Não me abandone jamais

março 14, 2011

por Pedro Costa de Biasi

A narrativa norte-americana costuma incorrer em certos vícios, tão difundidos na cultura cinematográfica que afetam muito mais que superproduções. Comédias, dramas e filmes independentes, todos correm o risco de carregar algum defeito comum. Um bom exemplo é contar história demais em tempo de menos, tendência que Não Me Abandone Jamais (co-produção inglesa e americana que estreia nesta sexta, dia 18) evita.
 
Uma revelação importante é feita antes da metade da projeção, mas vale a pena deixá-la oculta. É melhor limitar a trama ao relacionamento de Tommy (Andrew Garfield), Ruth (Keira Knightley) e Kathy (Carey Mulligan) dentro do internato Hailsham. As tensões afetivas crescem junto com seus corpos, da infância à juventude, quando se veem às voltas com verdades que não estão prontos para enfrentar.
 
Antes de tudo, é importante atentar para a direção de Mark Romanek, que já se diferencia com cenas sólidas e bem montadas. O modo como lida com silêncios e diálogos é eficiente, criando o tempo certo e um arranjo cênico conciso para evitar a brevidade das passagens. Perto de produções semelhantes, a diferença não é gritante. Não é uma predisposição à contemplação, mas sim uma sutil sensibilidade ao pulso da cena.
 
A direção de atores é ótima e muito bem enquadrada. O hábito falador de Ruth reage na resignação de Kathy, e quando a primeira surge calada, a mudança se faz sentir. Knightley talvez pudesse economizar (faz muitas caras e bocas, mexe a cabeça demais), mas acaba se encaixando bem na personagem. A interiorização de Mulligan, por outro lado, empresta um ar quase autômato que mantém Kathy melancolicamente consciente do que ocorre ao redor – vide a cena na lanchonete.
 
Por fim, é Garfield que encarna todos os processos cênicos do filme. São dele os mais pronunciados silêncios, as mais reveladoras frases e a mais notável pontuação rítmica. Pois enquanto Ruth e Kathy percebem o fluxo dos anos mais por seus eventos e mudanças, Tommy faz vista grossa a quase tudo, tratando a relação dos três como uma constante alheia a tempo e distância. Ele inclusive se força a esconder alguns sinais, como as tosses no barco.
 
É através do ator que se apercebe a qualidade mais distinta do filme: a progressão temporal. Aí entram a economia do roteirista Alex Garland, que não sobrecarrega os diálogos nem acumula cenas, e o já citado tempo cênico de Romanek. Os anos são percebidos não pelo enfileiramento excessivo de momentos, mas por hiatos e omissões, em tudo que mudou e tudo que permaneceu intocado. Não é um processo sutil, como se pode comprovar na visita de Kathy a Ruth, mas ressalta uma decisão estética resoluta.
 
O final carrega engodos tolos, alguns compreensíveis como um apelo desesperado na voz frágil de Kathy. Ao longo do filme a música de Rachel Portman também se faz dolorosamente desnecessária, transformando bons (ou até ótimos) momentos em cenas-de-trailer, e a narração quase que só serve para lembrar que o roteiro é adaptado de um livro (homônimo, de Kazuo Ishiguro). São um tanto genéricos certos aspectos de Hailsham, que poderia ser representado com mais de estranheza. Porém, lá uma fala representativa vem de Ruth: “Por que inventariam histórias tão horríveis”?
 
É claro que a referência se expande das fábulas do internato e referencia a trama em si. A pergunta nunca é respondida de forma definitiva. O coletivo das várias respostas possíveis já leva à constatação de que é preciso conjeturar as piores ideias para entender a mente humana.

 

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