Jogo de Poder

março 17, 2011

por Pedro Costa de Biasi

Jogo de Poder está aí para mostrar, com riqueza de detalhes, os abissais engodos administrativos do governo Bush. Quais? Bem se sabe. WMDs-fantasma (a sigla denomina armas de destruição em massa em inglês), coalizões políticas e econômicas que colocariam o Iraque na lista de países perigosos e desgostos mal-explicados para com Saddam Houssein.

O roteiro remonta ao caso Plame, no qual Valerie Plame (Naomi Watts) foi publicamente exposta como agente da CIA. O escândalo teve início quando lhe foi proposto que seu marido, Joseph Wilson (Sean Penn) ajudasse a apontar negócios internacionais que permitiriam a construição de WMDs no Iraque. Quando ele informa que tal compra era impossível, a mídia expõe a identidade de Plame o casal começa a sofrer uma difamação maciça.

Esse não é apenas mais um caso de expiar erros do passado norte-americano. Se assim fosse, o diretor Doug Liman não cortaria da última cena para uma gravação da Plame real, com os créditos ao lado. Esta estratégia traz um comentário muito mais incisivo que sua displiscência aparenta, pois pressupõe conhecimento do fato e afirma que a informação não era o ponto principal do filme. O causo pode ser conhecido por outras mídias, assim como a verdade sobre as supostas WMDs.

A polêmica, hoje em dia, já alcançou os que se interessam pelo lado sujo da política do antigo presidente – e os desinteressados seguem não se importando, como a bilheteria do filme pode indicar. Outro fracasso de público, Zona Verde, criou uma admirável narrativa para chegar a conclusões similares, mas também com um enfoque específico. (A saber, a ignorância dos americanos sobre os conflitos internos do Iraque.)

Os interesses de Liman e dos roteiristas Jez e John-Henry Butterworth são outros. Mais clássicos. Assim, mais importante para a narrativa não é a enxurrada de  negócios excusos perpetrados pelas instituições dos Estados Unidos, e sim o efeito de todo o caos no seio da família de Valerie e Joseph. Não é à toa que os filhos, pequenos e alheios à crise dos pais, constantemente rasgam a tela com sua infantilidade. São pequenos pedaços de verdade em meio a um drama claramente dramatúrgico, e lembretes do que está em jogo.

Entre gritarias e silêncios, argumentos e analogias, o casal se envereda por diferentes conflitos de uma narrativa tradicional, realizados de maneira competente, respeitando o espaço de Plame para se resignar e o de Wilson para reagir. Watts reconhece a determinação da personagem mesmo enquanto se afasta da posição belicosa de Penn, sendo que diálogos típicos – mas graciosamente encenados – expõem as dúvidas que assolam os protagonistas em meio a tamanha provação.

Sua luta, porém, tem um sabor agradável. Esse é um bom filme para se entender a complexidade de uma questão política, e para se ouvir um sonoro “fuck you” proferido pelo lado que realmente importa. Em algumas cenas, o argumento basicamente vai para o ralo e a ofensa o substitui, mesmo quando é elipsada. Ou seja, temos uma variante mais abertamente politizada, mas tão desmiolada – e, por vezes, divertida – quanto o fim do mundo segundo Roland Emmerich.

No rastro da dramatização e de um incidental conteúdo informativo, resta a paixão política, que pode oferecer uma catarse perante a polêmica envolvendo o governo norte-americano. Perder a compostura na discussão, afinal, é deliciosamente coerente.

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