Incêndios

fevereiro 24, 2011

por Pedro Costa de Biasi

À primeira vista, quase tudo funciona a favor de Incêndios, produção canadense indicada ao prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar 2011. Embora cheio de momentos chocantes, o filme escrito e dirigido por Denis Villeneuve não cai no erro de idealizar o grotesco, como o recente Biutiful. Aqui, a dor dos personagens é mais orgânica, até mesmo por conta da premissa.

Há um clima detetivesco na trajetória dos gêmeos Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon Marwan (Maxim Gaudette). Logo após o falecimento de sua mãe Nawal (Lubna Azabal), eles recebem pelo testamento a missão de encontrar o pai, que nunca conheceram, e um irmão, que nunca souberam que existia, para entregar uma carta a cada um. Jeanne parte para o Oriente Médio, onde Nawal cresceu, para descobrir pistas que ajudem a encontrar os parentes perdidos.

Apesar de revelações cada vez mais escabrosas, o ranço do sadismo não contamina a obra. A investigação da filha vai cada vez mais fundo no passado de Nawal, sendo que um dos personagens avisa que às vezes não é bom saber sobre tudo. Muito melhor acompanhar uma trama que versa sobre a tragédia de saber demais do que as incontáveis outras que alimentam impulsos sádicos como se uma trama “pesada” fosse um atestado de qualidade.

Embora o filme rejeite essa visão superficial da miséria humana, existe um problema exatamente na abordagem do plot. Na transição do escrito para o físico, Villeneuve se mantém estranhamente mecânico. Pode-se dizer que é uma direção singela, mas é tão singela que esbarra na autoindulgência. Apenas assim é possível explicar por que todos os esforços da misé-en-scene são direcionados para a reiteração e potencialização daquilo que o roteiro apresentou.

Avesso a arroubos estilísticos, o diretor usa a cena como se fosse uma má narração em off, como se pode ver no encontro de Jeanne com os moradores da vila de Nawal: pouco mudaria se, em vez de uma direção de atores que valoriza a apreensão, uma voz explicasse o clima da recepção. São ambas ferramentas postas a serviço do que o roteiro pretende, um anúncio banal de algo que será verbalmente explicitado em questão de segundos.

Em momentos climáticos, a placidez serve para estender o pós-choque e pontuar o teor da revelação. Não é muito diferente de usar música para fins didáticos (o que Villeneuve de fato faz), e deixa a mesma sensação de sufocamento da imagem. No filme, muito pouco existe fora do desejo de valorizar o próprio roteiro; toda virada carrega algum sutil recurso cênico para reafirmá-la e quase nada é utilizado para fins diversos – excetuando-se, talvez, as digressões com lindas canções da banda Radiohead.

Este é um ótimo exemplo de cinema escrito, de paixão pelas palavras e narrativas de papel (aí inclui-se a jornalística) em detrimento das operações audiovisuais. Por mais frustrante que isto seja, a produção tem integridade técnica e até mesmo ideológica. Relativizar a busca pelo ideal da verdade é um louvável questionamento do próprio conteúdo, evitando a gratuidade. A indefinição do país de Nawal também é um caso precioso, já que o contexto estrangeiro não está lá para apreender a realidade globalizada que tantos cineastas, bons ou ruins (Iñárritu, Kawase, Assayas), usaram de forma irregular. Uma bela influência de Claire Denis.

Um dos cartazes de Incêndios diz muito pela ausência: um quadro branco cortado pelas letras escuras dos créditos, e imagens indistinguíveis capturadas dentro do título original. Um filme chapa-branca, propaganda e escravo de seu próprio texto. Resta o esqueleto literário, que tem valor narrativo e invejável fibra ideológica.

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3 Respostas to “Incêndios”

  1. katharina said

    i love love this film. how can one better express the stupidity and waste of century old hate of fanatics of religious ideologies. Bravo it says it all – somebody has to stop the chain of hate.
    Not easy to watch but the truth is never easy to swallow.

  2. adele h. júdice said

    Que texto mais rocambolesco sr crítico !

  3. Edison said

    Comecei a assistir o filme ontem na tv a cabo, sem ter a mínima idéia de que filme se tratava. Tive uma das maiores experiências da minha vida. Meu Deus!! Pai, irmão, mãe, filho, filha….papéis biológicos tão definidos e tão delimitados, repentinamente e violentamente descaracterizados. Não acredito que alguem teve uma idéia tão genial para uma história tão brutal, tão violenta, tão surpreendentemente crua e seca…que dói demais!! Final inacreditável, muito duro, imagina se que não há mais esperança no mundo e que os protagonistas estavam anestesiados e terão de fazer terapia pelo resto da vida!! Qdo a irmã descobre o enigma, com uma verdadeira e adequada expressão de horror total, quase que tenho um ataque cardíaco e demorei alguns minutos para entender a terrível expressão que ela teve. Qdo descobri, fiquei totalmente atordoado, horrorizado, angustiado, quase deprimido, fiquei sem expressão facial ao mesmo tempo que chorava muito…….Apesar da crueza sem fim, e aparente falta absoluta de esperança em tanta violência, achei o filme simplesmente brilhante, sensacional!! Acho que nunca fiquei tão chocado em minha vida. Bem, há uma gota de esperança e otimismo na belíssima carta de mãe no finalzinho do filme, dá um pequeno alento com lágrimas de quem deve ter chorado muito!! Simplesmente adorei tudo isso, foi demais!!

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