Bruna Surfistinha

fevereiro 25, 2011

por Paloma Ornelas

A vida é uma gangorra. Uma hora se está por cima, na outra não. Assim foi a vida de Bruna Surfistinha. A história já é conhecida. Raquel Pacheco era uma adolescente comum adotada por uma família rica, mal compreendida por eles e sofria bullying no colégio. Em meio a essa conturbada realidade resolveu sair de casa e cair literalmente na vida. Sob a ótica de uma garota de programa sem meias palavras ou meias ações surge Bruna Surfistinha. Diferente de outras tantas histórias sobre prostituição Bruna não entrou nessa vida por necessidade, ela mergulhou no universo do sexo para se descobrir e saber quem era.

Além das escolhas que a garota fez e as transformações que acarretaram em sua vida, a grande questão apresentada pelo roteiro – o filme estreia hoje em grande circuito – é o modo como Bruna resolve se ‘conhecer’ melhor.  Era realmente necessário chegar ao fundo do poço por vias de álcool e drogas para se descobrir? Não seria mais fácil procurar um terapeuta? Essas são questões que somente a própria Surfistinha pode responder, o que fica claro é uma certa lição de auto ajuda que não chega a prejudicar o filme no todo, mas dá a narrativa um tom meio piegas no final das contas que destoa da personalidade de sua protagonista.

Bruna foi somente Bruna Surfistinha por ter o diferencial das outras garotas de programa e não excluir clientes, ter um blog bombado, saber se vender como ninguém, não se arrepender da atividade que abraçou e virar uma celebridade da internet como muitas vezes sua real pessoa criadora afirmou. Bruna é o alter ego de Raquel, é o contrário do que ela era. Na realidade Raquel não se descobre, ela dá vida a uma espécie de ser imbatível, inabalável, desejado, popular características opostas a sua verdadeira pessoa. Ela faz uma viagem ao submundo do sexo e das drogas para no fim achar a mesma garota que foi um dia. Mas, isso só foi possível pelos altos e baixos por quais ela passou, porque a vida é uma gangorra.

O longa é feito para Deborah Secco brilhar e é justamente isso o que acontece. Na televisão Deborah em seus personagens mais sensuais não conseguiu mostrar seu potencial de atuação da mesma maneira como acontece nesse trabalho. Competente logo nas primeiras cenas acompanhamos a transição da menina ingênua para a garota de programa descolada naturalmente. Misto de despudorada, erótica, cínica, engraçada, vulgar a atriz imprime ritmo do começo ao fim do filme captando as nuances da personagem de modo impecável.

Agradeça a Deborah, Bruna Surfistinha, por tornar sua personagem mais humana, menos robótica, menos máquina. Agradeça por defender o papel de forma tão competente e demonstrar na telona o que é trabalhar com prazer.

Incêndios

fevereiro 24, 2011

por Pedro Costa de Biasi

À primeira vista, quase tudo funciona a favor de Incêndios, produção canadense indicada ao prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar 2011. Embora cheio de momentos chocantes, o filme escrito e dirigido por Denis Villeneuve não cai no erro de idealizar o grotesco, como o recente Biutiful. Aqui, a dor dos personagens é mais orgânica, até mesmo por conta da premissa.

Há um clima detetivesco na trajetória dos gêmeos Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon Marwan (Maxim Gaudette). Logo após o falecimento de sua mãe Nawal (Lubna Azabal), eles recebem pelo testamento a missão de encontrar o pai, que nunca conheceram, e um irmão, que nunca souberam que existia, para entregar uma carta a cada um. Jeanne parte para o Oriente Médio, onde Nawal cresceu, para descobrir pistas que ajudem a encontrar os parentes perdidos.

Apesar de revelações cada vez mais escabrosas, o ranço do sadismo não contamina a obra. A investigação da filha vai cada vez mais fundo no passado de Nawal, sendo que um dos personagens avisa que às vezes não é bom saber sobre tudo. Muito melhor acompanhar uma trama que versa sobre a tragédia de saber demais do que as incontáveis outras que alimentam impulsos sádicos como se uma trama “pesada” fosse um atestado de qualidade.

