Sem Limites

março 21, 2011

 

 

por Janaina Pereira

 

Alguns dos maiores galãs de Hollywood aprenderam, muito rapidamente, que a beleza é efêmera e existe uma necessidade de renovação eterna nos cinemas. Astros como Brad Pitt e Tom Cruise, além de atuarem, também produzem seus filmes. Outros como George Clooney e Ben Affleck preferiram ficar na frente e atrás das câmeras. Quem resolveu apostar em algo mais do que seu rostinho bonito é o galã da vez, Bradley Cooper. Ele é o protagonista e também o produtor de Sem Limites (Limitless), baseado no livro homônimo de Alan Glynn, e dirigido por Neil Burger (do ótimo O Ilusionista). O longa, que estreou em primeiro lugar nos EUA no último dia 18, chega ao Brasil nesta sexta, dia 25.

Cooper, conhecido por comédias (Se Beber, Não Case) e filmes de ação (Esquadrão Classe A), arrisca em terreno novo, o suspense. E se sai bem. O ator segura, com carisma e atuação convincente, boa parte da trama, até porque o veterano Robert De Niro e a novata Abbie Cornish (O Brilho de Uma Paixão), que também estão no elenco, são meros coadjuvantes.

O  roteiro assinado por Leslie Dixon (Thomas Crown – A Arte do Crime) mostra a vida ordinária de Edward ‘Eddie’ Morra (Cooper), um escritor que nunca emplacou um sucesso e acaba de levar um fora da namorada (Abbie Cornish). Por acaso ele encontra o ex-cunhado na rua, e este oferece a Eddie uma poderosa substância que lhe permite usar a capacidade total do seu cérebro.

Sem ter nada a perder, o escritor ingere a pílula milagrosa e vê sua vida se transformar, literalmente, em um piscar de olhos. Ele passa a ter a capacidade de armazenar qualquer fato com uma rapidez assustadora: de aprender uma língua em algumas horas a escrever um livro brilhantes em poucos dias. Eddie se torna um expert em números e informações, absorvendo todas as notícias e acontecimentos ao seu redor, mas claro que isso tem um preço.

Um misterioso magnata (De Niro) resolve apostar suas fichas em Eddie, transformando-o em seu aliado em um negócio que envolve algo além do que as aparências revelam. Eddie perceberá que ele não passa de uma peça numa engrenagem muito mais complexa e se vê envolvido em uma trama onde o dinheiro e o poder exercem particular fascínio.

O mais legal de Sem Limites é que o filme não julga, em momento algum, as atitudes de Eddie. Se ele está certo ou não, se a droga que ele usa é ilegal ou não, se as coisas que ele faz são justas ou não… nada disso importa. Eddie não é mocinho nem vilão, ele apenas quer aproveitar a melhor chance que já teve em sua vida. Essa ausência de julgamento torna a trama interessante, levando o espectador a acompanhar as peripécias do protagonista, ansioso para saber o final do filme. Mérito do roteiro e da boa direção de Neil Burger, que não perde o ritmo.

E mérito, claro, do lindo e loiro Bradley Cooper, que começa a trama totalmente esculachado e termina impecavelmente vestido, desfilando um figurino que só realça sua beleza singular. A trama é boa, o filme é maneiro, mas vamos combinar, só pelo Bradley Cooper já vale o ingresso. Pronto, falei.

Jogo de Poder

março 17, 2011

por Pedro Costa de Biasi

Jogo de Poder está aí para mostrar, com riqueza de detalhes, os abissais engodos administrativos do governo Bush. Quais? Bem se sabe. WMDs-fantasma (a sigla denomina armas de destruição em massa em inglês), coalizões políticas e econômicas que colocariam o Iraque na lista de países perigosos e desgostos mal-explicados para com Saddam Houssein.

O roteiro remonta ao caso Plame, no qual Valerie Plame (Naomi Watts) foi publicamente exposta como agente da CIA. O escândalo teve início quando lhe foi proposto que seu marido, Joseph Wilson (Sean Penn) ajudasse a apontar negócios internacionais que permitiriam a construição de WMDs no Iraque. Quando ele informa que tal compra era impossível, a mídia expõe a identidade de Plame o casal começa a sofrer uma difamação maciça.

Esse não é apenas mais um caso de expiar erros do passado norte-americano. Se assim fosse, o diretor Doug Liman não cortaria da última cena para uma gravação da Plame real, com os créditos ao lado. Esta estratégia traz um comentário muito mais incisivo que sua displiscência aparenta, pois pressupõe conhecimento do fato e afirma que a informação não era o ponto principal do filme. O causo pode ser conhecido por outras mídias, assim como a verdade sobre as supostas WMDs.

