O Besouro Verde

fevereiro 13, 2011

por Pedro Costa de Biasi

A intenção de O Besouro Verde, que estreia nessa sexta-feira dia 14, era ser desagradável. Nos bons momentos, vemos uma paródia interessante sobre o filão dos super-heróis no Cinema. Os erros não ocorrem quando o material soa familiar ou comum demais, mas sim quando a postura ácida sai do controle.

Em algum grau, descontrole poderia fazer sentido, já que acompanhamos Britt Reid (Seth Rogen) gastando em festas e bebedeira a fortuna acumulada com o império midiático da família. Assim que morre James (Tom Wilkinson), que nunca foi um pai muito carinhoso, Britt conhece Kato (Jay Chou), que trabalhava para o Sr. Reid. É quando ele decide mudar de vida e combater o crime com o colega chinês, expertem artes marciais, criando a identidade do Besouro Verde.

Para variar um pouco, o personagem foi criado originalmente para o rádio em 1936 por James Jewell, e só a partir da década de 40 foi transposto para os quadrinhos. Seguindo a fórmula de Bruce Wayne e Tony Stark, Britt Reid não tem superpoderes, mas utiliza seus intermináveis recursos e a competência (alheia) para criar bugigangas high-tech (ou, melhor dizendo, retrô-tech). Quem provém o herói de armas para combater os bandidos é o multi-talentos Kato.

Boa parte do desconforto parte do enfoque da narrativa. Enquanto o Besouro dá aulas de imaturidade dentro e fora do disfarce, o ajudante tem uma enorme gama de habilidades. O fato de o herói ser interpretado pelo efusivo Rogen e o colega sem nome pelo retraído Chou demonstra que os roteiristas (Rogen e Evan Goldberg) e o diretor (Michel Gondry) pretendiam deixar o elo mais interessante da dupla em papel secundário.

A presença de um público intranarrativo – os leitores do jornal Sentinela Diário– dá estofo singular para um estudo sobre os espectadores deste e de outros filmes sobre vigilantes do Bem. Enquanto Britt decide dar destaque ao Besouro Verde no noticiário à força, Gondry, Goldberg e Rogen fazem o mesmo ao relegar a mente e o músculo da dupla, Kato, a um papel depreciativo, até mesmo humilhante.

E, verdade seja dita, Reid é insuportável. Sua necessidade de enquadrar o parceiro apenas no que ele tem de cool é de uma insensibilidade grotesca, especialmente porque Chou esbanja simpatia e charme. Uma ironia aguda que pode passar despercebida, ainda mais com o sotaque pesado do ator que pode (mas não deveria) incomodar. Por outro lado, nas tentativas de esclarecer o tom paródico, certo desgaste já fica visível.

A “renovação” (sim, reboot) de Chudnofsky (Cristoph Waltz) até carrega um comentário digno, elevado, porém, a um grau de ridículo que destoa de outros aspectos mais bem construídos. É por isso que a trilha sonora, a menção aos uniformes apertados, a cena de abertura e a estilização das sequências de luta parecem, berrantes que são, mais um desserviço do que um reforço à proposta.

Para completar, muito do que o filme tem de divertido, como as (poucas) boas cenas de ação e mortes irresistivelmente dementes, é esmagado pela montagem apressada – que tira o sentido do já inútil 3D – e pela barulheira predominante. O problema é que a galhofa, nesse caso, respinga em todo o Cinema de ação, dando a impressão de que, para os realizadores, mais importava romper com tudo que Hollywood representa do que se ater às especificidades do subgênero.

Nesse aspecto podem ser enquadrados momentos aleatórios, como a tentativa de beijo, a primeira ronda noturna, o surto de Britts por causa de seu café, entre outros. É quando o filme está mais centrado que ele se justifica melhor. Basta se lembrar de que os heróis, quase sempre se apresentam falhos e dignos ao mesmo tempo, já que são tudo o que a Humanidade tem contra o Mal.

Em O Besouro Verde, existe uma alternativa para o Besouro Verde, representada por Kato, superior ao parceiro em todos os aspectos, mas refém de seus caprichos. Nada como um herói intragável e incompetente para questionar sua própria posição.

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