Embora o filme rejeite essa visão superficial da miséria humana, existe um problema exatamente na abordagem do plot. Na transição do escrito para o físico, Villeneuve se mantém estranhamente mecânico. Pode-se dizer que é uma direção singela, mas é tão singela que esbarra na autoindulgência. Apenas assim é possível explicar por que todos os esforços da misé-en-scene são direcionados para a reiteração e potencialização daquilo que o roteiro apresentou.

Avesso a arroubos estilísticos, o diretor usa a cena como se fosse uma má narração em off, como se pode ver no encontro de Jeanne com os moradores da vila de Nawal: pouco mudaria se, em vez de uma direção de atores que valoriza a apreensão, uma voz explicasse o clima da recepção. São ambas ferramentas postas a serviço do que o roteiro pretende, um anúncio banal de algo que será verbalmente explicitado em questão de segundos.

Em momentos climáticos, a placidez serve para estender o pós-choque e pontuar o teor da revelação. Não é muito diferente de usar música para fins didáticos (o que Villeneuve de fato faz), e deixa a mesma sensação de sufocamento da imagem. No filme, muito pouco existe fora do desejo de valorizar o próprio roteiro; toda virada carrega algum sutil recurso cênico para reafirmá-la e quase nada é utilizado para fins diversos – excetuando-se, talvez, as digressões com lindas canções da banda Radiohead.

Este é um ótimo exemplo de cinema escrito, de paixão pelas palavras e narrativas de papel (aí inclui-se a jornalística) em detrimento das operações audiovisuais. Por mais frustrante que isto seja, a produção tem integridade técnica e até mesmo ideológica. Relativizar a busca pelo ideal da verdade é um louvável questionamento do próprio conteúdo, evitando a gratuidade. A indefinição do país de Nawal também é um caso precioso, já que o contexto estrangeiro não está lá para apreender a realidade globalizada que tantos cineastas, bons ou ruins (Iñárritu, Kawase, Assayas), usaram de forma irregular. Uma bela influência de Claire Denis.

Um dos cartazes de Incêndios diz muito pela ausência: um quadro branco cortado pelas letras escuras dos créditos, e imagens indistinguíveis capturadas dentro do título original. Um filme chapa-branca, propaganda e escravo de seu próprio texto. Resta o esqueleto literário, que tem valor narrativo e invejável fibra ideológica.

Justin Bieber: Never Say Never

fevereiro 23, 2011

Por Pedro Costa de Biasi

O diretor Jon Chu sabe sobre o que está falando em Justin Bieber: Never Say Never. Sua abordagem para o fenômeno pop, não apenas o particular, dá sinais de conhecimento considerável sobre o funcionamento dessa indústria. O filme é tendencioso para muitos aspectos do astro mirim, mas pouco fala sobre as próprias canções. É um documentário apreciável com ou sem conversão ao Bieberismo.

A bem da verdade, esse talvez seja o máximo de incerteza que um produto propagandístico sobre uma estrela de sucesso estrondoso poderia carregar. Um dos entrevistados menciona uma comparação com Michael Jackson e sua infância perdida, quando diz que Bieber não quer que o mesmo lhe aconteça. Surpreendentemente, não há uma resposta acalentadora: o assunto muda abruptamente, como um “sem comentários”.

Não são poucas as passagens que aprofundam essa dúvida, uma vez que o filme é bastante detalhado sobre a faceta familiar do astro. Isto significa ter um cameramen atrás dele em diversos momentos e lugares, acompanhando-o no reencontro com os avós e nos passeios com amigos de infância. Ele pode manter suas relações, mas elas não escapam do registro sistemático feito para alimentar os fãs.