A polêmica, hoje em dia, já alcançou os que se interessam pelo lado sujo da política do antigo presidente – e os desinteressados seguem não se importando, como a bilheteria do filme pode indicar. Outro fracasso de público, Zona Verde, criou uma admirável narrativa para chegar a conclusões similares, mas também com um enfoque específico. (A saber, a ignorância dos americanos sobre os conflitos internos do Iraque.)

Os interesses de Liman e dos roteiristas Jez e John-Henry Butterworth são outros. Mais clássicos. Assim, mais importante para a narrativa não é a enxurrada de  negócios excusos perpetrados pelas instituições dos Estados Unidos, e sim o efeito de todo o caos no seio da família de Valerie e Joseph. Não é à toa que os filhos, pequenos e alheios à crise dos pais, constantemente rasgam a tela com sua infantilidade. São pequenos pedaços de verdade em meio a um drama claramente dramatúrgico, e lembretes do que está em jogo.

Entre gritarias e silêncios, argumentos e analogias, o casal se envereda por diferentes conflitos de uma narrativa tradicional, realizados de maneira competente, respeitando o espaço de Plame para se resignar e o de Wilson para reagir. Watts reconhece a determinação da personagem mesmo enquanto se afasta da posição belicosa de Penn, sendo que diálogos típicos – mas graciosamente encenados – expõem as dúvidas que assolam os protagonistas em meio a tamanha provação.

Sua luta, porém, tem um sabor agradável. Esse é um bom filme para se entender a complexidade de uma questão política, e para se ouvir um sonoro “fuck you” proferido pelo lado que realmente importa. Em algumas cenas, o argumento basicamente vai para o ralo e a ofensa o substitui, mesmo quando é elipsada. Ou seja, temos uma variante mais abertamente politizada, mas tão desmiolada – e, por vezes, divertida – quanto o fim do mundo segundo Roland Emmerich.

No rastro da dramatização e de um incidental conteúdo informativo, resta a paixão política, que pode oferecer uma catarse perante a polêmica envolvendo o governo norte-americano. Perder a compostura na discussão, afinal, é deliciosamente coerente.

Cópia Fiel

março 16, 2011

 

por Janaina Pereira

Sensacional. Esta é a palavra para descrever Cópia Fiel (Copie Conforme), de Abbas Kiarostami, que deu a Juliette Binoche o prêmio de melhor atriz em Cannes ano passado. O filme, que fez sucesso no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo de 2010, chega aos cinemas nesta sexta, dia 18, e já pode ser considerado um dos melhores deste ano.

O escritor inglês James Miller (o barítono William Shimell, em seu primeiro papel como ator), está lançando seu livro Copie Conforme (cópia certificada) na Itália. O livro discute o valor das reproduções de obras de arte. Afinal, o que é, de fato, original?

James aceita tomar um café com uma mulher (Juliette Binoche), que questiona seu livro. Ao longo de um dia eles se conhecem,
desentendem-se, e se perturbam mutuamente, sempre questionando o valor do que é orignal e do que é copiado. E, até o final daquele dia, suas vidas podem – ou não – se transformar.

Em um inteligente jogo de cenas e de palavras, com a câmera dando sucessivos closes nos rostos dos protagonistas para mostrar toda a angústia dos personagens, Cópia Fiel refaz todas as histórias de amor em uma só e ainda traz Juliette Binoche em atuação impecável, e com uma beleza ímpar.

Infelizmente se eu contar muito do filme vou estragar a grata surpresa que ele é. Mas posso dizer que poucas vezes um cineasta foi tão feliz ao narrar uma história sobre as dores do amor como Abbas Kiarostami faz neste longa. Vale a pena ver, rever e se surpreender com Cópia Fiel, uma obra-prima desde já.

Cópia Fiel

março 16, 2011

por Pedro Costa de Biasi

Durante e após minha primeira sessão de Cópia Fiel, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2010, tive uma noção específica sobre o jogo de aparências confeccionado pelo cineasta Abbas Kiarostami. No entanto, entre os textos que li desde então, predominou a interpretação oposta, que não me ocorreu de forma natural.

Para explicar, não adiantaria tecer uma  sinopse. Esse não é um filme de trama, e sim um filme de ponto de virada. O passeio da protagonista sem nome, de agora em diante chamada de Ela (Juliette Binoche) e James Miller (William Shimell) sofre uma ruptura dentro de um café, quando a senhora que os atende trata os dois como marido e esposa. Daí em diante, de fato, é difícil saber se os dois abraçam o engodo e se tratam como um casal ficcional ou se são de fato casados e, até então, fingiam ser completos estranhos.

