.

Ao menos o clímax ganha com a pressa de antes, e se compõe com bastante precisão e cadência.  A sequência é uma generosa set-piece que ainda tem um sentido intranarrativo ao estabelecer tensões e conflitos pontuais. Mesmo as mudanças mais bruscas têm um terreno propício, menos açoitado pela progressão vertiginosa da trama. Mas não se enganar: os personagens não são  profundamente desenvolvidos nem nessa meia hora final. Há apenas um equilíbrio entre a integridade do filme e o desenvolvimento de situações e estados que explicam os pormenores consagrados no cinema.

Outra escolha sensata foi manter a mentalidade de Erik coerente e não submeter  seus ideais ao maniqueísmo. As raízes de sua personalidade carregam alguma ambiguidade, seguindo a bela relação raiva/serenidade que Xavier vê nele. É também uma amostra de que, quando a progressão narrativa não é um empecilho, belos momentos vêm à tona – e, apesar da irregularidade, o diretor e os roteiristas merecem elogios por tais ilhas de sensibilidade. Há uma porção delas, mas a enxurrada do ritmo os arrasta e afoga.

Vaughn também manipula – ou, para ser mais brando, manuseia –a dramaticidade das cenas com eficiência. Ele tem olho para o grandioso, permitindo arroubos na trilha sonora quando o espetáculo consegue se cruzar com o ápice de situações e personagens. Vale também apontar que a produção é esmerada, contando com com efeitos visuais via de regra eficientes e uma direção de arte criativa, menos reverente à reprodução de época que o de costume.

Costumeiro trapalhão, o editor Lee Smith mais uma vez erra no frenesi de acontecimentos simultâneos, mas monta bem o clímax. O problema do filme não é a vertigem da montagem, nem mesmo a dos sentidos (Vaughn filma bem), e sim a vertigem da narrativa. Não há nada mais típico no cinema de ação atual, e o prejuízo continua a se fazer sentir.

Estamos Juntos

junho 2, 2011

por Pedro Costa de Biasi

O paulistano frio, focado em seu trabalho, distante: Estamos Juntos pretende problematizar essa figura do lugar-comum. Não em um nível externo, mas puramente interno, criando conflitos para alterar o ângulo pelo qual Carmem (Leandra Leal) pode ser observada.

Vinda de uma cidade do interior do Rio de Janeiro, ela está se empenhando em sua carreira de médica. Desacostumada a sair e encontrar pessoas, negando até a companhia do amigo gay Murilo (Cauã Reymond), ela vive para seu trabalho. A pessoa que mais vê é o homem com quem mora (Lee Taylor). Apesar de resistir, ela começa a viver mudanças: o envolvimento com Juan (Nazareno Casero), o trabalho voluntário em uma comunidade de Sem-Teto e um mal-estar cada vez mais frequente que a faz suspeitar de uma doença séria.

Como dito, o interesse do diretor Toni Venturi não é propor uma reflexão sobre a insensibilidade paulistana ou com a natureza desse estereótipo. A razão das rupturas que atingem Carmem é de ordem causal e dramatúrgica. E, por mais que haja doses de pieguice ao largo dessa dramaturgia, muitas das boas escolhas de Venturi e do roteirista Hilton Lacerda também se constroem na mais básica interação entre os atores.

Há naturalidade dos diálogos e nas cenas, uma qualidade da encenação que cineastas brasileiros frequentemente erram. Sem os gaguejos de uma espontaneidade forçada e sem a entoação mecânica das falas, mas também longe de comprometer o entendimento, o contato entre os personagens ganha firmeza por soar tão verdadeiro. Até mesmo em instantes menos singelos, como a briga de Carmem com Murilo e a discussão com Juan, Reymond e Casero passam a franca insegurança da surpresa.

Venturi é menos feliz em sua proposta visual. Esbarrando em recursos pobres de instabilidade imagética, como planos-detalhe movimentados e irregularidades no foco, ele é vítima dos mesmos vícios do “Cinema-visceral” que atrapalharam Feliz Natal, embora, felizmente, não tenha cometido tamanhos excessos. A variação dessa filmagem derivativa para tomadas mais clássicas, algumas bem elegantes, chama a atenção.

Isto porque , desde o começo mas com intensidade crescente ao longo da projeção, sua falta de enfoque vai se escancarando. Os temas não se somam a um todo, e criam uma justaposição irregular de discursos políticos, sociais, culturais e até mesmo estéticos. O movimento dos Sem-Teto é apenas uma das atividades de Carmem, e se mistura com outras partículas de rotina como as conversas misteriosas com o personagem de Taylor e os encontros com Juan. A trama é sobre abertura afetiva, relações domésticas, tensões sociais e estereótipos sociais.

O único eixo é a protagonista, e chega a ser tocante a honestidade de admitir que todas essas ideias e intenções foram acopladas para produzir uma existência plural. Não digo que as questões sócio-culturais foram escolhidas de modo aleatório, pois algum interesse Lacerda e Venturi nutriam por elas. Porém, a construção de uma vida tão natural em sua disparidade envigora o retrato de Carmem.

O final acaba fragilizado, já que a proposta de manter a problematização no nível narrativo encontra óbvias inconsistências no momento de tecer as soluções dramatúrgicas. São saídas pobres, ainda mais no caso de dúvidas que podiam permanecer em aberto. Adicionar mais uma camada (distinta, inerente e própria) à vida de Carmem é uma opção natural, mas não se compara à possibilidade de deixar a dúvida sobre como se compõe a personagem.

Por conta desse gostinho de surpresa, como resposta à fala da protagonista (“Tudo anda tão sem surpresa”), Estamos Juntos acaba resvalando na banalidade que impregna a filmagem de Venturi. Felizmente, a narrativa e a encenação têm tanta vivacidade e tanta desordem que confeccionam uma experiência mundana muito gratificante.