Cópia Fiel

março 16, 2011

por Pedro Costa de Biasi

Durante e após minha primeira sessão de Cópia Fiel, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2010, tive uma noção específica sobre o jogo de aparências confeccionado pelo cineasta Abbas Kiarostami. No entanto, entre os textos que li desde então, predominou a interpretação oposta, que não me ocorreu de forma natural.

Para explicar, não adiantaria tecer uma  sinopse. Esse não é um filme de trama, e sim um filme de ponto de virada. O passeio da protagonista sem nome, de agora em diante chamada de Ela (Juliette Binoche) e James Miller (William Shimell) sofre uma ruptura dentro de um café, quando a senhora que os atende trata os dois como marido e esposa. Daí em diante, de fato, é difícil saber se os dois abraçam o engodo e se tratam como um casal ficcional ou se são de fato casados e, até então, fingiam ser completos estranhos.

São duas linhas interpretativas distintas. Seriam excludentes? Nesse preciso corte da objetividade do tecido narrativo, uma posição central pode vir a ser a mais gratificante. É de onde se pode acompanhar as duas opções em sua bela simultaneidade, provida pelo formato cinematográfico que Kiarostami tão bem explora. Por outro lado, achei fascinante conhecer o espectro oposto de fora, ou seja, encontrar um campo analítico inteiramente novo.

Em tempo, eu mantive a primeira impressão: o momento em que a senhora do café trata Ela e James como um casal é revelatório nos moldes clássicos. Em outras palavras, ainda consigo ver o casamento como um dado objetivo do roteiro, em oposição à outra interpretação (mas não em seu detrimento), em que se revela uma possibilidade ficcional que é então explorada pelos personagens através de embates ideológicos e estéticos.

A cena do casal próximo à estátua aponta para o exclusivismo, pois logo que o enquadramento indica que os dois estão brigando, o homem se vira, procurando sinal para o celular – a discussão era com uma pessoa distante. Nesse caso, a mise-en-scène oculta um fato. O que dizer, então, do plano-sequência em que os protagonistas dirigem por ruelas da cidade? Os atores permanecem visíveis, mas o reflexo dos prédios e do céu no pára-brisa não só os cobre com suas cores e translucidez, mas também se impõe sobre a imobilidade do enquadramento.

O movimento e a vivacidade da paisagem refletida chamam a atenção, mas igualmente atraentes e movimentados são os rostos dos atores. A maior beleza dessa cena, que contém a ambiguidade narrativa marcante da obra, é oferecer os dois elementos a todo instante. A preferência pela atuação de Binoche e Shimell ou pelos reflexos é desimpedida. Há sempre a oportunidade de alternar o olhar entre todos os elementos cênicos.

Daí se desmonta o aparente descompasso da cena do casal perto da estátua. Por que indicar que há uma verdade que a encenação pode, por vezes, encobrir? Uma possível resposta se dá pela metonímia, como na tomada do carro: o espectador tem a chance de se aproximar de um mistério estético no filme, como que para desvendá-lo. Ignorar a outra resolução seria tolice, mas Kiarostami tampouco quer negar a escolha de validar uma das interpretações. James diz que não há simplicidade em ser simples, e a impressão da senhora do café é tão simples quanto desafiadora a todos os valores estéticos da obra.

É curioso que esse homem e essa mulher sejam parte fundamental de outra discussão, bem mais próxima, na relação dos protagonistas. De forma análoga à discussão sobre originalidade e autenticidade, há um centro afetivo nas referências a obras de arte. Enquanto a postura da estátua, que representa um homem protegendo uma mulher, diz algo  sobre o que Ela espera de James, entre as discussões teóricas, por sua vez, se infiltra o jogo da corte.

Afinal, a dinâmica da sedução se mantém ao longo do filme. Os dois estão se aproximando, e o que não fica claro é se isso está ocorrendo pela primeira vez ou se é uma réplica de um passado afetivo. O importante é aproveitar o dinamismo de um filme tão rico.

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