São duas linhas interpretativas distintas. Seriam excludentes? Nesse preciso corte da objetividade do tecido narrativo, uma posição central pode vir a ser a mais gratificante. É de onde se pode acompanhar as duas opções em sua bela simultaneidade, provida pelo formato cinematográfico que Kiarostami tão bem explora. Por outro lado, achei fascinante conhecer o espectro oposto de fora, ou seja, encontrar um campo analítico inteiramente novo.

Em tempo, eu mantive a primeira impressão: o momento em que a senhora do café trata Ela e James como um casal é revelatório nos moldes clássicos. Em outras palavras, ainda consigo ver o casamento como um dado objetivo do roteiro, em oposição à outra interpretação (mas não em seu detrimento), em que se revela uma possibilidade ficcional que é então explorada pelos personagens através de embates ideológicos e estéticos.

A cena do casal próximo à estátua aponta para o exclusivismo, pois logo que o enquadramento indica que os dois estão brigando, o homem se vira, procurando sinal para o celular – a discussão era com uma pessoa distante. Nesse caso, a mise-en-scène oculta um fato. O que dizer, então, do plano-sequência em que os protagonistas dirigem por ruelas da cidade? Os atores permanecem visíveis, mas o reflexo dos prédios e do céu no pára-brisa não só os cobre com suas cores e translucidez, mas também se impõe sobre a imobilidade do enquadramento.

O movimento e a vivacidade da paisagem refletida chamam a atenção, mas igualmente atraentes e movimentados são os rostos dos atores. A maior beleza dessa cena, que contém a ambiguidade narrativa marcante da obra, é oferecer os dois elementos a todo instante. A preferência pela atuação de Binoche e Shimell ou pelos reflexos é desimpedida. Há sempre a oportunidade de alternar o olhar entre todos os elementos cênicos.

Daí se desmonta o aparente descompasso da cena do casal perto da estátua. Por que indicar que há uma verdade que a encenação pode, por vezes, encobrir? Uma possível resposta se dá pela metonímia, como na tomada do carro: o espectador tem a chance de se aproximar de um mistério estético no filme, como que para desvendá-lo. Ignorar a outra resolução seria tolice, mas Kiarostami tampouco quer negar a escolha de validar uma das interpretações. James diz que não há simplicidade em ser simples, e a impressão da senhora do café é tão simples quanto desafiadora a todos os valores estéticos da obra.

É curioso que esse homem e essa mulher sejam parte fundamental de outra discussão, bem mais próxima, na relação dos protagonistas. De forma análoga à discussão sobre originalidade e autenticidade, há um centro afetivo nas referências a obras de arte. Enquanto a postura da estátua, que representa um homem protegendo uma mulher, diz algo  sobre o que Ela espera de James, entre as discussões teóricas, por sua vez, se infiltra o jogo da corte.

Afinal, a dinâmica da sedução se mantém ao longo do filme. Os dois estão se aproximando, e o que não fica claro é se isso está ocorrendo pela primeira vez ou se é uma réplica de um passado afetivo. O importante é aproveitar o dinamismo de um filme tão rico.

Não me abandone jamais

março 14, 2011

por Pedro Costa de Biasi

A narrativa norte-americana costuma incorrer em certos vícios, tão difundidos na cultura cinematográfica que afetam muito mais que superproduções. Comédias, dramas e filmes independentes, todos correm o risco de carregar algum defeito comum. Um bom exemplo é contar história demais em tempo de menos, tendência que Não Me Abandone Jamais (co-produção inglesa e americana que estreia nesta sexta, dia 18) evita.
 
Uma revelação importante é feita antes da metade da projeção, mas vale a pena deixá-la oculta. É melhor limitar a trama ao relacionamento de Tommy (Andrew Garfield), Ruth (Keira Knightley) e Kathy (Carey Mulligan) dentro do internato Hailsham. As tensões afetivas crescem junto com seus corpos, da infância à juventude, quando se veem às voltas com verdades que não estão prontos para enfrentar.
 
Antes de tudo, é importante atentar para a direção de Mark Romanek, que já se diferencia com cenas sólidas e bem montadas. O modo como lida com silêncios e diálogos é eficiente, criando o tempo certo e um arranjo cênico conciso para evitar a brevidade das passagens. Perto de produções semelhantes, a diferença não é gritante. Não é uma predisposição à contemplação, mas sim uma sutil sensibilidade ao pulso da cena.
 
