Desconhecido

fevereiro 22, 2011

por Pedro Costa de Biasi

Uma dúvida: os realizadores de filmes de ação se esforçam mais para dar um diferencial a uma produção ou para torná-la perfeitamente reconhecível? Levando Desconhecido em conta, parece que a maior preocupação é mesmo manter a trama ordinária.

O ponto de partida já é derivativo, mas tem suas particularidades: o Dr. Martin Harris (Liam Neeson) viaja para Berlim com sua mulher Liz (January Jones) para uma conferência sobre biotecnologia. Indo para o hotel, porém, ele sente falta de sua pasta e tem de pegar um táxi de volta para o aeroporto. No caminho, sofre um acidente e é resgatado pela taxista, Gina (Diane Krueger), que desaparece em seguida. Ao voltar para a esposa, ela diz que não o conhece, e que está acompanhada do verdadeiro Martin Harris. O protagonista, então, tenta descobrir a verdade sobre sua própria identidade.

Um detalhe essencial é que Martin bate a cabeça no carro, podendo ser vítima de perda ou confusão de memórias. Para quem pensou no efeito Tom & Jerry, em que a segunda pancada na cabeça resolve o problema que a primeira causou, infelizmente ele não acontece – o filme não é honesto para tal –, mas algo bem próximo se dá no clímax. O que diz muito sobre o senso de ridículo do filme.

Nem todos precisam ser tão autoconscientes quanto o hilário Esquadrão Classe-A. Uma dose de inocência, se bem manuseada, teria lugar – afinal, não seria Os Mercenários uma utopia metalinguística tornada realidade em grande estilo? Porém, o diretor Jaume Collet-Serra e os roteiristas Oliver Butcher e Stephen Cornwell não têm a completa percepção dessa ingenuidade, preferindo tornar o filme sério – um tiro no pé bastante comum.

Logo, o resultado é um arremedo muito mal ajambrado de fitas de ação cujo título eu nem devo revelar, sob o risco de soltar um spoiler. É verdade, Collet-Serra encontra ótimas deixas no roteiro, como na perseguição automobilística, cheia de tomadas que apontam a habilidade incrível que o motorista precisaria ter. Da mesma forma, a montagem encontra duas gags interessantes quando os Martin Harris se confrontam, embora apenas a segunda seja realmente intencional.

Naturalmente, estas são apenas frestas que o diretor usa para encontrar alguma consciência, pois a consistência já está perdida. O que predomina é o reaproveitamento maciço de outras tramas e subtextos. É aterrador como uma premissa já comum consegue dar uns passos fora do esquema, para depois mergulhar de cabeça na fórmula mais fácil do gênero. A agenda ética segue a mesma dinâmica: é só notar o que ocorre aos que corrompem a instituição da família, ou, ora, não dormir no clímax moralista.

As estratégias narrativas são, da mesma forma, tão canhestras quanto repetitivas, com o uso de diálogos cifrados para ocultar revelações que serão feitas poucos minutos adiante. É o desespero pela atenção, resultado de um roteiro fatalmente desinteressante por conta de sua seriedade burocrática. O tédio só não é tanto porque Bruno Ganz é sempre uma ótima presença em cena e Neeson tem uma das vozes mais charmosas de se ouvir em uma sala de multiplex. Aliás, seus únicos bons momentos no filme envolvem uma fragilidade que contrasta com o timbre tão grave.

Claro, nada pode sair do esperado por muito tempo. O cartaz diz que vamos assistir a um filme com um homenzarrão intenso de um metro e noventa segurando uma arma. Oferecer qualquer coisa mais interessante seria desonesto.

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