Animais Unidos Jamais Serão Vencidos

março 13, 2011

por Pedro Costa de Biasi

Para um filme que só poderia sobreviver por suas boas intenções, Animais Unidos Jamais Serão Vencidos – estreia nesta sexta, dia 18 – é muito mal-intencionado. Se o roteiro (claramente) escrito a quatro mãos se preocupa com o impacto do Homem na Natureza, o desdém pela construção narrativa e os recursos desonestos soterram a mensagem.

Todos os animais da trama estão sofrendo, seja por um vazamento de óleo no mar, pela falta de água causada por uma represa, pelo aquecimento global ou pelos hábitos alimentares das pessoas. Já e bastante coisa para um filme de uma hora e meia. Os personagens também não dão trégua: na savana sem água, temos uma família de suricatos, um leão, uma girafa, uma elefanta, um búfalo e um rinoceronte. Vindos de outros lugares, um casal de tartarugas, uma ursa polar, um coala, um canguru, um diabo-da-Tasmânia, um galo e um chimpanzé.

Há também humanos, mas poucos têm voz ou sequer importância. São desprezíveis. Suas naturezas são cristalinas, indo da frieza absoluta em relação aos animais, aspecto bem impersonado pelo caçador, até alguma sensibilidade ambiental. Este caso, porém, é único: a filha do magnata ignorante que construiu um luxuoso hotel “eco-sustentável”. Afinal, como ela bem aponta, a construção represou o rio que fornecia água para a savana.

Como se a vilanização não fosse o bastante, ainda há estereótipos de sobra. Não basta apontar o dedo e esfregar na cara. Precisa ofender. No estilo desconjuntado que infecta cada aspecto da animação, um homem obeso, em meio a um ataque de insetos, tem toda as suas roupas devoradas, mas vê que seu hambúrguer está inteiro e dá uma dentada alegre. Porque é um ser humano, é mesquinho e carnívoro, e porque é gordo, só se preocupa em comer.

Os mecanismos por vezes saem do exagero e entram no mais puro nonsense ideológico, como quando um chef se prepara sadicamente para matar o galo. Não funciona para o público adulto, que enxerga que os elementos da “discussão” ambiental não raro ultrapassam a barreira do ridículo. Como alegoria, aí sim poderia  haver alguma validade no discurso histérico da obra. Por outro lado, e explicando a inadequação ao público infantil, a confusão é completa.

Tradicional que é, a narrativa tem início com a apresentação dos personagens em incontáveis núcleos. Todos são jogados, aos trambolhões, para um grupo único, mas não sem antes causar considerável caos com encontros intermediários. Quando o roteiro consegue, a duras penas, unificar a trupe, são mais de dez animais para acompanhar – e, claro, eles se separam, chegam a lugares, alguns voltam, enquanto outros continuam lá, etc.

A proposta alegórica acaba esmigalhada, tamanha a incapacidade de concisão dos roteiristas. Ao invés de dizer muito com pouco, preferem o gastar pouco tempo e esforço em mensagens demais e na literalidade (o vazamento de óleo, a represa, a caça), que puxam a trama de volta para uma narratividade que já era, de início, uma catástrofe. O único destino possível é o nonsense, bem demonstrado na cena final, mas tão pesado que destrói a seriedade de qualquer libelo ambientalista.

Restando a parte técnica da animação e do 3D, cabem elogios à competência da equipe. Porém, como tudo aqui, é um esforço tão genuíno quanto fracassado, já que o desastre se infiltra por vários outras vias. O desespero do filme em bater a cabeça de frente com suas questões é proporcional à incapacidadede de ver os cupins que esfarelam sua estrutura.

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