A direção de atores é ótima e muito bem enquadrada. O hábito falador de Ruth reage na resignação de Kathy, e quando a primeira surge calada, a mudança se faz sentir. Knightley talvez pudesse economizar (faz muitas caras e bocas, mexe a cabeça demais), mas acaba se encaixando bem na personagem. A interiorização de Mulligan, por outro lado, empresta um ar quase autômato que mantém Kathy melancolicamente consciente do que ocorre ao redor – vide a cena na lanchonete.
 
Por fim, é Garfield que encarna todos os processos cênicos do filme. São dele os mais pronunciados silêncios, as mais reveladoras frases e a mais notável pontuação rítmica. Pois enquanto Ruth e Kathy percebem o fluxo dos anos mais por seus eventos e mudanças, Tommy faz vista grossa a quase tudo, tratando a relação dos três como uma constante alheia a tempo e distância. Ele inclusive se força a esconder alguns sinais, como as tosses no barco.
 
É através do ator que se apercebe a qualidade mais distinta do filme: a progressão temporal. Aí entram a economia do roteirista Alex Garland, que não sobrecarrega os diálogos nem acumula cenas, e o já citado tempo cênico de Romanek. Os anos são percebidos não pelo enfileiramento excessivo de momentos, mas por hiatos e omissões, em tudo que mudou e tudo que permaneceu intocado. Não é um processo sutil, como se pode comprovar na visita de Kathy a Ruth, mas ressalta uma decisão estética resoluta.
 
O final carrega engodos tolos, alguns compreensíveis como um apelo desesperado na voz frágil de Kathy. Ao longo do filme a música de Rachel Portman também se faz dolorosamente desnecessária, transformando bons (ou até ótimos) momentos em cenas-de-trailer, e a narração quase que só serve para lembrar que o roteiro é adaptado de um livro (homônimo, de Kazuo Ishiguro). São um tanto genéricos certos aspectos de Hailsham, que poderia ser representado com mais de estranheza. Porém, lá uma fala representativa vem de Ruth: “Por que inventariam histórias tão horríveis”?
 
É claro que a referência se expande das fábulas do internato e referencia a trama em si. A pergunta nunca é respondida de forma definitiva. O coletivo das várias respostas possíveis já leva à constatação de que é preciso conjeturar as piores ideias para entender a mente humana.

 

por Pedro Costa de Biasi

Para um filme que só poderia sobreviver por suas boas intenções, Animais Unidos Jamais Serão Vencidos – estreia nesta sexta, dia 18 – é muito mal-intencionado. Se o roteiro (claramente) escrito a quatro mãos se preocupa com o impacto do Homem na Natureza, o desdém pela construção narrativa e os recursos desonestos soterram a mensagem.

Todos os animais da trama estão sofrendo, seja por um vazamento de óleo no mar, pela falta de água causada por uma represa, pelo aquecimento global ou pelos hábitos alimentares das pessoas. Já e bastante coisa para um filme de uma hora e meia. Os personagens também não dão trégua: na savana sem água, temos uma família de suricatos, um leão, uma girafa, uma elefanta, um búfalo e um rinoceronte. Vindos de outros lugares, um casal de tartarugas, uma ursa polar, um coala, um canguru, um diabo-da-Tasmânia, um galo e um chimpanzé.

Há também humanos, mas poucos têm voz ou sequer importância. São desprezíveis. Suas naturezas são cristalinas, indo da frieza absoluta em relação aos animais, aspecto bem impersonado pelo caçador, até alguma sensibilidade ambiental. Este caso, porém, é único: a filha do magnata ignorante que construiu um luxuoso hotel “eco-sustentável”. Afinal, como ela bem aponta, a construção represou o rio que fornecia água para a savana.

Como se a vilanização não fosse o bastante, ainda há estereótipos de sobra. Não basta apontar o dedo e esfregar na cara. Precisa ofender. No estilo desconjuntado que infecta cada aspecto da animação, um homem obeso, em meio a um ataque de insetos, tem toda as suas roupas devoradas, mas vê que seu hambúrguer está inteiro e dá uma dentada alegre. Porque é um ser humano, é mesquinho e carnívoro, e porque é gordo, só se preocupa em comer.

Os mecanismos por vezes saem do exagero e entram no mais puro nonsense ideológico, como quando um chef se prepara sadicamente para matar o galo. Não funciona para o público adulto, que enxerga que os elementos da “discussão” ambiental não raro ultrapassam a barreira do ridículo. Como alegoria, aí sim poderia  haver alguma validade no discurso histérico da obra. Por outro lado, e explicando a inadequação ao público infantil, a confusão é completa.