Outro detalhe curioso foi adicionado pelo editor  Jay Cassidy. Para os que não conhecem a carreira do cantor (como eu) e não sabem se a apresentação no Madison Square Garden deu certo, a montagem encontra uma saída interessante. Os números musicais estão espalhados pelo documentário, não deixando dúvida sobre se Bieber correspondeu às cobranças de tamanho feito. Em outras palavras, é óbvio que tudo deu certo, porque precisa dar certo. Entrar nesse sistema é sujeitar-se a suas engrenagens.

Chu dá bons exemplos para indicar que o garoto é um dos representantes mais significativos de seu nicho. Segundo as fontes, esse ápice meteórico, com a adição específica do show no Garden, estava entre seus planos para a carreira. Que ele de fato alcance a façanha é menos continuação da pieguice “não-desista-do-seu-sonho” e mais uma assombrosa – e até assustadora – amostra do poder do mecanismo pop.

Como peça publicitária, o filme não pode se esquivar de erros óbvios. Abordar a paixão doentia que assola muitas fãs era obrigatório, e o resultado fica no arrastado meio-termo entre o carinhoso e o levemente satírico. Mais gritante é a “tradição” de escolher uma menina da plateia para cantar-lhe no palco, que soa como uma mentira consagrada e aparece no filme como uma demonstração de amor do cantor pela(s) fã(s).

No entanto, até nessas breguices existem padrões reconhecíveis. A serenata no meio do show ou o diálogo sofrível para a violinista na frente do cinema têm em comum uma figura, em iguais partes real e ficcional, que compõe o astro Justin Bieber. Embora a segunda cena citada passe a impressão de fingimento, aquele modo de vida demanda muito teatro, dando a entender que muito do que vemos no documentário é uma farsa real. Afinal, o próprio cantor posou para fazer piada de seu cabelo.

Se, por um lado, Justin Bieber: Never Say Never só é interessante por discorrer sobre a indústria pop, ele só é tão interessante quanto a indústria pop permite.

Desconhecido

fevereiro 22, 2011

por Pedro Costa de Biasi

Uma dúvida: os realizadores de filmes de ação se esforçam mais para dar um diferencial a uma produção ou para torná-la perfeitamente reconhecível? Levando Desconhecido em conta, parece que a maior preocupação é mesmo manter a trama ordinária.

O ponto de partida já é derivativo, mas tem suas particularidades: o Dr. Martin Harris (Liam Neeson) viaja para Berlim com sua mulher Liz (January Jones) para uma conferência sobre biotecnologia. Indo para o hotel, porém, ele sente falta de sua pasta e tem de pegar um táxi de volta para o aeroporto. No caminho, sofre um acidente e é resgatado pela taxista, Gina (Diane Krueger), que desaparece em seguida. Ao voltar para a esposa, ela diz que não o conhece, e que está acompanhada do verdadeiro Martin Harris. O protagonista, então, tenta descobrir a verdade sobre sua própria identidade.

Um detalhe essencial é que Martin bate a cabeça no carro, podendo ser vítima de perda ou confusão de memórias. Para quem pensou no efeito Tom & Jerry, em que a segunda pancada na cabeça resolve o problema que a primeira causou, infelizmente ele não acontece – o filme não é honesto para tal –, mas algo bem próximo se dá no clímax. O que diz muito sobre o senso de ridículo do filme.

Nem todos precisam ser tão autoconscientes quanto o hilário Esquadrão Classe-A. Uma dose de inocência, se bem manuseada, teria lugar – afinal, não seria Os Mercenários uma utopia metalinguística tornada realidade em grande estilo? Porém, o diretor Jaume Collet-Serra e os roteiristas Oliver Butcher e Stephen Cornwell não têm a completa percepção dessa ingenuidade, preferindo tornar o filme sério – um tiro no pé bastante comum.

