Em um mundo melhor

março 11, 2011

por Pedro Costa de Biasi

Em termos de conteúdo, Em um Mundo Melhor – estreia hoje – tem todo o jeito de um filme de mensagem, no pejorativo. Entretanto, o vencedor do Oscar 2011 de melhor filme estrangeiro se mune de incertezas e omissões para tratar do impacto da violência na vida de seus personagens.

É um tema bastante conhecido de Anton (Mikael Persbrandt), que trabalha como médico em um campo de refugiados no Sudão. Na Dinamarca, seu filho Elias (Markus Rygaard) sofre com valentões na escola, até conhecer Christian (William Jønhk Nielsen), que o defende violentamente. Talvez até demais. Ainda perturbado pela morte da mãe, o garoto começa a preocupar seu pai (Ulrich Thomsen), a escola e até mesmo Elias com sua índole destrutiva.

Através de Anton, um tom professoral predomina no roteiro da diretora Susanne Bier e de Anders Thomas Jensen. A visão de mundo do homem, passada para as crianças como julga ser a obrigação de um bom pai, cobre boa parte das duas horas de projeção. Diálogo após diálogo e cena após cena, o pacifismo é a palavra de ordem, entoada com a devida calma de um homem certo de si e de como lidar com o mundo.

Em outras palavras, o moralismo comprime o escopo da narrativa para valorizar a lição antiviolência. Jensen e Bier se enveredam por personagens mais relevantes que Lars (Kim Bodnia), o valentão que arranja uma rusga com Anton, como Big Man e seus homens, que cometem inúmeras atrocidades contra civis no Sudão. Esse tom de seriedade dá o estofo necessário para um questionamento.

Por um lado, não se pode reconhecer um movimento de oposição ao libelo pacifista, pois ocorre de forma frágil. As forças e mecanismos que trabalham no vetor oposto estão em clara desvantagem. Dos três conflitos principais (o bullying que Elias sofre na escola, a briga com Lars e o terror de Big Man), apenas o primeiro derruba ativa, porém furtivamente o argumento do médico.

Por outro lado, entre tantas certezas declaradas, não era esperado que a diretora permitisse incertezas, nem mesmo em uma cena passageira. Algo similar ocorre com os outros dois conflitos, de forma ainda mais sutil. A conclusão de um deles é deixada ambígua pela tomada final, estranhamente positiva (aparente desleixo), enquanto o outro é deixado totalmente em aberto por encerrar um evento crucial da trama.

Se em momento algum vemos a problematização clara dos princípios de Anton e, por conseguinte, do filme, as omissões e fugidias negações latentes desestabilizam bastante o moralismo – quando, por exemplo, Christian é visto cumprimentando o garoto com quem brigou. As implicações dúbias do ato violento, por sua vez, já surgem relativizadas, evitando a inversão da mensagem para a revalidação da violência.

É uma hesitação perceptível, embora pouco destacada. Se o questionamento se apresenta assim para se contrapor às lições entoadas por Anton ou por timidez de reforçar a dúvida, é mais difícil afirmar. Partindo-se da bela interpretação de Persbrandt, em cujo rosto a placidez da experiência positiva e o da vivência negativa convivem, a primeira opção faz um pouco mais de sentido.

A verdade é que, como uma cartilha moralista com boas atuações, fotografia bonita e trilha sonora melodiosa, Em um Mundo Melhor funciona. Já para uma visão mais cínica, vale a pena atentar aos detalhes. Sem eles, seria fácil criticar uma obra que oferece mais do que discursos eloquentes.

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