Tradicional que é, a narrativa tem início com a apresentação dos personagens em incontáveis núcleos. Todos são jogados, aos trambolhões, para um grupo único, mas não sem antes causar considerável caos com encontros intermediários. Quando o roteiro consegue, a duras penas, unificar a trupe, são mais de dez animais para acompanhar – e, claro, eles se separam, chegam a lugares, alguns voltam, enquanto outros continuam lá, etc.

A proposta alegórica acaba esmigalhada, tamanha a incapacidade de concisão dos roteiristas. Ao invés de dizer muito com pouco, preferem o gastar pouco tempo e esforço em mensagens demais e na literalidade (o vazamento de óleo, a represa, a caça), que puxam a trama de volta para uma narratividade que já era, de início, uma catástrofe. O único destino possível é o nonsense, bem demonstrado na cena final, mas tão pesado que destrói a seriedade de qualquer libelo ambientalista.

Restando a parte técnica da animação e do 3D, cabem elogios à competência da equipe. Porém, como tudo aqui, é um esforço tão genuíno quanto fracassado, já que o desastre se infiltra por vários outras vias. O desespero do filme em bater a cabeça de frente com suas questões é proporcional à incapacidadede de ver os cupins que esfarelam sua estrutura.

Em um mundo melhor

março 11, 2011

por Pedro Costa de Biasi

Em termos de conteúdo, Em um Mundo Melhor – estreia hoje – tem todo o jeito de um filme de mensagem, no pejorativo. Entretanto, o vencedor do Oscar 2011 de melhor filme estrangeiro se mune de incertezas e omissões para tratar do impacto da violência na vida de seus personagens.

É um tema bastante conhecido de Anton (Mikael Persbrandt), que trabalha como médico em um campo de refugiados no Sudão. Na Dinamarca, seu filho Elias (Markus Rygaard) sofre com valentões na escola, até conhecer Christian (William Jønhk Nielsen), que o defende violentamente. Talvez até demais. Ainda perturbado pela morte da mãe, o garoto começa a preocupar seu pai (Ulrich Thomsen), a escola e até mesmo Elias com sua índole destrutiva.

Através de Anton, um tom professoral predomina no roteiro da diretora Susanne Bier e de Anders Thomas Jensen. A visão de mundo do homem, passada para as crianças como julga ser a obrigação de um bom pai, cobre boa parte das duas horas de projeção. Diálogo após diálogo e cena após cena, o pacifismo é a palavra de ordem, entoada com a devida calma de um homem certo de si e de como lidar com o mundo.

Em outras palavras, o moralismo comprime o escopo da narrativa para valorizar a lição antiviolência. Jensen e Bier se enveredam por personagens mais relevantes que Lars (Kim Bodnia), o valentão que arranja uma rusga com Anton, como Big Man e seus homens, que cometem inúmeras atrocidades contra civis no Sudão. Esse tom de seriedade dá o estofo necessário para um questionamento.

Por um lado, não se pode reconhecer um movimento de oposição ao libelo pacifista, pois ocorre de forma frágil. As forças e mecanismos que trabalham no vetor oposto estão em clara desvantagem. Dos três conflitos principais (o bullying que Elias sofre na escola, a briga com Lars e o terror de Big Man), apenas o primeiro derruba ativa, porém furtivamente o argumento do médico.

Por outro lado, entre tantas certezas declaradas, não era esperado que a diretora permitisse incertezas, nem mesmo em uma cena passageira. Algo similar ocorre com os outros dois conflitos, de forma ainda mais sutil. A conclusão de um deles é deixada ambígua pela tomada final, estranhamente positiva (aparente desleixo), enquanto o outro é deixado totalmente em aberto por encerrar um evento crucial da trama.

Se em momento algum vemos a problematização clara dos princípios de Anton e, por conseguinte, do filme, as omissões e fugidias negações latentes desestabilizam bastante o moralismo – quando, por exemplo, Christian é visto cumprimentando o garoto com quem brigou. As implicações dúbias do ato violento, por sua vez, já surgem relativizadas, evitando a inversão da mensagem para a revalidação da violência.

É uma hesitação perceptível, embora pouco destacada. Se o questionamento se apresenta assim para se contrapor às lições entoadas por Anton ou por timidez de reforçar a dúvida, é mais difícil afirmar. Partindo-se da bela interpretação de Persbrandt, em cujo rosto a placidez da experiência positiva e o da vivência negativa convivem, a primeira opção faz um pouco mais de sentido.

A verdade é que, como uma cartilha moralista com boas atuações, fotografia bonita e trilha sonora melodiosa, Em um Mundo Melhor funciona. Já para uma visão mais cínica, vale a pena atentar aos detalhes. Sem eles, seria fácil criticar uma obra que oferece mais do que discursos eloquentes.