Logo, o resultado é um arremedo muito mal ajambrado de fitas de ação cujo título eu nem devo revelar, sob o risco de soltar um spoiler. É verdade, Collet-Serra encontra ótimas deixas no roteiro, como na perseguição automobilística, cheia de tomadas que apontam a habilidade incrível que o motorista precisaria ter. Da mesma forma, a montagem encontra duas gags interessantes quando os Martin Harris se confrontam, embora apenas a segunda seja realmente intencional.

Naturalmente, estas são apenas frestas que o diretor usa para encontrar alguma consciência, pois a consistência já está perdida. O que predomina é o reaproveitamento maciço de outras tramas e subtextos. É aterrador como uma premissa já comum consegue dar uns passos fora do esquema, para depois mergulhar de cabeça na fórmula mais fácil do gênero. A agenda ética segue a mesma dinâmica: é só notar o que ocorre aos que corrompem a instituição da família, ou, ora, não dormir no clímax moralista.

As estratégias narrativas são, da mesma forma, tão canhestras quanto repetitivas, com o uso de diálogos cifrados para ocultar revelações que serão feitas poucos minutos adiante. É o desespero pela atenção, resultado de um roteiro fatalmente desinteressante por conta de sua seriedade burocrática. O tédio só não é tanto porque Bruno Ganz é sempre uma ótima presença em cena e Neeson tem uma das vozes mais charmosas de se ouvir em uma sala de multiplex. Aliás, seus únicos bons momentos no filme envolvem uma fragilidade que contrasta com o timbre tão grave.

Claro, nada pode sair do esperado por muito tempo. O cartaz diz que vamos assistir a um filme com um homenzarrão intenso de um metro e noventa segurando uma arma. Oferecer qualquer coisa mais interessante seria desonesto.

Poesia

fevereiro 21, 2011

por Janaina Pereira

Se você procura uma história densa e reflexiva, não pode perder este filme. O sul-coreano Lee Chang-Dong e o seu Poesia (Poetry) reforçam a tese de que o cinema asiático é mesmo singular.

O longa ganhou o prêmio de melhor roteiro este ano em Cannes, e foi um dos mais aclamados por lá. No Brasil já foi exibido no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, ano passado, com sucesso. A trama mistura, de forma bastante original, a poesia e o crime de forma impactante. A primeira cena, com um corpo boiando num rio, resume bem o que virá pela frente.

Por duas horas e trinta minutos somos conduzidos ao dia-a-dia de Mija – interpretada pela grande dama do cinema coreano, Yun Jung-Hee – uma senhora que começa a sofrer com os sinais da idade avançada, apresentando problemas de saúde e falta de memória. Criando o neto rebelde, ela vive sempre elegante mesmo tendo pouco dinheiro e levando uma vida extremamente simples. Para ganhar uma grana extra além de sua pensão, Mija trabalha como empregada doméstica, cuidando de um senhor que sofreu um derrame.

Tudo é muito simples, como a maioria dos filmes orientais. O silêncio, a ausência de trilha sonora, os diálogos suscintos, a troca de olhares, as ações comedidas. As cenas vão se sucedendo e nos levam a uma história surpreendente, onde aos poucos descobrimos que os problemas de saúde de Mija são mais sérios do que podemos imaginar; sua relação com o idoso pode ter conseqûências imprevisíveis e seu neto está envolvido em um crime que lhe afetará diretamente.

Entre os percalços da vida, Mija encontra um pouco de (des)conforto em um curso de poesia, que lhe ensina a trabalhar as palavras que sua mente insiste em esquecer, e a observar os detalhes da vida como um bem precioso que precisa ser lembrado.

Embora se repita muitas vezes, Poesia não é cansativo, pelo contrário, é uma pequena obra-prima sobre as fraquezas e franquezas do ser humano. Um trabalho primoroso do diretor Lee Chang-Dong e da atriz Yun Jung-Hee, cúmplices dentro e fora da telona – a personagem Mija foi escrita especialmente para ela. Desde já, um dos melhores filmes do ano. É o cinema oriental dando uma rasteira nos ocidentais e mostrando como o ser humano é igual em qualquer lugar do mundo, e que a poesia é uma questão de percepção da vida.

