Santuário

fevereiro 2, 2011

por Pedro Costa de Biasi

Em Papua-Nova Guiné, no distrito de Esa’Ala, um imenso complexo de cavernas desce quilômetros Terra adentro no que é tido como o último lugar intocado pelo Homem. O experiente explorador Frank (Richard Roxburgh) já fez muitos avanços com seu time, e só precisa alcançar o acesso ao mar para completar o trajeto.

A ele se juntam seu filho alpinista Josh (Rhys Wakefield), seu financiador, Carl (Ioan Gruffud) e a namorada deste, Victoria (Alice Parkinson). Quando uma tempestade atinge a região e bloqueia a saída superior, os aventureiros têm de descer cada vez mais para escapar da morte certa.

Essa é a história de Santuário, que estreia nessa sexta-feira, dia 4. É um caso real vivido por Andrew Wight, produtor de alguns dos projetos de James Cameron – que, por sua vez, produz esse filme. Existem algumas semelhanças óbvias com Incontrolável, ainda em cartaz em São Paulo, mas uma diferença crucial se encontra na progressão da trama. Enquanto a do trem se move com linearidade e certa fluidez, a das cavernas exagera nas interrupções.

Claro que pausas são quase uma obrigação nos filmes de ação e aventura, mas não da forma como se vê aqui. O que o filme perde é o crescendo de tensão que uma verdadeira fuga demanda. Pontos mortos como no bolsão de ar recém-descoberto – cujo nível de água aparentemente não subiu desde o início da tempestade – dão importância sincera às perdas, mas desvalorizam a corrida contra o tempo. Talvez esses fatos façam sentido em uma situação realista, mas diluem irreversivelmente uma narrativa cinematográfica.

E, afinal, o roteiro de John Garvin e Wight está atento à dramaturgia, apostando nos conflitos típicos vistos em situações-limite no Cinema. Esses soluços têm suas qualidades, já que cada pico de tensão alcança níveis angustiantes mesmo isolado dos outros e de um contexto geral. Porém, o descaso com a construção da situação (ou o receio de tornar o filme tenso demais em longo prazo) faz falta. Ainda mais porque inconsistências muito comuns são evitadas aqui.

É fácil perceber a falha no tom em Frank, homem frio e, por isso mesmo, consciente dos desastres que a emoção pode gerar. Que os bons diálogos o afastem da antipatia é uma surpresa e uma confirmação de que um clima mais tenso seria mais adequado à narrativa. Roxburgh também colabora, acertando na caracterização rígida do personagem. Wakefield é emotivo o bastante para convencer em seu papel e coadjuvantes como Allison Cratchley, como Judes e Dan Wyllie no papel de George evitam que o péssimo Gruffud chame atenção demais.

Embora também se sujeite ao vai-e-vém da narrativa, o 3D cumpre ocasionalmente seu papel de instaurar claustrofobia (inclusive nas máscaras de mergulho, que comprimem o rosto dos exploradores) e vertigem, ajudando também a trabalhar a profundidade do campo com outros atores. Durante a calmaria, a relação paterna ganha atenção, particularmente uma bonita cena em que Frank ensina uma passagem literária a Josh enquanto escalam uma fenda.

Uma pena que a tensão e a afeição normalmente existam separadas, salvo nesse instante. O diretor Alister Grierson também não ajuda, utilizando-se exageradamente de recursos sofríveis como fade-outs e câmeras lentas. Santuário poderia juntar suas boas peças, mas se contenta em ser um desconjuntado filme de momentos.

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Uma resposta to “Santuário”

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Pedro De Biasi, Janaina Pereira. Janaina Pereira said: Santuário, por Pedro Costa de Biasi, o @rahru https://cinemmarte.wordpress.com/2011/02/02/santuario/ […]

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