127 horas

fevereiro 15, 2011

por Janaina Pereira

Se você não sabe nada sobre a trama de 127 horas (127 hours), o novo filme de Danny Boyle (vencedor do Oscar em 2008 por Quem quer ser um milionário?), mas é uma pessoa sensível, fica a dica: leve um saco desses de vômito para a sessão. O filme tem uma cena que pode ser tensa demais para estômagos delicados.

Mas, se você é do tipo que gosta de emoções fortes, vai adorar 127 horas. Eu adorei. Apesar da cena que quase me fez desmaiar no cinema, o filme é muito digno, graças ao seu protagonista que nos dá uma tremenda lição de vida.

O longa narra a história baseada em fatos reais do engenheiro e alpinista Aron Ralston, vivido na telona por James Franco, que luta por sua sobrevivência após uma rocha cair sobre seu braço e aprisioná-lo em um isolado cânion em Utah.

Você vai ler por ai o que acontece com o braço de Ralston. Imaginou? Pois é bem pior do que você imagina. Só que é importante ressaltar que o filme é bem mais do que isso. O roteiro de Simon Beaufoy, baseado no livro escrito por Aron Ralston, condensa em 90 minutos as tais 127 horas de agonia do protagonista. Isso dá à trama fòlego suficiente para fazer o espectador acompanhá-la sem sofrer mais do que o necessário.

Danny Boyle conduz muito bem a narrativa, apoiado em uma boa trilha sonora e na atuação segura de James Franco. O ator passa 97% do filme sozinho em cena, e não perde em nenhum momento o fio da meada. Ele sofre mas mantém a esperança do personagem e, principalmente, convence quando Ralston precisa tomar a decisão entre lutar por sua vida ou simplesmente se deixar morrer.

Acima de tudo e de todos, porém, é a história real de Aron Ralston que faz de 127 horas um grande filme. Um engenheiro, com espírito de aventura, que teria só mais um dia divertido em sua vida, mas precisa suportar o desespero, refletir sobre tudo que deixou para trás, e escolher seguir adiante ou deixar as coisas como estão.

A decisão, cruel, nos faz refletir: o que você faria no lugar dele? A maioria, com certeza, deixaria as horas passarem. Mas, com seu exemplo de vida, Ralston deixa claro que existe uma enorme diferença entre não querer morrer e querer realmente viver.

127 horas recebeu seis indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e ator (Boyle ficou fora dos indicados em direção). Não deve levar nada, mas vale a ida ao cinema. E se você esquecer o saquinho de vômito, depois não diga que eu não avisei.

O Besouro Verde

fevereiro 13, 2011

por Pedro Costa de Biasi

A intenção de O Besouro Verde, que estreia nessa sexta-feira dia 14, era ser desagradável. Nos bons momentos, vemos uma paródia interessante sobre o filão dos super-heróis no Cinema. Os erros não ocorrem quando o material soa familiar ou comum demais, mas sim quando a postura ácida sai do controle.

Em algum grau, descontrole poderia fazer sentido, já que acompanhamos Britt Reid (Seth Rogen) gastando em festas e bebedeira a fortuna acumulada com o império midiático da família. Assim que morre James (Tom Wilkinson), que nunca foi um pai muito carinhoso, Britt conhece Kato (Jay Chou), que trabalhava para o Sr. Reid. É quando ele decide mudar de vida e combater o crime com o colega chinês, expertem artes marciais, criando a identidade do Besouro Verde.

Para variar um pouco, o personagem foi criado originalmente para o rádio em 1936 por James Jewell, e só a partir da década de 40 foi transposto para os quadrinhos. Seguindo a fórmula de Bruce Wayne e Tony Stark, Britt Reid não tem superpoderes, mas utiliza seus intermináveis recursos e a competência (alheia) para criar bugigangas high-tech (ou, melhor dizendo, retrô-tech). Quem provém o herói de armas para combater os bandidos é o multi-talentos Kato.

Boa parte do desconforto parte do enfoque da narrativa. Enquanto o Besouro dá aulas de imaturidade dentro e fora do disfarce, o ajudante tem uma enorme gama de habilidades. O fato de o herói ser interpretado pelo efusivo Rogen e o colega sem nome pelo retraído Chou demonstra que os roteiristas (Rogen e Evan Goldberg) e o diretor (Michel Gondry) pretendiam deixar o elo mais interessante da dupla em papel secundário.

A presença de um público intranarrativo – os leitores do jornal Sentinela Diário– dá estofo singular para um estudo sobre os espectadores deste e de outros filmes sobre vigilantes do Bem. Enquanto Britt decide dar destaque ao Besouro Verde no noticiário à força, Gondry, Goldberg e Rogen fazem o mesmo ao relegar a mente e o músculo da dupla, Kato, a um papel depreciativo, até mesmo humilhante.

E, verdade seja dita, Reid é insuportável. Sua necessidade de enquadrar o parceiro apenas no que ele tem de cool é de uma insensibilidade grotesca, especialmente porque Chou esbanja simpatia e charme. Uma ironia aguda que pode passar despercebida, ainda mais com o sotaque pesado do ator que pode (mas não deveria) incomodar. Por outro lado, nas tentativas de esclarecer o tom paródico, certo desgaste já fica visível.

A “renovação” (sim, reboot) de Chudnofsky (Cristoph Waltz) até carrega um comentário digno, elevado, porém, a um grau de ridículo que destoa de outros aspectos mais bem construídos. É por isso que a trilha sonora, a menção aos uniformes apertados, a cena de abertura e a estilização das sequências de luta parecem, berrantes que são, mais um desserviço do que um reforço à proposta.

Para completar, muito do que o filme tem de divertido, como as (poucas) boas cenas de ação e mortes irresistivelmente dementes, é esmagado pela montagem apressada – que tira o sentido do já inútil 3D – e pela barulheira predominante. O problema é que a galhofa, nesse caso, respinga em todo o Cinema de ação, dando a impressão de que, para os realizadores, mais importava romper com tudo que Hollywood representa do que se ater às especificidades do subgênero.

Nesse aspecto podem ser enquadrados momentos aleatórios, como a tentativa de beijo, a primeira ronda noturna, o surto de Britts por causa de seu café, entre outros. É quando o filme está mais centrado que ele se justifica melhor. Basta se lembrar de que os heróis, quase sempre se apresentam falhos e dignos ao mesmo tempo, já que são tudo o que a Humanidade tem contra o Mal.

Em O Besouro Verde, existe uma alternativa para o Besouro Verde, representada por Kato, superior ao parceiro em todos os aspectos, mas refém de seus caprichos. Nada como um herói intragável e incompetente para questionar sua própria posição.

Bravura Indômita

fevereiro 10, 2011

 

por Janaina Pereira

Sou fã incondicional dos irmãos Coen. Mesmo não sendo apreciadora do gênero western, vi com bons olhos a adaptação deles para o clássico Bravura Indômita (True Grit), simplesmente o filme que deu ao maior cowboy de Hollywood, John Wayne, seu único Oscar.

Por muitos anos os Coen foram subestimados no Oscar mas em 2008, com Onde os Fracos Não Têm Vez, eles finalmente arrebataram o cobiçado prêmio. Este ano, com o remake de Bravura Indômita, alcançaram dez indicações, incluindo de melhor diretor, tirando do páreo Christopher Nolan, de A Origem.

 A trama acompanha a menina Mattie Ross indo buscar o corpo do pai, morto e roubado por um bêbado, Tom Chaney, em Fort Smith, no Arkansas. O ano é 1878 e Chaney fugiu para o território indígena, onde se juntou ao bando de criminosos liderado por Ned Pepper.

A polícia nada pode fazer e Mattie, sedenta por vingança, resolve contratar o melhor e mais cruel xerife da área: Rooster Cogburn. Juntos, Mattie e Cogburn partem em uma caçada à Chaney. Contam com a ajuda, nem sempre benvinda, do Texas Ranger LaBoeuf, que também quer a cabeça de Tom Chaney.

É bom ressaltar que, mais do que um remake do filme de 1969, o novo longa de Joel e Ethan Coen é, na verdade, uma nova adaptação do romance homônino de Charles Portis. No original, Wayne interpretou o matador Cogburn – papel agora do homem maduro da vez, Jeff Bridges – enquanto Glen Campbell ficou com o papel de LaBoeuf (dessa vez vivido por Matt Damon) e Kim Darby, uma mulher de 21 anos, casada e mãe, foi Mattie Ross, a pré-adolescente de 14 anos que conduz a trama. E é ai que o filme dos Coen ganhou e muito em relação ao original.

Coube a estreante Hailee Steinfeld interpretar Mattie Ross, e a menina faz com tamanha desenvoltura que chega a assustar. Segura, dona de um rosto expressivo e totalmente à vontade no papel, ela não se intimida ao dividir a cena com Bridges e Damon, proporcionando ao público uma daquelas atuações de encher os olhos. Sua indicação ao Oscar, merecida, é o prenúncio de onde Hailee pode chegar.

E o que dizer da direção dos Coen? Os irmãos conduzem a câmera com maestria, mostrando bastante familiaridade ao western. Também tiram de seus atores o que de melhor eles têm: Jeff Bridges brilha em cena, Matt Damon dá conta do recado e Josh Brolin – como o vilão Tom Chaney – aparece pouco, mas convence. Isso sem contar a já citada atuação primorosa de Hailee Steinfeld.

Embora a trama não chegue a surpreeender, consegue manter o ritmo e o primor técnico, em particular pela excelente fotografia de Roger Deakins, eterno parceiro dos Coen e de quem sou muito fã desde O homem que não estava lá, para mim a obra-prima dos irmãos cineastas.

Bravura Indômita pode não ser a primeira escolha para você assistir no final de semana, especialmente para quem não curte western, mas vale a pena uma olhada carinhosa. É um filme honesto, que prioriza os bons diálogos – muitos deles bem-humorados – e conquista por ser uma obra simples e objetiva. Não tem nada rebuscado, não tem nada de assustador, não tem nada de espetacular, mas são os bons e velhos irmãos Coen mostrando ao mundo que podem fazer qualquer coisa. Porque eles sempre sabem o que fazem, e fazem sempre bem feito.

O Discurso do Rei

fevereiro 8, 2011

 
por Janaina Pereira
 
 
Líder de indicaçõs ao Oscar deste ano – são 12 – O Discurso do Rei (The King´s Speech) , de Tom Hooper, – estreia desta sexta, dia 11 – é um daqueles filmes com a cara da premiação hollywoodiana. O sarcasmo inglês, atores elegantes em ótimas atuações, figurino, direção de arte e fotografia primorosos, roteiro enxuto que deixa a história rolar com facilidade… tudo está lá, do jeitinho que o Oscar gosta.
 
Baseado na história real do rei George VI, O Discurso do Rei narra as dificuldades para falar em público – e para o público – do futuro herdeiro do trono britânico desde quando ele era apenas Bertie (Colin Firth). Simpático, inteligente, bom pai, bom marido, bom filho, Bertie é quase o homem perfeito se não titubiasse na hora de discursar. Seja no rádio, diante da realeza ou do público, ele não consegue falar uma frase inteira sem gaguejar.
 
Sua esposa Elizabeth (Helena Boham-Carter) manda o marido se consultar com um excêntrico terapeuta da fala, Lionel Logue (Geoffrey Rush). Depois de um começo difícil, os dois embarcam em um tratamento pouco ortodoxo mas a situação política da Inglaterra acelera as decisões de Bertie: após a morte de seu pai, o rei George V, e a abdicação escandalosa do Rei Eduardo VIII, Bertie, de repente, é coroado rei George VI.
 
Com o seu país na beira de uma guerra e precisando desesperadamente de um líder, ele precisa mais do que nunca da fala para se impor. E é neste momento que sua relação com Lionel entra num impasse, fundamental para o monarca encontrar a sua voz.
 
De forma simpática, o roteiro – favorito ao Oscar na categoria original – nos torna cúmplices da agonia e dos dilemas enfrentados por Bertie. Para isso, a elogiada atuação de Colin Firth – favorito ao Oscar de ator – se apoia, basicamente, na excepcional performance de Geoffrey Rush. As cenas com os dois atores juntos são as melhores do filme, enquanto Firth, sozinho, não funciona tão bem. Ainda assim o ator, que parece nascido e criado dentro de um impecável terno, tem toda a elegância e carisma necessários para o papel, conseguindo ser correto mesmo quando não é brilhante, e brilhante quando está ao lado de Rush (indicado a melhor ator coadjuvante).
 
E quem está acostumado a ver Helena Boham-Carter nos filmes do marido Tim Burton vai se surpreender. A atriz, indicada na categoria coadjuvante, aparece comedida e delicada como Elizabeth, a futura Rainha Mãe, sendo um contraponto importante para os personagens de Firth e Rush.
 
Ainda que muitos considerem A Rede Social o favorito ao Oscar, O Discurso do Rei abocanhou os prêmios mais importantes da temporada, como o Sindicato dos Produtores e dos Diretores, termômetros para o Oscar. Se não ganhar a estatueta dourada será surpresa: da lista dos dez indicados a filme, este é o que melhor preenche os clichês para vencer. O que não é demérito nenhum para uma produção agradável de ver, e que carrega em suas duas horas de projeção toda a elegância que só os ingleses têm.

Burlesque

fevereiro 6, 2011

Por Janis Lyn

Se você gosta da Christina Aguilera, da Cher ou do gênero musical (ou de tudo isso junto) não pode perder o filme Burlesque, que estreia nesta sexta, dia 11.

Dirigido e roteirizado por Steve Antin, este romance musical traz a cantora Christina Aguilera no papel principal (é sua estreia no cinema) como a jovem e sonhadora Ali, que larga tudo para ir a Hollywood a procura da fama. Em sua caça à emprego, Ali encontra um bar burlesco no comando de Tess (Cher) onde sexys dançarinas fazem coreografias ousadas ao som de grandes divas como Marilyn Monroe, por exemplo. Ali logo se infiltra no bar, no inicio como garçonete, mas sua grande voz a faz ter destaque do dia pra noite e sua busca por fama fica cada vez mais perto de ser conquistada.

A pergunta que não quer calar: Christina Aguilera se saiu bem como atriz? Bom, se fomos comparar com os fracassos das suas companheiras de profissão (Britney Spears em Crossroads e Mariah Carey em Glitter), eu diria que sim. Por mais que na maioria das cenas ela está cantando e dançando (coisas que ela já tirava de letra), por ser principiante ela está bem à vontade com as falas, elenco e tudo em volta. O diretor infelizmente não deu muito espaço para a Aguilera realmente atuar, mas, no que lhe foi proposto, ela tira de letra, sem dúvidas.

É um filme divertido, com excelentes músicas e danças bem elaboradas e executadas. Melhor que muito musical que já vi (Nine é um exemplo recente, inclusive). Ok que o roteiro não é lá essas coisas. É bem “mais do mesmo”, mas o filme foi produzido com essa ideia. O diretor não queria revolucionar a história do cinema ou algo do tipo, e sim fazer um filme agradável, legal e, de quebra, unir duas gerações de divas: Cher e Aguilera. Precisa de mais?

Kristen Bell, Cam Gigandet, Stanley Tucci, Julianne Hough, Eric Dane e Alan Cumming também fazem parte do elenco.